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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Aldeia Global de contraplacado




Enquanto aguardam pelo degelo, que permita o trânsito entre as relevantes reuniões das delegações em Davos, os curadores dirão que a "felicidade universalmente garantida" é possível.
Nem que a natureza e a história dos mercados se vejam subvertidas para lá da compreensão dos mais atentos.
Felicidade. Com prazo de validade.

Nota: o detalhe dos valores gregos ter "melhorado" a tempo da reunião do grupo europeu que Centeno (finge que) guia é deliciosamente maldoso (comparar aqui).
Uma gigante placa de contraplacado, é o que é. Tapando o quê?

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Assim começa - actualizado




Não há impossíveis no mundo "controlado" pelos bancos centrais. Ou há?
"Obrigadinho, sr. Draghi." - dirão os gregos. Por quanto tempo?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O que for preciso. Até quando?


Ao cuidado dos optimistas de serviço.
Passam pelos oráculos as notícias de que o paraíso está aí. E, efectivamente, alguns números são "fortes", "animadores", e por aí fora.
Não esquecer que essa "força", esse "ânimo" tem o pulmão, permitam-me a expressão, do BCE. E a dívida aumentando...

O que acontecerá se o acelerador de liquidez encontrar a parede?

E ninguém pergunta pela justiça (social, tão querida dos curadores de serviço) de tais "apoios"?

domingo, 3 de janeiro de 2016

Radar

A realidade segue imparável. Deixo aqui aqui a ligação para o último artigo de Ambrose Evans-Pritchard, onde expressa os seus votos para o ano de 2016.
Destaco o último parágrafo e um dos gráficos que acompanha o artigo.

"Ninguém sabe o nível de dor que podemos alcançar como resultado de um sistema global alavancado como nunca. Os rácios de dívida pública e privada rondam os níveis extraordinários de 265% do PIB nos países da OCDE e 185% nas economias emergentes, o que corresponde a um crescimento de 35% desde o topo da bolha de crédito no momento pré-Lehman. Mas isso é uma história de horror para 2017."


O que vemos ali no terceiro lugar?
A realidade em todo o seu esplendor.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Será que toda a gente sabe?

"As políticas dos Bancos Centrais correspondem a piscar para a direita, mas virar à esquerda."

As novas políticas dos Bancos Centrais

Com a coordenação de Robert Johnson, neste longo vídeo, procuram-se analisar as novas dimensões das acções e intenções das instituições que têm o nome de Bancos Centrais. Através do suporte quantitativo, os intervenientes constroem os movimentos da evolução dessas instituições, assinalando, especialmente, a mutação de infraestrutura de salvaguarda para o papel de agentes activos na construção e promoção dos mercados.
Num segundo momento da conferência, foca-se a reflexão nas consequências das acções dos Bancos Centrais ao plano global. E essa reflexão, segundo Andrew Sheng tem de passar pela admissão da manipulação implícita na acção e discurso público dos seus responsáveis, em particular na dissimulação das crescentes desigualdades sociais e económicas. Essa reflexão é enriquecida pela referência aos derivativos, às novas tecnologias, as novas “moedas” que os Bancos Centrais não controlam e os mercados emergentes.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Curtas e grossas


Sob o título em epígrafe, Jürgen Stark, um antigo economista-chefe do BCE, de onde saiu com grande estrondo em 2011, publicou na passada 4. feira no Financial Times um artigo (requer registo) onde retoma as teses da "linha dura" da (relativa) ortodoxia financeira do que ele caracteriza como "o economista alemão". Seguem-se alguns excertos desse artigo que noutras circunstâncias - de indignação vituperante diante a presença num governo de coligação de um partido de extrema-esquerda com um outro de extrema-direita num ministério sem uma única mulher! - seria considerado politicamente incorrecto ao ponto de ser alvo de uma saraivada de fatwas sobre o seu autor e todos aqueles que o citem (via Juan Ramón Rallo):
«[…] A verdade é que, em contraste com muitos países da zona euro, a Alemanha tem consistentemente prosseguido uma política económica prudente. Enquanto outros viviam acima das suas possibilidades, a Alemanha evitou os excessos. Estas são diferenças culturais profundas que a união monetária faz emergir uma vez mais.

