Um antídoto contra a barragem de propaganda da elite manipuladora, amplificada pelo habitual papaguear extasiado dos media convencionais, é a proposta que deixamos para o fim-de-semana. Ele consiste em uma recente alocução do professor Jesús Huerta de Soto em que este desmonta o que muito propriamente designa da "paranóia antideflacionista" que a elite propala a bem de uns beneficiários muito específicos. Uma hora de visionamento que, assim o julgamos, pode proporcionar um elevado retorno e permitir perceber por que razão coisas como esta possam estar a acontecer sem que o céu se abata sobre as cabeças dos (moderadamente) hereges.
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sábado, 6 de setembro de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Ascensão e (muito) provável queda do dólar americano
Julgo ter encontrado neste artigo de Robert P. Murphy - editor de um muito frequentado blogue para economistas, e autor de vários livros entre os quais o excelente Lessons for the Young Economist (dirigido à população juvenil do ensino secundário nas versões para aluno e professor) -, uma sucinta mas rica súmula da ascensão do dólar bem como da sua previsível queda. Murphy descreve o fim do padrão barra-ouro decretado por Franklin Roosevelt em 1933/34 (incluindo o episódio do roubo que perpetrou aos americanos quando lhes confiscou o ouro que detinham) e o novo arranjo monetário que lhe sucedeu, o dólar-ouro, saído da conferência de Bretton Woods e da "nova ordem internacional", dominada pelos EUA, que resultou da II Guerra Mundial. A meu ver, consegue proporcionar um relato inteligível a um qualquer leitor interessado sem todavia lhe escapar o essencial do porquê do papel privilegiado que o dólar tem proporcionado aos EUA durante todo este tempo. Termina o artigo a explicar as razões para a sua (muito) provável queda, que, a concretizar-se, antecipa fragorosa. Em suma, razões bastantes para que achasse útil traduzi-lo (eventuais erros da minha inteira responsabilidade).
16 de Maio de 2014
Por Robert P. Murphy
Ainda Não Aconteceu o Crash: Estavam os Economistas da Escola Austríaca
Errados relativamente ao Dólar?
Os críticos do governo dos EUA, com frequência, chamam a atenção para os perigos da moeda fiduciária. Com efeito, desde que Richard Nixon acabou com a ligação do dólar ao ouro (em 1971), muitos proponentes do "dinheiro sólido" alertaram para um crash do dólar. Isto levou os críticos destes "gold bugs" a ridicularizar as previsões aparentemente erradas destes últimos e dos seus excêntricos pontos de vista. Neste artigo irei percorrer algumas das principais questões nesta matéria. Como veremos, os gold bugs poderão vir a acabar por ser os últimos a rir.
Robert P. Murphy
Sob o padrão-ouro clássico, o dólar americano era convertível em ouro à paridade de 20,67 dólares por onça. Quando FDR [Franklin Delano Roosevelt N.T.] tomou posse em 1933, ele terminou com esta estrita ligação do dólar e confiscou o ouro da nação. (O famoso depósito de ouro em Fort Knox foi na realidade construído com a finalidade de armazenar o ouro roubado dos americanos).
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Esvaziando o mito da deflação
A uma mentira que mil vezes se repete só resta contrapor, com uma frequência equivalente, o seu rebatimento. Assim, face a múltiplas notícias que dão conta do papão deflacionista (por exemplo, Vítor Constâncio terá ainda ontem afirmado que (meu realce) “[e]speramos [no BCE] que o valor baixo de Março seja corrigido para um registo mais elevado em Abril”), volto a insistir no combate ao endeusamento da inflação como fenómeno essencialmente benévolo (se contido num valor "baixo") acompanhado do esconjurar da autêntica peste negra que a deflação representaria. Têm sido múltiplos os meus posts sobre o tema. Mas julgo ser preciso insistir. Primeiro, evocando Mises:
"O mais importante a recordar é que a inflação não é um acto de Deus, que a inflação não é uma catástrofe dos elementos ou uma doença que surge como uma praga. A inflação é uma política."Depois, procurando contribuir para a desmistificação do fenómeno deflacionário pela via de uma tradução, da minha responsabilidade (notas do texto original substituídas por links), de um texto de Chris Casey ontem publicado cujo título roubei para encimar o presente post.
2 de Abril de 2014
Por Chris Casey
Esvaziando o mito da deflação
O temor da deflação funciona como a justificação teórica para todas as acções inflacionistas levadas a cabo pela Reserva Federal e pelos bancos centrais em todo o mundo. É por isso que a Reserva Federal tem por objectivo uma taxa de inflação de preços de 2% e não de 0%. Em larga medida, esta é a razão que levou a Reserva Federal a mais do que quadruplicar a base monetária de Agosto de 2008 até hoje. E é, de forma notável, um enorme mito, pois não há nada de intrinsecamente perigoso ou prejudicial na deflação.
A deflação é temida não apenas pelos seguidores de Milton Friedman (os designados monetaristas ou membros da Escola de Chicago), mas também pelos economistas keynesianos. Um dos mais destacados keynesianos, Paul Krugman, num artigo do New York Times de 2010 intitulado "Por que é a deflação uma coisa má", apontou a deflação como a causa da contracção da procura agregada uma vez que "quando as pessoas têm a expectativa de que os preços vão baixar, elas tornam-se menos propensas a consumir, e, em especial, menos dispostas a contrair empréstimos".
Presumivelmente, ele acredita que este diferimento na despesa durará para todo o sempre. Mas sabemos por experiência própria que, mesmo em presença de uma descida de preços, os indivíduos e as empresas acabarão por, num dado momento, vir a comprar o bem ou serviço em questão. Não é possível renunciar eternamente ao consumo. Vemos isto suceder todos os dias na indústria da informática / electrónica: o valor da utilização de um iPhone ao longo dos próximos seis meses é superior ao da poupança que resultaria do adiar da sua compra.
sábado, 1 de março de 2014
Fim à austeridade?
Os leitores habituais do Espectador Interessado ter-se-ão dado conta do progressivo afastamento do ruído do dia-a-dia, próprio do "combate de blogues", para privilegiar um olhar mais sereno embora nem por isso menos incisivo e, quiçá, até mesmo mais "radical" sobre os temas que são alvo da atenção dos seus autores.
