Mostrar mensagens com a etiqueta keynesianismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta keynesianismo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Curtas e grossas


Sob o título em epígrafe, Jürgen Stark, um antigo economista-chefe do BCE, de onde saiu com grande estrondo em 2011, publicou na passada 4. feira no Financial Times um artigo (requer registo) onde retoma as teses da "linha dura" da (relativa) ortodoxia financeira do que ele caracteriza como "o economista alemão". Seguem-se alguns excertos desse artigo que noutras circunstâncias - de indignação vituperante diante a presença num governo de coligação de um partido de extrema-esquerda com um outro de extrema-direita num ministério sem uma única mulher! - seria considerado politicamente incorrecto ao ponto de ser alvo de uma saraivada de fatwas sobre o seu autor e todos aqueles que o citem (via Juan Ramón Rallo):
«[…] A verdade é que, em contraste com muitos países da zona euro, a Alemanha tem consistentemente prosseguido uma política económica prudente. Enquanto outros viviam acima das suas possibilidades, a Alemanha evitou os excessos. Estas são diferenças culturais profundas que a união monetária faz emergir uma vez mais.

A questão não é a de um país impor austeridade a outro. As elites políticas da periferia da zona euro são responsáveis por terem perdido o acesso aos mercados financeiros em 2010. Anos de má gestão e de inobservância da lei conduziram a défices orçamentais crescentes e à acumulação de dívida. Os prémios de risco dispararam. […]

A UE não é uma federação (como não é a zona euro). Estamos muito longe desse nível de integração na Europa. Não há, portanto, base constitucional para concretizar maiores transferências para os países mais débeis. Em todo o caso, essas transferências não resolvem os problemas económicos e levam ao risco moral. Anteriores programas de transferências, como os dos fundos para pagar investimentos em infra-estruturas nos estados membros mais pobres da UE, nem sempre conduziram a uma melhoria sustentável no desempenho económico. A Grécia, por exemplo, recebeu transferências da UE correspondentes a 3 a 5% do seu produto interno bruto durante décadas, dos quais aproximadamente um terço foram pagas pela Alemanha. Mas grande parte desse dinheiro escoou-se através do poroso edifício de um estado frequentemente corrupto.

A política económica alemã não se destina a punir os países da periferia da zona euro. A chanceler Angela Merkel quer ver todos os países da zona euro a criarem as circunstâncias necessárias a um crescimento económico que seja real e sustentável - do tipo que gera empregos. Isto exige finanças nacionais sólidas. O que não tem nada a ver com um fetiche quanto ao défice zero. Os economistas alemães opõem-se ao tratamento dos sintomas. Eles alertam contra aparentes soluções que funcionam como tranquilizantes políticos no curto prazo, mas que apenas se limitam a ocultar os verdadeiros desafios económicos.

Os apelos a estímulos macroeconómicos adicionais ignoram as causas da doença europeia. É vital que sejam removidas as barreiras estruturais ao crescimento. Isso inclui sanar os balanços dos bancos para desbloquear a criação de crédito. Não é por causa da Alemanha que a França enfrenta a estagnação económica e a Itália está
há três anos em recessão. Os problemas têm origem doméstica. Eles não podem ser eliminados nem pelo Banco Central Europeu nem pelos estímulos fiscais.
As reformas exigem coragem política e forte liderança. Essas são reformas dolorosas mas são necessárias para retornar a um caminho de crescimento sólido. O verdadeiro défice é o fracasso da elite política em muitos países bem como a falta de instituições credíveis. […]»

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Em defesa do euro (na ausência do padrão-ouro)

No artigo que hoje proponho aos leitores, Gary North expõe o seu ponto de vista sobre a zona euro num mundo dominado pela moeda fiat. Num raciocínio próximo do de Jesús Huerta de Soto, na ausência do padrão-ouro internacional integral (isto é, o padrão moeda-ouro), é o euro, ou seja, o BCE, que constitui a única barreira, ainda que débil, ao desregramento orçamental dos estados membros. Nessa medida - e só nessa medida - o arranjo monetário da zona euro (um proxy do padrão-ouro como também lhe chamou JHS) é algo de bom e correcto, diz-nos North. Os que há 15 anos assinalam a "inconsistência" entre um planeamento central monetário supra-nacional e a diversidade fiscal dos diferentes estados da zona euro, e continuam clamando pela necessidade de aliar à união monetária (o euro) uma união fiscal (um orçamento supra-nacional), são os estrénuos defensores do centralismo e, por conseguinte, ferozes opositores à ideia da descentralização. Quem são estas pessoas? Os keynesianos, claro está. A doença é essa. Não há nenhuma inconsistência entre haver num dado espaço político-geográfico uma moeda única e diferentes políticas fiscais como frequentemente por aí se ouve (olhe-se para os Estados Unidos por exemplo). A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Gary North
11 de Outubro de 2014

O que está CORRECTO no Euro
(What's RIGHT With the Euro)

Eu penso como um economista. O economista pensa sempre em termos de alternativas. A mentalidade do economista foi expressa com clareza pelo falecido comediante, Henny Youngman. "Como está a sua mulher?" "Comparada com o quê?"

