Neste caso em particular, em papel timbrado de uma venerável instituição membro do Eurogrupo - o banco central de Chipre, em ofício datado de 11 de Fevereiro último. Consigo até imaginar a qualidade superior do papel utilizado. Pro memoria.
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sexta-feira, 29 de março de 2013
segunda-feira, 25 de março de 2013
Próximo!
Ok, o "Armagedeão" terá sido, por agora, adiado evitado. De um modo algo surpreendente (?), devo dizer, através de um arranjo moralmente mais defensável do que o inicialmente previsto (as perdas dos depositantes e accionistas - a componente "bail-in" do pacote de resgate - circunscrever-se-ão aos dois bancos falidos em maiores dificuldades e não a todos os depositantes de todos os bancos, o que indiciava uma punição colectiva de ressonância calvinista).
Há quem tenha ficado entusiasmado com o feito. Afinal de contas, com o S&P nos píncaros, as coisas só podem estar, agora, muito bem encaminhadas. Próximo!!
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| Imagem retirada daqui |
Por que é a crise do Chipre de 2003 pior que a da Argentina em 2001 e do Kreditanstalt (1931)
Martin Sibileau, em Why Cyprus 2013 is worse than the KreditAnstalt (1931) and Argentina 2001 crises, publicado em 24-03-2013, oferece-nos uma leitura histórica comparada entre o "evento" Chipre 2013 e dois outros clássicos homólogos - o da Argentina em 2001 e um outro, mais recuado no tempo - a bancarrota do banco austríaco Kreditanstalt -, que muitos historiadores identificam como extremamente relevante para a hecatombe que se abateria sobre o mundo poucos anos depois. Como pertenço ao grupo daqueles que subscreve, em termos vigorosos, estas asserções de Maria do Carmo Tavares - particularmente, a necessidade de o economista saber História (para que possa ligar os acontecimentos) -, achei interessante partilhar mais um texto não ortodoxo sobre o "evento" Chipre 2013. A tradução, rápida, é da minha responsabilidade.
O Chipre de 2013, como qualquer outro acontecimento, pode ser analisado em termos políticos e económicos.
Análise política: duas dimensões
Politicamente, consigo distinguir duas dimensões. A primeira dimensão pertence à história geopolítica da região, a que se juntaram as recém-descobertas reservas de gás natural. A relevância histórica vem desde 1853, o ano em que se iniciou a Guerra da Crimeia. A Guerra da Crimeia ocorreu no adjacente mar Negro, mas o propósito político era o mesmo: evitar a expansão da Rússia para o Mediterrâneo. A relevância desse episódio residiu no rompimento do equilíbrio de poder estabelecido após as Guerras Napoleónicas, fixado no Congresso de Viena, em 1815. A partir daí, toda uma nova série de acontecimentos inesperados levaria a uma França mais fraca, a uma Prússia mais forte, a novas alianças e a uma solução final 60 anos depois: a I Guerra Mundial. É neste mesmo quadro que eu vejo o Chipre de 2013 como um acontecimento político muito relevante: caso a Rússia, eventualmente, proporcione um resgate a Chipre (à hora que escrevo, tal não parece provável) contra o penhor das reservas de gás natural ou de uma base naval, um novo equilíbrio de poder terá sido alcançado na região, em que Israel será o maior perdedor.
A segunda dimensão política refere-se a um observação que fiz, há exactamente um ano atrás, precisamente inspirada no evento Kreditanstalt [link] de 1931. Num artigo intitulado: "Acerca do ouro, de acções, da repressão financeira e do Kreditanstalt de 1931", escrevi:
"(O evento Kreditanstalt) foi accionado porque a França, uma credora do sector público, introduziu uma condição política à Áustria, em troca de um resgate ao Kreditanstalt. Hoje, como em 1931, na zona euro, o sector público é, cada vez mais, o credor do sector público. Em 1931, a Inglaterra e a França eram credoras da Áustria e exigiram condições que nenhum investidor privado teria exigido.
