"Não estou a tentar endereçar um insulto de despedida a Ben Bernanke ou aos seus colegas da banca central. Pelo contrário, estou a sublinhar as capacidades e a determinação necessárias aos banqueiros centrais para levar adiante um dos trabalhos mais exigentes e importantes do mundo. Da mesma forma que James Bond tem, nos livros de Ian Fleming, "Licença para Matar", os banqueiros centrais têm uma "Licença para Mentir" - ou colocando de um modo mais diplomático, autorização para fazer promessas acerca do futuro que não podem ser honradas, e muitas vezes se mostram falsas."
Anatole Kaletsky (in "A central banker’s ‘license to lie’")
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Citação do dia (155)
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Uma entrevista com...
A ironia é reveladora. Se ao menos alguém entrevistasse um governador de um qualquer banco central da mesma forma. Para além da ironia e do humor, se as questões que importam fossem apresentadas com o mesmo desassombro talvez a máscara caísse. Creio que a mentira e a dissimulação, que alimentam a ideia da omnipotência e omnisciência do planeamento económico e financeiro centralizado, apareceriam aos olhos de todos como aquilo que efectivamente são: limitações fundamentais da Liberdade.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Apologia da inflação (e da gestão da dívida)
Ontem, em entrevista ao Público, antecipando o lançamento da longa conversa com Maria João Avillez sob a forma de livro, que hoje é "apresentado", Vítor Gaspar, um meu contemporâneo de faculdade, declarou (realces meus):
"A deflação é um risco que deve ser evitado porque é tendencialmente desestabilizador e há uma potencial relação entre deflação e espiral recessiva, na medida em que há a possibilidade de a deflação se transformar em deflação esperada, adiando as decisões de fazer despesa. E a deflação torna mais difícil a gestão de níveis de endividamento elevados.
Para Gaspar, um burocrata de elite da banca central, não há que correr riscos pelo que nada como provocar uma inflação esperada ("moderada", dirá, aí na ordem dos 2% anuais) para a combater. Uma forma de, em 4 anos, reduzir os salários da FP e as pensões, em termos reais, de mais de 10% (dado o seu congelamento em termos nominais).
No final de contas, quem pensa o leitor que será o agente económico com um nível de "endividamento elevado" a quem a inflaçãozinha, esperada que seja, dá um jeitaço para a resolução dos seus problemas?
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Conheça o caminho das saídas para que, chegado seja o momento, ainda as consiga franquear
Douglas E. French, ex-presidente do Mises Institute e actual editor sénior da Laissez-Faire Books é, para além de um profundo conhecedor do funcionamento do sistema bancário, um estudioso do fenómeno das bolhas especulativas, tema que aliás abordou na sua tese de mestrado (sob orientação de Murray Rothbard) e que daria origem ao seu livro Early Speculative Bubbles and Increases in the Supply of Money (de borla, aqui, nos formatos pdf e ebook/.epub). Neste livro, Doug French aborda três episódios de especulação desenfreada que a história viria a registar, a saber: a "Tulipomania" ou "febre das tulipas", ocorrida na Holanda no século XVII (1634?-1637) e as temporalmente coincidentes bolhas da "Mississippi Company" (em França) e da "South Sea Company" (do lado de lá do Canal da Mancha), em 1719-1720, de resto interligadas entre si. Nos três casos, estabelece uma ligação de causa-efeito, espelhada no título do livro, entre uma aceleração continuada da expansão da oferta monetária, sem correspondência real a mais bens e serviços produzidos, e a consequente emergência e posterior estouro das respectivas bolhas especulativas que essa expansão provocou.
No artigo que achei interessante procurar ampliar a divulgação, através de tradução de minha responsabilidade, e cujo significativo título é Signs That It’s Time to Head for the Exits ["Sinais de Que Chegou a Altura de Nos Dirigirmos para As Saídas"], French descreve um desses episódios onde o escocês John Law [link], que aquele baptiza de "o primeiro keynesiano antes de Keynes", ensaia o recurso em grande escala da destruição do "dinheiro verdadeiro" com a intenção de "resolver" em definitivo as dificuldades do tesouro real francês (decorrentes de décadas contínuas de guerras) e acabar de vez com quaisquer restrições orçamentais à actividade governamental (se isto lhe parece familiar, tem o leitor toda a razão). Percorre de seguida o ainda recente episódio da hiperinflação no Zimbabwe (que culminou na destruição da moeda local), aborda em seguida a espiral que continua a decorrer numa Venezuela a caminho da implosão e também o pouco conhecido caso da África do Sul, todos eles exemplos do sério perigo que a instituição de sistemas de controlos de capitais sempre sinaliza, com os governos a tentar impedir a fuga às suas moedas fiat por parte dos cidadãos. Termina o artigo assinalando que os próprios americanos não estão isentos de perigos semelhantes até porque os primeiros sinais (e já são muitos) aí estão pelo que deixa um (avisado) conselho aos seus leitores. É minha convicção que, pese embora a sua extensão, a leitura integral do texto poderá proporcionar um retorno adequado ao esforço despendido. Só posso desejar que tal venha a suceder (como sempre, de preferência, no original). Os comentários e reflexões, também como sempre, serão bem-vindos.
17 de Janeiro de 2014
Por Doug French
O dinheiro verdadeiro, como o ouro e a prata, é adoptado pelo mercado e trocado por bens e serviços de modo voluntário. A moeda fiduciária governamental é algo de diferente. A maioria das pessoas esquece-se que vivemos sob leis de curso legal [link] que nos forçam a utilizar os pedaços de papel que a Reserva Federal e o Tesouro criam a partir do nada.