Gary North
Uma das acusações mais comuns contra o euro é a seguinte: "A zona euro é composta por uma moeda centralizada, mas por políticas fiscais nacionais descentralizadas." Eu nunca vi nenhum dos críticos que invocam este argumento propor a abolição do euro e do Banco Central Europeu. Este argumento é sempre invocado para defender a ideia de união fiscal. Por outras palavras, não há nenhum esforço para descentralizar as moedas na zona euro. Mas há uma forte pressão, ainda que até agora ineficaz, para unificar as políticas fiscais da eurozona.

Pense o leitor nas implicações disto. Consegue ver o que há de errado neste argumento?

sábado, 17 de maio de 2014

Citação do dia (163)

«Os argumentos intelectuais usados pelo Estado ao longo da história para "construir o consenso" do público podem ser classificados em dois grupos: 1) que o regime do governo existente é inevitável, absolutamente necessário e muito melhor do que os males indescritíveis que se seguiriam à sua queda; e 2) que os governantes do Estado são homens particularmente grandiosos, sábios e altruístas - bem mais grandiosos, sábios e melhores que os seus simples súbditos. Em tempos passados, este segundo argumento tomou a forma do regime de "direito divino" ou do próprio "governante divino", ou de uma "aristocracia" de homens. Nos tempos modernos [...] este argumento enfatiza o regime de uma sábia associação de "peritos científicos", especialmente dotados do conhecimento da arte de governar e dos factos misteriosos do mundo. A utilização crescente do jargão científico, especialmente nas ciências sociais, permitiu aos intelectuais tecer a apologia do regime estatal que rivaliza com o antigo poder sacerdotal do obscurantismo. Por exemplo, um ladrão que presumisse justificar o seu roubo dizendo que estava na verdade a ajudar as suas vítimas por via das suas despesas [com o produto do roubo - N.T.], proporcionando assim ao comércio retalhista um necessitado estímulo, seria apupado de imediato. Mas quando esta mesma teoria é revestida de equações matemáticas keynesianas e de impressionantes referências ao "efeito multiplicador", ela transporta uma muito maior convicção a um público iludido.»
Murray Rothbard

sexta-feira, 21 de março de 2014

Citação do dia (158)

Agradecendo a CN pela chamada de atenção.
"Os ricos do topo da pirâmide são keynesianos. São devotos do templo de Keynes. (...) O keynesianismo tem as características de uma religião. Tem uma confissão: "A moeda fiat supera as recessões". Tem uma agenda: a salvação através do crescimento económico. Tem uma doutrina da omnisciência: o planeamento central monetário. Tem um clero: os economistas doutorados. Tem um movimento evangélico: o levado a cabo pelo Congresso, pelas universidades e pelos media do mainstream."

sábado, 1 de março de 2014

Fim à austeridade?

Os leitores habituais do Espectador Interessado ter-se-ão dado conta do progressivo afastamento do ruído do dia-a-dia, próprio do "combate de blogues", para privilegiar um olhar mais sereno embora nem por isso menos incisivo e, quiçá, até mesmo mais "radical" sobre os temas que são alvo da atenção dos seus autores.

De facto, usando para aferição o número de posts (não) publicados, temos estado muito alheados dos "debates" (?) sobre uma suposta "espiral recessiva" e uma não menos suposta "recuperação redentora" (que, num momento de arrebatamento,  chegou mesmo a ser apelidada de "milagre") decorrente da acção patriótica do governo de turno. Do mesmo modo, o interesse que manifestámos em exercícios de exegese económica ao ritmo da divulgação das mais variadas estatísticas, tem sido bastante diminuto. E não apenas porque, parafraseando Ronald Coase, os dados estatísticos, se sujeitos a suficiente tortura, acabarão por confessar tudo (e um par de botas). Por aqui, preferimos cingirmo-nos à aritmética elementar aliada ao bom senso. E, aqui chegados, é fácil concluir, à semelhança aliás do verificado nas situações de pré-bancarrota de 1978-1979 e de 1983-1985, que o "ajustamento" da economia portuguesa foi conseguido quase integralmente à custa do sector privado da economia, continuando o Estado estruturalmente tão rotundo quanto o era em Abril de 2011. Sem receitas extraordinárias, o défice do orçamento continuaria acima dos 5% do PIB e isto depois de uma punção fiscal de que não há memória, nem plano (ou vontade) para a aliviar.

É então a austeridade inevitável? A resposta a esta pergunta depende do que entendamos por "austeridade". Constituirá "austeridade" ter um défice orçamental superior a 5% do PIB? Constituirá austeridade a situação de "risco" de inclusão nas contas públicas de outras rubricas que sempre lá deveriam ter estado? Há uns meses atrás, João Cortez proporcionou-nos uma boa tradução de um excelente texto de Franz Hollenbeck intitulado "As três formas de austeridade" que aconselharia agora a (re)ler. Na 5ª feira, dia 27 de Fevereiro, Mark Thornton, a propósito da nova proposta de orçamento de Obama onde este proclama a necessidade de pôr "fim à austeridade", volta ao tema que continua a ser alvo de basta mistificação. A "actualidade estrutural" do texto de Thornton compeliu-me a traduzi-lo. (Todos os erros que possam decorrer da tradução são da minha responsabilidade, bem assim como das notas introduzidas.)
O presidente Barack Obama divulgou recentemente a sua proposta de orçamento na qual apela ao "fim da austeridade". Esta é uma declaração surpreendente por parte de um presidente sob cuja administração a despesa pública federal atingiu a maior percentagem de sempre no PIB e em que a dívida pública aumentou mais do que no conjunto de todos os presidentes que o precederam. O que entenderá ele por austeridade?