Os investidores privados vivem e morrem pelos lucros e prejuízos que obtiverem. Os políticos vivem e morrem pelos votos que consigam alcançar. Os investidores privados preocupam-se com a sustentabilidade e estrutura de capital daquele que pede emprestado, com a exigência de garantias e com o perfil de financiamento dos seus créditos. Os políticos preocupam-se com a sustentabilidade do seu poder. É um facto e temos de aprender a viver com ele.
Em 2012, a Grécia e cada vez mais outros países periféricos da União Europeia são devedores de outros estados, do FMI e do Banco Central Europeu. Os investidores privados foram devastados e não regressarão tão cedo. Tememos que, tal como em 1931, quando o próximo resgate ocorrer, quer novamente à Grécia quer a Portugal ou a Espanha, serão exigidas condições políticas que um investidor privado, no seu pleno juízo, jamais teria exigido.
Pense-se nisto ... Que diabo tinha a união aduaneira entre a Áustria e a Alemanha, em 1931, a ver com o rácio de capitalização do Kreditanstalt??? Nada! E no entanto, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro foram condenadas à miséria em apenas uma questão de dias enquanto as suas poupanças se evaporavam! Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das moedas fiat [fiduciárias]! Você foi avisado! Se o leitor, uns meses a partir de agora, ler nos jornais que Conselho da União Europeia irresponsavelmente vier a exigir coisas estranhas a um país periférico necessitado de um resgate, lembre-se do Kreditanstalt. Lembre-se de 1931 ...
Por favor, compreenda que este não é um risco extremo [tail risk]. O risco extremo é precisamente o oposto [ou seja, é muito significativo]. O real risco extremo aqui [ou seja, o altamente improvável] é que, quando o próximo resgate ocorrer, os políticos pensem como investidores privados pensariam e dêem prioridade à economia e não a considerações políticas. Esse é o risco extremo! Se uma tal crise vier a ocorrer, os media irão falar de correlações crescentes e dir-lhe-ão que tudo está realmente bem neste lado do Atlântico. Mas se nos ler a nós, irá saber que tudo o que levou a tal situação era perfeitamente previsível e nada está realmente bem, também deste lado do Atlântico. Ter-se-á lembrado de 1931..."
Chegado aqui, eu acho que tudo está dito e não tenho mais nada a acrescentar. As minhas preocupações de há um ano estão-se mostrando demasiado correctas.
sábado, 23 de março de 2013
Curiosidade irrelevante
O nome do actual governador do banco central do Chipre que, imagino, esteja em regime de laboração contínua há já uns dias largos, é, muito apropriadamente, Panicos Demetriades (Wikipédia).
quinta-feira, 21 de março de 2013
Por favor, acordem!
É o apelo que Detlev Schlichter deixa ficar quando, ainda que a contragosto, defende a opção de haircut dos depositantes cipriotas e, por extensão, de outros cidadãos de outras nacionalidades, Portugal incluído - Cyprus and the reality of banking: Deposit haircuts are both inevitable and the right thing to do. Artigo a ler com muita atenção diria (acompanhando Carlos Novais na recomendação), datado de dia 19 de Março. Esta é uma análise que, a meu ver, tem muitos pontos de contacto com a que Jesús Huerta de Soto aqui fez em defesa do euro e que eu subscrevo (como expliquei anteriormente). A tradução é, como habitualmente, da minha responsabilidade.