Fabricar notas, a um custo de cêntimos, para as trocar, em alguns casos, por uma centena de dólares, constitui um bom negócio. Criar lançamentos contabilísticos electrónicos tem um custo ainda menor. Os governos não desistirão deste negócio sem luta.
No final do processo, o governo irá fazer com que o valor do seu papel atinja o valor de, bem, do papel. Na sua essência, a impressão de dinheiro é uma forma silenciosa e sorrateira de tributar as pessoas. Eventualmente, elas aperceber-se-ão disso. Charles Mackay escreveu no seu livro, o clássico "Extraordinárias Ilusões Populares e a Loucura das Multidões" ["Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds"], "Como foi observado com sabedoria, os homens pensam em rebanho; viremos um dia a perceber que eles enlouquecem em rebanho enquanto só são capazes de recuperar a sanidade lentamente, e um de cada vez".
Estamos num processo composto de passos sucessivos e o governo sabe disso. Começaram a surgir [nos EUA] os primeiros sinais de imposição de controlos de capitais. Fazer sair do país activos financeiros no valor de 10.000 dólares é agora verboten [proibido]. O governo dos EUA estabeleceu acordos com países e bancos em todo o mundo para manter o dinheiro dentro dos EUA.
Mas o que é que acontece quando os cidadãos pretendem abandonar o dinheiro governamental? Se a História é boa indicação, o governo irá tornar-se pérfido.
John Law: o primeiro keynesiano no mundo
A França entrou em bancarrota em resultado das sucessivas guerras que travou, de 1689 a 1713, durante o reinado de Luís XIV. Como se isso não fosse punição suficiente, o povo francês teve que sofrer também as fomes de 1693 e 1694, e o extremamente frio Inverno de 1708-1709. As desvalorizações da moeda tornaram-se norma, e os franceses desenvolveram uma desconfiança para com o papel-moeda.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Citação do dia (150)
"Não constitui um acaso que o século da guerra total tenha coincidido com o século da banca central."
Ron Paul
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
"Depois de 100 anos de fracasso, é hora de acabar com o Fed!"
Minha tradução do texto de um homem, Ron Paul, que pôs milhões na América a gritar "End the Fed" e cujas sementes continuam a germinar.
Por cá, volto a fazer notar que aqueles que mais têm os pobres na boca e na pena são exactamente os mesmos que eregem os banqueiros centrais aos novos deuses do Olimpo. A bem da redistribuição da riqueza dos pobres para os ricos.
De hoje a oito dias, o Sistema da Reserva Federal irá celebrar o 100º aniversário da sua fundação. Resultado das negociações secretas entre os banqueiros e os políticos em Jekyll Island, a criação do Fed estabeleceu um cartel bancário e um conselho de supervisores de nomeação governamental cujo poder não tem parado de crescer ao longo dos anos. Poder-se-ia pensar que este aniversário pudesse vir a desencadear alguma espécie de tomada de consciência pública do crescimento do Fed de um quase-agente do Departamento do Tesouro com a missão de proporcionar uma moeda elástica, a uma instituição independente de facto que assumiu o controlo total da economia por via do seu planeamento central monetário. Mas tal como sucedeu com a criação do Fed, o seu 100º aniversário corre o risco de passar quase despercebido.
Ron Paul
Tal como sucedeu com muitas outras peças legislativas terríveis e inconstitucionais, o projecto de lei que criou o Fed, o Federal Reserve Act, foi aprovado sob uma grande pressão, em 23 de Dezembro de 1913, nos momentos que antecederam a suspensão das actividades do Congresso pelo Natal, quando muitos dos seus membros já não estavam presentes aquando das votações finais. Este método dissimulado de pressionar o Congresso para aprovar o Federal Reserve Act num tal prazo forneceria um prenúncio dos efeitos insidiosos do Fed sobre a economia dos EUA - com acções levadas a cabo sem transparência.
Formado ostensivamente com o objectivo de prevenir a eclosão de crises financeiras como o Pânico de 1907 [link], o Fed veio a tornar-se cada vez mais poderoso ao longo dos anos. Em vez de prevenir crises financeiras, porém, o Fed tem constantemente provocado novas crises. Poucos anos depois da sua criação, a política monetária inflacionária do Fed para ajudar a financiar a I Guerra Mundial levou à Depressão de 1920 [link]. Depois da economia ter recuperado daquele episódio, uma nova injecção de dinheiro fácil e de crédito por parte do Fed levou aos Loucos Anos 20 [link] e à Grande Depressão, a pior crise económica da história americana.
Mas muito embora o Fed tenha continuado a cometer os mesmos erros repetidamente, nunca ninguém em Washington questionou a sabedoria da existência de um banco central. Pelo contrário, na sequência de cada episódio, mais e mais poder sobre a economia foi concedido ao Fed. Apesar do Fed ter provocado a estagflação [link] da década de 1970, o Congresso decidiu atribuir formalmente à Reserva Federal, em 1978, o mandato de manutenção do pleno emprego e de preços estáveis combinando-o com o constante adicionar de regulamentações horrendamente prejudiciais. Caso para falar dos loucos a tomar conta do asilo!