Mark Thornton
Há manifestações pelo mundo fora contra a austeridade quase todos os dias. Ela é condenada por constituir um veneno em tempos económicos difíceis, enquanto outros a tomam pelo elixir contra as depressões económicas.

A rejeição da austeridade pelo presidente representa a visão keynesiana, que rejeita completamente a austeridade em favor da abordagem às recessões conhecida por "pedir emprestado e gastar" - a de fazer crescer a procura agregada. O que ele na realidade está a rejeitar são as reduções infinitesimais na taxa de crescimento da despesa e os obstáculos políticos a novos programas de despesa.

Embora os níveis de despesa nos orçamentos entre 2009 e 2012 tenham permanecido relativamente constantes, eles foram ainda assim 15% superiores ao de 2008 e 75% mais elevados que os verificados na década anterior. Este salto na despesa nestes quatro anos foi financiado com um aumento de 5 milhões de milhões de dólares da dívida pública. Austeridade, aqui? Nenhuma!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Conheça o caminho das saídas para que, chegado seja o momento, ainda as consiga franquear

Douglas E. French, ex-presidente do Mises Institute e actual editor sénior da Laissez-Faire Books é, para além de um profundo conhecedor do funcionamento do sistema bancário, um estudioso do fenómeno das bolhas especulativas, tema que aliás abordou na sua tese de mestrado (sob orientação de Murray Rothbard) e que daria origem ao seu livro Early Speculative Bubbles and Increases in the Supply of Money (de borla, aqui, nos formatos pdf e ebook/.epub). Neste livro, Doug French aborda três episódios de especulação desenfreada que a história viria a registar, a saber: a "Tulipomania" ou "febre das tulipas", ocorrida na Holanda no século XVII (1634?-1637) e as temporalmente coincidentes bolhas da "Mississippi Company" (em França) e da "South Sea Company" (do lado de lá do Canal da Mancha), em 1719-1720, de resto interligadas entre si. Nos três casos, estabelece uma ligação de causa-efeito, espelhada no título do livro, entre uma aceleração continuada da expansão da oferta monetária, sem correspondência real a mais bens e serviços produzidos, e a consequente emergência e posterior estouro das respectivas bolhas especulativas que essa expansão provocou.

No artigo que achei interessante procurar ampliar a divulgação, através de tradução de minha responsabilidade, e cujo significativo título é Signs That It’s Time to Head for the Exits ["Sinais de Que Chegou a Altura de Nos Dirigirmos para As Saídas"], French descreve um desses episódios onde o escocês John Law [link], que aquele baptiza de "o primeiro keynesiano antes de Keynes", ensaia o recurso em grande escala da destruição do "dinheiro verdadeiro" com a intenção de "resolver" em definitivo as dificuldades do tesouro real francês (decorrentes de décadas contínuas de guerras) e acabar de vez com quaisquer restrições orçamentais à actividade governamental (se isto lhe parece familiar, tem o leitor toda a razão). Percorre de seguida o ainda recente episódio da hiperinflação no Zimbabwe (que culminou na destruição da moeda local), aborda em seguida a espiral que continua a decorrer numa Venezuela a caminho da implosão e também o pouco conhecido caso da África do Sul, todos eles exemplos do sério perigo que a instituição de sistemas de controlos de capitais sempre sinaliza, com os governos a tentar impedir a fuga às suas moedas fiat por parte dos cidadãos. Termina o artigo assinalando que os próprios americanos não estão isentos de perigos semelhantes até porque os primeiros sinais (e já são muitos) aí estão pelo que deixa um (avisado) conselho aos seus leitores. É minha convicção que, pese embora a sua extensão, a leitura integral do texto poderá proporcionar um retorno adequado ao esforço despendido. Só posso desejar que tal venha a suceder (como sempre, de preferência, no original). Os comentários e reflexões, também como sempre, serão bem-vindos.
17 de Janeiro de 2014
Por Doug French

O dinheiro verdadeiro, como o ouro e a prata, é adoptado pelo mercado e trocado por bens e serviços de modo voluntário. A moeda fiduciária governamental é algo de diferente. A maioria das pessoas esquece-se que vivemos sob leis de curso legal [link] que nos forçam a utilizar os pedaços de papel que a Reserva Federal e o Tesouro criam a partir do nada.

Fabricar notas, a um custo de cêntimos, para as trocar, em alguns casos, por uma centena de dólares, constitui um bom negócio. Criar lançamentos contabilísticos electrónicos tem um custo ainda menor. Os governos não desistirão deste negócio sem luta.

No final do processo, o governo irá fazer com que o valor do seu papel atinja o valor de, bem, do papel. Na sua essência, a impressão de dinheiro é uma forma silenciosa e sorrateira de tributar as pessoas. Eventualmente, elas aperceber-se-ão disso. Charles Mackay escreveu no seu livro, o clássico "Extraordinárias Ilusões Populares e a Loucura das Multidões" ["Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds"], "Como foi observado com sabedoria, os homens pensam em rebanho; viremos um dia a perceber que eles enlouquecem em rebanho enquanto só são capazes de recuperar a sanidade lentamente, e um de cada vez".

