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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Radar

O período final do ano de 2014 e início de 2015 foi especialmente rico em acontecimentos relevantes. Relevantes à escala global. E se nos esforçarmos por manter presentes os acontecimentos semelhantes (só em 2014), então é impossível não especular acerca do que está a laborar por detrás da cortina. Por um lado, Jean-Claude Trichet considera que é chegada a oportunidade de as maiores economias estabelecerem um acordo monetário global para impedir a "corrida para o fundo" que as moedas manifestam (excepção para o dólar). Recomeço? Reset?
Por outro lado, Draghi simula mais um gesto para "agir contra a deflação".
Com o importante deslize do euro registado hoje, a simulação já não deve chegar.

sábado, 6 de setembro de 2014

"A paranóia antideflacionista", por Jesús Huerta de Soto

Um antídoto contra a barragem de propaganda da elite manipuladora, amplificada pelo habitual papaguear extasiado dos media convencionais, é a proposta que deixamos para o fim-de-semana. Ele consiste em uma recente alocução do professor Jesús Huerta de Soto em que este desmonta o que muito propriamente designa da "paranóia antideflacionista" que a elite propala a bem de uns beneficiários muito específicos. Uma hora de visionamento que, assim o julgamos, pode proporcionar um elevado retorno e permitir perceber por que razão coisas como esta possam estar a acontecer sem que o céu se abata sobre as cabeças dos (moderadamente) hereges.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Zonas não conhecidas do nosso universo monetário

Acabado de publicar, o relatório anual da equipa da Incrementum é uma ferramenta muito útil para compreender os "tempos económicos" em que vivemos. Ou experimentar uma cartografia das zonas inéditas do universo monetário que, sem ilusões, habitamos. Especialmente quando se procura compreender quem ganha e quem perde com as políticas actuais dos governos e bancos centrais. FMI incluído, claro.
O relatório possui, igualmente, análises de variados cenários económicos e geoestratégicos futuros, o papel do ouro e da prata em carteiras de investimento diversificado (comparações com dólares, petróleo, acções em diferentes combinações). Complementando o conteúdo e o interesse dos mais recentes comentários dos nossos leitores, traduz-se a seguinte passagem (o relatório é uma versão mais extensa do que o habitual), acrescentando-se o sublinhado.
Ronald-Pete Stoeferle & Mark J. Valek (Junho, 2014), “In Gold We Trust” - Incrementum p.19

"No actual sistema monetário, profundamente fraccionário, um fenómeno deflacionário no crédito teria consequências importantes para a economia real, em particular no sistema bancário. A permanente expansão da oferta de moeda e crédito tornam-se fins em si mesmos no actual sistema de moeda-crédito.
Esta é a verdadeira razão pela qual a deflação é, nos dias de hoje, a nemesis dos governadores dos bancos centrais.
O objectivo de todos os organismos, de todos os seres humanos e de toda a burocracia é maximizar as suas hipóteses de sobrevivência. Nesta perspectiva, a deflação representa uma ameaça existencial ao actual sistema monetário, que tem de ser combatida por todos os meios. Por forma a esconder a instabilidade inerente do sistema de crédito, as políticas extremamente expansivas dos bancos centrais continuarão a compensar a deflação no crédito.
Na nossa opinião, isto representa um acto de equilibrismo sobre o fio da navalha."

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Esvaziando o mito da deflação

A uma mentira que mil vezes se repete só resta contrapor, com uma frequência equivalente, o seu rebatimento. Assim, face a múltiplas notícias que dão conta do papão deflacionista (por exemplo, Vítor Constâncio terá ainda ontem afirmado que (meu realce) “[e]speramos [no BCE] que o valor baixo de Março seja corrigido para um registo mais elevado em Abril”), volto a insistir no combate ao endeusamento da inflação como fenómeno essencialmente benévolo (se contido num valor "baixo") acompanhado do esconjurar da autêntica peste negra que a deflação representaria. Têm sido múltiplos os meus posts sobre o tema. Mas julgo ser preciso insistir. Primeiro, evocando Mises:
"O mais importante a recordar é que a inflação não é um acto de Deus, que a inflação não é uma catástrofe dos elementos ou uma doença que surge como uma praga. A inflação é uma política."
Depois, procurando contribuir para a desmistificação do fenómeno deflacionário pela via de uma tradução, da minha responsabilidade (notas do texto original substituídas por links), de um texto de Chris Casey ontem publicado cujo título roubei para encimar o presente post.
2 de Abril de 2014
Por Chris Casey
Esvaziando o mito da deflação

O temor da deflação funciona como a justificação teórica para todas as acções inflacionistas levadas a cabo pela Reserva Federal e pelos bancos centrais em todo o mundo. É por isso que a Reserva Federal tem por objectivo uma taxa de inflação de preços de 2% e não de 0%. Em larga medida, esta é a razão que levou a Reserva Federal a mais do que quadruplicar a base monetária de Agosto de 2008 até hoje. E é, de forma notável, um enorme mito, pois não há nada de intrinsecamente perigoso ou prejudicial na deflação.