Estamos agora a colher os efeitos nocivos de um século de política monetária acomodatícia, quando a nossa economia continua atolada na mediocridade e está totalmente dependente de um fluxo de dinheiro fácil proveniente do banco central. Há um século atrás, os políticos não conseguiram compreender que os pânicos financeiros do século XIX foram causados pelo conúbio entre o governo e o sector bancário. O monopólio crescente do estado sobre a criação da moeda, as elevadas barreiras à entrada no sector bancário para proteger os incumbentes politicamente favorecidos, e o tratamento preferencial para a dívida pública combinaram-se para criar um sistema bancário frágil e propenso a pânicos. Soubessem então os legisladores o que sabemos agora, poderíamos esperar que nunca teriam criado o Sistema da Reserva Federal.
Hoje, todavia, já não nos deixamos levar. Sabemos que a Reserva Federal continua a reforçar o conluio entre os bancos e os políticos. Sabemos que a política monetária inflacionária do Fed continua a proporcionar lucros a Wall Street enquanto empobrece a Main Street. E sabemos que o actual regime monetário está à beira de um precipício. Cem anos é tempo suficiente. End the Fed.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O Fed é o Robin Hood às avessas
De modo algum fico espantado pelo facto de não conseguir encontrar, em páginas portuguesas na internet, uma referência a esta confissão pública no Wall Street Journal (Andrew Huszar: Confessions of a Quantitative Easer), publicada no passado dia 11 de Novembro do corrente. Isto porque creio ser bem provável que tal "esquecimento" não seja alheio à visão hagiográfica dos nossos media relativamente aos banqueiros centrais, partilhada por todos aqueles (por exemplo, "Mario Draghi, uma vez mais, esteve à altura da situação") que acham têm fé em que uns adequados passes de alquimia possam substituir as dores próprias de enfrentar a realidade. Não surpreende pois que se procure evitar o que quer que seja que ponha em causa a imensa e inestimável sabedoria e compaixão dos pontífices em exercício (aqui bem patentes).
Ron Paul há décadas que vem dedicando boa parte da sua vida pública a desmontar esta tão idílica quanto falsa perspectiva da prestidigitação monetária dos supostos illuminati. Volta a fazê-lo em Federal Reserve Steals From the Poor and Gives to the Rich, texto de que achei útil proporcionar uma tradução.
18 de Novembro de 2013
Na quinta-feira passada, o Comité de Assuntos Bancários do Senado iniciou a audição de Janet Yellen no seguimento da sua indigitação para presidente da Reserva Federal. Como se esperaria, a Sra. Yellen referiu que iria continuar a política de "flexibilização quantitativa" do Fed (QE [Quantitative Easing]), apesar do fracasso da QE na melhoria da economia. Por coincidência, dois dias antes das audições a Yellen, Andrew Huszar, um ex-funcionário do Fed, pediu publicamente desculpas [link acrescentado] ao povo americano pelo seu papel na QE. O Sr. Huszar chamou à QE "o mais secreto resgate a Wall Street de todos os tempos".
Há não mais de cinco anos atrás [alusão à primeira candidatura de Ron Paul à presidência dos EUA, em 2008], teria sido inédito ouvir um conhecedor [do funcionamento por dentro] de Wall Street e ex-funcionário do Fed a falar tão abertamente do modo como o Fed age como um Robin Hood às avessas. Mas um rápido olhar para os números mais recentes do desemprego mostra que a QE não está a beneficiar o americano médio. É cada vez mais óbvio que a política de resgates do Fed pós-2008, a "impressão" de dinheiro [a partir do nada] e a compra de obrigações beneficiou os grandes bancos e as sociedades de investimento com [fortes] ligações políticas. A QE é um exemplo tão flagrante de capitalismo de compadrio [crony capitalism] que faz com que o caso Solyndra [link] pareça um luminoso exemplo de funcionamento de um puro e livre mercado!
Seria um erro pensar que com a QE seria a primeira vez que as políticas do Fed beneficiaram aqueles que vivem com desafogo à custa do americano médio. As políticas do Fed beneficiaram sempre os capitalistas de compadrio e os políticos defensores da grande despesa pública em prejuízo [e às expensas] do americano médio.
Através da manipulação da oferta monetária e da taxa de juro, as políticas da Reserva Federal criam inflação e desse modo corroem o valor da moeda. Desde que a Reserva Federal abriu as suas portas, há cem anos atrás, o dólar perdeu mais de 95% do seu poder aquisitivo - sim, é isso mesmo, hoje são necessários 23,70 dólares para comprar o que um dólar comprava em 1913!
domingo, 17 de novembro de 2013
O logro da inflação como algo supostamente benigno
Um par de dias depois do aniversário, a 15 de Novembro de 1923, do início do fim da devastadora hiperinflação da República de Weimar e numa altura em que regressam as Cassandras que anunciam a apocalíptica deflação para "justificar" conferir uma ainda maior aceleração à velocidade de operação das rotativas (hoje electrónicas) dos bancos centrais, creio oportuno insistir na tentativa de convocar o senso comum. É o que Simon Black volta a fazer em mais uma missiva, agora de Bangkok, que procurei traduzir como se segue:
15 de Novembro de 2013
Bangkok, Tailândia
Uma das maiores mentiras em matéria de finanças é este perpétuo logro de que a inflação é algo de bom.
Ben Bernanke, o actual sumo sacerdote da política monetária dos EUA, observou recentemente que é "importante evitar que a inflação nos EUA atinja valores excessivamente baixos".