Estamos num processo composto de passos sucessivos e o governo sabe disso. Começaram a surgir [nos EUA] os primeiros sinais de imposição de controlos de capitais. Fazer sair do país activos financeiros no valor de 10.000 dólares é agora verboten [proibido]. O governo dos EUA estabeleceu acordos com países e bancos em todo o mundo para manter o dinheiro dentro dos EUA.

Mas o que é que acontece quando os cidadãos pretendem abandonar o dinheiro governamental? Se a História é boa indicação, o governo irá tornar-se pérfido.

John Law: o primeiro keynesiano no mundo

A França entrou em bancarrota em resultado das sucessivas guerras que travou, de 1689 a 1713, durante o reinado de Luís XIV. Como se isso não fosse punição suficiente, o povo francês teve que sofrer também as fomes de 1693 e 1694, e o extremamente frio Inverno de 1708-1709. As desvalorizações da moeda tornaram-se norma, e os franceses desenvolveram uma desconfiança para com o papel-moeda.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Da "espiral recessiva" ao "milagre económico" no espaço de um ano

Ou a miséria dos economistas do mainstream:
"Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego." - Cavaco Silva, mensagem de Ano Novo de 2013.

"Portugal, não Espanha, é o verdadeiro milagre económico na Península Ibérica." - análise do Commerzbank conhecida hoje.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Contra-exegese do "ajustamento"

Envoltos num manto cada vez mais espesso de pensamento mágico/místico, enquanto constatamos a fragorosa queda daquele que se esperaria ser um dos seus mais fiéis Intérpretes na “Europa”, vimos assistindo, pelo Rectângulo e Adjacentes, à arregimentação nas hostes Crescimentistas de um conjunto de personalidades de “direita” mas indisputavelmente também do regime. Um grupo pequeno mas convenientemente mediatizado, que se insurge contra a “língua de pau” adoptada pelo poder vigente. A tarefa de proceder à sua exegese tem estado entregue a Pacheco Pereira (creio que por sua própria escolha). No essencial, ela consiste na “desmontagem” do eufemístico/“Gaspárico” vocábulo “ajustamento” para, de seguida, negar a inexistência de alternativas para o alcançar.

Quem por aqui passa com alguma regularidade, sabe bem que estou muito, muito longe de apoiar o governo em exercício, apesar do labéu neoliberal com que o carimbaram com tinta indelével, objectivo a que os media, sem uma única excepção assinalável, se têm dedicado com particular afinco. Não admirarei ninguém ao afirmar que não tenho nenhum tipo de reserva mental quanto à crítica ao formidável understatement contido no termo “ajustamento” (ou no binómio transitório/definitivo). Como não tenho nenhum problema em aceitar que existem de facto alternativas ao caminho adoptado por este governo (de resto com a prestimosa ajuda do Tribunal Constitucional, claro está).

A questão está em que a “alternativa” dos Crescimentistas não passa de mais uma perigosa ilusão que quanto mais tempo persistisse, mais agravaria a dor quando ela chegasse. Que acomodar o estilo de vida àquilo que se é capaz de produzir não é empobrecer mas sim, mais cedo ou mais tarde, percepcionar a realidade sem filtros ou palas. É acordar de um longo sonho entorpecedor para uma realidade que se pode tornar (tornou) um pesadelo. A alternativa, que a há, não passa por negar uma tão elementar mas crucial verdade.

De nada serve exorcizar a realidade. E se certamente seria útil identificar e culpar os principais responsáveis políticos que para aqui nos conduziram, creio não haver quaisquer ilusões que alguma vez tal se venha a verificar. A maioria dos portugueses continua convencida ser possível obter "algo a troco de nada". Não é. 

P.S. - Para aqueles que ficaram muito contentes com a "constitucional devolução" do subsídio de férias e 13º mês, atente-se que a receita do IRS está a crescer 30% face a 2012 pelo que cumprido foi o anunciado aumento "brutal" de impostos. E não obstante, vamos chegar ao final de 2013 com um défice orçamental a bordejar os 6% do PIB. Não há, mesmo, almoços grátis.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O "perigo" alemão ou o mundo às avessas

A insanidade grassa e parece mesmo estar em crescendo. Títulos como Os portugueses estão a poupar demais? ou Bruxelas ameaça abrir investigação contra Alemanha devido a excedente externo elevado ou ainda o de hoje "A César o que é de César". E a César das Neves o que é seu e merece! (em defesa do aumento do salário mínimo) concorrem entre si pelo ceptro da mais surreal contribuição de política económica. Muito do que sempre foi virtude é visto agora como formidável vício e vice-versa sendo que, em qualquer caso, se pretende convocar o estado para intervir e "consertar a disfunção" e deste modo, inexoravelmente, para alimentar as sucessivas "correcções" das subsequentes consequências não intencionais que deixam tudo pior do que estava quando a poeira assenta. Há mesmo quem queira fazer passar a percepção que o mundo está às avessas.

