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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Mitos persistentes: a deflação é um fenómeno a evitar

Frank Hollenbeck, professor na Universidade Internacional de Genebra, em What’s So Scary About Deflation?, desmonta o mito associado à suposta malevolência de uma baixa de preços sustentada no tempo. Um conhecimento de história económica (na parte não suprimida pelas universidades), deveria ser suficiente para descartar uma tese tão cara à generalidade dos economistas que constitui um "terror" para os banqueiros centrais. Já por aqui falei várias vezes do fenómeno, perceptível para o grande público pelo menos desde há 20 anos) que o sector das tecnologias de informação e telecomunicações é um gigantesco exemplo da infirmação da tese dos malefícios da deflação.

O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
Quando se fala de deflação, o pensamento económico dominante torna-se não na ciência do senso comum, mas na ciência do absurdo. A maioria dos economistas de hoje são rápidos a afirmar que "um pouco de inflação é uma coisa boa", e temem a deflação. Claro que, nas suas vidas privadas, esses mesmos economistas vasculham os jornais em busca dos mais recentes produtos à venda.

Uma deflação sui generis (daqui)
A pessoa que melhor simboliza o medo de deflação é Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal. A interpretação que fez da Grande Depressão enviesou em muito a sua opinião contra a deflação. É verdade que a Grande Depressão e a deflação andaram de mãos dadas em certos países; mas nós devemos ter o cuidado de distinguir entre associação [correlação] e causalidade, e avaliar correctamente o sentido da causalidade [itálico meu]. Um estudo recente de Atkeson e Kehoe [link], abrangendo um período de 180 anos em 17 países, não detectou relação alguma entre deflação e depressões. Na realidade, o estudo encontrou um maior número de episódios de depressão acompanhados de inflação do que de deflação. Durante este período, em 65 dos 73 episódios de deflação não ocorreram depressões, e em 21 das 29 depressões não sucederam episódios de deflação.

O principal argumento contra a deflação é o de que quando os preços estão em queda, os consumidores irão adiar as suas compras para aproveitar preços ainda mais baixos no futuro. É claro que é suposto que tal situação conduza à redução da procura corrente, o que fará com que os preços caiam ainda mais, e assim por diante, até entrarmos numa espiral deflacionária/depressiva da economia. O sentido da causalidade é claro: a deflação provoca depressões. É possível encontrar este argumento em quase todos os livros de texto introdutórios de Economia. O Fed de St. Louis escreveu recentemente:
"Embora a ideia de preços mais baixos possa soar atractiva, a deflação é uma preocupação real por vários motivos. A deflação desencoraja a despesa e o investimento porque, ficando os consumidores na expectativa que os preços venham a cair ainda mais, eles diferem as suas compras preferindo pelo contrário poupar, esperando por preços ainda mais baixos. A redução da despesa, por sua vez, reduz as vendas e os lucros das empresas o que, finalmente, conduz ao aumento do desemprego."

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Títulos idiotas (2)

Depósitos de particulares e pequenas empresas gozam de protecção adicional.

Estão agora os depósitos, de particulares  e pequenas empresas, mais seguros? NÃO, como se tornará evidente para quem ler a notícia. A única forma de proteger o que actualmente se designa, de forma imprópria, de  "depósitos" bancários seria um regime em que os bancos respeitassem um regime de reservas a 100% (petição aqui). Isto não significa obrigar os bancos a adoptar um sistema bancário dessa natureza. Os clientes (depositantes) que escolhessem depois o regime que preferissem. Claro que, todos aqueles que optassem pelo regime actual enfrentariam, a suas exclusivas expensas, o risco de perderem as suas poupanças, em caso de falência da instituição bancária. Lembram-se da Dona Branca?

Esta é uma "notícia" muito semelhante àquelas outras que veiculam, com uma regularidade próxima de um bom relógio suíço, que, afinal, os preços da energia não irão aumentar TANTO como se chegou a pensar que acontecesse. Parece que se espera que os cidadãos cantem hossanas ao prodigioso esforço dos governantes de ocasião até porque nunca se esquecem de "proteger" os mais desfavorecidos (fazendo-os pagar um aumento que não é tão grande quanto aquele que os restantes terão de suportar)!

sábado, 22 de junho de 2013

Eis os economistas que explicaram cada uma das crises no último século (não, Krugman não é um deles)

Pierre-Guy Veer assina Meet the Economists Who Have Explained Every Crisis Of the Last Century (No, Krugman Isn't One Of Them), um despretensioso mas a meu ver bem elegante e conciso artigo sobre a interpretação "austríaca" da crise que que se iniciou em 2008 (e que ainda persiste) bem como as crises precedentes dos últimos cem anos. O foco de atenção dirige-se, naturalmente, para o sistema monetário fiat em que vivemos, manipulado a bel-prazer por governos e bancos centrais, bem como para o vigente sistema bancário de reservas fraccionárias.

Uma das críticas recorrentes aos economistas do mainstream é que eles estão permanentemente a "errar as previsões" (e não é só Vítor Gaspar, ou o FMI...). Claro que erram, mas não porque não saibam fazer contas. Essa é uma crítica que passa muito longe do alvo. O que na realidade se passa é que os "erros" são inevitáveis pois é impossível subsumir os milhões de milhões de decisões que todos os dias são tomadas pelas pessoas, seja no plano individual seja nos diferentes planos de interacção humana (família, emprego, amigos, vizinhança, etc.), e que a única coisa certa é que elas serão diferentes das do dia seguinte (ad infinitum). Por definição, o ser humano é imprevisível. As pessoas não são pedras. Nem, felizmente, robots. Por isso, todos aqueles que reclamam o estatuto de ciência para a disciplina de Economia, tendo a Física por referência - onde, aí sim, os fenómenos se podem prever - estão destinados a um inapelável e rotundo fracasso. Isso não significa que não possa haver, como há, a identificação de padrões que possibilitem maiores ou menores graus de previsibilidade. (Peter Schiff, um "austríaco" com um excelente registo preditivo, faz aqui o que é a meu ver um excelente exercício. A conclusão a que chega, que subscrevo, leva-o a aconselhar os seus leitores a "pôr o cinto" - a turbulência que aí vem vai ser muito severa.)