De facto, usando para aferição o número de posts (não) publicados, temos estado muito alheados dos "debates" (?) sobre uma suposta "espiral recessiva" e uma não menos suposta "recuperação redentora" (que, num momento de arrebatamento, chegou mesmo a ser apelidada de "milagre") decorrente da acção patriótica do governo de turno. Do mesmo modo, o interesse que manifestámos em exercícios de exegese económica ao ritmo da divulgação das mais variadas estatísticas, tem sido bastante diminuto. E não apenas porque, parafraseando Ronald Coase, os dados estatísticos, se sujeitos a suficiente tortura, acabarão por confessar tudo (e um par de botas). Por aqui, preferimos cingirmo-nos à aritmética elementar aliada ao bom senso. E, aqui chegados, é fácil concluir, à semelhança aliás do verificado nas situações de pré-bancarrota de 1978-1979 e de 1983-1985, que o "ajustamento" da economia portuguesa foi conseguido quase integralmente à custa do sector privado da economia, continuando o Estado estruturalmente tão rotundo quanto o era em Abril de 2011. Sem receitas extraordinárias, o défice do orçamento continuaria acima dos 5% do PIB e isto depois de uma punção fiscal de que não há memória, nem plano (ou vontade) para a aliviar.
É então a austeridade inevitável? A resposta a esta pergunta depende do que entendamos por "austeridade". Constituirá "austeridade" ter um défice orçamental superior a 5% do PIB? Constituirá austeridade a situação de "risco" de inclusão nas contas públicas de outras rubricas que sempre lá deveriam ter estado? Há uns meses atrás, João Cortez proporcionou-nos uma boa tradução de um excelente texto de Franz Hollenbeck intitulado "As três formas de austeridade" que aconselharia agora a (re)ler. Na 5ª feira, dia 27 de Fevereiro, Mark Thornton, a propósito da nova proposta de orçamento de Obama onde este proclama a necessidade de pôr "fim à austeridade", volta ao tema que continua a ser alvo de basta mistificação. A "actualidade estrutural" do texto de Thornton compeliu-me a traduzi-lo. (Todos os erros que possam decorrer da tradução são da minha responsabilidade, bem assim como das notas introduzidas.)
O presidente Barack Obama divulgou recentemente a sua proposta de orçamento na qual apela ao "fim da austeridade". Esta é uma declaração surpreendente por parte de um presidente sob cuja administração a despesa pública federal atingiu a maior percentagem de sempre no PIB e em que a dívida pública aumentou mais do que no conjunto de todos os presidentes que o precederam. O que entenderá ele por austeridade?
Há manifestações pelo mundo fora contra a austeridade quase todos os dias. Ela é condenada por constituir um veneno em tempos económicos difíceis, enquanto outros a tomam pelo elixir contra as depressões económicas.
Mark Thornton
A rejeição da austeridade pelo presidente representa a visão keynesiana, que rejeita completamente a austeridade em favor da abordagem às recessões conhecida por "pedir emprestado e gastar" - a de fazer crescer a procura agregada. O que ele na realidade está a rejeitar são as reduções infinitesimais na taxa de crescimento da despesa e os obstáculos políticos a novos programas de despesa.
Embora os níveis de despesa nos orçamentos entre 2009 e 2012 tenham permanecido relativamente constantes, eles foram ainda assim 15% superiores ao de 2008 e 75% mais elevados que os verificados na década anterior. Este salto na despesa nestes quatro anos foi financiado com um aumento de 5 milhões de milhões de dólares da dívida pública. Austeridade, aqui? Nenhuma!
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Os Escolásticos de Salamanca e a Ciência Económica: uma lição magistral por Jesús Huerta de Soto
Uma excepcional oração de sapiência por parte do incontestável líder da Escola Austríaca em Espanha (Philipp Bagus, um seu jovem discípulo bem conhecido, está sentado entre a assistência), proferida na homenagem a Diego de Covarrubias (um dos escolásticos do "século de ouro" espanhol, proferida na catedral de Segóvia, em Novembro passado. Jesús Huerta de Soto apresenta o caso da Escolástica tardia espanhola para "reivindicar" as raízes da Escola que Carl Menger, em 1871, viria a iniciar. Traçando sucessivos paralelos entre os ensinamentos de então e os caminhos que a doutrina económica dominante assumiu nos sécs. XX e XXI, com as terríveis consequências que hoje conhecemos e atravessamos, Huerta de Soto aponta o dedo da responsabilidade a Adam Smith (como Murray Rothbard já o havia feito). Absolutamente fascinante, para quem se interessa pela história económica.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Por que o establishment tudo faz e fará por ignorar os austríacos
Chris Rossini é um dos meus bloggers preferidos. Neste seu artigo, ilustra com clareza e acutilância que, ao contrário da narrativa única convencional veiculada pelos media de "referência", existe de facto uma escola de pensamento económico alternativa à amálgama indiferenciadora como os "economistas" são frequentemente apresentados. De facto, a Escola Austríaca, porque explicitadora de relações de causa e efeito fundadas no estudo da acção humana, é capaz de fornecer explicações ricas e intelegíveis (não fundadas em animal spirits nem apelar à providencial acção de alienígenas) e, centralmente, porque está dotada de uma capacidade preditiva que será surpreendente para muitos. Para os "austríacos", por exemplo, a ocorrência de "consequências não intencionais", na sequência de práticas intervencionistas governamentais, nada tem de misterioso sendo tudo menos surpreendentes (porque são previsíveis). E, sobretudo, mercê da designada teoria austríaca dos ciclos económicos, antecipar a eclosão de bolhas e subsequentes e inevitáveis estouros. Numa altura em que se sucedem os recordes bolsistas (nos EUA, de todos os tempos apesar, por exemplo, disto e disto) e sem que se observem nas economias sinais reais de pujança económica (muito pelo contrário), seria bom atender ao que vozes como Marc Faber, Jim Rogers ou Peter Schiff vêm insistentemente chamando a atenção. Para que não voltemos a assistir a coisas como esta. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Sábado, 16 de Novembro de 2013
Da Bloomberg View:
Os economistas há muito que sustentam não se dever esperar deles que prevejam crises, como a que quase afundou a economia global, há cinco anos atrás.Será que todos os "economistas" pensam em uníssono? Claro que não. Os economistas "austríacos" previram os estouros dos mercados imobiliários e bolsistas mas, infelizmente, [os media] fizeram orelhas moucas às suas previsões. Quando não foram ridicularizados.