Procurarei regressar brevemente ao tema do salário mínimo para voltar a tentar mostrar por que tem o Prof. César das Neves carradas de razão quando afirmou recentemente que "É criminoso aumentar o salário mínimo nacional", afirmação que, ela própria, constitui para Victor Baptista um crime (intelectual, presume-se).

De momento, porém, e socorrendo-me de mais um excelente texto de Frank Hollenbeck, Germany’s "Dangerous" Current Account Surplus (O "perigoso" excedente alemão das transacções correntes), hoje publicado pelo Mises Institute, propus-me tentar contrariar o ruído crescente relativamente ao "perigo" alemão por via da tradução que se segue, de minha responsabilidade, do texto de Hollenbeck. (Aqui um outro artigo igualmente bem interessante sobre o "perigo" alemão, numa óptica político-histórica.)
O governo dos EUA e a Comissão Europeia (CE) criticaram recentemente a Alemanha pelos seus grandes excedentes na balança de transacções correntes. Paul Krugman juntou-se-lhes com esta pérola:
O problema é que a Alemanha tem continuado a manter custos do trabalho altamente competitivos e a manter enormes superavits desde que a bolha estourou  e isso, numa economia mundial deprimida,  faz com que a Alemanha seja uma parte significativa do problema.
Só no mundo surreal da política económica de hoje seria possível considerar prejudicial o facto de se ser altamente competitivo. Esta crítica à Alemanha não é nova, mas já não estamos a viver na década de 1950. A Alemanha não tem moeda própria, e há pouca coisa que seja "alemã" nas suas exportações.

Um BMW produzido na Alemanha mas vendido na Espanha contém peças provenientes de todo o mundo. A maior parte, mas não toda, dos postos de trabalho será alemã, mas as inovações tecnológicas reduziram o custo do trabalho a cerca de 10 por cento do preço de um automóvel. O retorno do capital irá para os detentores de obrigações e accionistas que podem estar em qualquer lugar do mundo. A BMW pode distribuir um dividendo a um accionista espanhol que pode usar esses euros na compra de mercadorias espanholas. Dizer que a BMW é um produto apenas da Alemanha é um [enorme e enganador] exagero.

Imagem retirada daqui

A Alemanha também faz parte de uma moeda comum. Criticar um excedente da balança corrente de uma região dentro de uma zona monetária comum é como reclamar do superavit das transacções correntes da Florida ou, do superavit bilateral de Jacksonville [a cidade mais populosa da Florida] para com Miami [capital do estado].

Se nos colocarmos no plano do indivíduo, é possível tornar esta argumentação cristalinamente clara e evidenciar as tontarias inerentes. Temos um superavit de transacções correntes com o nosso empregador e um défice de transacções correntes relativamente ao nosso supermercado. O nosso empregador compra-nos mais do que nós lhe compramos a ele e o inverso é verdadeiro quanto à nossa relação com o supermercado. No entanto, não nos aprestamos a ir a correr para o supermercado para exigir do seu gerente que nos compre mais bens ou serviços por nós produzidos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Prova provada do "benefício" dos estímulos estatais

ACTUALIZAÇÃO: e quando a realidade, teimosamente, insiste em não se comportar como devia, vale tudo para convencer os néscios.
__________________

O gráfico abaixo foi apresentado pela administração Obama, em Janeiro de 2009, para ilustrar a imprescindibilidade e a racionalidade do pacote de "estímulos" aumento da despesa pública que viria a ser aprovado no Congresso no mês seguinte. No "boneco", figurava-se a evolução da taxa de desemprego que ocorreria caso não houvesse os tais "estímulos" (curva a cinzento claro) contrastando-a com aquela que se estimava vir a ocorrer na sua presença (curva de cor azul escura).

Imagem retirada daqui

Num simples exercício de fact-checking, ao gráfico original foi sobreposta a evolução real da taxa de desemprego (a vermelho) resultando de imediato a constatação de um "desvio colossal" entre os valores projectados (por via do recurso a um dado modelo econométrico (económico-matemático)) e os verificados. Como interpretar um tão colossal desvio? A típica explicação uberkeynesiana, o mesmo é dizer, krugmanita é a de que os "estímulos" (cerca de 800 mil milhões de dólares à altura, sem contar com os das vagas subsequentes) foram, claro está, insuficientes, explicação (?) cuja bondade, à partida, está completamente blindada quanto ao teste da sua eventual invalidade. Uma outra explicação, nas antípodas da krugmanita, é que a despesa pública injectada na economia, ao adiar o que seria o ajustamento natural da economia prolongou desnecessariamente a recuperação económica não sendo de excluir a hipótese de que a situação hoje (quase cinco anos depois, 7.3% em Outubro) poderia ser melhor caso não tivessem ocorrido quaisquer "estímulos"!
_______________________________________
Nota: ocorreu-me este pequeno apontamento após ter lido esta crónica de Rui Tavares (em plena "longa marcha" para o PS) que, evidentemente, também abraça a receita supostamente universal e infalível do caminho da "prosperidade" induzida pela crescente despesa e endividamento estatal com que Krugman, categórico, convoca os crentes.

domingo, 17 de novembro de 2013

O logro da inflação como algo supostamente benigno

Um par de dias depois do aniversário, a 15 de Novembro de 1923, do início do fim da devastadora hiperinflação da República de Weimar e numa altura em que regressam as Cassandras que anunciam a apocalíptica deflação para "justificar" conferir uma ainda maior aceleração à velocidade de operação das rotativas (hoje electrónicas) dos bancos centrais, creio oportuno insistir na tentativa de convocar o senso comum. É o que Simon Black volta a fazer em mais uma missiva, agora de Bangkok, que procurei traduzir como se segue:
15 de Novembro de 2013
Bangkok, Tailândia

Uma das maiores mentiras em matéria de finanças é este perpétuo logro de que a inflação é algo de bom.