A tradução é da minha responsabilidade como é minha a autoria do roubo do título do post.
Muitas pessoas ainda acreditam que o lamaçal económico em que estamos atolados era imprevisível ou, então, causada pela desregulamentação massiva - apesar do facto de que a actividade estatal nunca ter realmente diminuído. São falsas ambas as afirmações. Cada uma das crises económicas dos últimos 100 anos era previsível (por vezes também prevista) foi causada pela intervenção estatal na economia.

Ludwig von Mises
Na verdade, parece que algumas pessoas, em 2013, começaram a compreendê-lo. O Dr. Emanuele Canegrati, economista sénior junto do Parlamento italiano, foi mesmo ao ponto de dizer que Ludwig von Mises, o já falecido economista americano natural da Áustria, e a sua Escola Austríaca de economia tinham razão quando defendiam a sua teoria sobre os ciclos económicos e a inflação.

Que teoria é essa? Apesar do que os keynesianos como Paul Krugman afirmam, a escola austríaca de economia não é um culto. É uma ciência séria que se baseia na praxeologia, ou seja, no estudo da acção humana e da escolha. Ao contrário dos átomos ou dos animais em laboratórios, é quase impossível estudar as acções dos seres humanos num ambiente experimental, uma vez que é quase impossível observar condições ceteris paribus (mantendo tudo o resto constante). Consequentemente, a praxeologia só pode analisar os efeitos, não as motivações, do comportamento humano. Não obstante, ela vai bem longe na explicação das teorias da Escola Austríaca.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O acordo do Chipre e o desemaranhar do sistema bancário de reservas fraccionárias

Praticamente todos os analistas concordam que, após o ocorrido em Chipre, "nada será como dantes". O abalo telúrico que percorreu a zona euro tornou evidente, para um significativo número de pessoas, que, afinal, os bancos não eram - não são - um oásis de segurança para os valores lá "depositados" (as aspas são propositadas). Joseph Salerno, um especialista em questões monetárias da Escola Austríaca, dá-nos a sua perspectiva, num texto publicado em 27-03-2012, de quais poderão ser esses efeitos no seu texto The Cyprus Deal and the Unraveling of Fractional-Reserve Banking (abaixo traduzido por mim1), assinalando um facto que qualifica de "feliz", assim acompanhando a análise de Detlev Schlichter de que aqui fiz eco.

O tema do sistema bancário de reservas fraccionárias tem sido visto em Portugal como um tema desinteressante, do domínio do esotérico, de que só alguns excêntricos falam e escrevem (e só em ambientes "controlados"). Um caso notável na blogosfera, pela persistência denodada e praticamente solitária, tem sido Carlos Novais o qual, desde que ingressou no "quadro" dos bloggers do Portugal Contemporâneo, vem amplificando o seu significado (e respectivas consequências). Também ele viu uma oportunidade "feliz" para agora animar agora uma recolha de assinaturas para uma petição tendo em vista definir legalmente que os depósitos à ordem sejam cobertos a 100% por reservas - e, portanto, não tenham risco associado - e não, como hoje acontece, constituam na realidade empréstimos aos bancos e, consequentemente, estejam sujeitos aos riscos correspondentes. Eu já a assinei e convido todos os leitores a fazê-lo também.
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1 - Dei entretanto conta da existência de uma outra tradução no Mises Brasil.
O "acordo do Chipre", como tem sido amplamente designado nos meios de comunicação social, poderá assinalar algo próximo do último acto do lento colapso do sistema bancário de reservas fraccionárias o qual começou com a implosão da indústria das sociedades de poupança e empréstimos [S&L] nos EUA nos finais dos anos 80. Essa tendência continuou com as crises cambiais na Rússia, no México, na Ásia Oriental e na Argentina nos anos 90 onde o sistema de reservas fraccionárias desempenhou um papel decisivo. O desmoronamento do sistema de reservas fraccionárias tornou-se visível, até mesmo para o depositante comum, durante a crise financeira de 2008 que desencadeou corridas a bancos em algumas das maiores e mais veneráveis instituições financeiras do mundo. O colapso final só foi evitado pelo resgate, no montante de milhões de milhões de dólares, dos bancos americanos e estrangeiros levado a cabo pela Reserva Federal.

Mais do que a crise financeira sem precedentes de 2008, no entanto, os recentes acontecimentos no Chipre podem ter desferido o golpe mortal no sistema bancário de reservas fraccionárias. Isto porque o sistema bancário de reservas fraccionárias apenas pode existir enquanto os depositantes tiverem uma total confiança de que, independentemente das dificuldades financeiras que vierem a suceder ao banco a que confiaram os seus "depósitos", serão sempre capazes de os levantar em dinheiro, à sua ordem, a qualquer momento e integralmente. Desde a II Guerra Mundial que o seguro governamental de depósitos bancários, assegurado pelo poder emissor do banco central, foi tido como a garantia inabalável que justificava essa confiança. Com efeito, o sistema bancário de reservas fraccionárias foi percebido como sendo um sistema de reservas a 100 por cento pelos depositantes, que agiam como se o seu dinheiro estivesse sempre "no banco", graças à capacidade dos bancos centrais de fabricar dinheiro a partir do nada (ou no ciberespaço). Perversamente, as diversas crises envolvendo o sistema bancário de reservas fraccionárias, que emergiram uma e outra vez desde os finais dos anos 80, apenas reforçaram essa crença entre os depositantes, porque os bancos problemáticos e as instituições de poupança sempre foram resgatados entre grande animação, especialmente os maiores e os menos estáveis.

Foi assim que surgiu a doutrina do "grande demais para falir" [too big to fail]. Sob esta doutrina, os depositantes e obrigacionistas não segurados foram geralmente resgatados por inteiro sempre que um grande banco faliu, porque era amplamente entendido que a confiança em todo o sistema bancário era algo frágil e evanescente que se poderia quebrar e dissipar por completo em resultado da falência de uma única grande instituição.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Por favor, acordem!