Depois das bolhas terem rebentado, aos economistas austríacos não lhes foram solicitados conselhos quanto à forma de evitar situações semelhantes no futuro. Pelo menos por parte dos media do mainstream [de "referência"]. Inversamente, o interesse público pela escola austríaca tem vindo a explodir na internet.
Deve sublinhar-se que os economistas austríacos não caíram agora das nuvens para prever a eclosão das bolhas mais recentes. Dois austríacos muito bem conhecidos (Ludwig Von Mises e F. A. Hayek) alertaram para o crash de 1929, aviso que também à época caiu em saco roto.
F. A. Hayek e Ludwig von Mises
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
A Ciência é mais que a Matemática (particularmente nas ciências sociais)
Como tinha ameaçado, regresso ao tema do papel da matemática (e em particular da estatística) em Economia como aliás, genericamente, nas diferentes ciências sociais. Em post anterior, tinha observado que mesmo numa ciência física como é a climatologia se constata, apesar da propaganda dos que continuam a teimar que "a ciência está estabelecida", existir uma crescente dissociação entre a modelação dos efeitos da crescente concentração de CO2 e a realidade tal como ela é observada e medida. Estranhamente, muitos daqueles que escolhem ignorar este facto (ocorre-me, no plano doméstico, a generalidade da redacção do Público...) são muito menos tolerantes para aquilo que designam de "erros" de previsão económica atribuíveis, presume-se, a mera incompetência técnica (ou, de quando em vez, a lapsos na respectiva folha de Excel de suporte ao "modelo"). E é aqui que se entra no domínio das intermináveis, e de resto inúteis, discussões sobre os "verdadeiros" valores dos multiplicadores. Como se estivéssemos a falar da utilização de constantes equivalentes, sei lá, àquelas próprias da física e da química. Ora a questão é exactamente essa: NÃO EXISTEM constantes em ciências sociais. Retrospectivamente, poder-se-á dizer que, no âmbito de um dado "modelo", uma constante, isto é, um dado "multiplicador", foi de "X". Mas esse é um conhecimento que só se adquire a posteriori sem que haja qualquer garantia que se repetirá no futuro. E que outra coisa poderia suceder quando o sujeito da investigação não é uma pedra ou um robot mas sim a pessoa humana?
Esta era a oportunidade que aguardava para publicar uma tradução deste interessante artigo de Christopher Westley sendo que, por coincidência, o Instituto Mises Brasil também fez publicar uma outra tradução na 3ª feira passada e de que aliás me socorri, pelo que me resta agradecer-lhe.
Em Abril deste ano, o ilustre biólogo de Harvard, E.O. Wilson, escreveu um artigo no Wall Street Journal sobre as limitações da utilização da matemática nas ciências. Natural de Mobile, Alabama - mais conhecido como o Pai da Sociobiologia - defendeu que a capacidade para formular contribuições conceptuais científicas não exige necessariamente especiais competências matemáticas ou mesmo uma componente matemática. Wilson concluiu que "afortunadamente, uma fluência matemática excepcional apenas é necessária em algumas disciplinas, como a física de partículas, a astrofísica e a teoria da informação. Para todas as outras disciplinas científicas é bem mais importante a capacidade para formular conceitos, actividade para a qual o investigador convoca imagens e processos por intuição". O próprio Wilson observou que ele próprio só aprendera cálculo depois dos seus 30 e poucos anos - após conseguir um lugar no quadro em Harvard - e lamenta a perda de conhecimento científico resultante do abandono de potenciais contribuidores [ao desenvolvimento de um dado ramo científico] quando optam por outras carreiras devido à sua deficiente formação matemática.
Clicar para ver melhor
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Por que razão o estado gosta de amedontrar as pessoas
Aproveitando a boleia proporcionada pela citação do dia, cabe fazer notar que um dos temas recorrentes aqui pelo blogue - a devastação económica causada pelas políticas "verdes" em prol da "descarbonização" - só existe pela conjugação, sequencial e acumulada, de três factores: 1) a sedimentação da ideia que o Homem é, pelo menos desde os alvores das revoluções industrial e agrícola, o maior inimigo da Mãe Natureza e, aliás, de si próprio, o que "justifica" a necessidade de o controlar (se necessário for, de forma drástica, limitando o seu número); 2) a periódica instalação na opinião pública de crenças em desastres iminentes, imputáveis à actividade humana, de proporções bíblicas (nas últimas décadas, o expoente máximo é o "aquecimento global" convenientemente embrulhado num falso "consenso científico") que obrigam a "medidas imediatas e continuadas"; e, por fim, 3) a captura do estado pelos grupos de interesse especial fazendo valer a coerção legal que só aquele proporciona para atingir os fins quepretendem, alavacando princípios bem conhecidos da messiânica burocracia estatal.
Poderia referir vários outros exemplos mas este bastará para ilustrar o ponto de que o medo é o veículo por excelência da instalação do "estado de necessidade", da "emergência", de que "algo tem que ser feito, e JÁ!". Recorrendo novamente a H. L. Mencken:
Poderia referir vários outros exemplos mas este bastará para ilustrar o ponto de que o medo é o veículo por excelência da instalação do "estado de necessidade", da "emergência", de que "algo tem que ser feito, e JÁ!". Recorrendo novamente a H. L. Mencken:
"The urge to save humanity is almost always only a false-face for the urge to rule it. Power is what all messiahs really seek: not the chance to serve."
Chris Rossini, em Why The State Likes To Frighten You, glosa este tema, na realidade o tema do Leviatã. Segundo ele, só pensando a prazo - jogando o "jogo longo" - será possível inverter o longo ciclo ascendente do estatismo. À semelhança de Gary North, também deixa uma nota de optimismo. Pareceu-me interessante poder proporcionar uma tradução do seu texto.
Chris Rossini
30 de Outubro de 2013
"Muitos libertários e economistas da escola austríaca afirmam consistentemente que a batalha na qual estamos empenhados é uma batalha de ideias. A educação é fundamental. Por outras palavras, aqueles que subscrevem este ponto de vista acreditam convictamente em ganhar o "jogo longo" [a longo prazo]. Aquele que vencer o jogo longo, ganha.