Bem, claro, isso seria algo de indesejável, não é verdade? Imagine-se o caos e devastação que se seguiriam se o custo de vida de facto se mantivesse... digamos... o mesmo.
Estremece-se, só de pensar na estabilidade de preços.
Naturalmente que estou a brincar. A verdade é que a inflação beneficia aqueles que estão endividados até ao pescoço [a começar pelos estados] à custa dos que foram financeiramente responsáveis.
No entanto, os economistas encontraram forma de conseguir convencer as pessoas de que a inflação é justa e necessária. Todos sabemos que existe inflação. Mas fomos programados para a minimizar como se ela fosse uma parte natural do sistema.
Logro ainda maior constitui o modo como são divulgados os seus valores.
Os governos de todo o mundo mentem sobre a inflação; fazem-no porque a inflação tem um impacto enorme na política monetária.
A cartilha por que todos se regem é muito simples: seja a inflação "baixa" e os banqueiros centrais podem [têm "licença" para] imprimir dinheiro. Desde modo, é grande o incentivo que existe para a subavaliar.
Citando um relatório do Departamento do Trabalho dos EUA, por exemplo, numa manchete recente da Reuters afirmava-se que "Os preços no consumidor nos EUA sobem, mas a inflação subjacente é benigna".
Não tenho bem a certeza de como pode a inflação ser "benigna" quando os preços ao consumidor estão simultaneamente a subir.
E todavia, este é o duplipensar dos nossos dias proveniente do Ministério da Verdade entidade em quem todos nós somos supostos acreditar cegamente.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Eis a razão pela qual, segundo Krugman, os EUA não correm o risco de ser a Grécia
tal como no Reino Unido ou no Japão, lê-se aqui. O que têm estes países em comum? Uma tecnologia de que podem fazer uso à discrição sem ter que dar cavaco a ninguém. Ei-la:
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| Imagem retirada daqui |
E andava o pobre Fausto às voltas com a alquimia... quando a "riqueza" está aí à disposição de todos. Acabem com a austeridade JÁ, caramba! De que estão à espera para nos enriquecer a todos?
domingo, 27 de outubro de 2013
A mentira, que permanece, de ser possível ter "algo a troco de nada"
Um artigo a meu ver muito interessante, o do australiano Vern Gowdie - Money Printing: Everything Old is New Again - onde se aborda, com o adequado enquadramento histórico, o sempiterno mito da obtenção da prosperidade a troco de nada e das consequências para aqueles que teimam em persegui-lo. É certo haver por aí, ao que leio, quem contraponha que há um implícito "calvinismo" nessa análise uma qualquer forma de calvinismo perante a evidente injustiça do que seria não se poder decretar a prosperidade através de um qualquer édito governativo (desde que financiado pelas impressora do banco central respectivo, o alquimista dos nossos dias).
A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
"A única coisa nova no mundo é a história que não se conhece." - Harry S. Truman
Embora o mundo tenha evoluído ao longo dos séculos, as emoções humanas permaneceram as mesmas - felicidade, tristeza, ciúme, ganância, medo.
A classe dirigente e a classe trabalhadora são igualmente afectadas por estas emoções.
A procura pela opção da facilidade é uma outra fragilidade humana que resistiu ao teste do tempo.
É por estas razões que estamos destinados a repetir os mesmos erros dos nossos antepassados.
A mentalidade de [procurar obter] "algo a troco de nada" tornou-se tão arreigada na nossa cultura que perdemos o sentido da objectividade e da realidade. A história está repleta de exemplos do quão mal terminam as histórias das expectativas de privilégios.
Os políticos prometem "algo" financiado por moeda criada no éter. Os cidadãos são levados a ter expectativas quanto a "direitos" [aspas minhas] pagos pelos impostos de outros. Os consumidores são instados a comprar "algo" com o dinheiro que não têm (crédito).
Centrais (trocadilho intencional) neste jogo de ilusão são os nossos banqueiros centrais. As suas impressoras estão a manter a farsa económica global do "algo a troco de nada" no modo de suporte à vida.
Prova do quão precário se tornou este castelo de cartas de "algo a troco de nada" foi a recente publicação das minutas do Fed americano. Alguns dos membros do seu conselho de governadores tiveram a ousadia de questionar os méritos do Quantitative Easing (impressão de dinheiro [sob a forma de "flexibilização quantitativa"]). A mera "bolha mental" foi suficiente para levar Wall Street a um tremor temporário.
Imagine-se o que sucederia se os bancos centrais da Europa, do Japão, da China, do Reino Unido e dos EUA, de facto dissessem: "já basta e, daqui em diante, acabará toda esta absurda impressão de moeda". Os mercados ficariam apoplécticos. A história, enfaticamente, diz-nos que este é o nosso destino.
De Roma para Espanha para Washington
O Fed é o mais recente uma longa série de manipuladores de moeda. Esta prática enganosa remonta à Roma Antiga. Na tentativa de financiar as exigências de um império em expansão, sucessivos imperadores romanos "imprimiram mais moeda" ao diminuírem gradualmente o teor de prata das moedas com metais mais baratos. Nota: este passe de mágica não terminou bem para os romanos.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
A coisa é provavelmente mesmo a sério
O artigo de Patrick Barron saíu com um timing perfeito a avaliar por estes dois posts de ontem no ZH :
China's Official Press Agency Calls For New Reserve Currency, And New World Order
China Imports Over 2,000 Tons Of Gold In Last Two Years
domingo, 13 de outubro de 2013
Quanto mais tempo irá o dólar manter-se como moeda de reserva?