É o apelo que Detlev Schlichter deixa ficar quando, ainda que a contragosto, defende a opção de haircut dos depositantes cipriotas e, por extensão, de outros cidadãos de outras nacionalidades, Portugal incluído - Cyprus and the reality of banking: Deposit haircuts are both inevitable and the right thing to do. Artigo a ler com muita atenção diria (acompanhando Carlos Novais na recomendação), datado de dia 19 de Março. Esta é uma análise que, a meu ver, tem muitos pontos de contacto com a que Jesús Huerta de Soto aqui fez em defesa do euro e que eu subscrevo (como expliquei anteriormente). A tradução é, como habitualmente, da minha responsabilidade.
Imagem por Pixomar
Também eu fiquei chocado ontem de manhã. Não tanto com a notícia de que os depositantes em bancos cipriotas teriam de enfrentar um haircut, ou uma "taxa" ou um "imposto" sobre os seus depósitos, entendido como uma contribuição para ainda mais outro bailout na zona euro financiado pelos contribuintes de outros países, mas antes pela reacção da imprensa. Aqui estava, de acordo com a maioria dos comentadores internacionais, mais um exemplo da inépcia, ou mesquinhez pura e simples, da elite política da zona euro, um outro exemplo da imposição de sofrimento desnecessário e contraproducente e de uma brutal "austeridade" sobre os cidadãos inocentes dos pequenos e conturbados países. O Daily Telegraph, na sua primeira página, fez uso da hipérbole habitual de um "raide da União Europeia sobre as poupanças" e, naturalmente, de outra "ameaça à recuperação". O que agitou a maioria dos comentadores foi ter sido violada, levianamente, a "santidade" do seguro de depósitos pois mesmo os depósitos de montante inferior a 100 mil euros foram, pelo menos inicialmente, também sujeitos a um haircut, se bem que reduzido. É suposto que este tipo de depósitos desfruta de uma "garantia" que, por um passe de mágica, os protege da dura realidade feita de bancos falidos e de estados falidos. Minar essa "garantia" pode ter consequências de grande alcance para além do pequeno Chipre, uma vez que tem o potencial de erodir a confiança nos sistemas bancários na Grécia, em Espanha e em Portugal.

Concordo que esta é uma medida arriscada. O sistema bancário internacional está altamente alavancado [escorado em dívida] e boa parte dele vem oscilando à beira do abismo há já  muitos anos. Qualquer coisa que afecte os depositantes pode ter graves consequências. Mas, dado o estado de coisas, qualquer tentativa séria para lidar com os problemas dos sistemas bancários deve, inevitavelmente, acarretar riscos. As perguntas são as seguintes: Estão a ser avaliados os tipos correctos de riscos? E qual deveria ser a alternativa?

A banca é um negócio arriscado porque os bancos são empresas altamente alavancadas. (Desculpem-me por lhes dar esta notícia). Num  sistema bancário de reservas fraccionárias os "depósitos" não são depósitos (ou seja, contratos relativos aos serviços de custódia) mas antes empréstimos aos bancos e, como tal, empréstimos a negócios altamente alavancados.

A maioria das pessoas nos países desenvolvidos acostumou-se a não se preocupar com a saúde de cada um dos bancos individualmente considerados. Elas têm sido, ao longo de décadas, levadas a acreditar que todos os bancos são regulados pelo Estado e, em última análise, protegidos pelo estado. É verdade, mas apenas na medida necessária para que os bancos possam assumir riscos ainda maiores e se alavancarem ainda mais. A "protecção" do estado criou agora um monstro bancário que está engolindo os recursos do próprio estado. E isto dificilmente pode constituir um choque surpresa nos inícios de 2013!

A crença ingénua de que os depósitos bancários são sempre "dinheiro bom" por serem garantidos pelo estado e o estado, afinal de contas, é uma cornucópia sem fim, foi talvez compreensível, ou pelo menos desculpável, até cerca de 2008, quando o então primeiro-ministro da Irlanda, Brian Cowen, em plena crise bancária irlandesa, teve a genial ideia de simplesmente declarar que estariam garantidos pelo estado todos os depósitos em bancos irlandeses. E, pronto, problema resolvido! Obviamente, Cowen não tinha feito as contas e não percebeu quão grande essa garantia iria ser. Bem, tal foi determinado pelos mercados - e a Irlanda, o país, foi à falência.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A loucura monetária (6)

Continuado daqui (Partes IIIIII e IV), termino agora a publicação da tradução do artigo de Detlev Schlichter (numa tradução da minha responsabilidade) elaborado com o propósito de refutar (por KO técnico, acrescento eu) a argumentação dos autores do "Documento de Trabalho" (do FMI, recorde-se) no sentido da defesa da integral estatização da moeda, etapa essencial à construção de um estado totalitário. Numa reedição da mais absoluta "exuberância irracional" dos protagonistas da manipulação/criação da moeda (vide no actual "Super Mário" ou no anterior "Maestro"), supostamente a bem da promoção da "riqueza" e da salvação do desastre (para onde, aliás, nos conduziram), os autores do "Documento de Trabalho" propõem um verdadeiro passo de prestidigitação conseguido por decreto estatal: contabilisticamente, o Estado passaria a "fabricar" os seus próprios "activos" e portanto a "riqueza" colectiva. Loucura maior, seria difícil.
Activos místicos

Lembram-se do que eu disse acima quanto a pôr em circulação os nossos próprios cheques como meios fiduciários? Essa é uma descrição bastante boa relativamente à emissão de papel-moeda. O novo papel-moeda posto a circular é contabilizado como uma responsabilidade no balanço do seu criador, e as coisas que ele adquire através da emissão / despesa deste novo dinheiro de papel tornam-se nos correspondentes activos. Através da emissão de papel-moeda, o criador da moeda aumenta o seu balanço, enquanto que aqueles que transaccionam com o criador da moeda não aumentam nem diminuem os seus balanços mas observam uma troca de posições no lado do activo dos seus balanços, substituindo outros activos anteriormente detidos pela nova moeda.

Isto pode igualmente ser observado na criação da base monetária (reservas bancárias extra) pelos bancos centrais de hoje. Quando a Reserva Federal cria um 1 trillion de dólares extra como parte do "quantitative easing" e decide comprar títulos suportados em hipotecas aos seus bancos membros, o balanço da Fed expande-se de 1 trillion de dólares. As novas reservas bancárias estão do lado das responsabilidade no seu balanço, enquanto os títulos apoiados em hipotecas ficam no lado do activo. Os balanços dos bancos não se expandem como resultado da operação da Fed. Os bancos simplesmente substituem as hipotecas pelas novas reservas. Ambas estão no lado do activo dos seus balanços. O seu mix [a sua composição] de activos mudou. Eles têm agora mais reservas.