O Estado é impotente contra um público educado (motivo pelo qual os seus defensores apreciam de modo tão vincado o monopólio da "educação pública").
A internet proporcionou um meio para tornear esse monopólio, pelo que muitos libertários se dedicam a tentar mudar uma mente de cada vez, com os olhos postos no futuro. A internet também tornou global o campo de jogo. É tão importante para um neozelandês entender as ideias do livre mercado e da liberdade como o é para um americano. O poder das ideias não tem fronteiras geográficas.
A oposição, por outro lado, é com frequência muito orientada para o "jogo curto". Se alguém estiver sedento de poder, procurará exercer esse poder agora. Pretenderá que as pessoas obedeçam agora. A educação é demorada. Mas só há 4 anos de mandato. O que não é muito tempo. Com frequência, as pessoas ficam presas nos caminhos que trilharam, para o bem e para o mal. A educação necessita de muito esforço e persistência.
Por isso, não deveria constituir nenhuma surpresa que aqueles que ocupam o poder optem por um caminho rápido para conseguir o que pretendem. Qual é a maneira mais rápida, perguntar-se-á? O medo... e não apenas um qualquer medo antigo, mas um medo que leve as pessoas a agir, a submeter-se, e a obedecer agora mesmo.
domingo, 27 de outubro de 2013
A mentira, que permanece, de ser possível ter "algo a troco de nada"
Um artigo a meu ver muito interessante, o do australiano Vern Gowdie - Money Printing: Everything Old is New Again - onde se aborda, com o adequado enquadramento histórico, o sempiterno mito da obtenção da prosperidade a troco de nada e das consequências para aqueles que teimam em persegui-lo. É certo haver por aí, ao que leio, quem contraponha que há um implícito "calvinismo" nessa análise uma qualquer forma de calvinismo perante a evidente injustiça do que seria não se poder decretar a prosperidade através de um qualquer édito governativo (desde que financiado pelas impressora do banco central respectivo, o alquimista dos nossos dias).
A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"A única coisa nova no mundo é a história que não se conhece." - Harry S. Truman
Embora o mundo tenha evoluído ao longo dos séculos, as emoções humanas permaneceram as mesmas - felicidade, tristeza, ciúme, ganância, medo.
A classe dirigente e a classe trabalhadora são igualmente afectadas por estas emoções.
A procura pela opção da facilidade é uma outra fragilidade humana que resistiu ao teste do tempo.
É por estas razões que estamos destinados a repetir os mesmos erros dos nossos antepassados.
A mentalidade de [procurar obter] "algo a troco de nada" tornou-se tão arreigada na nossa cultura que perdemos o sentido da objectividade e da realidade. A história está repleta de exemplos do quão mal terminam as histórias das expectativas de privilégios.
Os políticos prometem "algo" financiado por moeda criada no éter. Os cidadãos são levados a ter expectativas quanto a "direitos" [aspas minhas] pagos pelos impostos de outros. Os consumidores são instados a comprar "algo" com o dinheiro que não têm (crédito).
Centrais (trocadilho intencional) neste jogo de ilusão são os nossos banqueiros centrais. As suas impressoras estão a manter a farsa económica global do "algo a troco de nada" no modo de suporte à vida.
Prova do quão precário se tornou este castelo de cartas de "algo a troco de nada" foi a recente publicação das minutas do Fed americano. Alguns dos membros do seu conselho de governadores tiveram a ousadia de questionar os méritos do Quantitative Easing (impressão de dinheiro [sob a forma de "flexibilização quantitativa"]). A mera "bolha mental" foi suficiente para levar Wall Street a um tremor temporário.
Imagine-se o que sucederia se os bancos centrais da Europa, do Japão, da China, do Reino Unido e dos EUA, de facto dissessem: "já basta e, daqui em diante, acabará toda esta absurda impressão de moeda". Os mercados ficariam apoplécticos. A história, enfaticamente, diz-nos que este é o nosso destino.
De Roma para Espanha para Washington
O Fed é o mais recente uma longa série de manipuladores de moeda. Esta prática enganosa remonta à Roma Antiga. Na tentativa de financiar as exigências de um império em expansão, sucessivos imperadores romanos "imprimiram mais moeda" ao diminuírem gradualmente o teor de prata das moedas com metais mais baratos. Nota: este passe de mágica não terminou bem para os romanos.
sábado, 26 de outubro de 2013
As economias não são destruídas num único dia
O texto abaixo é uma tradução minha do artigo de Nicolás Cachanosky, "Economies are Not Destroyed in a Day" (de onde roubei o título para o post), publicado ontem no Mises Institute. Originalmente escrito em língua espanhola e ainda que direccionado ao público argentino, porque nele se inspeccionam conceitos comummente invocados no linguajar comunicacional de hoje (entre outros, "crescimento económico", "recuperação económica", "capacidade de produção", etc.), creio que a sua leitura também permite lançar luz sobre a leitura da evolução verificada na realidade económica portuguesa. Em particular, indicando razões para o medíocre crescimento económico verificado na década passada apesar dos elevados níveis de investimento.
"No começo deste mês, o principal jornal conservador da Argentina, La Nación, publicou um editorial não assinado comparando a economia da Argentina à da Venezuela. A publicação concluiu que à medida que a liberdade económica na Argentina diminui, e que prossegue a adopção do que Chávez designou por "socialismo do século XXI", a Argentina está cada vez mais parecida com a Venezuela. Será isto verdade? Irá a Argentina sofrer o mesmo destino que a Venezuela, onde a pobreza está a aumentar e o papel higiénico pode ser considerado um luxo?
As semelhanças das regulamentações e problemas económicos que ambos os países enfrentam são realmente impressionantes, apesar das diferenças óbvias entre os dois países. No entanto, quando as pessoas são confrontadas com as semelhanças, é comum ouvir respostas como "mas a Argentina não é a Venezuela, temos mais infra-estruturas e recursos".
São as transformações institucionais, no entanto, que definem o destino a longo prazo de um país, não a sua prosperidade no curto prazo.