A questão não é a de um país impor austeridade a outro. As elites políticas da periferia da zona euro são responsáveis por terem perdido o acesso aos mercados financeiros em 2010. Anos de má gestão e de inobservância da lei conduziram a défices orçamentais crescentes e à acumulação de dívida. Os prémios de risco dispararam. […]

A UE não é uma federação (como não é a zona euro). Estamos muito longe desse nível de integração na Europa. Não há, portanto, base constitucional para concretizar maiores transferências para os países mais débeis. Em todo o caso, essas transferências não resolvem os problemas económicos e levam ao risco moral. Anteriores programas de transferências, como os dos fundos para pagar investimentos em infra-estruturas nos estados membros mais pobres da UE, nem sempre conduziram a uma melhoria sustentável no desempenho económico. A Grécia, por exemplo, recebeu transferências da UE correspondentes a 3 a 5% do seu produto interno bruto durante décadas, dos quais aproximadamente um terço foram pagas pela Alemanha. Mas grande parte desse dinheiro escoou-se através do poroso edifício de um estado frequentemente corrupto.

A política económica alemã não se destina a punir os países da periferia da zona euro. A chanceler Angela Merkel quer ver todos os países da zona euro a criarem as circunstâncias necessárias a um crescimento económico que seja real e sustentável - do tipo que gera empregos. Isto exige finanças nacionais sólidas. O que não tem nada a ver com um fetiche quanto ao défice zero. Os economistas alemães opõem-se ao tratamento dos sintomas. Eles alertam contra aparentes soluções que funcionam como tranquilizantes políticos no curto prazo, mas que apenas se limitam a ocultar os verdadeiros desafios económicos.

Os apelos a estímulos macroeconómicos adicionais ignoram as causas da doença europeia. É vital que sejam removidas as barreiras estruturais ao crescimento. Isso inclui sanar os balanços dos bancos para desbloquear a criação de crédito. Não é por causa da Alemanha que a França enfrenta a estagnação económica e a Itália está
há três anos em recessão. Os problemas têm origem doméstica. Eles não podem ser eliminados nem pelo Banco Central Europeu nem pelos estímulos fiscais.
As reformas exigem coragem política e forte liderança. Essas são reformas dolorosas mas são necessárias para retornar a um caminho de crescimento sólido. O verdadeiro défice é o fracasso da elite política em muitos países bem como a falta de instituições credíveis. […]»

sábado, 23 de agosto de 2014

Estilhaços e realidade


Aceder à realidade

Os nossos leitores já devem conhecer Ambrose Evans-Pritchard e os seus artigos. Seja pelas citações que dele se fazem no blog ZeroHedge ou, directamente, porque conhecem a sua coluna no The Daily Telegraph. O editor de Negócios deu uma entrevista muito esclarecedora acerca das encruzilhadas em que nos encontramos – todos, países desenvolvidos e emergentes, norte e sul – nos planos político e económico. De seguida apresentam-se algumas passagens dessa entrevista. Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura integral da mesma.
A tradução e a edição destes parágrafos são da minha responsabilidade. Espero que possam ser uma ajuda para podermos reconstruir adequadamente os pedaços estilhaçados da nossa pobre realidade. Aquela que está para lá do nevoeiro pestilento a que nos conduzem políticos, comentadores e selectos especialistas.

"(…)
Ambrose: Todo o sistema económico e financeiro está mais alavancado do que estava em 2008, quando as instituições como o FMI ou BIS disseram que era realmente perigoso. E nós estamos a ver os sinais dessa efervescência quando as taxas dos maus (junk) créditos baixam a níveis históricos, ou seja, os investidores estão a assumir risco sem fazerem perguntas.
Nós já vimos esta volatilidade antes, por isso aquelas instituições começam a defender que estamos, basicamente, a caminhar para uma crise de proporções gigantescas. (...) A Europa precisa de um programa QE [injecção de liquidez por parte do BCE - nt] semelhante ao americano e numa larga escala. Apesar das objecções alemãs – o BCE tem de assumir isso rapidamente. (...)
Draghi quer, desesperadamente, iniciar um programa QE. Ele deseja um euro muito mais fraco só que, sendo presidente do BCE, ele não o controla. São os alemães, em última instância que o controlam. Eventualmente, o euro irá baixar de valor, mas é necessário explicar a situação com mais detalhe. Os rácios de dívida dos países do sul da Europa estão a aumentar muito, mesmo com toda a austeridade – veja-se a Itália [ incluo aqui o caso português que, como sabemos, viu a dívida pública aumentar de 132,4% do PIB para 134% no final do primeiro semestre deste ano - nt]. Isto é um círculo vicioso.
Por outras palavras, esse rácio está a subir, em larga medida, por causa das políticas de austeridade. É uma mistura explosiva: inflação nula e recessão.

