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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Interesses vitais vs ideais democráticos

Para os que elevam o regime democrático como a descoberta do Santo Graal e, portanto, do "Fim da História", os recentes acontecimentos no Egipto (como antes com a Autoridade Palestina ou ainda com a catástrofe da Argélia de 1991, para já não falar dos resultados "incorrectos" de vários referendos no processo de "construção europeia") são perturbadores.Neste texto Patrick J. Buchanan proporciona uma viagem ao devir histórico dos EUA para concluir que não cabe aos EUA a defesa e a promoção universal do "democratismo". Pelo contrário, finda que foi a Guerra Fria (há 20 anos) e não havendo interesse vital dos EUA a preservar, defende caber aos países Árabes a resolução dos seus próprios problemas - no Egipto como na Síria, no Iraque como no Líbano.

No seu texto, Buchanan evoca a "Boa Guerra" de 1941-1945 como exemplo de uma intervenção americana implícita e moralmente justificável fora do seu território. Todavia não escrutina as consequências não-intencionais do voluntarismo wilsoniano, entre as quais, nomeadamente, a ascensão dos comunistas ao poder na Rússia, ou a "ferida aberta" pelo Tratado de Versalhes A tradução do texto é minha.
"Compreensivelmente, a Irmandade Muçulmana está enfurecida.

Depois de ter ganho a presidência do Egipto em eleições livres e justas após o derrube de Hosni Mubarak, o presidente Mohammed Morsi foi deposto por um golpe militar e colocado sob prisão domiciliária.

Os líderes da Irmandade, sem que tenham sido condenados por quaisquer crimes, estão a ser circunscritos em redis.

Eles jogaram pelas regras da América. Agora, com a bênção da América, estão a ser presos pelos amigos da América nas forças armadas egípcias.

Não que esta seja a primeira traição percebida. Quando o Hamas venceu as eleições livres exigidas por George W. Bush, a América recusou-se a reconhecer a sua legitimidade e conspirou para a queda violenta do Hamas em Gaza.

Quando os islamitas ganharam a primeira volta das eleições argelinas em 1991, o regime, com a bênção de Bush I, cancelou a segunda volta, o que levou a uma guerra de guerrilha que custou entre 100 e 200 mil mortos.

Se os muçulmanos passaram entretanto a crer que os americanos pregadores pela democracia não passam de charlatães e hipócritas, não terão eles alguma razão?

A política externa dos EUA pareceu em tempos fazer sentido. Nós púnhamos os interesses vitais à frente da ideologia "democratista". Éramos por aqueles que eram por nós. Nós não gastávamos tempo a inspeccionar as credenciais morais daqueles que ficavam do lado da América. Nós jogávamos com as cartas que nos calhavam em sorte neste mundo.

O general Washington dançou quando soube que Luís XVI, um descendente do Rei Sol, apoiaria a causa da América contra a nossa mãe pátria [o Reino Unido].

Em 1917, Woodrow Wilson conduziu-nos à guerra "para tornar o mundo seguro para a democracia" enquanto potência associada de cinco impérios - o britânico, o francês, o italiano, o russo e o japonês. No fim da guerra, Wilson assinou tratados que levaram à pilhagem das terras e colónias dos três impérios derrotados, em benefício dos impérios vitoriosos.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Citação do dia (118)

"Que é a maioria? A maioria é tolice. O bom senso sempre tem sido de poucos. Convém pesar os votos e não contá-los."
Friedrich von Schiller

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Um bom conselho

é o de Gabriel Silva a propósito da necessidade de preencher as três vagas existentes no Tribunal Constitucional. Pena que, muito provavelmente, não venha a ser seguido.

domingo, 12 de junho de 2011

António Barreto: um candidato presidencial?

É possível. Em qualquer caso, tem toda a razão ao clamar pela revisão do texto constitucional. Esperemos que Seguro também o compreenda.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Evidentemente

«O que deverá então estar reflectido num documento programático de um partido que poderá chefiar o próximo governo é, a meu ver, o modo como o estado devolverá as funções que usurpou à sociedade nas últimas décadas. Para isto não chega «privatizar» (...), embora alienar todo o sector empresarial público seja, mais do que uma necessidade económica, uma obrigação moral: chega de empresas públicas desnecessárias, falidas e geridas por gestores políticos pagos com salários milionários.» - Rui A., no Blasfémias (realce meu).

«É pena que privatizemos na penúria, estamos a preços de liquidação total. Os dedos do Estado vão ficar tão nus que a mão ficará quase invisível. Que use a outra mão para o que deve: regulação, fiscalização, punição dos faltosos. É para isso que o Estado existe, para garantir os direitos dos desprotegidos. Não foi por ter empresas que o conseguiu. Que seja agora. Que venda o corpo para recuperar a alma.» - Pedro Guerreiro, no Jornal de Negócios

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Qual será o próximo?

