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quarta-feira, 26 de março de 2014

Pat Buchanan e o movimento secessionista na Europa

E, "de repente", o movimento secessionista na Europa vê-se significativamente reforçado com o resultado iniludível do referendo em Veneza, ainda que não vinculativo. Se a ele juntarmos o mais que provável "sim" por parte da Escócia no próximo Outono, conjugado no tempo (Novembro) com um outro relativo à Catalunha marcado por fortes tensões com o governo central, não me espantaria que a chama secessionista se alastrasse rapidamente no continente europeu (com a Bélgica e outras regiões da Itália, como a Sardenha,como sérios  candidatos.

Pat Buchanan, em artigo que achei oportuno traduzir, procura explicar as razões desta irrupção que, na sua leitura, são sinais de um problema mais vasto que o autor abordou em Suicide of a SuperPower referindo-se naturalmente aos EUA: a "centrifugação" dos EUA decorrente da não miscigenação das últimas gerações de imigrantes no que até então tinha sido o grande e bem-sucedido melting pot.

Não partilho inteiramente das teses de Buchanan embora tenda a concordar que os modernos estados de bem-estar - que alguém, em última análise, terá sempre que pagar - forneçam incentivos à imigração em massa e, com isso, se abram caminhos a verdadeiros combates demográficos e consequentes tensões culturais e religiosas. Só não os verá quem não quiser ver.

Num próximo post, e relativamente ao movimento secessionista, irei reproduzir um ponto de vista bem mais optimista que o de Buchanan que o encara, tal como eu tendo a concordar, como algo de bem positivo como já tive oportunidade de o escrever.
25 de Março de 2014
Por Patrick J. Buchanan

Os laços europeus começam a desvanecer-se
(Europe’s Bonds Begin to Fade)

Patrick J. Buchanan
Há uma semana atrás, no Salão de São Jorge no Kremlin, a elite russa aplaudiu e chorou quando Vladimir Putin anunciou a reanexação da Crimeia. Sete em cada 10 russos aprovam a governação de Putin. Na Crimeia, a maioria russa ainda não parou de celebrar. A reconquista aproxima-se da conclusão. No leste da Ucrânia, os russos começaram agora a promover a agitação pela anexação por Moscovo. O nacionalismo ucraniano, manifesto no golpe anti-Rússia verificado em Kiev, provocou a inevitável reacção entre os russos. Apesar de elogiar os ucranianos que foram até à Maidan protestar pacificamente, Putin disse que aqueles por trás dos acontecimentos decisivos "recorreram ao terror, assassinato e tumultos. Nacionalistas, neonazis, russófobos e anti-semitas levaram a cabo este golpe". O Kremlin irrompeu em aplausos.

Mas não é apenas na Ucrânia que o nacionalismo étnico está a crescer.

"A votação na Frente Nacional atordoa Hollande" [registo prévio necessário] foi a manchete do Financial Times relativa às eleições municipais francesas no Domingo. Embora a FN de Marine Le Pen, filha do fundador do partido Jean Marie Le Pen, não se tenha candidatado em muitas cidades, ela ganhou em definitivo a corrida à presidência da câmara em Henin-Beaumont e ficou em primeiro ou segundo lugar numa dúzia de cidades de média dimensão, pelo que disputará a segunda volta nas eleições de 30 de Março. "A Frente Nacional alcançou o estatuto de grande força independente - uma força política nos planos nacional e local", declarou Le Pen.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pat Buchanan: Quem é e o que é Vladimir Putin?

Encaro a secessão como um direito conexo ao direito natural (*) quer no plano das nações quer no plano individual que se poderá traduzir no direito a ser deixado em paz. Tenho assim por essencialmente benévola a leitura dos acontecimentos na Crimeia como de resto sucede quanto a outros processos secessionistas hoje em curso, até agora conduzidos por meios essencialmente pacíficos, como é o caso da Escócia, da Catalunha, de Veneza ou mesmo... de Vigo.

Se por momentos nos lembrarmos que: a própria América nasceu de um processo secessionista a cuja justeza se alude veementemente na Declaração de Independência; que Woodrow Wilson, nomeadamente no seu famoso discurso dos "quatorze pontos", impôs promoveu o estilhaçar dos impérios dos Hohenzollern e Habsburgos e redesenhou fronteiras e criou países em nome da "libertação dos povos" da Europa (pulverizando extensas populações germânicas pelo caminho...) e que o que aconteceu no Kosovo, em 1999, não caiu totalmente no esquecimento, parece-me difícil sustentar um outro ponto de vista. Tanto mais que a única alternativa enunciada, de forma ínvia ou desabrida, é o acentuar do cerco geopolítico (via NATO) à Rússia. E bem sabemos a que conduziu a política do cerco às potências centrais na Europa nos anos que antecederam a I Guerra Mundial.