David: A razão pela qual não se fala em reestruturação ou reescalonamento da dívida nesses casos é que os países perderam autonomia quando passaram a fazer parte da União Monetária?

Ambrose: De facto, os países perderam o controlo e a soberania. Já não têm banco central, não têm uma moeda e não controlam a política macroeconómica. A dificuldade está agora no facto de que, não tendo soberania monetária, os países podem mesmo falir, pois não podem imprimir moeda para evitar essa falência. (...) É apenas quando se entra para a União Monetária que os assuntos da falência, da reestruturação da dívida passam a fazer parte da discussão com os parceiros dessa União. É aí que a Itália se encontra agora.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Citação do dia (168)

"A ameaça externa à estabilidade política chinesa vem do propósito explícito das recentes políticas monetárias: disfarçar o crescimento real anémico através da inflação dos activos financeiros. É uma solução brilhante para o problema político do baixo crescimento aqui no Ocidente, porque a nossa estabilidade política não depende de um crescimento económico robusto. Enquanto pudermos evitar um claro crescimento negativo (e isso até se aceita enquanto puder ser explicado pela metereologia) e pudermos inflacionar os preços dos activos financeiros que suportam o nosso desequilibrado sistema, talvez possamos crescer alguma coisa ou pagar a dívida pela via da inflação. Ou não.
A dívida pode estacionar por aí... essencialmente para sempre... desde que não haja um choque exógeno. Um sistema financeiro moribundo, onde o crédito é tratado como um bem que o governo deve assegurar, é um desfecho aceitável no Ocidente porque as nossas eleições e poderes políticos não estão comprometidos com um forte crescimento económico. Estes poderes centram-se em questões sociais e noções de identidade. Focam-se na preservação da riqueza, dos benefícios e dos direitos. São tudo coisas importantes no contexto político do Ocidente.
Para a China? Nem por isso."

“O tipo que aceita” – Ben Hunt

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Todo um novo compasso

Renovar o esforço da orientação económica ou a necessidade de novos princípios

O Bank of International Setlements (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, publicou o seu relatório anual (cf. ligação abaixo) no final do mês passado. Alguns dos reflexos desse relatório podem ser lidos aqui e aqui e, em ambos os casos, sublinham-se os riscos que subjazem ao verniz da verdade oficializada. O BIS não é uma entidade qualquer. É uma peça-chave da arquitectura institucional financeira, monetária e política mundial e os seus avisos são um apropriado antídoto face à intenção sedante do discurso público acerca da situação da economia, mundial ou portuguesa.
Do primeiro capítulo traduziram-se e editaram-se as passagens que a seguir se apresentam, pela clareza e distinção com que apresentam a situação que temos, incontornavelmente, pela frente.
BIS ,"In search of a new compass", 29 de Junho de 2014

"A economia global mostrou sinais encorajadores no último ano, mas o desconforto persiste. O legado da Grande Crise Financeira (em maiúsculas no original – nt) e as forças que a criaram permanecem por resolver. (...) Restaurar o crescimento sustentável vai requerer políticas específicas em todas as maiores economias, tenham ou não sido atingidas pela crise. Os países que foram mais afectados precisam de completar o processo de reparar os seus balanços e implementar reformas estruturais.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O que é que eles sabem que nós não sabemos?

