Martin Sibileau, em
Why Cyprus 2013 is worse than the KreditAnstalt (1931) and Argentina 2001 crises, publicado em 24-03-2013, oferece-nos uma leitura histórica comparada entre o "evento" Chipre 2013 e dois outros clássicos homólogos - o da Argentina em 2001 e um outro, mais recuado no tempo - a bancarrota do banco austríaco Kreditanstalt -, que muitos historiadores identificam como extremamente relevante para a hecatombe que se abateria sobre o mundo poucos anos depois. Como pertenço ao grupo daqueles que subscreve, em termos vigorosos,
estas asserções de Maria do Carmo Tavares - particularmente, a necessidade de o economista saber História (para que possa ligar os acontecimentos) -, achei interessante partilhar mais um texto não ortodoxo sobre o "evento" Chipre 2013. A tradução, rápida, é da minha responsabilidade.
O Chipre de 2013, como qualquer outro acontecimento, pode ser analisado em termos políticos e económicos.
Análise política: duas dimensões
Politicamente, consigo distinguir duas dimensões. A primeira dimensão pertence à história geopolítica da região, a que se juntaram as recém-descobertas reservas de gás natural. A relevância histórica vem desde 1853, o ano em que se iniciou a Guerra da Crimeia. A Guerra da Crimeia ocorreu no adjacente mar Negro, mas o propósito político era o mesmo: evitar a expansão da Rússia para o Mediterrâneo. A relevância desse episódio residiu no rompimento do equilíbrio de poder estabelecido após as Guerras Napoleónicas, fixado no Congresso de Viena, em 1815. A partir daí, toda uma nova série de acontecimentos inesperados levaria a uma França mais fraca, a uma Prússia mais forte, a novas alianças e a uma solução final 60 anos depois: a I Guerra Mundial. É neste mesmo quadro que eu vejo o Chipre de 2013 como um acontecimento político muito relevante: caso a Rússia, eventualmente, proporcione um resgate a Chipre (à hora que escrevo, tal não parece provável) contra o penhor das reservas de gás natural ou de uma base naval, um novo equilíbrio de poder terá sido alcançado na região, em que Israel será o maior perdedor.
A segunda dimensão política refere-se a um observação que fiz, há exactamente um ano atrás, precisamente inspirada no evento Kreditanstalt [link] de 1931. Num artigo intitulado: "Acerca do ouro, de acções, da repressão financeira e do Kreditanstalt de 1931", escrevi:
"(O evento Kreditanstalt) foi accionado porque a França, uma credora do sector público, introduziu uma condição política à Áustria, em troca de um resgate ao Kreditanstalt. Hoje, como em 1931, na zona euro, o sector público é, cada vez mais, o credor do sector público. Em 1931, a Inglaterra e a França eram credoras da Áustria e exigiram condições que nenhum investidor privado teria exigido.
Os investidores privados vivem e morrem pelos lucros e prejuízos que obtiverem. Os políticos vivem e morrem pelos votos que consigam alcançar. Os investidores privados preocupam-se com a sustentabilidade e estrutura de capital daquele que pede emprestado, com a exigência de garantias e com o perfil de financiamento dos seus créditos. Os políticos preocupam-se com a sustentabilidade do seu poder. É um facto e temos de aprender a viver com ele.
Em 2012, a Grécia e cada vez mais outros países periféricos da União Europeia são devedores de outros estados, do FMI e do Banco Central Europeu. Os investidores privados foram devastados e não regressarão tão cedo. Tememos que, tal como em 1931, quando o próximo resgate ocorrer, quer novamente à Grécia quer a Portugal ou a Espanha, serão exigidas condições políticas que um investidor privado, no seu pleno juízo, jamais teria exigido.
Pense-se nisto ... Que diabo tinha a união aduaneira entre a Áustria e a Alemanha, em 1931, a ver com o rácio de capitalização do Kreditanstalt??? Nada! E no entanto, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro foram condenadas à miséria em apenas uma questão de dias enquanto as suas poupanças se evaporavam! Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das moedas fiat [fiduciárias]! Você foi avisado! Se o leitor, uns meses a partir de agora, ler nos jornais que Conselho da União Europeia irresponsavelmente vier a exigir coisas estranhas a um país periférico necessitado de um resgate, lembre-se do Kreditanstalt. Lembre-se de 1931 ...
Por favor, compreenda que este não é um risco extremo [tail risk]. O risco extremo é precisamente o oposto [ou seja, é muito significativo]. O real risco extremo aqui [ou seja, o altamente improvável] é que, quando o próximo resgate ocorrer, os políticos pensem como investidores privados pensariam e dêem prioridade à economia e não a considerações políticas. Esse é o risco extremo! Se uma tal crise vier a ocorrer, os media irão falar de correlações crescentes e dir-lhe-ão que tudo está realmente bem neste lado do Atlântico. Mas se nos ler a nós, irá saber que tudo o que levou a tal situação era perfeitamente previsível e nada está realmente bem, também deste lado do Atlântico. Ter-se-á lembrado de 1931..."
Chegado aqui, eu acho que tudo está dito e não tenho mais nada a acrescentar. As minhas preocupações de há um ano estão-se mostrando demasiado correctas.