Imaginemos que Cuba e a Coreia do Norte se tornavam, de um dia para o outro, nos dois países que em todo o mundo mais defendiam o livre mercado e a intervenção estatal limitada. Os dois países alcançariam de imediato as liberdades civis e a liberdade económica, mas teriam ainda que acumular riqueza e desenvolver as suas economias. A mudança institucional afecta imediatamente a situação política, mas uma nova economia exige tempo para que possa ganhar forma. Por exemplo, quando a China abriu partes da sua economia aos mercados internacionais, o país começou a crescer, e estamos agora a assistir aos efeitos de décadas de relativa liberalização económica. É verdade que em muitas áreas na China continuam em falta liberdades significativas, mas hoje haveria uma China muito diferente caso [o governo chinês] se tivesse recusado a mudar as suas instituições há décadas atrás.
O mesmo ocorreria se um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo adoptasse as instituições cubanas ou norte-coreanas de um dia para o outro. A riqueza e o capital não se desvaneceriam em 24 horas. O país iria passar de um processo de acumulação de capital para um processo de consumo de capital e poderia levar anos ou até mesmo décadas a esgotar os cofres da riqueza anteriormente acumulada. No interim, o governo teria os recursos para jogar o jogo do socialismo populista bolivariano (i.e., venezuelano) e desfrutar da riqueza, das estradas, da infra-estrutura eléctrica e das redes de telecomunicações que foram o resultado das realidades institucionais do passado, mais orientadas à economia de mercado.
De acordo com o Índice de Liberdade Económica no Mundo do Instituto Fraser, a Argentina ocupava o 34º lugar no ano de 2000. Em 2011, no entanto, a Argentina caíra para 137º, ao lado de países como o Equador, o Mali, a China, o Nepal, o Gabão e Moçambique. Não há nenhuma dúvida de que a Argentina desfruta de maior desenvolvimento e riqueza do que aqueles outros países. Mas poderemos continuar a ter a certeza de que essa será a situação daqui a 20 ou 30 anos? A presidente argentina é conhecida por ter afirmado que gostaria de tornar a Argentina num país parecido com a Alemanha, mas o caminho para se tornar numa Suíça ou numa Alemanha implica a adopção de instituições do tipo das suíças e das alemãs, que não é o que a Argentina está a fazer.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Ciclos económicos e arranha-céus
Doug French, usando uma ferramenta de análise desenvolvida por Mark Thornton em "Arranha-céus e ciclos económicos", alerta para a existência de um sinal de alerta vermelho - a possibilidade de uma forte correcção bolsista num prazo não muito distante em Skyscraper Index is Flashing Red Alert, publicado no Insituto Mises do Canadá.
Ainda que o quadro conceptual usado nesta previsão possa ser tida por alguns como, digamos, algo exótico, creio bem que ela está em linha com as análises de outros analistas que, com regularidade, daqui tenho dado eco (entre outros, Marc Faber, Jim Rogers, Peter Schiff, Jim Grant, Doug Casey ou Simon Black). A responsabilidade pela tradução que se sege é, como habitualmente, minha.
Ainda que o quadro conceptual usado nesta previsão possa ser tida por alguns como, digamos, algo exótico, creio bem que ela está em linha com as análises de outros analistas que, com regularidade, daqui tenho dado eco (entre outros, Marc Faber, Jim Rogers, Peter Schiff, Jim Grant, Doug Casey ou Simon Black). A responsabilidade pela tradução que se sege é, como habitualmente, minha.
O Índice de Arranha-céus está vermelho intermitente
Coloquem os vossos capacetes, pois há um colapso que se aproxima. Os promotores afadigam-se para construir o prédio mais alto do mundo. A economia da China pode estar a abrandar, mas 60 dos 100 mais altos edifícios em construção no mundo estão lá localizados.
O Broad Group está a construir o prédio mais alto do mundo em Changsha, capital da província de Hunan. A empresa iniciou a escavação das fundações do edifício "Sky City", de 202 andares, nos finais de Julho. Normalmente, apontar-se-ia para que a conclusão do Sky City, com uma altura de 838 metros, estivesse a anos de distância da sua conclusão. Mas este é um edifício para ser concluído em apenas quatro meses, utilizando módulos pré-fabricados.
O presidente do Broad Group, Zhang Yue, atrasou um pouco o projecto, por razões de segurança, mas promete terminá-lo em Junho ou Julho do próximo ano. "Quaisquer que sejam as dimensões dos obstáculos, irei com toda a certeza superá-los para garantir que este projecto seja concluído", declarou Zhang ao jornal The New York Times.
A relação entre os arranha-céus e os crashes bolsistas foi exposta no artigo "Arranha-céus e ciclos económicos", pelo professor Mark Thornton, publicado na edição da Primavera de 2005 do The Quarterly Journal of Austrian Economics [link].
Thornton, utilizando o "Índice de Arranha-céus" [link] do economista Andrew Lawrence em conjugação com a teoria austríaca dos ciclos económicos, veio a descobrir que o índice de arranha-céus é um bom preditor [i.e., um "indicador avançado"] de crise económicas e que "quer as causas dos arranha-céus atingirem novos recordes de altura quer as dos severos ciclos económicos estão relacionadas com a instabilidade no financiamento da dívida...".
O primeiro "ciclo de arranha-céus" iniciou-se em 1904 em Nova Iorque, quando começou a construção do edifício Singer, de 47 andares, e do edifício de 50 andares da Metropolitan Life. Este boom de construção foi rapidamente seguido pelo Pânico de 1907 [link].
Nos finais da década de 1920, Wall Street vivia a euforia. Três torres recordistas - Wall Street 40, Chrysler Building, e o Empire State Building - iniciaram a sua construção, ainda que só viessem a ser concluídas após o crash da bolsa de 1929 e o início da Grande Depressão. O Empire State Building foi concluído em 1931. Inicialmente apelidado de "Empty [vazio] State Building", levou cerca de duas décadas a para que fosse totalmente ocupado.
O terceiro ciclo começou com o início da construção da Torre Sears, em Chicago, em 1970, e do World Trade Center, em Nova Iorque, cuja construção se iniciou em 1966. Quando finalmente esses projectos se concluíram, a economia dos EUA viu-se mergulhada na estagflação.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
A ler e a reflectir
sobre o texto de Frank Hollenbeck, "The Three Types of Austerity", publicado ontem no Mises Daily, e traduzido excelentemente por João Cortez.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Citação do dia (129)
The harm done…was that they removed economics from reality. The task of economics, as many [successors] of the classical economists practiced it, was to deal not with events as they really happened, but only with forces that contributed in some not clearly defined manner to the emergence of what really happened.