São múltiplos os sinais da disfuncionalidade dos mercados financeiros resultantes das prolongadas políticas de supressão das taxas de juro (ZIRP/NIRP), de uma inflação monetária sem precedentes e do regresso em força da promoção do crédito subprime (com particular afinco no crédito imobiliário nos EUA mas também, por exemplo, na Holanda). A actividade económica real continua num torpor pastoso apesar dos sucessivos anúncios de recuperação e das "acções sem precedentes", também conhecidas por "medidas não convencionais", tomadas pela generalidade dos bancos centrais. Entretanto, os níveis bolsistas continuam a quebrar recordes atrás de recordes sem que se vislumbrem sinais de escoramento na economia real (na realidade, mais não são que fenomenais transferências de riqueza da Main Street para Wall Street, ou seja, dos 99.99% para os 0,01%). A Fed finge que o seu próprio "sucesso" lhe permite agora abrandar os "estímulos" passando o testemunho ao BCE (que se prepara para avançar com o seu próprio QE enquanto se passam umas coisas estranhas na Bélgica). É por tudo isto que ouvir da boca de um alto responsável de um banco central, de um dos sistemas financeiros mais sólidos do mundo, dizer que atravessamos uma "inquieta calmaria" em "águas desconhecidas" e que os seus bancos devem reforçar os seus capitais e liquidez não pode deixar de ser notícia. Assim, enquanto por cá assistimos ao desenrolar da mais recente e não surpreendente história de mais um dos "bancos do regime", creio valer a pena a leitura da crónica de Simon Black que se segue e que me propus traduzir.
Myanmar, 25 de Junho de 2014
Por Simon Black

Um alerta para a "inquieta calmaria" nos mercados financeiros, vindo de Singapura


Bem, há pelo menos alguém que percebe o que está a acontecer.

Quando a quase totalidade dos bancos centrais do planeta está a sinalizar ao mundo que tudo vai bem no plano económico, o vice-presidente da Autoridade Monetária de Singapura (Lim Hng Kiang) disse ontem [24-06-2014] durante um jantar que "uma inquieta calmaria parece ter-se instalado nos mercados" e que "permanecemos em águas desconhecidas".

Foi realmente incrível ouvir uma linguagem tão incisiva por parte de um funcionário de um banco central.

O Sr. Lim apontou para os riscos "óbvios" e disse que iríamos enfrentar adiante "solavancos na estrada". Mas isso é um eufemismo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Agora que estamos em Junho (actualizado)


As decisões constitucionais por cá estão a causar preocupação. Lá por fora também. Há um novo programa de apoio financeiro preparado para aplicar na Grécia e – sucessões à parte – a Espanha prepara também um programa de estímulos à economia. O que dirá Draghi e a equipa do BCE esta semana?
A acreditar nos pressupostos, que todos conhecemos, parece óbvio onde isso pode levar-nos.
Para já, impõe-se colocar os dados na mesa. Para poder entender o que aí vem. A médio prazo. Vejamos.
O quadro seguinte apresenta a Dívida Privada e Pública em % do PIB (Maiores Países – anualizado)

20082013
1Japão604,9%656,8%
2E.U.A.357,2%346,1%
3Austrália325,1%325,0%
4Zona Euro412,9%462,6%
5Reino Unido500,6%544,4%
6Canadá244,2%286,3%
7China320,0%420,0%
8Média Ponderada402,7%435,6%

Fonte: Lacy Hunt, Hoisington Management – através de John Mauldin
Actualização - procedeu-se à correcção da data relativa ao fim do período a que os dados referem (2013 e não 2009), como inicialmente publiquei; agradecimentos Eduardo, mais uma vez.

Notam a diferença entre 2008 e o presente? Alguém pode afirmar que a crise já "se vê pelo espelho retrovisor", quando se regista uma subida na dívida de 35%, aquilo mesmo que foi o rastilho para a crise de 2008?
Face a estes dados, seguiremos as críticas ao Tribunal Constitucional? As (habituais) disputas pelo poder nos diferentes partidos? Ou veremos esses episódios pelo que são: laterais?
De seguida, deixo três referências rápidas. Começou a discussão, de um modo muito discreto e difuso, acerca da hipótese de acabar com a moeda.
Não estou a referir-me à tese de James Rickards (cuja entrevista se publicou aqui). Antes a hipótese de os estados acabarem com a moeda física para arrumar com a economia paralela e o anonimato nas transacções económicas. Ou seja, começa a discutir-se (aqui e aqui) o modo de tornar os movimentos de moeda (a que vier a ser adoptada) controlados pelos estados. E para quê? Publicamente, esse controlo serve para combater o anonimato e o terrorismo (ainda seremos chamados de terroristas quando usarmos dinheiro em vez de cartão bancário!). No entanto, analisando mais demoradamente e considerando também os dados apresentados atrás, tudo parece reduzir-se a mais uma forma de os estados terem ao seu dispor mais recursos. Caso a necessidade surja. Estes esforços serão mais um sinal do que, do ponto de vista fiscal, os estados podem fazer para arrecadar mais recursos. Assim se instale o mínimo de desespero.
Por fim, deixo um pequeno vídeo acerca de como a discussão está a ser, a este respeito, deformada nos EUA.
Esclarecedor ou aterrador?.