O Washington Blog, oportunamente, recupera o boneco abaixo do The Economist, de 9 de Fevereiro passado, que pretende representar um índice de agitação social designado por "shoe thrower's index" (atirar um sapato a uma pessoa é o sinal limite de desrespeito por esse alguém no mundo árabe [recorde-se o episódio com George W. Bush]). O índice foi construído conferindo um peso de 35% à parcela da população de idade inferior a 25 anos; 15% para o número de anos que o governo respectivo se mantém em funções; 15% para a corrupção e 15% para a ausência de democracia; 10% para o PIB per capita; 5% par um índice de censura e outros 5% para o número absoluto de jovens de idade inferior a 25 anos. É muito curioso o resultado obtido.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A queda de Mubarak ou de 60 anos de regime

Interroga-se Barry Rubin em nonoEgypt: What is this regime? (Ter também em atenção esta sugestão de leitura).
«One out of about 100 things that amaze me about how this Egypt crisis is being discussed and reported is this: What is the regime people are trying to overthrow?

We constantly hear about the "Mubarak regime" and "thirty years" of dictatorship. But that's not who and what this government is really about.

It is the Nasser-Sadat-Mubarak regime, almost sixty years old. It was established by a military coup in 1952. And here's what is so central about it: This is the act and the government that began the long reign of radical Arab nationalism over the Arab world. Either countries were taken over by this ideology (Egypt, Syria, Iraq) or had to give it lip service and appeasement.

So is this not just the end of Mubarak but the end of the Arab nationalist movement? What ideology is going to replace it? Islamism or democracy? That's the issue. This is an end to an era of Middle Eastern and Arab history, not just the downfall of one man or one regime.»

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Rand Paul no Senado


Extraordinária vitória de Rand Paul na corrida ao Senado no Kentucky (56% contra 44% de Jack Conway) com o apoio entusiástico dos Tea Partiers!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Epifania e descida dos salários


Lembram-se do "Velho do Restelo", do fiscalista feito "Cassandra", do "Pessimista profissional", do "Impenitente ressabiado" e outros epítetos de calibre semelhante com que têm mimoseado Medina Carreira de há 10/15 anos a esta parte?

Não é que seja homem para tal, mas há como que uma justiça divina que finalmente se aplica quando hoje, em pleno edifício da Assembleia da República, faz o seguinte alerta aos deputados da nação: «Estamos a caminhar para uma tragédia do Estado Social, são seis milhões de pessoas que estão penduradas nele. Se os senhores não fizerem nada vão enfrentar um problema social gravíssimo».

Adenda: através de Helena Matos, cheguei aqui (sugestão de Miguel Frasquilho no último congresso do PSD). Vem a propósito.

domingo, 10 de outubro de 2010

Portugal 2011 - Para além da crise

É já segunda-feira!

(Clique na imagem para aumentar)

A tentação do abismo II

Nos últimos dias tentei explicar, aqui e aqui, por que me parece irracional, nas circunstâncias que são as nossas e que são inescapáveis, que o PSD opte por chumbar o orçamento. E mesmo aqueles que lançam o seu anátema sobre esta posição, seja por ela configurar um novo "ajoelhar" perante o Inenarrável(*), seja por "ser melhor não haver orçamento do que haver um mau orçamento" seja, finalmente, por o PSD necessita de se livrar - de vez - das grilhetas cavaquistas, acho que não estão a perceber que, logo a seguir ao país, será o PSD o principal prejudicado pela eventual adopção desta estratégia. Associo-me pois, entre outros, à argumentação dos Cachimbos Fernando Martins, Paulo Tunhas e Pedro Bráz Teixeira.

Depois da sondagem do Expresso da semana passada que dava três pontos de vantagem do PSD sobre o PS, ontem foi a vez da TVI divulgar resultados em tudo semelhantes. E não é só a diferença mínima entre PS e PSD. É também, e sobretudo, que a soma das intenções de voto PSD+CDS estar nitidamente abaixo deuma maioria absoluta. Dir-se-ia, pois, 10 dias depois de anunciado um pacote de austeridade de "caixão à cova", que vale a pena pensar nestes resultados...

E se Pacheco Pereira, que citei ontem, provoca urticária em muitos, especialmente quando citado por essa luminária socratista que é Eduardo Pitta, talvez Vasco Pulido Valente consiga concitar os desavindos da racionalidade.

«Se Passos Coelho não aprovar o Orçamento, a recessão que ele teme virá mais depressa e com mais violência e os juros da dívida soberana necessariamente aumentarão. No meio de uma inevitável insegurança política, a eleição presidencial irá dividir o país, ninguém sabe como e por quanto tempo. E Sócrates talvez se consiga aguentar no meio do tumulto. Mesmo Passos Coelho e a sua extravagante direcção ficam em perigo de despejo. É isto que ele sóbria e racionalmente quer? Ou o que ele quer, na sua manifesta inconsciência, é ganhar um voto fácil para 2011 e fingir que segue o inaplicável liberalismo dos bonzos da casa? Não se percebe. O que se percebe é que a história não vai acabar bem.»
(*) - Devida vénia ao José do Pordaloja

sábado, 9 de outubro de 2010

A tentação do abismo

Creio que os estimados leitores deste blog não têm dúvidas quanto ao sentimento do seu autor relativamente ao actual primeiro-ministro. Numa curta frase, ele representa o pior que nos podia ter acontecido nestes últimos cinco anos e meio - politica mas, sobretudo, moralmente. As consequências deste funesto lustro arrastar-se-ão, muito provavelmente, pelo menos por uma década muito penosa.