Economics did not actually aim at explaining the formation of market prices, but at the description of something that together with other factors played a certain, not clearly described role in this process. Virtually it did not deal with real living beings, but with a phantom, "economic man", a creature essentially different from real man.
Ludwig von Mises, The Ultimate Foundation of Economic Science
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Mitos persistentes: a deflação é um fenómeno a evitar
Frank Hollenbeck, professor na Universidade Internacional de Genebra, em What’s So Scary About Deflation?, desmonta o mito associado à suposta malevolência de uma baixa de preços sustentada no tempo. Um conhecimento de história económica (na parte não suprimida pelas universidades), deveria ser suficiente para descartar uma tese tão cara à generalidade dos economistas que constitui um "terror" para os banqueiros centrais. Já por aqui falei várias vezes do fenómeno, perceptível para o grande público pelo menos desde há 20 anos) que o sector das tecnologias de informação e telecomunicações é um gigantesco exemplo da infirmação da tese dos malefícios da deflação.
O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
Quando se fala de deflação, o pensamento económico dominante torna-se não na ciência do senso comum, mas na ciência do absurdo. A maioria dos economistas de hoje são rápidos a afirmar que "um pouco de inflação é uma coisa boa", e temem a deflação. Claro que, nas suas vidas privadas, esses mesmos economistas vasculham os jornais em busca dos mais recentes produtos à venda.
A pessoa que melhor simboliza o medo de deflação é Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal. A interpretação que fez da Grande Depressão enviesou em muito a sua opinião contra a deflação. É verdade que a Grande Depressão e a deflação andaram de mãos dadas em certos países; mas nós devemos ter o cuidado de distinguir entre associação [correlação] e causalidade, e avaliar correctamente o sentido da causalidade [itálico meu]. Um estudo recente de Atkeson e Kehoe [link], abrangendo um período de 180 anos em 17 países, não detectou relação alguma entre deflação e depressões. Na realidade, o estudo encontrou um maior número de episódios de depressão acompanhados de inflação do que de deflação. Durante este período, em 65 dos 73 episódios de deflação não ocorreram depressões, e em 21 das 29 depressões não sucederam episódios de deflação.
Uma deflação sui generis (daqui)
O principal argumento contra a deflação é o de que quando os preços estão em queda, os consumidores irão adiar as suas compras para aproveitar preços ainda mais baixos no futuro. É claro que é suposto que tal situação conduza à redução da procura corrente, o que fará com que os preços caiam ainda mais, e assim por diante, até entrarmos numa espiral deflacionária/depressiva da economia. O sentido da causalidade é claro: a deflação provoca depressões. É possível encontrar este argumento em quase todos os livros de texto introdutórios de Economia. O Fed de St. Louis escreveu recentemente:
"Embora a ideia de preços mais baixos possa soar atractiva, a deflação é uma preocupação real por vários motivos. A deflação desencoraja a despesa e o investimento porque, ficando os consumidores na expectativa que os preços venham a cair ainda mais, eles diferem as suas compras preferindo pelo contrário poupar, esperando por preços ainda mais baixos. A redução da despesa, por sua vez, reduz as vendas e os lucros das empresas o que, finalmente, conduz ao aumento do desemprego."
sábado, 22 de junho de 2013
Eis os economistas que explicaram cada uma das crises no último século (não, Krugman não é um deles)
Pierre-Guy Veer assina Meet the Economists Who Have Explained Every Crisis Of the Last Century (No, Krugman Isn't One Of Them), um despretensioso mas a meu ver bem elegante e conciso artigo sobre a interpretação "austríaca" da crise que que se iniciou em 2008 (e que ainda persiste) bem como as crises precedentes dos últimos cem anos. O foco de atenção dirige-se, naturalmente, para o sistema monetário fiat em que vivemos, manipulado a bel-prazer por governos e bancos centrais, bem como para o vigente sistema bancário de reservas fraccionárias.
Uma das críticas recorrentes aos economistas do mainstream é que eles estão permanentemente a "errar as previsões" (e não é só Vítor Gaspar, ou o FMI...). Claro que erram, mas não porque não saibam fazer contas. Essa é uma crítica que passa muito longe do alvo. O que na realidade se passa é que os "erros" são inevitáveis pois é impossível subsumir os milhões de milhões de decisões que todos os dias são tomadas pelas pessoas, seja no plano individual seja nos diferentes planos de interacção humana (família, emprego, amigos, vizinhança, etc.), e que a única coisa certa é que elas serão diferentes das do dia seguinte (ad infinitum). Por definição, o ser humano é imprevisível. As pessoas não são pedras. Nem, felizmente, robots. Por isso, todos aqueles que reclamam o estatuto de ciência para a disciplina de Economia, tendo a Física por referência - onde, aí sim, os fenómenos se podem prever - estão destinados a um inapelável e rotundo fracasso. Isso não significa que não possa haver, como há, a identificação de padrões que possibilitem maiores ou menores graus de previsibilidade. (Peter Schiff, um "austríaco" com um excelente registo preditivo, faz aqui o que é a meu ver um excelente exercício. A conclusão a que chega, que subscrevo, leva-o a aconselhar os seus leitores a "pôr o cinto" - a turbulência que aí vem vai ser muito severa.)
A tradução é da minha responsabilidade como é minha a autoria do roubo do título do post.
Uma das críticas recorrentes aos economistas do mainstream é que eles estão permanentemente a "errar as previsões" (e não é só Vítor Gaspar, ou o FMI...). Claro que erram, mas não porque não saibam fazer contas. Essa é uma crítica que passa muito longe do alvo. O que na realidade se passa é que os "erros" são inevitáveis pois é impossível subsumir os milhões de milhões de decisões que todos os dias são tomadas pelas pessoas, seja no plano individual seja nos diferentes planos de interacção humana (família, emprego, amigos, vizinhança, etc.), e que a única coisa certa é que elas serão diferentes das do dia seguinte (ad infinitum). Por definição, o ser humano é imprevisível. As pessoas não são pedras. Nem, felizmente, robots. Por isso, todos aqueles que reclamam o estatuto de ciência para a disciplina de Economia, tendo a Física por referência - onde, aí sim, os fenómenos se podem prever - estão destinados a um inapelável e rotundo fracasso. Isso não significa que não possa haver, como há, a identificação de padrões que possibilitem maiores ou menores graus de previsibilidade. (Peter Schiff, um "austríaco" com um excelente registo preditivo, faz aqui o que é a meu ver um excelente exercício. A conclusão a que chega, que subscrevo, leva-o a aconselhar os seus leitores a "pôr o cinto" - a turbulência que aí vem vai ser muito severa.)