Também eu fiquei chocado ontem de manhã. Não tanto com a notícia de que os depositantes em bancos cipriotas teriam de enfrentar um haircut, ou uma "taxa" ou um "imposto" sobre os seus depósitos, entendido como uma contribuição para ainda mais outro bailout na zona euro financiado pelos contribuintes de outros países, mas antes pela reacção da imprensa. Aqui estava, de acordo com a maioria dos comentadores internacionais, mais um exemplo da inépcia, ou mesquinhez pura e simples, da elite política da zona euro, um outro exemplo da imposição de sofrimento desnecessário e contraproducente e de uma brutal "austeridade" sobre os cidadãos inocentes dos pequenos e conturbados países. O Daily Telegraph, na sua primeira página, fez uso da hipérbole habitual de um "raide da União Europeia sobre as poupanças" e, naturalmente, de outra "ameaça à recuperação". O que agitou a maioria dos comentadores foi ter sido violada, levianamente, a "santidade" do seguro de depósitos pois mesmo os depósitos de montante inferior a 100 mil euros foram, pelo menos inicialmente, também sujeitos a um haircut, se bem que reduzido. É suposto que este tipo de depósitos desfruta de uma "garantia" que, por um passe de mágica, os protege da dura realidade feita de bancos falidos e de estados falidos. Minar essa "garantia" pode ter consequências de grande alcance para além do pequeno Chipre, uma vez que tem o potencial de erodir a confiança nos sistemas bancários na Grécia, em Espanha e em Portugal.
Imagem por Pixomar
Concordo que esta é uma medida arriscada. O sistema bancário internacional está altamente alavancado [escorado em dívida] e boa parte dele vem oscilando à beira do abismo há já muitos anos. Qualquer coisa que afecte os depositantes pode ter graves consequências. Mas, dado o estado de coisas, qualquer tentativa séria para lidar com os problemas dos sistemas bancários deve, inevitavelmente, acarretar riscos. As perguntas são as seguintes: Estão a ser avaliados os tipos correctos de riscos? E qual deveria ser a alternativa?
A banca é um negócio arriscado porque os bancos são empresas altamente alavancadas. (Desculpem-me por lhes dar esta notícia). Num sistema bancário de reservas fraccionárias os "depósitos" não são depósitos (ou seja, contratos relativos aos serviços de custódia) mas antes empréstimos aos bancos e, como tal, empréstimos a negócios altamente alavancados.
A maioria das pessoas nos países desenvolvidos acostumou-se a não se preocupar com a saúde de cada um dos bancos individualmente considerados. Elas têm sido, ao longo de décadas, levadas a acreditar que todos os bancos são regulados pelo Estado e, em última análise, protegidos pelo estado. É verdade, mas apenas na medida necessária para que os bancos possam assumir riscos ainda maiores e se alavancarem ainda mais. A "protecção" do estado criou agora um monstro bancário que está engolindo os recursos do próprio estado. E isto dificilmente pode constituir um choque surpresa nos inícios de 2013!
A crença ingénua de que os depósitos bancários são sempre "dinheiro bom" por serem garantidos pelo estado e o estado, afinal de contas, é uma cornucópia sem fim, foi talvez compreensível, ou pelo menos desculpável, até cerca de 2008, quando o então primeiro-ministro da Irlanda, Brian Cowen, em plena crise bancária irlandesa, teve a genial ideia de simplesmente declarar que estariam garantidos pelo estado todos os depósitos em bancos irlandeses. E, pronto, problema resolvido! Obviamente, Cowen não tinha feito as contas e não percebeu quão grande essa garantia iria ser. Bem, tal foi determinado pelos mercados - e a Irlanda, o país, foi à falência.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Nigel Farage Message To Europeans: "Get Your Money Out While You Can"
Farage, no essencial, lúcido e sucinto, como é seu timbre.
terça-feira, 19 de março de 2013
Ninguém ousou chamar-lhe roubo
Julgo estarem a alvo de uma perigosa ilusão (que irá provavelmente vir a pagar-se bem cara) aqueles que rejubilam com o que se anuncia - Parlamento cipriota recusa taxa sobre depósitos - preferindo esquecer o que esteve (ainda está?) para acontecer. Algum dos problemas estruturais foi resolvido? Sequer endereçado? Não, tudo continua essencialmente na mesma. Como alguém dizia, com graça, todos "querem emagrecer sem fazer dieta". Por isso, a contra-corrente, parece-me útil divulgar o que me parece ser um excelente texto de Jeffrey Tucker ("None Dare Call It Theft") onde se sublinha que cada um de nós deve retirar lições permanentes do que ocorreu (ou esteve para ocorrer, ou apenas foi adiado ou ainda, de forma mais pérfida, simplesmente substituída por opções ainda piores embora talvez mais subtis). E essas lições têm directamente a ver com a gestão próxima das poupanças de cada um o que melhor se compreende se nos aproximarmos da verdadeira natureza do sistema bancário em que vivemos desde que se abandonaram os últimos vestígios do padrão-ouro. (Peço alguma indulgência para a tradução, algo livre, da minha responsabilidade).
