É o apelo que Detlev Schlichter deixa ficar quando, ainda que a contragosto, defende a opção de haircut dos depositantes cipriotas e, por extensão, de outros cidadãos de outras nacionalidades, Portugal incluído - Cyprus and the reality of banking: Deposit haircuts are both inevitable and the right thing to do. Artigo a ler com muita atenção diria (acompanhando Carlos Novais na recomendação), datado de dia 19 de Março. Esta é uma análise que, a meu ver, tem muitos pontos de contacto com a que Jesús Huerta de Soto aqui fez em defesa do euro e que eu subscrevo (como expliquei anteriormente). A tradução é, como habitualmente, da minha responsabilidade.
Também eu fiquei chocado ontem de manhã. Não tanto com a notícia de que os depositantes em bancos cipriotas teriam de enfrentar um haircut, ou uma "taxa" ou um "imposto" sobre os seus depósitos, entendido como uma contribuição para ainda mais outro bailout na zona euro financiado pelos contribuintes de outros países, mas antes pela reacção da imprensa. Aqui estava, de acordo com a maioria dos comentadores internacionais, mais um exemplo da inépcia, ou mesquinhez pura e simples, da elite política da zona euro, um outro exemplo da imposição de sofrimento desnecessário e contraproducente e de uma brutal "austeridade" sobre os cidadãos inocentes dos pequenos e conturbados países. O Daily Telegraph, na sua primeira página, fez uso da hipérbole habitual de um "raide da União Europeia sobre as poupanças" e, naturalmente, de outra "ameaça à recuperação". O que agitou a maioria dos comentadores foi ter sido violada, levianamente, a "santidade" do seguro de depósitos pois mesmo os depósitos de montante inferior a 100 mil euros foram, pelo menos inicialmente, também sujeitos a um haircut, se bem que reduzido. É suposto que este tipo de depósitos desfruta de uma "garantia" que, por um passe de mágica, os protege da dura realidade feita de bancos falidos e de estados falidos. Minar essa "garantia" pode ter consequências de grande alcance para além do pequeno Chipre, uma vez que tem o potencial de erodir a confiança nos sistemas bancários na Grécia, em Espanha e em Portugal.
Imagem por Pixomar
Concordo que esta é uma medida arriscada. O sistema bancário internacional está altamente alavancado [escorado em dívida] e boa parte dele vem oscilando à beira do abismo há já muitos anos. Qualquer coisa que afecte os depositantes pode ter graves consequências. Mas, dado o estado de coisas, qualquer tentativa séria para lidar com os problemas dos sistemas bancários deve, inevitavelmente, acarretar riscos. As perguntas são as seguintes: Estão a ser avaliados os tipos correctos de riscos? E qual deveria ser a alternativa?
A banca é um negócio arriscado porque os bancos são empresas altamente alavancadas. (Desculpem-me por lhes dar esta notícia). Num sistema bancário de reservas fraccionárias os "depósitos" não são depósitos (ou seja, contratos relativos aos serviços de custódia) mas antes empréstimos aos bancos e, como tal, empréstimos a negócios altamente alavancados.
A maioria das pessoas nos países desenvolvidos acostumou-se a não se preocupar com a saúde de cada um dos bancos individualmente considerados. Elas têm sido, ao longo de décadas, levadas a acreditar que todos os bancos são regulados pelo Estado e, em última análise, protegidos pelo estado. É verdade, mas apenas na medida necessária para que os bancos possam assumir riscos ainda maiores e se alavancarem ainda mais. A "protecção" do estado criou agora um monstro bancário que está engolindo os recursos do próprio estado. E isto dificilmente pode constituir um choque surpresa nos inícios de 2013!
A crença ingénua de que os depósitos bancários são sempre "dinheiro bom" por serem garantidos pelo estado e o estado, afinal de contas, é uma cornucópia sem fim, foi talvez compreensível, ou pelo menos desculpável, até cerca de 2008, quando o então primeiro-ministro da Irlanda, Brian Cowen, em plena crise bancária irlandesa, teve a genial ideia de simplesmente declarar que estariam garantidos pelo estado todos os depósitos em bancos irlandeses. E, pronto, problema resolvido! Obviamente, Cowen não tinha feito as contas e não percebeu quão grande essa garantia iria ser. Bem, tal foi determinado pelos mercados - e a Irlanda, o país, foi à falência.