Dito isto, há uma realidade objectiva inescapável: caso o actual governo caia, só teremos um outro lá para o Verão do ano que vem no meio de uma tempestade económico-financeira bem maior que as vividas em 78-79 e 83-85. Como referi, creio que Sócrates "só à bomba" sairá da liderança do PS e do governo e estão, na minha modesta opinião, muito enganados aqueles que pensam que forçando a queda do governo agora estão com isso a capitalizar votos para as eleições antecipadas que aí virão. Sócrates é um profissional da coisa e não tem escrúpulos de dizer uma coisa hoje para a desdizer amanhã com a naturalidade que só os (bons) mentirosos compulsivos conseguem. Não o substimem.

Com elegância, é mais ou menos isto que Pacheco Pereira, na sua crónica de hoje no Público, chama a atenção:
«Há muita gente a brincar com o fogo. E o fogo é a sequência: chumbo do Orçamento, queda do Governo, envenenamento das eleições presidenciais pela crise política, longos meses sem Governo em plena crise externa, e novas eleições, num futuro ainda distante, que não é líquido darem um resultado estável, ou seja, uma maioria absoluta, nem ao PS, nem ao PSD. Eu sei que a expressão "interesse nacional" serve para quase tudo e dá excelentes pretextos políticos, mas também sei que há poucos casos em que a substância dessa expressão, o interesse nacional de facto, se aplica como no actual.

A alternativa, de que estamos já muito perto, é mandar uma delegação das "forças vivas" a Bruxelas a pedirem ao Conselho, à Comissão e ao Parlamento Europeu, que nos governem se fazem favor, que façam de Portugal, como o Kosovo, um protectorado europeu. Então digam que é isso que querem aos  portugueses, para ver a resposta.»

Pacheco Pereira, Público, 9-10-2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Homenagem a Liu Xiaobo

A adopção, nos últimos trinta anos, de vários mecanismos de progressiva liberdade económica (ainda que vigiada) tem conseguido arrancar à pobreza extrema centenas de milhões de chineses e, inclusivamente, à formação de uma classe média já relativamente numerosa. Trata-se de um resultado extraordinário, depois das catástrofes, humanas e económicas, como foram o "Grande Salto Em Frente" ou a "Revolução Cultural" que desabaram desgraçadamente sobre a população chinesa sob o regime de Mao.

Agora, que não restem dúvidas: a China continua a viver, políticamente, sob um regime comunista que não hesita, quanto se sente ameaçado, a recorrer à violência extrema. Afinal, foi Deng Xiaoping, já em pleno recuo da economia planificada típica dos países comunistas, quem deu a ordem para que os tanques avançassem sobre os manifestantes de Tiananmen.

Liu Xiaobo foi um dos que participaram nas manifestações na praça da "paz celestial" (estava nos Estados Unidos quando elas começaram mas regressou à China logo que pôde, ainda a tempo de também participar num acontecimento que durou sete semanas) tendo sido preso e condenado por isso, processo que já se repetiu por mais três vezes. A última condenação ocorreu no ano transacto tendo sido condenado a uma pena de onze anos. A minha homenagem a um combatente pela liberdade.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Um exercício de independência

Estou normalmente de acordo com os escritos de Pacheco Pereira embora não seja nenhum indefectível. Reconheça-se, em qualquer caso, a profundidade e latitude intelectual que detém e a independência de pensamento que teima em (bem) preservar. O seguinte excerto do seu discurso de ontem na Assembleia da República é disso exemplo evidente:

«(...) das instituições políticas cuja saúde é mais crucial em democracia são os partidos. É neles, na pluralidade política e ideológica, na diversidade dos interesses representados, que se consubstancia o tónus da vida pública e do debate cívico. Infelizmente essa capacidade está rapidamente a desaparecer, com uma degradação acentuada do papel dos partidos, em particular dos partidos do poder, de exercerem a sua função cívica de representação, dominados apenas por uma lógica de exercício desse mesmo poder.
Os partidos políticos republicanos tiveram muita responsabilidade na queda da Primeira República. A Terceira República, em que vivemos, degenera também pela partidocracia, quando os partidos em vez de serem um elemento de representação dos cidadãos no poder, funcionam como uma barreira.»

sábado, 2 de outubro de 2010

Comemorar o quê?

«E, em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam "carbonários", vigilantes de vário género e pêlo e a "formiga branca" do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura política assente nos "direitos do homem e do cidadão" que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de "suspeitos" (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do "outro" mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês que o "5 de Outubro" trouxe a Portugal?» 

(Vasco Pulido Valente, in Público, 2-10-2010)