Pat Buchanan, com a sua habitual frieza analítica e excelente memória histórica, é uma leitura particularmente aconselhável nos domínios da política externa quando as emoções (e a propaganda) se pretendem sobrepôr à razão. Daí o convite ao leitor que adiante se segue, resultado da tradução, da minha responsabilidade, deste texto de Buchanan.
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(*) Para uma incursão de índole filosófica neste tema, atente-se neste artigo de David Gordon ou nesta entrada da Wikipedia.
17 de Março de 2014
Por Patrick J. Buchanan

Quem é e o que é Vladimir Putin? (Who and What is Vladimir Putin?)

Vladimir Putin parece ter perdido o sentido da realidade, terá dito Angela Merkel a Barack Obama após ter falado com o presidente russo. Ele está "num outro mundo". "Concordo com o que Angela Merkel disse... que ele vive num outro mundo", declarou Madeleine Albright, "Isso não faz nenhum sentido". John Kerry deu o seu contributo para esta tonta teoria insinuando que Putin estava a seguir os passos de Napoleão: "Muito simplesmente, não é possível, no século XXI, comportar-se à moda do século XIX ao invadir um outro país sob um pretexto completamente forjado."

Patrick J. Buchanan
Agora que Putin assumiu o controlo da Crimeia sem disparar um tiro, e que 95% do eleitorado da Crimeia votou no Domingo pela reintegração na Rússia, será que as suas decisões continuam a parecer irracionais? Não seria previsível que a Rússia, uma grande potência que tinha acabado de ver o seu vizinho ser puxado para fora da órbita da Rússia por um golpe apoiado pelos EUA em Kiev, iria reagir para proteger uma posição estratégica no Mar Negro que mantém há dois séculos? Zbigniew Brzezinski sugere que Putin tem por objectivo recriar o império czarista. Outros dizem que Putin pretende recriar a União Soviética e o Império Soviético.

Mas por que razão a Rússia, hoje envolvida em sangrentas guerras secessionistas com terroristas muçulmanos nas províncias do norte do Cáucaso da Chechénia, do Daguestão e da Ingúchia, quereria invadir e reanexar o gigante Cazaquistão, ou qualquer outra república muçulmana da antiga URSS, o que garantiria a intervenção jihadista e uma guerra interminável? Se nós, americanos, queremos sair do Afeganistão, por que quereria Putin voltar ao Uzbequistão? Por que quereria ele anexar a Ucrânia Ocidental onde o ódio à Rússia remonta à fome organizada da era stalinista? A invasão e ocupação de toda a Ucrânia implicaria para Moscovo incorrer em custos infindáveis em sangue e dinheiro, a inimizade da Europa, e a hostilidade dos Estados Unidos. Qual seria o objectivo da Rússia, cuja população está a diminuir à razão de meio milhão por ano, de pretender voltar a ter soldados russos em Varsóvia?

Mas se Putin não é um imperialista russo que visa restabelecer o domínio russo sobre os povos não-russos, quem é e o que é ele?

sexta-feira, 7 de março de 2014

Juiz Napolitano: O monstro Putin

De há muito que o Andrew Napolitano é uma presença assídua neste blogue quer através de clips do saudoso programa televisivo da Fox, Freedom Watch, quer pelos seus artigos e livros que publica regularmente. Antigo juiz do equivalente a um tribunal da Relação, fervoroso defensor do espírito e letra da Constituição americana e dos Pais Fundadores, Napolitano faz valer as suas qualidades de jurisconsulto na veemente defesa da Liberdade. Rigoroso e eloquente, mas sempre didáctico, Napolitano explica no artigo que se segue (minha tradução) porque não devem os EUA imiscuir-se num conflito onde nada têm a defender que lhes seja, sequer remotamente, vital ainda que o comportamento imperial do governo do ex-KGB seja, como é, abjecto. Para o efeito, irá também convocar o 6º presidente dos EUA, John Quincy Adams. Tomara que Woodrow Wilson tivesse seguido os conselhos que aquele proferiu ao invés de ter adoptado a "progressiva" e catastrófica doutrina segundo a qual os EUA têm a missão (divina?) de "tornar o mundo seguro para a democracia". As centenas de milhões de mortos que ocorreram no século XX têm aí a sua raiz. Por essa razão, importa retomar em breve a série de posts relativos à mãe de todas as catástrofes a que o século passado assistiu. O que faremos nos próximos dias.
6 de Março de 2014
Por Andrew P. Napolitano

O monstro Putin (Monster Putin)

O que sucede quando o governo dos Estados Unidos participa, de modo significativo, no derrube de governos estrangeiros em nome da difusão da democracia? Esse comportamento resulta geralmente em consequências não-intencionais e, com frequência, resulta em desastres.