É esta a pergunta que titula o artigo de Patrick Barron publicado ontem no Mises Institute e que me propus traduzir por abordar uma das questões centrais da evolução próxima da economia mundial: o ameaçado estatuto do dólar enquanto "moeda de reserva" - inteiramente decorrente das decisões de política monetária que o Fed tem praticado, particularmente desde o fecho da "gold window" -, e as consequências que daí poderão advir para os Estados Unidos e para todo o mundo. É provável que a recente nomeação, ainda a confirmar pelo Senado, de Janet Yellen para chairman do Fed apenas venha a acelerar as mudanças que são já sensíveis (e que Barron assinala no seu texto), pois não será de esperar outra coisa do seu mandato senão "mais do mesmo, em maior quantidade" - planeamento central monetário.
Quanto mais tempo irá o dólar manter-se como moeda de reserva?Usamos a expressão "moeda de reserva" quando nos referimos à utilização corrente do dólar por outros países para saldar as suas contas no comércio internacional. Por exemplo, se o Canadá comprar produtos provenientes da China, poderá pagar em dólares, em vez de dólares canadianos, e vice-versa. Todavia, a base a partir da qual se originou a expressão já não existe [a ligação do dólar ao ouro], e hoje o dólar é denominado de "moeda de reserva" apenas porque os países estrangeiros detêm grandes quantidades de dólares para facilitar o comércio.A primeira moeda de reserva foi a libra esterlina britânica. Porque a libra era tão "boa quanto o ouro", muitos países consideraram, durante a era do padrão-ouro, que seria mais conveniente deter libras em vez do próprio ouro. As grandes nações comerciais do mundo utilizavam o ouro como forma de pagamento no comércio internacional, mas elas podiam optar por deter libras em vez de ouro, confiando que o Banco de Inglaterra entregaria o ouro correspondente, a uma taxa de câmbio fixa, mediante a apresentação das libras. Perto do fim da II Guerra Mundial, foi atribuído ao dólar dos EUA esse estatuto através de um tratado internacional, na sequência do Acordo de Bretton Woods. O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi formado com o expresso propósito de monitorizar o compromisso da Reserva Federal para com Bretton Woods assegurando que o Fed não inflacionaria o dólar e respeitaria o compromisso de trocar dólares por ouro ao câmbio de 35 dólares americanos por onça. Desta forma, os países confiavam que os dólares que detinham para fins comerciais eram tão "bons quanto o ouro", como tinha ocorrido em tempos com a libra esterlina.Todavia, o Fed não manteve o seu compromisso para com o Acordo de Bretton Woods e o FMI não tentou forçá-lo a deter o ouro suficiente para honrar, em ouro, toda a sua moeda em circulação, ao câmbio de 35 dólares por onça. O Fed foi testado nos finais da década de 1960, primeiro pela França e depois por outros países, até que as suas reservas de ouro atingiram níveis tão baixos que só lhe restavam duas alternativas: ou revalorizar o dólar a uma taxa de câmbio mais alta, ou revogar as suas responsabilidades quanto a honrar a troca, integral, de dólares por ouro. Para sua vergonha eterna, os EUA escolheram a última opção e "saíram do padrão-ouro" em Setembro de 1971.Não obstante, o dólar continuou a ser utilizado pelas grandes nações comerciais, porque ainda executava a função útil de meio de pagamento no comércio internacional. Não havia outra moeda que pudesse ombrear com o dólar, apesar do facto de ele ter sido "desligado" do ouro.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Ciclos económicos e arranha-céus
Doug French, usando uma ferramenta de análise desenvolvida por Mark Thornton em "Arranha-céus e ciclos económicos", alerta para a existência de um sinal de alerta vermelho - a possibilidade de uma forte correcção bolsista num prazo não muito distante em Skyscraper Index is Flashing Red Alert, publicado no Insituto Mises do Canadá.
Ainda que o quadro conceptual usado nesta previsão possa ser tida por alguns como, digamos, algo exótico, creio bem que ela está em linha com as análises de outros analistas que, com regularidade, daqui tenho dado eco (entre outros, Marc Faber, Jim Rogers, Peter Schiff, Jim Grant, Doug Casey ou Simon Black). A responsabilidade pela tradução que se sege é, como habitualmente, minha.
Ainda que o quadro conceptual usado nesta previsão possa ser tida por alguns como, digamos, algo exótico, creio bem que ela está em linha com as análises de outros analistas que, com regularidade, daqui tenho dado eco (entre outros, Marc Faber, Jim Rogers, Peter Schiff, Jim Grant, Doug Casey ou Simon Black). A responsabilidade pela tradução que se sege é, como habitualmente, minha.
O Índice de Arranha-céus está vermelho intermitente
Coloquem os vossos capacetes, pois há um colapso que se aproxima. Os promotores afadigam-se para construir o prédio mais alto do mundo. A economia da China pode estar a abrandar, mas 60 dos 100 mais altos edifícios em construção no mundo estão lá localizados.
O Broad Group está a construir o prédio mais alto do mundo em Changsha, capital da província de Hunan. A empresa iniciou a escavação das fundações do edifício "Sky City", de 202 andares, nos finais de Julho. Normalmente, apontar-se-ia para que a conclusão do Sky City, com uma altura de 838 metros, estivesse a anos de distância da sua conclusão. Mas este é um edifício para ser concluído em apenas quatro meses, utilizando módulos pré-fabricados.