As euro-elites não o designam por furto ou roubo ou mesmo por um imposto, muito menos e sem rodeios, um default por parte dos bancos cipriotas. Eles estão falando de uma "taxa de estabilidade", um plano que poderá levar não à estabilidade mas a um colapso, num efeito dominó, do sistema bancário na Europa.
Fiel à natureza da propaganda governamental, o chefe de Estado cipriota, Nicos Anastasiades, diz que esta "taxa de estabilidade" é necessária para evitar "um colapso completo do sector bancário". É exactamente o mesmo tipo de linguagem que ouvimos no Outono de 2008 - uma táctica de intimidação usada para fazer aprovar de sopetão [e sem escrutínio] o TARP [link] e os intermináveis resgates subsequentes.
Mais provavelmente, o plano de tributar todos os depósitos bancários no Chipre, de 6,75 a 10%, desencadeará um colapso. Ou talvez apenas a sua simples menção já o tenha feito. Não podemos saber com certeza porque o governo de Chipre declarou um feriado bancário, um termo que significa que os ladrões tiram umas férias para não serem responsabilizados pelas suas acções.
O que este plano sinaliza é bastante claro: o seu dinheiro não está no banco. Se você lá chegar depressa e retirar o que puder, talvez consiga sobreviver. Se se atrasar, ficará totalmente desprotegido. Significa isto uma corrida aos bancos à moda antiga - a prova última quanto à solidez do sistema bancário.
Outra maneira de olhar para isto: trata-se de um jogo da dança das cadeiras e a música acabou de parar. O objectivo do "feriado" é atordoar as pessoas para que elas não consigam encontrar a sua cadeira.
O imposto é parte de um resgate de 10 mil milhões de dólares organizado pelos países da zona euro, juntamente com o FMI. Até agora, durante o longo, lento e imparável desmoronamento dos sistemas bancários do mundo ao longo dos últimas décadas, a ideia do confisco puro e duro tem sido algo que os governos em geral têm tentado evitar.
Acontece que as pessoas não gostam de ser roubadas. Elas normalmente gostam de pensar que o dinheiro que colocaram no banco lhes está acessível. Assim, quando Anastasiades exigiu isto, ele foi alvo de um repúdio maciço dos membros do parlamento e dos depositantes.
Enquanto isso, as pessoas estavam lutando para conseguir retirar dinheiro das máquinas ATM ["Multibanco"] e transferir electronicamente dinheiro para locais mais seguros. Foi quando a desagradável surpresa chegou: as contas estavam bloqueadas e as transferências interrompidas. As caixas automáticas foram dadas como estando "em funcionamento interrompido".
sábado, 16 de março de 2013
A banalização da extorsão legalizada dá nisto
Uma lição a retirar daqui é que o "colchão", nas suas diversas variantes, voltou a ser um local relativamente seguro para guardar as suas poupanças.
E, temo, ainda haverá muito que ver que poucos julgariam ser possível acontecer.
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Leitura recomendada: Europe Does It Again: Cyprus Depositor Haircut "Bailout" Turns Into Saver "Panic", Frozen Assets, Bank Runs, Broken ATMs
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Leitura recomendada: Europe Does It Again: Cyprus Depositor Haircut "Bailout" Turns Into Saver "Panic", Frozen Assets, Bank Runs, Broken ATMs
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
E para começar bem o fim-de-semana...
Fitch corta ‘rating' de cinco países da zona euro, no Diário Económico. Bélgica, Chipre, Espanha, Eslovénia, Itália foram os "felizes" contemplados (os três últimos em dois níveis). O outlook permanece negativo.
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