A deflação é temida não apenas pelos seguidores de Milton Friedman (os designados monetaristas ou membros da Escola de Chicago), mas também pelos economistas keynesianos. Um dos mais destacados keynesianos, Paul Krugman, num artigo do New York Times de 2010 intitulado "Por que é a deflação uma coisa má", apontou a deflação como a causa da contracção da procura agregada uma vez que "quando as pessoas têm a expectativa de que os preços vão baixar, elas tornam-se menos propensas a consumir, e, em especial, menos dispostas a contrair empréstimos".

Presumivelmente, ele acredita que este diferimento na despesa durará para todo o sempre. Mas sabemos por experiência própria que, mesmo em presença de uma descida de preços, os indivíduos e as empresas acabarão por, num dado momento, vir a comprar o bem ou serviço em questão. Não é possível renunciar eternamente ao consumo. Vemos isto suceder todos os dias na indústria da informática / electrónica: o valor da utilização de um iPhone ao longo dos próximos seis meses é superior ao da poupança que resultaria do adiar da sua compra.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Mitos persistentes: a deflação é um fenómeno a evitar

Frank Hollenbeck, professor na Universidade Internacional de Genebra, em What’s So Scary About Deflation?, desmonta o mito associado à suposta malevolência de uma baixa de preços sustentada no tempo. Um conhecimento de história económica (na parte não suprimida pelas universidades), deveria ser suficiente para descartar uma tese tão cara à generalidade dos economistas que constitui um "terror" para os banqueiros centrais. Já por aqui falei várias vezes do fenómeno, perceptível para o grande público pelo menos desde há 20 anos) que o sector das tecnologias de informação e telecomunicações é um gigantesco exemplo da infirmação da tese dos malefícios da deflação.

O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
Quando se fala de deflação, o pensamento económico dominante torna-se não na ciência do senso comum, mas na ciência do absurdo. A maioria dos economistas de hoje são rápidos a afirmar que "um pouco de inflação é uma coisa boa", e temem a deflação. Claro que, nas suas vidas privadas, esses mesmos economistas vasculham os jornais em busca dos mais recentes produtos à venda.

Uma deflação sui generis (daqui)
A pessoa que melhor simboliza o medo de deflação é Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal. A interpretação que fez da Grande Depressão enviesou em muito a sua opinião contra a deflação. É verdade que a Grande Depressão e a deflação andaram de mãos dadas em certos países; mas nós devemos ter o cuidado de distinguir entre associação [correlação] e causalidade, e avaliar correctamente o sentido da causalidade [itálico meu]. Um estudo recente de Atkeson e Kehoe [link], abrangendo um período de 180 anos em 17 países, não detectou relação alguma entre deflação e depressões. Na realidade, o estudo encontrou um maior número de episódios de depressão acompanhados de inflação do que de deflação. Durante este período, em 65 dos 73 episódios de deflação não ocorreram depressões, e em 21 das 29 depressões não sucederam episódios de deflação.

O principal argumento contra a deflação é o de que quando os preços estão em queda, os consumidores irão adiar as suas compras para aproveitar preços ainda mais baixos no futuro. É claro que é suposto que tal situação conduza à redução da procura corrente, o que fará com que os preços caiam ainda mais, e assim por diante, até entrarmos numa espiral deflacionária/depressiva da economia. O sentido da causalidade é claro: a deflação provoca depressões. É possível encontrar este argumento em quase todos os livros de texto introdutórios de Economia. O Fed de St. Louis escreveu recentemente:
"Embora a ideia de preços mais baixos possa soar atractiva, a deflação é uma preocupação real por vários motivos. A deflação desencoraja a despesa e o investimento porque, ficando os consumidores na expectativa que os preços venham a cair ainda mais, eles diferem as suas compras preferindo pelo contrário poupar, esperando por preços ainda mais baixos. A redução da despesa, por sua vez, reduz as vendas e os lucros das empresas o que, finalmente, conduz ao aumento do desemprego."