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Citação do dia (161)

"Na zona euro, o governador do Banco Central Europeu Mario Draghi - com o apoio inesperado dos colegas alemães do Bundesbank - está finalmente a dar sinais de que mais intervenções no mercado (facilitamento quantitativo - nt) podem estar a caminho. Por um lado, para baixar as altas taxas de câmbio monetário que têm limitado a competitividade e, por outro, para aumentar as taxas de inflação. O que, por sua vez, me parece precipitar uma crise de dívida pelo aumento abrupto das trajectórias de dívida face ao crescimento. Esta manobra será disfarçada como luta à inflação, e todos os eufemismos serão aplicados. No fim de contas, a Europa terá entrado numa declarada guerra monetária global"

John Mauldin, "Thoughts from the Frontline"

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Quem vê de fora

O que será que vê?
Por cá ouve-se dizer que há “sinais encorajadores”, que existe a possibilidade “de uma saída limpa” do programa de ajustamento, mas não se chega à contemplação e discussão dos fundamentos dessa crença. Simultaneamente emergem indicações provocadoras de que há mais ajustamento para fazer. Não é arriscado alargar esta descrição ao espaço europeu. Em Itália, em Espanha ou França estas mensagens mistas devem fazer parte do tecido comunicacional. Elas permitem vislumbrar uma espécie de infecção que alastra inexoravelmente. Uma trama que se adensa constantemente. Como veremos nos trechos seguintes, as relações endogâmicas entre partes da economia (banca) e o estado são cada vez mais intensas, sendo que um lado da mesa “está a acumular todas as fichas”. Ainda se proclama o modelo de estado social, sublinhando a sua vocação redistributiva, como paradigma moral, mas o que esse modelo mostra é, cada vez mais (não poderia ser de outra forma), uma preferência que choca, seguramente, os seus mais intensos defensores. Consideremos, em primeiro lugar:
“Os reais factores de melhoria” por Pater Tenebrarum

“Registou-se um importante aumento na compra de dívida soberana por parte dos bancos ao nível dos diferentes estados europeus. O truque parece funcionar como a seguir se elenca (considere-se o caso da Itália):
a) Os bancos compram propriedades que pertencem ao estado (instalações militares obsoletas, edifícios de escritórios, entre outras), pagando com títulos (bonds) do próprio estado.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VI)


Retomando o tema da Iª Grande Guerra, publicamos o testemunho de David Stockman. Este texto é apenas uma pequena parte de um ensaio maior (ver título no final) que o autor elaborou e publicou na sua mais recente plataforma de comunicação. Não podemos deixar de recomendar a visita e a leitura de tão rico espaço de reflexão, que conta também com contributos de John Butler, Michael Krieger, Detlev Schlichter e Mike "Mish" Shedlock, entre outros.

Retomam-se as relações já experimentadas (aqui) na tentativa de dirigir a atenção às raízes dos actos da peça que ainda hoje pautam a nossa vida colectiva.
A Grande Guerra e o seu legado, por David Stockman

"O meu propósito aqui é elaborar um esboço do que foi a longa história da Iª Grande Guerra, começando, precisamente, há cem anos. Nesse mesmo ano, a Reserva Federal (FED) abria as suas portas enquanto a carnificina decorria no norte de França, o que acabou por encerrar um período de meio século de liberalismo internacionalista e de dinheiro honesto suportado pelo ouro.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mas afinal onde pára a austeridade?

No magnífico post que o meu colega de blogue deu ontem à estampa, somos persuasivamente convidados a que não confundamos as peculiaridades da encenação e dos seus episódios laterais, com o guião "dorsal" da peça que se vem desenrolando.