Ben Bernanke, o actual sumo sacerdote da política monetária dos EUA, observou recentemente que é "importante evitar que a inflação nos EUA atinja valores excessivamente baixos".

Bem, claro, isso seria algo de indesejável, não é verdade? Imagine-se o caos e devastação que se seguiriam se o custo de vida de facto se mantivesse... digamos... o mesmo.

Estremece-se, só de pensar na estabilidade de preços.

Naturalmente que estou a brincar. A verdade é que a inflação beneficia aqueles que estão endividados até ao pescoço [a começar pelos estados] à custa dos que foram financeiramente responsáveis.

No entanto, os economistas encontraram forma de conseguir convencer as pessoas de que a inflação é justa e necessária. Todos sabemos que existe inflação. Mas fomos programados para a minimizar como se ela fosse uma parte natural do sistema.

Logro ainda maior constitui o modo como são divulgados os seus valores.

Os governos de todo o mundo mentem sobre a inflação; fazem-no porque a inflação tem um impacto enorme na política monetária.

A cartilha por que todos se regem é muito simples: seja a inflação "baixa" e os banqueiros centrais podem [têm "licença" para] imprimir dinheiro. Desde modo, é grande o incentivo que existe para a subavaliar.

Citando um relatório do Departamento do Trabalho dos EUA, por exemplo, numa manchete recente da Reuters afirmava-se que "Os preços no consumidor nos EUA sobem, mas a inflação subjacente é benigna".

Não tenho bem a certeza de como pode a inflação ser "benigna" quando os preços ao consumidor estão simultaneamente a subir.

E todavia, este é o duplipensar dos nossos dias proveniente do Ministério da Verdade entidade em quem todos nós somos supostos acreditar cegamente.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Eis a razão pela qual, segundo Krugman, os EUA não correm o risco de ser a Grécia

tal como no Reino Unido ou no Japão, lê-se aqui. O que têm estes países em comum? Uma tecnologia de que podem fazer uso à discrição sem ter que dar cavaco a ninguém. Ei-la:

Imagem retirada daqui

E andava o pobre Fausto às voltas com a alquimia... quando a "riqueza" está aí à disposição de todos. Acabem com a austeridade JÁ, caramba! De que estão à espera para nos enriquecer a todos?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Sowell: Janet Yellen faz as perguntas certas mas dá as respostas erradas

Thomas Sowell é uma referência frequente por estas bandas ainda que eu nem sempre concorde integralmente com ele (por vezes, até discordo em absoluto). No entanto, a sua lucidez aliada a uma invulgar capacidade para colocar ao alcance do leigo questões que outros procuram furiosamente obfuscar, alegando que a complexidade exige a utilização de um linguajar inintelegível, a clareza dos seus textos é admirável. Como exemplar é o seu exercício permanente de fact-checking como forma de sustentar a sua argumentação e daí o recurso frequente que faz à análise dos factos históricos.

No texto que assina hoje na Townhall a propósito da indicação de Janet Yellen para chairman do Fed, escolheu para o seu título uma pergunta: "A Return to Keynes?". Há fortes razões para supor que a resposta seja afirmativa (como Ron Paul também o assinala) embora o simples exame histórico contemporâneo - revisitando mitos extraordinariamente resilientes - devesse ser suficiente para que o keynesianismo fosse morto e enterrado. De vez. Como pelo contrário assistimos ao seu constante ressurgimento, talvez a resposta possa estar em que mais que o keynesianismo seja o estatismo a doença cancerígena de que padecemos e cujas metástases não param de crescer, pelo menos nos países ocidentais (que vêm pagando com o seu secular declínio).

Como é habitual, a tradução é da minha responsabilidade.
"A nomeação de Janet Yellen para chefiar o Sistema de Reserva Federal desencadeou uma onda de histórias nos media. Uma vez que ela será a primeira mulher a ocupar esse cargo, apenas podemos que isso não vá significar que qualquer crítica ao que ela venha a fazer não seja atribuída a discriminação sexual ou a uma "guerra contra as mulheres".

A Reserva Federal tornou-se num jogador determinante na economia americana que necessita de muito mais escrutínio e crítica do que tem recebido, independentemente de quem a lidera.

Janet Yellen, um ex-professora de economia em Berkeley, proclamou abertamente as suas opiniões sobre política económica, opiniões que merecem uma análise muito cuidadosa. Ela pergunta: "Será que as economias capitalistas funcionam no pleno emprego, na ausência de uma intervenção permanente e rotineira [por parte do Estado]?" E ela responde: "Claro que não".

Janet Yellen representa o tipo de keynesianismo económico que em tempos foi amplamente dominante no domínio teórico e na política económica como se se tratasse de uma religião nacional - até encontrar duas coisas: Milton Friedman e a estagflação da década de 1970.