A tradução é da minha responsabilidade como é minha a autoria do roubo do título do post.
Muitas pessoas ainda acreditam que o lamaçal económico em que estamos atolados era imprevisível ou, então, causada pela desregulamentação massiva - apesar do facto de que a actividade estatal nunca ter realmente diminuído. São falsas ambas as afirmações. Cada uma das crises económicas dos últimos 100 anos era previsível (por vezes também prevista) foi causada pela intervenção estatal na economia.
Na verdade, parece que algumas pessoas, em 2013, começaram a compreendê-lo. O Dr. Emanuele Canegrati, economista sénior junto do Parlamento italiano, foi mesmo ao ponto de dizer que Ludwig von Mises, o já falecido economista americano natural da Áustria, e a sua Escola Austríaca de economia tinham razão quando defendiam a sua teoria sobre os ciclos económicos e a inflação.
Ludwig von Mises
Que teoria é essa? Apesar do que os keynesianos como Paul Krugman afirmam, a escola austríaca de economia não é um culto. É uma ciência séria que se baseia na praxeologia, ou seja, no estudo da acção humana e da escolha. Ao contrário dos átomos ou dos animais em laboratórios, é quase impossível estudar as acções dos seres humanos num ambiente experimental, uma vez que é quase impossível observar condições ceteris paribus (mantendo tudo o resto constante). Consequentemente, a praxeologia só pode analisar os efeitos, não as motivações, do comportamento humano. Não obstante, ela vai bem longe na explicação das teorias da Escola Austríaca.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O logro do estímulo ao consumo
Segundo relata o Jornal de Negócios, François Hollande, fazendo juz ao cognome justamente conquistado, aceita, notem bem, aceita, levar a cabo no seu país as reformas que a Alemanha lhe sugere se, notem bem, se em contrapartida (!), a sra. Merkel fizer subir os salários alemães, para "apoiar a procura interna" para assim, nisto depositando a sua fé, conseguir reactivar a economia francesa "poupando" os franceses dos excessos de austeridade do rigor.
Para os crédulos de que acreditam que Robinson Crusoe e Sexta-Feira, para conseguirem prosperar na sua ilha deserta, desataram a consumir o que a natureza lhes pôs à disposição (afinal de contas, parafraseando Keynes, a longo prazo estarão ambos mortos...), talvez este pequeno vídeo possa ajudar a explicar que a prosperidade - isto é, o crescimento económico - só pode assentar na precedência da produção sobre o consumo e não no inverso (para uma explicação mais elaborada e completa, ver aqui).
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Produção versus Consumo ou a diferença entre um economista e Lorde Keynes
Na sequência de Uma dose de senso comum: qualquer idiota consegue consumir, e com a devida vénia a António Costa Amaral pela indicação do texto de George Reisman - Production versus Consumption - onde se contrastam as "duas teses fundamentais" da teoria e vida económicas dos últimos dois séculos, entendi por útil traduzi-lo pois a oposição veiculada no seu título constitui o cerne do debate político e económico dos nossos dias. Por um lado, temos aqueles que sustentam ser o consumo que induz a expansão da produção (que traduzi, à falta de melhor termo, por visão "consumista" [consumptionist] da economia); a esta opõe-se a teoria "producionista" [productionist] que defende que só a expansão da produção, possibilitada pela acumulação de capital, pode proporcionar o acréscimo do consumo. O texto é algo longo mas creio valer a pena a sua leitura integral para a qual não é necessária nenhuma iniciação em economês, apenas o recurso ao raciocínio lógico.
Existem duas visões fundamentais da vida económica. Uma dominou a filosofia económica do século XIX, sob a influência dos economistas clássicos britânicos, como Adam Smith e David Ricardo. A outra dominou a filosofia económica do século XVII, sob a influência do mercantilismo, e voltou a dominar a filosofia económica do século XX, em boa medida devido à influência de Lord Keynes.
O que distingue estas duas visões é o seguinte: no século XIX, os economistas identificaram o problema fundamental da vida económica como a forma de expandir a produção. Implícita ou explicitamente, perceberam a base da actividade económica e da teoria económica como estando assente no facto de que a vida do homem e do seu bem-estar depende da produção de riqueza. A natureza do homem fá-lo necessitar de riqueza; os seus juízos mais elementares fazem-no desejá-la; o problema, mantinham, é produzi-la. A teoria económica, portanto, podia dar por adquirido o desejo de consumir e concentrar-se nas vias e nos meios pelos quais a produção poderia aumentar.
Imagem retirada daqui
No século XX, os economistas regressaram à visão directamente oposta. Em vez de o problema ser entendido como a forma de expandir continuamente a produção diante de um desejo ilimitado de riqueza resultante das ilimitadas possibilidades de melhoria na satisfação das necessidades do homem, o problema é erroneamente identificado como sendo a forma de expandir o desejo de consumir para que o consumo possa ser adequado à produção. A teoria económica no século XX dá a produção por adquirida e concentra-se nas vias e nos meios pelos quais o consumo pode ser aumentado. Tudo se passa como se o problema da vida económica não fosse a produção de riqueza, mas sim a produção de consumo.
Estas duas premissas básicas, diametralmente opostas e mutuamente exclusivas, sobre o problema fundamental da vida económica desempenham o mesmo papel na teoria económica como o fariam metafísicas contraditórias em filosofia. Ponto por ponto, elas resultam ou em conclusões opostas ou no desenvolvimento de razões opostas para a mesma conclusão. Elas determinam a teoria económica de uma forma tão completa e fundamental que dão origem a dois sistemas completamente diferentes do pensamento económico.
Duas visões do emprego
sábado, 13 de abril de 2013
Nas vésperas de um novo e gigantesco crash?
A semana que passou foi marcada pela sucessiva ocorrência de novos recordes nos índices bolsistas norte-americanos. A avaliar pelo que se vai lendo nos media do mainstream, tratar-se-á de um sinal de que, apesar do que algumas Cassandras vêm escrevendo, o optimismo dos agentes económicos americanos manifesta, talvez não, vá lá, um forte vento de popa (há quase 48 milhões de americanos a viver de "vales" de refeições), mas, pelo menos, apresentará sinais "encorajadores".