Este processo pode ser prolongado até que praticamente todos os activos no banco sejam transferidos para o banco central e os [depósitos nos] bancos estejam completamente cobertos por reservas e, assim, deixam de funcionar como bancos de reservas fraccionárias. Este foi precisamente o processo que Irving Fisher tinha em mente quando escreveu "100% Money" em 1935 (ver página 57), e Milton Friedman, quando escreveu "A Program For Monetary Stability", em 1960.

Em nenhum momento qualquer destes economistas sugeriu, nem nenhum banco central sugere hoje, que a criação de novo papel-moeda aumenta a riqueza geral da sociedade, que há agora mais activos na sociedade. É igualmente claro deste processo que o "perdão de dívida" pelo banco central é difícil. O banco central pode emitir suficiente moeda-reserva para adquirir todos os activos dos banco mas sempre que abata o valor contabilístico de qualquer um desses activos também tem de diminuir o passivo do seu balanço, tem que destruir moeda-reserva.

domingo, 11 de novembro de 2012

A loucura monetária (5)

Continuado daqui (Parte IParte II e Parte III), publico agora a penúltima parte do artigo de Detlev Schlichter, uma tradução da minha responsabilidade onde se demole sistemática e definitivamente a argumentação pseudo-histórica / antropológica a que os autores do "Documento de Trabalho" recorrem para defender a integral estatização da moeda. Como era de esperar, invocam sucessivos casos de recurso a moeda de papel, que classificam de "crucialmente vantajosos" [!]. As "vantagens" que já se antecipariam: as do financiamento das guerras [civis e imperiais]. De Esparta e Atenas, à Guerra da Independência, à Guerra Civil na América, à República de Weimar. 
Sem teoria, mas recorrendo a uma história revisionista

Que a distinção entre moeda "produzida privadamente" e a moeda "produzida pelo estado" tem significado e é importante é o que Benes e Kumhof tentam argumentar numa secção separada do seu ensaio. Aqui, eles afastam-se completamente de qualquer análise tradicional da moeda ou até mesmo do que ainda se poderia designar por "económico". Uma análise económica da moeda entende a moeda como uma instituição social útil e como tal tem de se iniciar por uma investigação sobre como se processa a utilização da moeda em geral, incluindo a que acontece hoje pelos utilizadores de hoje (incluindo o leitor e eu), e tenta explicar, através do raciocínio lógico, o que deveria ser por conseguinte uma boa moeda num contexto geral, incluindo o presente. Benes e Kumhof, no entanto, não argumentam conceptualmente como teóricos económicos mas como re-intérpretes da história. A história pode-nos dizer o que é uma boa moeda e como ela surge. Os antropólogos e historiadores monetários que Benes e Kumhof citam alegam que porque a moeda se originou - supostamente - com o Estado, a sua emissão é melhor controlada pelo Estado. Novamente, nenhuma explicação económica - conceptual, lógica ou teórica - é dada para o por quê de dever ser esse o caso e por que tal pode ser acolhido como uma regra geral. Alegadamente, a história diz-nos que o Estado é um emissor responsável de moeda e que o sector privado é um emissor irresponsável. E tudo se resume a isto.

A interpretação do registo histórico que é fornecida como suporte desta alegação varia entre o registo aventureiro e o bizarro a título definitivo. Exemplos em que a convertibilidade do dinheiro-depósito, em ouro e prata, foi abandonada por decreto oficial e vastas quantidades de moeda fiduciária foram criadas para financiar guerras, revoluções ou outras despesas do Estado, como durante a Guerra Revolucionária na América, a Guerra Civil nos Estados Unidos, ou a Alemanha de Weimar dos anos 1920, são reinterpretados para mostrar que as inflações que se seguiram e os desastres definitivos das respectivas moedas não podem ser atribuídos ao estado, mas são inteiramente resultado do envolvimento de emitentes "privados" de moeda.
"O papel-moeda colonial emitido pelos estados individualmente [os estados que deram origem à América por secessão da Grã-Bretanha] foram da maior vantagem económica para o país ... A Moeda Continental emitida durante a guerra revolucionária foi crucial para permitir que o Congresso Continental financiasse o esforço de guerra. Não houve emissão excessiva pelas colónias, ... Os Greenbacks emitidos por Lincoln durante a Guerra Civil foram novamente uma ferramenta crucial para financiar o esforço de guerra, (Hurra! Outra cortesia da guerra do papel moeda!) ... A única mácula no registo  estatal relativamente à emissão monetária pelo estado foi deflacionária e não de natureza inflacionária."
A sério? Os "colonials" que foram emitidos para financiar a guerra com a Grã-Bretanha acabaram sem qualquer valor, e até hoje permanece no idioma a expressão "sem valor tal como um continental". O período da Guerra Civil foi igualmente um período de inflação anormalmente elevada, e em 1879 os EUA decidiram voltar ao padrão-ouro, altura a partir da qual se instalou um período de crescimento considerável e crescente prosperidade.

A loucura monetária (4)

Continuado daqui (Parte I e Parte II). Nesta secção, Schlichter aborda o funcionamento actual do sistema bancário totalmente assente em moeda fiduciária e explica como ele decorre essencialmente do modus operandi do banco central, ou seja, da vontade dos estados. É por essa razão que defende ser impróprio categorizar a banca de "privada" no arranjo institucional hoje existente. A criação de moeda-depósito a partir do nada é um facto mas tal só acontece porque os bancos centrais o permitem e o estimulam. Só o regresso ao padrão-ouro - a perspectiva dos Austriacos - permitirá fazer regressar a sanidade monetária e o fim dos ciclos de expansão e recessão associados à expansão do crédito (e necessária correcção posterior). 
Benes e Kumhof criam um problema artificial

Para qualquer análise do actual sistema financeiro, uma distinção entre moeda criada pelo Estado e moeda criada por privados é completamente artificial e não proporciona qualquer utilidade porque, no nosso sistema monetário, a moeda é criada por um processo no qual os bancos "privados" estão intimamente ligados ao banco central estatal. Qualquer distinção entre "privado" e "estatal" é, portanto, arbitrária, e, para uma análise das consequências económicas de tal sistema, desprovida de sentido. Sim, a maior parte da moeda em circulação é hoje moeda-depósito e faz parte dos balanços dos nominalmente bancos "privados", mas as reservas estão constituídas na forma de moeda fiduciária estatal, sendo apenas criadas pelo banco central estatal, no qual os bancos nominalmente privados têm que ter uma conta para que possam obter uma licença bancária. Os bancos que operam sob um regime de reservas fraccionárias dependem fundamentalmente dos bancos centrais, patrocinados e controlados pelo Estado, que têm uma função de emprestador de último recurso e que podem - num sistema de moeda fiduciária - criar reservas bancárias segundo o seu livre arbítrio, sem custos e sem limite, e estão, em circunstâncias normais, dispostos a fazê-lo para apoiar [no limite, salvar] os bancos. Sem esse apoio fundamental, o sistema bancário de reservas fraccionárias, à escala que tem sido praticada nos anos e décadas recentes, seria inconcebível. Na sua descrição do sistema actual, Benes e Kumhof não têm em conta nada disto. Com toda a franqueza, não parecem entendê-lo.