O presidente do Broad Group, Zhang Yue, atrasou um pouco o projecto, por razões de segurança, mas promete terminá-lo em Junho ou Julho do próximo ano. "Quaisquer que sejam as dimensões dos obstáculos, irei com toda a certeza superá-los para garantir que este projecto seja concluído", declarou Zhang ao jornal The New York Times.
A relação entre os arranha-céus e os crashes bolsistas foi exposta no artigo "Arranha-céus e ciclos económicos", pelo professor Mark Thornton, publicado na edição da Primavera de 2005 do The Quarterly Journal of Austrian Economics [link].
Thornton, utilizando o "Índice de Arranha-céus" [link] do economista Andrew Lawrence em conjugação com a teoria austríaca dos ciclos económicos, veio a descobrir que o índice de arranha-céus é um bom preditor [i.e., um "indicador avançado"] de crise económicas e que "quer as causas dos arranha-céus atingirem novos recordes de altura quer as dos severos ciclos económicos estão relacionadas com a instabilidade no financiamento da dívida...".
O primeiro "ciclo de arranha-céus" iniciou-se em 1904 em Nova Iorque, quando começou a construção do edifício Singer, de 47 andares, e do edifício de 50 andares da Metropolitan Life. Este boom de construção foi rapidamente seguido pelo Pânico de 1907 [link].
Nos finais da década de 1920, Wall Street vivia a euforia. Três torres recordistas - Wall Street 40, Chrysler Building, e o Empire State Building - iniciaram a sua construção, ainda que só viessem a ser concluídas após o crash da bolsa de 1929 e o início da Grande Depressão. O Empire State Building foi concluído em 1931. Inicialmente apelidado de "Empty [vazio] State Building", levou cerca de duas décadas a para que fosse totalmente ocupado.
O terceiro ciclo começou com o início da construção da Torre Sears, em Chicago, em 1970, e do World Trade Center, em Nova Iorque, cuja construção se iniciou em 1966. Quando finalmente esses projectos se concluíram, a economia dos EUA viu-se mergulhada na estagflação.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Jim Rogers: End the Fed!
A "grande experiência" em que os politburos dos principais bancos do mundo inteiro embarcaram, consistindo num exercício de planeamento central socialista a que o capitalismo é completamente alheio, consiste numa combinação de emissão ilimitada de moeda (por isso, sem fim possível) e da manipulação das taxas de juro que directamente controlam para níveis praticamente de zero, irá provavelmente acabar numa "grande implosão". Jim Rogers, numa mini-entrevista, exemplifica essa loucura monetária que o leva - por cortesia especial de Greenspan e Bernanke - a defender a extinção do Fed tal como aconteceu aos seus dois antecessores no séc. XIX:
Transcrição da entrevista da jornalista Manta Badkar (MB) a Jim Rogers (JR):
MB: Since May the tone from the Federal Reserve has been significantly more hawkish. Do you think they're heading in the right direction? What do you expect?
JR: I hope that in goodness they stop printing money. Note that this the only time in recorded history that all the major central banks in the world are trying to debase their currency at the same time. The japanese said: we will print "unlimited" - that was their word, unlimited amounsts of money. So in Washington they said: wait a minute! We can do that! So we've started to print a trillion dollars a year. A trillion dollars a year! So the english said, wait a minute guys, we can do it! The europeans said "we will do whatever is necessary", that's their term. It's absurd what's going on. It's got to end some day. The market is gonna force it to end and then they're going to come to their senses.MB: How do you think Ben Bernanke did it?
JR: Absolute disaster! Between Greenspan and Bernanke, I mean, as you probably know, America's had three central banks. The first two disapear. Between Greenspan and Bernanke this is is going to disappear too because they'be ruined it. I mean, they printed staggering amounts of money. They've ruined the balance sheet, the balance sheet is gone full of government bonds, it has more than qradupled in five years. Bernanke is going to go down in history as an absolute disaster!P: Who do you think the next Fed Chairman should be then?
JR: Nobody. Should abolish the Federal Reserve. The world without a central bank has problems but with this central bank... look at the people they are talking about! I mean, it's all more of the same milk! There's nobody who understands the problem. They all want to print money for their friends and they hope that's can save things until the next guy comes along and prints money.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Da banalidade do PIB ao Produto Privado Interno Bruto
Encorajado por várias reacções positivas que tenho recebido quanto à publicação de traduções de alguns textos por mim escolhidos, ouso hoje dar agora um passo correndo o risco de alienar aqueles leitores que muito justamente abominam o "economês" até porque, para aqueles que se sujeitam à regular tortura mediática, são impiedosamente bombardeados com ele. Refiro-me, em concreto, à omnipresença do PIB a que tudo se pretende reduzir e cujo agregado, tipicamente, os governos tentam manipular na incessante busca de anúncios de um salvífico (e tantas vezes pífio) "crescimento". Daí que tenha achado que o breve ensaio de Robert Higgs que me propus traduzir possa ser útil para melhor se entender a verdadeira obsessão em que nos encontramos rodeados relativamente à evolução daquele agregado económico e esclarecer alguns (grandes) equívocos sobre o mesmo.