Há uma leitura radicalmente alternativa a esta que conduz sem surpresa a um diagnóstico oposto: a exuberância bolsista está, há anos, a ser fabricada, exclusivamente, pela crescente e infindável manipulação monetária da Fed (QE) acompanhada da destruição/erradicação dos aforradores pela fixação administrativa de taxas de juros baixíssimas (ZIRP). Tudoo isto em benefício de Wall Street às expensas da Main Street (recorde-se que "não há almoços grátis"). Estou crescentemente convencido que aí vem uma nova crise financeira global - a exuberância paga-se, e o estouro sempre se sucedeu à bolha.
Via ZH, Michael Snyder inicia assim os "11 crashes que estão acontecendo AGORA MESMO" (minha tradução):
"O mercado accionista ainda não entrou em crash, mas há muitos outros colapsos a acontecer agora no mundo das finanças. Tal como vimos suceder em 2008, as acções estão a demorar um pouco mais de tempo para se alinharem com realidade económica. Mas praticamente para qualquer lado que se olhe, há sinais de que se iniciou uma avalancha financeira. As Bitcoins crasharam, as cotações do ouro e da prata estão a afundar, o preço do petróleo e a procura global por energia continuam a diminuir, os mercados bolsistas por toda a Europa estão entrando em colapso e o indicador da confiança dos consumidores nos Estados Unidos teve o maior revés (face às expectativas existentes) de que há memória. De muitas formas, tudo isto é extremamente reminiscente de 2008. À parte o colapso da Bitcoin [inexistente em 2008], quase tudo o que está agora a acontecer também aconteceu então. Significa isto que também se aproxima um horrível crash nas bolsas? Com toda a certeza, ele chegará num certo ponto. A única questão é saber se acontecerá mais cedo ou mais tarde. Entretanto, há uma série de outros crashes económicos que merecem a nossa atenção neste momento."Leia o resto aqui.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Da legitimidade
A presença esparsa na blogosfera, cada vez mais condicionada pela minha errância no facebook, não impediu que lesse com atenção este post do rui a. e o subsequente troca de comentários, em especial na sequência das intervenções de Carlos Novais a contestar a tese de rui a., em mais um episódio no cerrado debate filosófico entre minarquistas e a anarco-libertários. Por outras palavras, da necessidade ou não da existência do Estado, ainda que sob uma forma mínima (a estritamente necessária, na senda do liberalismo clássico dos séculos XVIII e XIX e dos actos fundadores, de funções enumeradas, do estado federal da União dos Estados da América do Norte).
Robert Higgs (em excelente entrevista, aqui), presença frequente no EI, e que ultimamente também se "virou" para o fb onde mantém uma página muito activa, publicou ontem um pequeno mas muito interessante texto que me parece ser um bom contributo para (res)suscitar um debate que, em boa medida, não se inicia sequer porque se as coisas "sempre foram assim" para quê discuti-las?
Membro de organizações profissionais, enquanto trabalhador por conta de outrem, sempre lutei contra aquelas paredes, tidas por inexpugnáveis, do "sempre foi assim". Mais novo, as dificuldades do desafio de as ultrapassar serviam apenas para me alimentar de uma ainda maior vontade de o conseguir. Ao longo dos anos, à medida que o tempo foi passando e alguma sabedoria ia sendo adquirida, as tácticas de que me socorria diversificaram-se, mas o objectivo estratégico, esse - "tear down this wall", nas famosas palavras de Reagan -, creio nunca o ter perdido. Foi física e mentalmente esgotante esse percurso. Deixou sequelas. Permanentes.
Convido-vos, assim, a conhecerem mais um belo texto de Robert Higgs - Legitimacy -, numa tradução de minha responsabilidade, lamentavelmente muito pálida perante a qualidade do original:
Qual é a diferença entre um estado, uma quadrilha criminosa ou um prestador de serviços de protecção como a máfia? Numa palavra, a legitimidade [política]. Na prática, esta vaga noção sugere que as pessoas vêem o estado - a sua composição institucional, os seus funcionários e a sua conduta - como moralmente aceitável ou apropriado, enquanto vêem a máfia - pelo menos a sua conduta -, como moralmente inaceitável ou imprópria.Muitos estados alegam que a sua legitimidade assenta no fundamento lockeano do consentimento dos governados mas, na prática, esse consentimento revela-se altamente problemático pois a população governada raramente é confrontada, se é que o é alguma vez, com a opção de ser ou não ser governada no quadro das instituições estatais estabelecidas. Os regimes utilizam a educação pública, a propaganda, as decisões judiciais (proferida por juízes do próprio estado), as eleições políticas, as audiências públicas e outros artifícios para imbuir as pessoas da ideia de que os seus governantes são autoridades legítimas que levam a cabo acções legítimas. Muitos desses esforços justificativos, talvez mesmo todos, são altamente questionáveis, se é que não são inteiramente falsos, e nenhum deles representa prova decisiva do consentimento do povo para ser governado tal como o é pelos governantes que os dominam.Na realidade, o assim chamado consentimento dos governados consiste no essencial da mera aquiescência - uma resignação generalizada que significa apenas que a maioria das pessoas prefere suportar o roubo e a intimidação do estado do que abertamente lhe resistir pelos riscos de dano, de prisão e de morte. A aquiescência do povo, em muitos casos, uma espécie de rendição implícita, mal-humorada e ressentida, dificilmente confere aos governantes uma qualquer aprovação moral. Na verdade, mesmo nos países com os maiores graus de participação política popular, a maior parte das pessoas olhará para os políticos governantes e burocratas com um mal disfarçado desprezo e, por vezes abertamente, com um ódio expresso.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Ron Paul - Discurso de despedida ao Congresso
Lew Rockwell classifica-o de um dos grandes discursos da História americana. Robert Wenzel concorda. Das intervenções que conheço de Ron Paul, esta (talvez a par daquela outra que proferiu este Verão em Tampa) é uma peça extraordinária. A transcrição do discurso está disponível aqui sendo que procurarei, logo que me for possível, disponibilizar uma versão em português. Em honra deste homem, íntegro e impoluto, apresento publicamente a minha homenagem e espero bem que este pré-anúncio se confirme.
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