Andrew P. Napolitano
Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, inicialmente para procurar armas de destruição maciça que, sabemo-lo agora, o governo Bush sabia não existirem, e promover a mudança de regime, os EUA conseguiram mudar profundamente a governação iraquiana. Mas, nesse processo, perdemos a vida de 4,500 soldados norte-americanos, sofremos 45 mil feridos, pedimos emprestados e gastámos - e não pagámos - mais de 2 milhões de milhões de dólares, causando a morte a 650 mil iraquianos e o desalojamento a 2,5 milhões, e abrimos o caminho no Iraque ao nosso inimigo público - a Al-Qaeda. A Al-Qaeda não estava no Iraque antes da nossa invasão. Hoje, ela controla um terço do país tornado instável.

Em 2010, o presidente Barack Obama decidiu que já não gostava do ditador favorito da América no Médio Oriente, o presidente Hosni Mubarak do Egipto, muito embora ele e os seus quatro antecessores imediatos tenha dado ao governo Mubarak, anualmente, cerca de 4 mil milhões de dólares. Foi assim que os nossos agentes fomentaram a revolução nas ruas, enquanto Obama sugeria abertamente que chegara a hora de Mubarak deixar o poder. Em seguida, as ansiadas e prometidas eleições livres tiveram lugar, e o inimigo declarado do Ocidente e um islâmico fanático, Mohammed Morsi, tornou-se no primeiro presidente eleito pelo povo na história do Egipto. Depois, os EUA decidiram que não o queriam na cadeira do poder independentemente da legalidade e da legitimidade moral da sua eleição, levando assim a administração Obama a incentivar um golpe militar.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra

Tal como sucedeu aqui, a vertigem dos acontecimentos (reais ou veículos de mera desinformação) é de tal ordem que o risco da incorrecção (parcial) do relato é significativo. É o que tornou a acontecer agora com o artigo de Pat Buchanan, ontem publicado, que escolhi divulgar, em versão por mim traduzida.

Mas o meu interesse nesta matéria não é o da crónica de uma eventual guerra a propósito da Ucrânia. É, antes, o de convidar a reflectir sobre uma realidade que é bem mais complexa do que o maniqueísmo habitual propalado pelos políticos e media ocidentais - aqueles a que estamos directamente sujeitos - pretendem fazer passar ao grande público. A esta luz, o artigo de Buchanan, como é de resto habitual no seu autor, convida à análise serena e lúcida e, recorda algumas referências históricas e geográficas que, ainda que elementares, são fundamentais para a interpretação do que se vem passando. Sobretudo, que haja muito cuidado na aceitação acrítica das acusações de violação do "direito internacional" quando elas são esgrimidas por parte de quem age com o estatuto de império incontestado: "We're an empire now, and when we act, we create our own reality. And while you're studying that reality—judiciously, as you will—we'll act again, creating other new realities, which you can study too, and that's how things will sort out. We're history's actors ... and you, all of you, will be left to just study what we do". Ainda anteontem morreram mais 97 pessoas no Iraque.

Ainda que naturalmente dirigido ao público norte-americano, é aos cidadãos dos países europeus que ele mais interessará. Afinal de contas, o epicentro das duas guerras mundiais aconteceu aqui no Velho Continente.

ACTUALIZAÇÃO: mais uma "pequena surpresa" (transcrição parcial aqui) a juntar a esta outra.
Por Patrick J. Buchanan
4 de Março de 2014

Que não se dê atenção ao partido da guerra! (Tune Out the War Party!)

A decisão de Vladimir Putin de enviar tropas russas para a Crimeia, pôs os nossos belicosos falcões a respirar fogo. A russofobia está desvairada e os artigos de opinião fervem de indignação.

Barack Obama deveria abstrair-se de tudo isto e reflectir sobre o modo como os presidentes ao longo da Guerra Fria lidaram com Moscovo a propósito de confrontos muito mais graves.

Patrick J. Buchanan
Quando as divisões de tanques do Exército Vermelho esmagaram os combatentes húngaros da liberdade em 1956, matando 50 mil deles, Eisenhower não levantou um dedo. Quando Khrushchev construiu o Muro de Berlim, JFK foi a Berlim e proferiu um discurso.

Quando as tropas do Pacto de Varsóvia esmagaram a Primavera de Praga em 1968, LBJ não fez nada. Quando Moscovo ordenou ao general Wojciech Jaruzelski que esmagasse o Solidariedade, Ronald Reagan recusou-se a colocar Varsóvia numa situação de isolamento.

Estes presidentes não viram nenhum interesse vital dos EUA ameaçado nessas acções soviéticas, por brutais que tivessem sido. Sentiram que o tempo estava do nosso lado durante a Guerra Fria. E a história veio a dar-lhes razão.