No auge da influência keynesiana, acreditava-se que os decisores políticos governamentais poderiam escolher um judicioso trade-off [uma solução de compromisso] entre a taxa de inflação e a taxa de desemprego. A este trade-off foi dado o nome de Curva de Phillips, em homenagem a um economista da London School of Economics [que desde então nunca mais se ouviu falar...].

O professor Milton Friedman, da Universidade de Chicago, atacou a Curva de Phillips, nos planos teórico e empírico. Quando o professor Friedman recebeu o Prémio Nobel de Economia - o primeiro de muitos a ir para os economistas de Chicago, que eram os principais críticos da economia keynesiana - pareceu que a ideia da existência de um trade-off entre a taxa de inflação e a taxa de desemprego tivesse sido abandonada.

O descrédito último da teoria da Curva de Phillips foi o aumento da inflação e do desemprego, em simultâneo, na década de 1970, no que veio a ficar conhecido por "estagflação" - uma combinação de inflação crescente e de uma economia estagnada, com elevado desemprego.

Não obstante, os economistas keynesianos encenaram um regresso político durante a administração Obama. A nomeação de Janet Yellen para dirigir a Reserva Federal é o exemplo que coroa aquele regresso.

domingo, 13 de outubro de 2013

Quanto mais tempo irá o dólar manter-se como moeda de reserva?

É esta a pergunta que titula o artigo de Patrick Barron publicado ontem no Mises Institute e que me propus traduzir por abordar uma das questões centrais da evolução próxima da economia mundial: o ameaçado estatuto do dólar enquanto "moeda de reserva" - inteiramente decorrente das decisões de política monetária que o Fed tem praticado, particularmente desde o fecho da "gold window" -, e as consequências que daí poderão advir para os Estados Unidos e para todo o mundo. É provável que a recente nomeação, ainda a confirmar pelo Senado, de Janet Yellen para chairman do Fed apenas venha a acelerar as mudanças que são já sensíveis (e que Barron assinala no seu texto), pois não será de esperar outra coisa do seu mandato senão "mais do mesmo, em maior quantidade" - planeamento central monetário.
Quanto mais tempo irá o dólar manter-se como moeda de reserva?

Usamos a expressão "moeda de reserva" quando nos referimos à utilização corrente do dólar por outros países para saldar as suas contas no comércio internacional. Por exemplo, se o Canadá comprar produtos provenientes da China, poderá pagar em dólares, em vez de dólares canadianos, e vice-versa. Todavia, a base a partir da qual se originou a expressão já não existe [a ligação do dólar ao ouro], e hoje o dólar é denominado de "moeda de reserva" apenas porque os países estrangeiros detêm grandes quantidades de dólares para facilitar o comércio.

A primeira moeda de reserva foi a libra esterlina britânica. Porque a libra era tão "boa quanto o ouro", muitos países consideraram, durante a era do padrão-ouro, que seria mais conveniente deter libras em vez do próprio ouro. As grandes nações comerciais do mundo utilizavam o ouro como forma de pagamento no comércio internacional, mas elas podiam optar por deter libras em vez de ouro, confiando que o Banco de Inglaterra entregaria o ouro correspondente, a uma taxa de câmbio fixa, mediante a apresentação das libras. Perto do fim da II Guerra Mundial, foi atribuído ao dólar dos EUA esse estatuto através de um tratado internacional, na sequência do Acordo de Bretton Woods. O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi formado com o expresso propósito de monitorizar o compromisso da Reserva Federal para com Bretton Woods assegurando que o Fed não inflacionaria o dólar e respeitaria o compromisso de trocar dólares por ouro ao câmbio de 35 dólares americanos por onça. Desta forma, os países confiavam que os dólares que detinham para fins comerciais eram tão "bons quanto o ouro", como tinha ocorrido em tempos com a libra esterlina.

Todavia, o Fed não manteve o seu compromisso para com o Acordo de Bretton Woods e o FMI não tentou forçá-lo a deter o ouro suficiente para honrar, em ouro, toda a sua moeda em circulação, ao câmbio de 35 dólares por onça. O Fed foi testado nos finais da década de 1960, primeiro pela França e depois por outros países, até que as suas reservas de ouro atingiram níveis tão baixos que só lhe restavam duas alternativas: ou revalorizar o dólar a uma taxa de câmbio mais alta, ou revogar as suas responsabilidades quanto a honrar a troca, integral, de dólares por ouro. Para sua vergonha eterna, os EUA escolheram a última opção e "saíram do padrão-ouro" em Setembro de 1971.

Não obstante, o dólar continuou a ser utilizado pelas grandes nações comerciais, porque ainda executava a função útil de meio de pagamento no comércio internacional. Não havia outra moeda que pudesse ombrear com o dólar, apesar do facto de ele ter sido "desligado" do ouro.

domingo, 22 de setembro de 2013

Obama: “Aumentar o limite de endividamento... não aumenta a nossa dívida”

Andará Obama a ler os discursos presidenciais de Jorge Sampaio? Deixo ao juízo dos leitores a avaliação da razoabilidade de tal hipótese visionando o curto clip de 1'20'' abaixo (discurso completo aqui), começando por transcrever o trecho relevante (meu realce).
"Now, this debt ceiling — I just want to remind people in case you haven’t been keeping up — raising the debt ceiling, which has been done over a hundred times, does not increase our debt; it does not somehow promote profligacy. All it does is it says you got to pay the bills that you’ve already racked up, Congress. It’s a basic function of making sure that the full faith and credit of the United States is preserved..."