Eis duas afirmações do ensaio do FMI que podem parecer à primeira vista razoáveis, mas que, sob inspecção mais minuciosa, revelam o grave mal entendido do nosso sistema actual revelado por Benes e Kumhof:
"Num sistema financeiro com pouco ou nenhum suporte dos depósitos através de reservas, e com o dinheiro [notas] emitido pelo governo a desempenhar um papel muito pequeno relativamente aos depósitos bancários, a criação dos agregados monetários de uma nação depende quase inteiramente da disposição dos bancos em fornecer depósitos." (página 5)
Mas o que determina a disposição dos bancos em oferecer depósitos? Um sistema bancário de reservas fraccionárias (que oferece depósitos) é lucrativo, mas é também arriscado para os bancos caso o público possa exigir o reembolso dos depósitos em dinheiro ou via transferência para outros bancos, e os bancos não podem criar dinheiro [notas] ou moeda sob a forma de reservas, o que é necessário para facilitar as transferências. Estas formas de moeda permanecem uma prerrogativa do banco central do Estado. É a certeza, ou a alta probabilidade, sob os presentes arranjos institucionais, que o banco central irá apoiar os bancos e continuar a fornecer qualquer quantidade de moeda e reservas ["liquidez"] que seja necessário, que permite aos bancos oferecer - de forma muito rentável, claro - grandes quantidades de moeda-depósito a partir de uma pequena quantidade de moeda-reserva. Caso o público exija o pagamento em dinheiro [notas], há a expectativa, razoável, de que o banco central apoie os bancos e forneça o dinheiro [notas] necessário.

Nas últimas décadas, o sistema bancário mundial encontrou-se em numerosas ocasiões numa posição em que sentiu que tinha assumido um risco financeiro demasiado elevado e que uma desalavancagem e uma diminuição do seu balanço era aconselhável. Eu sugeriria que foi este o caso em 1987, 1992/3, 1998, 2001/2, e, certamente, 2007/8. No entanto, em cada uma dessas ocasiões, o impacto económico mais amplo de uma tal estratégia de diminuição do risco foi considerada indesejável ou mesmo inaceitável por razões políticas, e os bancos centrais ofereceram amplas novas reservas bancárias a um custo muito baixo com a finalidade de desencorajar a contracção monetária e incentivar uma adicional expansão monetária, ou seja, a criação adicional de reservas fraccionárias. É assim de admirar que os bancos tenham continuado a produzir grandes quantidades de dinheiro-depósito - de forma rentável, claro? Poderá o resultado ser realmente atribuído à iniciativa "privada"?

Um sistema bancário de reservas fraccionárias à dimensão que hoje existe exige duas coisas: 1) um banco central patrocinado pelo Estado que tem o monopólio da criação de reservas e a função de emprestador de último recurso do sector bancário; 2) o banco central tem de ter o controle completo sobre as reservas bancárias e ser capaz de as criar, sem custos e sem limites. Em suma, a condição prévia para a existência em grande escala de um sistema bancário de reservas fraccionárias é um sistema completa e irrestritamente fiduciário [fiat]. Em contraste, a capacidade do banco central para criar reservas está fundamentalmente restrita sob um regime de padrão-ouro.

O padrão-ouro foi abolido e substituído por um sistema inteiramente irrestrito de moeda estatal fiduciária mediante um acto político. O Estado estabeleceu bancos centrais monopolistas que têm uma função de emprestador de último recurso ao sector bancário. O estado criou assim a infra-estrutura que permite aos bancos fornecer grandes quantidades de depósitos e, ao longo de décadas, tem repetidamente subsidiado esta actividade e socializado os seus riscos.

Aqui está a segunda afirmação de Benes e Kumhof:
"O controlo do crescimento do crédito seria muito mais directo porque os bancos já não seriam capazes, como são hoje, de gerar o seu próprio financiamento, depósitos, no acto de emprestar, um privilégio extraordinário que não é usufruído por nenhum outro tipo de negócio."(página 5)
Mas o que, exactamente, constitui o privilégio? - Numa sociedade livre, somos naturalmente livres de emitir os nossos próprios meios fiduciários - basta que passemos cheques sobre nós mesmos e, de seguida, os ponhamos a circular como substitutos de dinheiro. Provavelmente teremos de convencer o público que iremos converter esses cheques em dinheiro próprio a pedido, de modo a persuadir o público a usar os cheques como equivalentes a dinheiro, e mesmo assim é possível que não tenhamos sucesso. Mas se o público acreditar em nós e o nosso esforço for bem sucedido, tornámo-nos de facto em produtores de moeda e podemos financiar os nossos próprios empréstimos com os nossos cheques. Na verdade, foi basicamente assim que se originou o sistema bancário de reservas fraccionárias. Até agora, pois, nenhum privilégio. O negócio só se torna privilegiado, e possível na escala a que assistimos hoje, uma vez que o Estado o suporta. A solução "Austríaca" é simples: remova-se o privilégio! Sem moeda fiduciária, sem os bancos centrais e sem o seguro dos depósitos patrocinado pelo Estado, vejamos quanta criação de moeda "privada" haverá realmente!
(Continua)

sábado, 10 de novembro de 2012

A loucura monetária (3)

Continuado daqui (e daqui), publico agora a tradução da Parte III da contra-resposta de Detlev Schlichter ao "Documento de Trabalho", publicado por dois funcionários do FMI, que advoga a total estatização do controle da moeda por parte do Estado. Neste trecho, Schlichter demonstra que a abordagem dos seus autores não se enquadra em nenhuma teoria monetária - "Austríaca" ou "Monetarista" - o que acaba por se compreender já que a tese principal do ensaio se estriba em argumentos não-económicos.
O que este ensaio não é: não é nem "Austríaco" nem Monetarista

Benes e e Kumhof, cedo no seu artigo, afirmam que o sistema de reservas fraccionárias aumenta o risco de corridas aos bancos, provoca ciclos económicos de prosperidade exuberante [boom] e de recessão e que um sistema de reservas a 100 por cento iria assegurar uma maior estabilidade. Estas observações são, em princípio, correctas. Mas, infelizmente, por aqui se ficam. Benes e Kumhof não desenvolvem estas ideias. Na verdade, para a sua própria argumentação, estas ideias são completamente irrelevantes. No seu artigo não se dão ao trabalho de investigar toda a gama de efeitos da expansão do crédito bancário questionando, por exemplo, se a expansão da base monetária levada a cabo pelo banco central sob um sistema de reservas a 100% não poderia ter efeitos semelhantes ou até os mesmos efeitos adversos que a expansão da moeda-depósito tem num sistema de reservas fraccionárias.