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| Robert Higgs |
Higgs que, recorde-se, começou por ter recebido uma formação, que chegou mesmo à obtenção de um Phd em economia, segundo o paradigma neo-clássico (ou seja, um tanto grosseiramente, num quadro de um keynesianismo recauchutado), começa por recordar-nos que não foi pacífica a definição do conceito de PIB especialmente quanto à inclusão da despesa governamental no seu cálculo (Simon Kuznets, o grande impulsionador do sistema de contas nacionais, pelas quais recebeu o Nobel da Economia, foi contra essa inclusão). Enumera em seguida, explicando, algumas das principais razões que justificariam a sua exclusão do cálculo para concluir pela naturalidade da sua adopção pelos governos na configuração que se mantém desde a sua criação - faz jeito ao governo (a TODOS os governos) serem "promotores" e "agentes activos do crescimento".
Isso leva-o a construir e a calcular um novo "conceito" - o Produto Privado Interno Produto - na tentativa de melhor isolar o verdadeiro crescimento do produto interno - aquele produzido no sector privado. A conclusão que retira, após a análise da evolução do PPIB nos últimos 12 anos nos EUA é, não surpreendentemente, lúgubre.
"Nas décadas de 1930 e 1940, quando o moderno sistema moderno de contas nacionais para a determinação do rendimento e do produto [NIPA] estava sendo desenvolvido, o "perímetro" do produto nacional foi um tema calorosamente debatido. Nenhuma questão provocou mais debate do que esta: deve o produto governamental ser incluído no produto bruto? Simon Kuznets (Nobel de Economia de 1971), o americano que deu o mais importante contributo para o desenvolvimento do sistema de contas nacionais, tinha grandes reservas quanto a incluir todas as compras de bens e serviços governamentais no produto nacional. Ao longo dos anos, outros elaboraram sobre as razões que ele então adiantou e outras razões foram entretanto aduzidas.
Porquê excluir o produto estatal? Em primeiro lugar, as actividades estatais podem ser vistas como dando origem a produtos intermédios em vez de produtos finais, mesmo que o governo seja fornecedor de serviços valiosos como o de fazer valer os direitos de propriedade privada ou o de promover a resolução de disputas. Em segundo lugar, porque não sendo os serviços públicos, na sua maioria, vendidos nos mercados, os seus preços não são determinados por eles [não resultam da interacção entre a procura e a oferta] para que possam ser usados no cálculo do seu valor total àqueles que deles beneficiam. Em terceiro lugar, porque muitos serviços públicos surgem por motivos políticos e não de motivações económicas ou de instituições, alguns deles podem ter pouco ou nenhum valor. De facto, alguns comentadores - onde se inclui o autor destas linhas - foram até ao ponto de afirmar que alguns serviços públicos têm valor negativo: se lhes fosse dado escolher, as pessoas vitimizadas por esses "serviços" estariam dispostas a pagar para se livrar deles.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Mitos persistentes: a deflação é um fenómeno a evitar
Frank Hollenbeck, professor na Universidade Internacional de Genebra, em What’s So Scary About Deflation?, desmonta o mito associado à suposta malevolência de uma baixa de preços sustentada no tempo. Um conhecimento de história económica (na parte não suprimida pelas universidades), deveria ser suficiente para descartar uma tese tão cara à generalidade dos economistas que constitui um "terror" para os banqueiros centrais. Já por aqui falei várias vezes do fenómeno, perceptível para o grande público pelo menos desde há 20 anos) que o sector das tecnologias de informação e telecomunicações é um gigantesco exemplo da infirmação da tese dos malefícios da deflação.
O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
Quando se fala de deflação, o pensamento económico dominante torna-se não na ciência do senso comum, mas na ciência do absurdo. A maioria dos economistas de hoje são rápidos a afirmar que "um pouco de inflação é uma coisa boa", e temem a deflação. Claro que, nas suas vidas privadas, esses mesmos economistas vasculham os jornais em busca dos mais recentes produtos à venda.
A pessoa que melhor simboliza o medo de deflação é Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal. A interpretação que fez da Grande Depressão enviesou em muito a sua opinião contra a deflação. É verdade que a Grande Depressão e a deflação andaram de mãos dadas em certos países; mas nós devemos ter o cuidado de distinguir entre associação [correlação] e causalidade, e avaliar correctamente o sentido da causalidade [itálico meu]. Um estudo recente de Atkeson e Kehoe [link], abrangendo um período de 180 anos em 17 países, não detectou relação alguma entre deflação e depressões. Na realidade, o estudo encontrou um maior número de episódios de depressão acompanhados de inflação do que de deflação. Durante este período, em 65 dos 73 episódios de deflação não ocorreram depressões, e em 21 das 29 depressões não sucederam episódios de deflação.
Uma deflação sui generis (daqui)
O principal argumento contra a deflação é o de que quando os preços estão em queda, os consumidores irão adiar as suas compras para aproveitar preços ainda mais baixos no futuro. É claro que é suposto que tal situação conduza à redução da procura corrente, o que fará com que os preços caiam ainda mais, e assim por diante, até entrarmos numa espiral deflacionária/depressiva da economia. O sentido da causalidade é claro: a deflação provoca depressões. É possível encontrar este argumento em quase todos os livros de texto introdutórios de Economia. O Fed de St. Louis escreveu recentemente:
"Embora a ideia de preços mais baixos possa soar atractiva, a deflação é uma preocupação real por vários motivos. A deflação desencoraja a despesa e o investimento porque, ficando os consumidores na expectativa que os preços venham a cair ainda mais, eles diferem as suas compras preferindo pelo contrário poupar, esperando por preços ainda mais baixos. A redução da despesa, por sua vez, reduz as vendas e os lucros das empresas o que, finalmente, conduz ao aumento do desemprego."
terça-feira, 25 de junho de 2013
Depois do QE3, o quê?