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Citação do dia (129)

The harm done…was that they removed economics from reality. The task of economics, as many [successors] of the classical economists practiced it, was to deal not with events as they really happened, but only with forces that contributed in some not clearly defined manner to the emergence of what really happened.

Economics did not actually aim at explaining the formation of market prices, but at the description of something that together with other factors played a certain, not clearly described role in this process. Virtually it did not deal with real living beings, but with a phantom, "economic man", a creature essentially different from real man.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sector eléctrico - benchmarking à espanhola


  • Capacidade instalada: 108.296 MW (2/3 em regime especial - eólicas, solar, etc. -, 1/3 em regime ordinário)
  • Pontas (picos) de procura: 45.000 MW
  • 30 mil milhões de défice tarifário (actualmente)
Estes são alguns dos resultados das 33 (trinta e três) reformas no sector eléctrico desde 1998 que os nossos vizinhos levaram a cabo no sector.

As minhas expectativas que, entre nós, o novel ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Ambiente, aporte alguma sanidade às políticas energéticas que têm vindo a ser seguidas entre nós são, falando claro, inexistentes. O consenso (particularmente o do silêncio) verificado após a sua nomeação acentuou esse sentimento. Oxalá me engane. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Da banalidade do PIB ao Produto Privado Interno Bruto

Encorajado por várias reacções positivas que tenho recebido quanto à publicação de traduções de alguns textos por mim escolhidos, ouso hoje dar agora um passo correndo o risco de alienar aqueles leitores que muito justamente abominam o "economês" até porque, para aqueles que se sujeitam à regular tortura mediática, são impiedosamente bombardeados com ele. Refiro-me, em concreto, à omnipresença do PIB a que tudo se pretende reduzir e cujo agregado, tipicamente, os governos tentam manipular na incessante busca de anúncios de um salvífico (e tantas vezes pífio) "crescimento". Daí que tenha achado que o breve ensaio de Robert Higgs que me propus traduzir possa ser útil para melhor se entender a verdadeira obsessão em que nos encontramos rodeados relativamente à evolução daquele agregado económico e esclarecer alguns (grandes) equívocos sobre o mesmo.

Robert Higgs
Higgs que, recorde-se, começou por ter recebido uma formação, que chegou mesmo à obtenção de um Phd em economia, segundo o paradigma neo-clássico (ou seja, um tanto grosseiramente, num quadro de um keynesianismo recauchutado), começa por recordar-nos que não foi pacífica a definição do conceito de PIB especialmente quanto à inclusão da despesa governamental no seu cálculo (Simon Kuznets, o grande impulsionador do sistema de contas nacionais, pelas quais recebeu o Nobel da Economia, foi contra essa inclusão). Enumera em seguida, explicando, algumas das principais razões que justificariam a sua exclusão do cálculo para concluir pela naturalidade da sua adopção pelos governos na configuração que se mantém desde a sua criação - faz jeito ao governo (a TODOS os governos) serem "promotores" e "agentes activos do crescimento".

Isso leva-o a construir e a calcular um novo "conceito" - o Produto Privado Interno Produto - na tentativa de melhor isolar o verdadeiro crescimento do produto interno - aquele produzido no sector privado. A conclusão que retira, após a análise da evolução do PPIB nos últimos 12 anos nos EUA é, não surpreendentemente, lúgubre.
"Nas décadas de 1930 e 1940, quando o moderno sistema moderno de contas  nacionais para a determinação do rendimento e do produto [NIPA] estava sendo desenvolvido, o "perímetro" do produto nacional foi um tema calorosamente debatido. Nenhuma questão provocou mais debate do que esta: deve o produto governamental ser incluído no produto bruto? Simon Kuznets (Nobel de Economia de 1971), o americano que deu o mais importante contributo para o desenvolvimento do sistema de contas nacionais, tinha grandes reservas quanto a incluir todas as compras de bens e serviços governamentais no produto nacional. Ao longo dos anos, outros elaboraram sobre as razões que ele então adiantou e outras razões foram entretanto aduzidas.

Porquê excluir o produto estatal? Em primeiro lugar, as actividades estatais podem ser vistas como dando origem a produtos intermédios em vez de produtos finais, mesmo que o governo seja fornecedor de serviços valiosos como o de fazer valer os direitos de propriedade privada ou o de promover a resolução de disputas. Em segundo lugar, porque não sendo os serviços públicos, na sua maioria, vendidos nos mercados, os seus preços não são determinados por eles [não resultam da interacção entre a procura e a oferta] para que possam ser usados no cálculo do seu valor total àqueles que deles beneficiam. Em terceiro lugar, porque muitos serviços públicos surgem por motivos políticos e não de motivações económicas ou de instituições, alguns deles podem ter pouco ou nenhum valor. De facto, alguns comentadores - onde se inclui o autor destas linhas - foram até ao ponto de  afirmar que alguns serviços públicos têm valor negativo: se lhes fosse dado escolher, as pessoas vitimizadas por esses "serviços" estariam dispostas a pagar para se livrar deles.