A Escola Austríaca tem fornecido a análise mais abrangente dos efeitos da expansão do crédito bancário e tem mostrado de forma conclusiva por que os sistemas monetários mais inelásticos ("mais fortes") ["harder"] proporcionam uma maior estabilidade. A expansão da oferta monetária tem sempre efeitos perturbadores pois o influxo de dinheiro novo tem necessariamente de distorcer as taxas de juro, e as taxas de juro são cruciais para a coordenação das actividades de investimento com poupança voluntária. A pergunta que os "Austríacos" perseguem não é quem é que deve controlar a criação de moeda, mas se alguém deve controlar a criação de moeda. Deveria mesmo alguém poder criar moeda numa base contínua? Uma vez que um bem de oferta razoavelmente inelástica, como é o caso do ouro, seja amplamente aceite como moeda, qualquer quantidade desse activo monetário - dentro de limites razoáveis - é suficiente, e de facto ideal, para satisfazer qualquer procura de moeda. A procura de moeda é a procura de poder de compra na forma de dinheiro, e pode sempre ser satisfeita permitindo que o mercado ajuste o preço do activo monetário relativamente aos bens não-monetários. Não é necessária nenhuma criação de moeda e qualquer processo permanente de criação de moeda é na verdade perturbador.

Os "Austríacos" tendem a ser crítico do sistema bancário de reservas fraccionárias mas eles são igualmente críticos - na realidade, ainda mais críticos - da moeda fiduciária e do banco central. Os problemas que eles estudaram também ocorreriam - e são até mais prováveis de ocorrer - se o sistema bancário de reservas fraccionárias fosse substituído por um gigantesco banco central do Estado.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A loucura monetária (2)

Continuado daqui, publico agora a Parte II do artigo de Detlev Schlichter que, como expliquei anteriormente, me propus divulgar aqui traduzindo-o para português. Schlichter começa por apresentar uma sinopse da tese nuclear do ensaio, publicado por dois técnicos do FMI (Jaromir Benes e Michael Kumhof), e faz desde logo notar que a "âncora" invocada no título do ensaio - The Chicago Plan Revisited é totalmente mistificadora pois a argumentação expendida nada tem a ver com os expoentes teóricos daquela Escola (Irving Fisher, Henry Simons ou Milton Friedman). Schlichter termina esta parte do seu contra-artigo explicitando o caminho que se propõe trilhar na refutação das teses presentes no ensaio. Fica de qualquer modo já claro que a tese dos seus autores não é mais que uma "justificação" para uma ainda maior estatização da economia ao reclamar um integral monopólio estatal no domínio da moeda. 
Harry Potter encontra Irving Fisher

A proposta em discussão é o Documento de Trabalho [Working Paper] do FMI 12/202 por Jaromir Benes e Kumhof Michael [link]... Intitula-se "O Plano de Chicago Revisitado" e apresenta-se como uma reafirmação das ideias de Irving Fisher e Henry Simons, da Universidade de Chicago, nas décadas de 1930 e 1940, e uma aplicação destas ideias à presente crise. Nele se sugere o seguinte:

A criação de "moeda privada" é a raiz de todos os males da economia. A maior parte da moeda, hoje, é criada por bancos "privados" através do sistema de reservas fraccionárias. Isso significa que a criação de moeda está ligada à concessão de empréstimos e à acumulação de dívida. Um sistema de reservas a cem por cento deve ser estabelecido pelo estado e o estado irá imediatamente reprimir qualquer tentativa por parte do sector privado para emitir instrumentos financeiros líquidos - quase moeda - que poderiam ser aceites pelo público como equivalentes a moeda. A criação de moeda é colocada sob o controle total do Estado. O novo sistema deve ser implementado imediatamente num único grande movimento: os bancos são obrigados a pedir emprestadas as reservas necessárias ao Governo (ao Tesouro) para atingir instantaneamente os novos rácios de reservas a 100 por cento . O governo cria essas reservas - como é habitual num sistema de moeda fiduciária - a partir do nada. Nos EUA, este plano ascenderia a um montante de novas reservas na ordem dos 184 por cento do PIB, de acordo com Benes / Kumhof, o que significa 27,6 milhões de milhões de dólares ou 15 vezes a dimensão combinado dos QE1 e QE2 [acrónimos das duas primeiras rondas de "Quantitative Easing"]. Com a nova exigência de reservas de 100%, essa moeda não irá circular não permitindo a criação de mais crédito bancário, o que - esperam os autores - tornará esta intervenção não inflacionária. (Uma parte das novas reservas também será cancelada na próxima etapa.) As novas reservas permitirão ao governo / banco central, por fim, transferir a propriedade dos activos bancários para si próprio.