Detlev Sclichter não acredita (como também, entre outros, Peter Schiff) que exista uma estratégia de saída da "flexibilização quantitativa" (QE) por parte do Fed (como outros bancos centrais - Reino Unido, Suíça, Japão e sim, também o BCE). No artigo abaixo, explica porquê e creio que com argumentos bem convincentes. Daí que o que é de esperar é a continuação de mais do mesmo, ou seja, mais QE. Como cunhou Schiff, o mais provável será "QE To Infinity And Beyond".
Não custa perceber que assim seja: quem quer que tenha tido de lidar com uma sítuação de vício profundo, sabe não há verdadeira saída que não passe pelo corte abrupto da ingestão da droga. É muito doloroso o desmame abrupto mas é também simultâneamente o de mais rápida recuperação (e maior probabilidade de sucesso). Bernanke já está de saída pelo que será o seu sucessor que terá de lidar com os cacos provenientes da acção do "Helicopter Ben". A tradução, como habitualmente, é minha.
Um nova previsão está a alastrar nos mercados financeiros como se de um vírus se tratasse: o Fed está prestes a fechar a torneira monetária. O Impressor-em-Chefe dos EUA, o general Ben Bernanke, anunciou que poderia começar a reduzir o programa mensal de monetização da dívida, denominado de "quantitative easing" (QE), já no Outono de 2013, e talvez até terminando-o na totalidade em meados do próximo ano. Ele assegurou os mercados que o Fed iria manter a taxa de juro directora (a taxa dos Fed Funds) próxima de zero, pelo menos até 2015. Ainda assim, o fim do QE é visto como o início do fim da política [monetária] super-expansionista e, potencialmente, o primeiro passo no sentido da normalização, como se alguém ainda tivesse alguma ideia do que "normal" significasse.
Temendo que o fluxo do nutritivo leite materno do Fed pudesse secar, uma Wall Street resolutamente não desmamada teve um chilique e entrou em pânico.
Detlev Schlichter
Até aqui, tudo bem. Há apenas um único problema: isso não irá acontecer.
É certo que eu sou o primeiro a declarar que o Fed DEVERIA abolir o QE, e não apenas no Outono deste ano ou no Verão do próximo, mas agora. Agora mesmo. Porquê? Porque uma política de QE e de taxas de juro zero é uma loucura completa. Ela distorce os mercados, sabota a liquidação dos desequilíbrios, proíbe o correcto apreçamento do risco, e incentiva a acumulação de dívida. Ela entorpece os poderes curativos do mercado ao permitir a continuação do "fingir e expandir" na indústria financeira - e acrescenta novos desequilíbrios aos anteriores que ela também ajuda a manter.
Esta política pode ter impedido - por enquanto - a deflação da dívida [ligada ao endividamento], mas talvez a deflação da dívida seja aquilo que é necessário.
O QE não é senão uma massiva intervenção no mercado. É destrutivo. Não resolve os problemas subjacentes criando ao invés novos problemas.
domingo, 23 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
M'espanto às vezes, muitas m'avergonho
O título do post remete para a epígrafe, algo modificada, escolhida pelo autor um dos mais conhecidos e antigos blogues lusitanos, por sua vez pedida emprestada a Sá de Miranda. A um e a outro o meu pedido de desculpas pela usurpação, mas não me ocorreu melhor para caracterizar a incensão que os media de "referência" dedicam aos últimos salvadores do mundo e arredores - os banqueiros centrais. Os tais que, mercê dos pactos faustianos que celebraram, praticam diariamente o exercício alquímico em quantidades colossais, assim permitindo que as grandes ilusões estatistas persistam por mais algum tempo, desta forma adiando o inevitável e agravando inexoravelmente as consequências das distorções introduzidas.
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| Montagem fotográfica do New York Times |
É interessantíssimo constatar como os media de "referência", invariavelmente devastadores para com as políticas de "austeridade", supostamente defendidas por tenebrosos ultra-neoliberais, e incessantes defensores das políticas de "estímulos", tenham uma tão grande estima pelos contributos/receitas de Milton Friedman no que toca à manipulação da massa monetária. Friedman que, em tempos ainda recentes, era apodado de "monetarista", um insulto então de "gravidade" equivalente ao do "neoliberalismo" dos dias de hoje. Poucos foram tão longe no elogio a Friedman como Ben Bernanke, actual presidente da Fed, quando, por ocasião do 90º aniversário do primeiro, a 8 de Novembro de 2002 disse publicamente: "I would like to say to Milton and Anna [Anna Schwartz, co-autora com Friedman da monumental A Monetary History of the United States]: Regarding the Great Depression. You're right, we [os banqueiros centrais] did it. We're very sorry. But thanks to you, we won't do it again.
Ainda me espanto às vezes (cada vez menos) pelo que creio, até ver, não me ter ainda transformado num cínico irremediável. Mas continuo a envergonhar-me com a insuportável mistura de iliteracia, indigência mental reiterada, relativismo e oportunismo de muitos (todos com "preocupações sociais"), em particular da imprensa de "referência", na realidade nada mais que agremiações activistas de profissão do estatismo.
Leitura complementar muito recomendada: Bank Of England's Haldane: "We've Intentionally Blown The Biggest Bond Bubble In History"
Leitura complementar muito recomendada: Bank Of England's Haldane: "We've Intentionally Blown The Biggest Bond Bubble In History"
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