É importante realçar que essas novas reservas são constituídas por um processo muito diferente do que sucede com os bancos de hoje, por exemplo, através do "alívio quantitativo", e do que foi sugerido por Irving Fisher em 1935 ("100% Money" [link]), ou  por Milton Friedman em 1960 ("A Program for Monetary Stability" [link]). Estes processos mais "convencionais" não permitem qualquer eliminação de dívida em grande escala. Os bancos centrais adquirem activos bancários trocando-os pela nova moeda-reserva, que constituem como um crédito sobre si mesmos (uma responsabilidade) e, sob os princípios contabilísticos normais, qualquer redução dos novos activos ("perdão" de dívida) causaria necessariamente também a extinção das reservas bancárias. O abate da dívida reduz o balanço do banco central e, assim, reduz o passivo do banco central, ou seja, reduz as reservas do sistema bancário.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dançando sobre o túmulo do keynesianismo

Num momento notável de insensatez, intentei traduzir o importante texto de Gary North que foi publicado no site do Mises Institute, na 2ª feira, dia 1 de Outubro. O título era, confesso-o, aliciante - Dancing on the Grave of Keynesianism - mas o que se me tornou irresistível foi o seu brilhante conteúdo e a necessidade que senti em contribuir para o divulgar. As minhas desculpas pelas insuficiências na tradução (de minha inteira responsabilidade) pelo que aconselho vivamente a leitura do original.
O colapso da União Soviética em Dezembro de 1991 foi a melhor notícia da minha vida. O monstro morreu. Não foi apenas a URSS que caiu. Toda a mitologia da violência revolucionária como método de regeneração social, promovida desde a Revolução Francesa, caiu com ela. Como escrevi no meu livro de 1968, o marxismo foi uma religião da revolução. E o marxismo morreu institucionalmente no último mês de 1991.

Imagem retirada daqui
No entanto, não podemos mostrar conclusivamente que "o Ocidente" derrotou a União Soviética. O que derrotou a União Soviética foi o planeamento económico socialista. A União Soviética baseava-se no socialismo e o cálculo económico socialista é irracional. Ludwig von Mises, em 1920, descreveu por quê no seu artigo "Cálculo Económico na Comunidade Socialista". Ele mostrou, no plano teórico, exactamente o que há de errado com todo o planeamento socialista. Ele deixou claro por que razões o socialismo nunca poderia competir com o mercado livre. Em consequência de não existirem mercados de bens de capital, os planeadores económicos não conseguem alocar o capital de acordo com as necessidades mais importantes e mais desejadas pelo público.

A argumentação de Mises não foi levada a sério pela comunidade académica. O socialismo era tão popular entre os académicos, em 1920, que eles não responderam a Mises durante mais de 15 anos. Quando finalmente um importante economista, que de facto não era um grande economista mas simplesmente um comunista polaco, elaborou uma resposta a Mises, obteve grande publicidade. O seu nome era Oscar Lange. Ele era um homem sem princípios. Ele ensinou na Universidade de Chicago. Ele não tinha nenhuma teoria do funcionamento da economia. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, voltou para a Polónia, renunciou à sua cidadania americana e tornou-se num importante burocrata do governo polaco. Ele foi escolhido a dedo por Estaline para ser o primeiro embaixador polaco nos Estados Unidos. Ele era um marxista. Ele era um comunista. Ele era um homem sem princípios. Passou a sua carreira com o dedo no ar, para ver de que lado o vendo soprava. Quanto à sua crítica de Mises, nunca a Polónia adoptou a por si designada resposta organizacional prática a Mises, tal como em nenhuma outra nação da comunidade socialista.

Deste modo, a única supostamente grande refutação académica a Mises foi feita por um homem desprovido de integridade que se passou para o lado do comunismo quando conseguiu uma oferta melhor. E todavia foi anunciado como sendo um economista brilhante porque, supostamente, havia refutado Mises. O mundo académico nunca admitiu o que Lange foi: um comunista sem princípios. Ele nunca admitiu que nenhum país socialista alguma vez tivesse aplicado a sua suposta alternativa ao sistema de  mercado livre. O mundo académico agarrou-se simplesmente, por mais de 50 anos, à sua totalmente hipotética alternativa ao mercado livre para a alocação de capital. O mundo académico não aprenderia a verdade.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O dinheiro: você ganha-o, eles imprimem-no. Bem-vindo ao mundo da Corrupção

Um importante texto de JoNova que torna inútil um post em que eu próprio vinha pensando. Aqui o traduzo, com adaptações:
Senhoras e senhores: é óbvio (para quem sabe que não há almoços grátis) que de uma forma ou de outra este Festival de Funny Money iria terminar em lágrimas (…)

O governo pode imprimir dinheiro do nada [base monetária] podendo fixar taxas de juro artificialmente baixas de modo a incentivar os bancos privados a criar dinheiro do nada [crédito em regime de reservas fraccionárias]. E os governos continuam a fazê-lo, porque é muito mais fácil ser-se eleito distribuindo pão e peixe ao mesmo tempo que se atribui subsídios para painéis solares nos telhados das casas, numa espuma de dinheiro fácil e preços crescentes dos activos. Qualquer tolo pode gastar o dinheiro de outra pessoa, especialmente quando o otário nem sequer sabia que era o seu dinheiro.

Assim, a inflação rouba a todos e a cada um. Silenciosamente.


No mundo real, temos que pagar as nossas dívidas. Mas nunca o mundo da classe dirigente tem de fazer face às consequências das suas decisões. Alan Greenspan reconheceu-o ...- efectivamente anunciando que os EUA são, afinal, os Estados Unidos do País das Maravilhas, onde não importa quão alta é a dívida pois o país nunca irá entrar em incumprimento - porque podem imprimir dinheiro. O "Helicopter Ben" [Ben Bernanke, presidente da Fed] virá em socorro!

Há um pote no fim deste arco-íris. E funciona tão bem como qualquer super-herói ou máquina de movimento perpétuo.

Assim que o novo dinheiro “desponta” para a existência, ele começa a reorientar a actividade económica para longe das coisas que as pessoas-que-de-facto-ganham-dinheiro-trabalhando pensavam ser úteis. Ao invés, a parte de gigante da actividade induzida [pelo novo dinheiro] dirige-se para a produção de coisas que aqueles-que-o-fizeram-despontar pretendem... E elas surgem através de ilimitadas formas de desperdício, tais como: moinhos de vento gigantes para parar inundações, ciclovias para prevenir ciclones ou dez diferentes técnicas de ponta para armazenar um gás fertilizante [CO2] em minas, onde nunca nada irá crescer.

Mas o dinheiro que é criado, no sistema actual, a partir de dívida, tal como uma corrente de infinitas promissórias e, no geral, todas as coisas boas, têm de chegar ao fim. Desde 1982 que a bolha tem crescido e, após 25 anos de um borbulhar incessante, o bizarro acabou por ser tido como normal (podíamos ter uma casa, viver nela, e usá-la para comprar um iate de 42 pés na Florida). Finalmente, em 2007, o sector privado entrou em saturação de dívida. E em 2011, é agora óbvio que a maioria dos governos não consegue pedir dinheiro emprestado ou subir impostos muito mais. Não há mais paragens nesta linha, restando apenas comprar bilhetes para o Comboio Expresso do Estímulo Fiscal e assistir a vê-los encontrar maneiras de imprimir.

As pessoas estão começando a perceber.

Assim, chegamos ao mais estranho dos momentos quando o mundo está a descobrir que as previsões de incêndios, inundações e peste foram falsificadas, como se dão conta que as garantias sobre a qualidade do dinheiro eram igualmente falsas. O desastre está a chegar, mas não por causa do carbono. Temos estado preocupados com o ponto de inflexão errado.

Tratar-se-á de uma coincidência? Uma convergência aleatória de alucinações? Não é assim. É necessária uma mentira para alimentar outra mentira. É necessário um tipo especial de "riqueza" para que nos preocupemos com o mau tempo daqui a 100 anos. Ninguém esteve a observar os dólares com a atenção necessária e as recompensas por práticas fraudulentas tornaram-se descontroladamente elevadas, por comparação com as que são pagas pela denúncia de irregularidades ou pela investigação jornalística real. A corrupção reinou em toda a parte alta da cidade. Políticos mentiram, cientistas perderam dados, banqueiros avaliaram erradamente os riscos e venderam-nos aos totós, mas foram resgatados, e os funcionários públicos serviram os governos em vez dos cidadãos. Revistas científicas esqueceram o que era a ciência, professores quebraram as leis da razão e praticamente todos os old media deixaram-nos escapar impunes. Na verdade, estavam ocupados a promover escutas ilegais para fins de entretenimento...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Plano B

Correndo o risco de poder ser entendido como um apaniguado do bispo Louçã (que é hoje tão trotskista como há 40 anos atrás) ou do acólito Luiz Fazenda (UDPisco como sempre), o video seguinte explica, com simplicidade, como os bancos criam dinheiro do nada (mercê do mecanismo conhecido pelo sistema de reservas fraccionárias). Falta no video a explicitação que um sistema desta natureza só é possível pelo facto de existirem bancos centrais (criados / permitidos pelos governos por lhes fazerem imenso jeito [têm impressoras oficiais]) que acorrem a salvar (bailout) os bancos quando estes reconhecem que parte dos seus activos nada valem. Surgem então as eufemisticamente designadas crises de liquidez (na realidade falências adiadas / evitadas pelos bailouts).

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

As notícias não são boas (2)

Mervyn King, presidente do banco central britânico, é uma figura chave no sistema financeiro mundial e não é um homem de falas mansas. Por exemplo, não teve pejo, em Outubro último, em aventar a possibilidade de acabar com o sistema de reservas fraccionárias como forma de conferir maior estabilidade ao sistema bancário.

Na semana passada, após o anúncio de que se verificou no último trimestre de 2010 uma nova contracção da economia britânica, Mervy King entendeu chegado o momento para se dirigir aos cidadãos britânicos em termos nada optimistas:


«Em 2011, os salários reais , muito provavelmente, tenderão a não ser superiores àqueles que se verificaram em 2005… É necessário regressar aos anos 20 para encontrar um outro período em que os salários reais tivessem caído ao longo de um período de seis anos.»


«O aperto nas condições de vida é o preço inevitável a pagar pela crise financeira e subsequente reequilíbrio da economia mundial e da do Reino Unido.»

«[A inflação aumentará] entre quatro a cinco por cento ao longo dos próximos meses.»

«Ofereço a minha total solidariedade para com os aforradores e todos aqueles que, tendo-se comportado de forma prudencial encontram-se agora como os maiores  perdedores em resultado desta crise.
E há fortes razões para supor que tanto os países europeus, como os EUA e o Japão dificilmente escaparão a uma significativa redução nos padrões de qualidade de vida.

Estas são palavras inabituais, para mais vindas de um banqueiro central. É certamente sinal da gravidade da situação que o Reino Unido atravessa.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Padrão-ouro - o regresso de uma "impossibilidade"


Licenciei-me em Economia no início dos anos 80. Na altura, o plano de estudos não tinha cadeiras de opção e o naipe de professores era  impressivo. Entre outros, Silva Lopes, Alfredo de Sousa, Cavaco Silva, Campos e Cunha, Sérgio Rebelo, António Borges, António Mexia, Abel Mateus, Amado da Silva, Borges de Macedo, Adérito de Sedas Nunes. Era o tempo da ortodoxia keynesiana onde ainda se discutia o suposto trade-off entre desemprego e inflação (curva de Philips) e onde não havia espaço, sequer, para falar sobre a Escola de Chicago, impressionante produtora de prémios Nobel da Economia como Milton Friedman (1976), George Stigler (1982), Gary Becker (1992) ou Robert Lucas (1995). Por maioria de razão, nomes como Carl Menger, Bohm-Bawerk, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek (apesar do prémio Nobel em 1974) ou Murray Rothbard, dos mais distintos da denominada Escola Austríaca, eram-nos totalmente desconhecidos.

De então para cá, a sucessão de crises resultantes dos sucessivos ciclos de boom and bust fez-me sentir uma insatisfação crescente quer dos keynesianos quer dos monetaristas em fornecer uma chave de interpretação do porquê dos booms e dos subsequentes busts. Foi assim que cheguei ao estudo da Escola Austríaca onde encontrei um quadro interpretativo para todas as crises desde os inícios do século XIX.

Jesús Huerta de Soto, catedrático de Economia da Universidade Juan Carlos em Madrid, é hoje um dos mais representativos nomes no mundo da Escola Austríaca, sendo que a publicação do seu livro figurado na imagem à esquerda "Moeda, Crédito e Ciclos Económicos" (pdf em espanhol ou inglês) constitui um marco na defesa da regresso ao chamado padrão-ouro e ao fim da prática das reservas fraccionárias. Ora sucede que uma discussão que até aqui se vinha confinando a alguns círculos académicos ou a figuras tidas por excêntricas (como é o caso de Ron Paul), está a alargar-se significativamente. Por exemplo, o Parlamento britânico debruça-se sobre a questão das reservas fraccionárias o próprio Banco de Inglaterra admite o seu fim e dias depois de o próprio presidente do Banco Mundial aventar a possibilidade de regresso a uma sistema monetário ligado ao ouro (como sucedia até 1971), a discussão intensifica-se.

Matéria a seguir atentamente.