Peça deste jogo de espelhos vem sendo reservada à "austeridade". Para uns, ela tem sido a receita adequada e a causa primeira da obtenção de resultados encorajadores (aumento das exportações, queda na taxa de desemprego, redução do défice orçamental em percentagem do PIB, menores custos de financiamento na emissão de nova dívida pública, etc.); para outros, depois de nos ter colocado numa rota de "espiral recessiva", a continuação da austeridade impede-nos agora de retomar o "caminho de crescimento" (através de mais défice/dívida por conta dos supostamente indispensáveis "investimentos" públicos de "estímulo" à economia). O manifesto dos 70 enquadra-se neste último grupo pois na realidade a "reestruturação" da dívida pública que os seus subscritores propõem é meramente instrumental no acomodar de (ainda) mais despesa pública. Tão só e apenas.

Sendo certo que, como Mark Thornton recordava, há três formas de austeridade e, numa delas, até se encara seriamente a hipótese de repúdio da dívida pública (sem iludir as consequências dessa via), importa ter presente uma clarificação adicional quanto à "narrativa" da austeridade. É o que David Howden faz no texto Where's the Austerity? cuja tradução, de minha responsabilidade, se segue.

(Entretanto, assinei este outro manifesto por força do que aqui se alude ironicamente.)
10 de Março de 2014
Por David Howden

A dívida global já ultrapassa 100 milhões de milhões (trillions) de dólares, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais[1]. Ao longo dos últimos cinco anos, a dívida aumentou em cerca de 30 trillions de dólares. E, saliente-se, os maiores emitentes de dívida foram os estados.

As baixas taxas de juros atraíram os governos a recorrer à dívida para financiar os projectos públicos do presente. Ora, como se costuma dizer, não há almoços grátis. A certa altura, essa dívida terá de ser paga. Na melhor das hipóteses, tudo o que esses governos fizeram foi deslocar despesa para o futuro à custa das gerações futuras em benefício das gerações actuais.

sábado, 1 de março de 2014

Fim à austeridade?

Os leitores habituais do Espectador Interessado ter-se-ão dado conta do progressivo afastamento do ruído do dia-a-dia, próprio do "combate de blogues", para privilegiar um olhar mais sereno embora nem por isso menos incisivo e, quiçá, até mesmo mais "radical" sobre os temas que são alvo da atenção dos seus autores.

De facto, usando para aferição o número de posts (não) publicados, temos estado muito alheados dos "debates" (?) sobre uma suposta "espiral recessiva" e uma não menos suposta "recuperação redentora" (que, num momento de arrebatamento,  chegou mesmo a ser apelidada de "milagre") decorrente da acção patriótica do governo de turno. Do mesmo modo, o interesse que manifestámos em exercícios de exegese económica ao ritmo da divulgação das mais variadas estatísticas, tem sido bastante diminuto. E não apenas porque, parafraseando Ronald Coase, os dados estatísticos, se sujeitos a suficiente tortura, acabarão por confessar tudo (e um par de botas). Por aqui, preferimos cingirmo-nos à aritmética elementar aliada ao bom senso. E, aqui chegados, é fácil concluir, à semelhança aliás do verificado nas situações de pré-bancarrota de 1978-1979 e de 1983-1985, que o "ajustamento" da economia portuguesa foi conseguido quase integralmente à custa do sector privado da economia, continuando o Estado estruturalmente tão rotundo quanto o era em Abril de 2011. Sem receitas extraordinárias, o défice do orçamento continuaria acima dos 5% do PIB e isto depois de uma punção fiscal de que não há memória, nem plano (ou vontade) para a aliviar.

É então a austeridade inevitável? A resposta a esta pergunta depende do que entendamos por "austeridade". Constituirá "austeridade" ter um défice orçamental superior a 5% do PIB? Constituirá austeridade a situação de "risco" de inclusão nas contas públicas de outras rubricas que sempre lá deveriam ter estado? Há uns meses atrás, João Cortez proporcionou-nos uma boa tradução de um excelente texto de Franz Hollenbeck intitulado "As três formas de austeridade" que aconselharia agora a (re)ler. Na 5ª feira, dia 27 de Fevereiro, Mark Thornton, a propósito da nova proposta de orçamento de Obama onde este proclama a necessidade de pôr "fim à austeridade", volta ao tema que continua a ser alvo de basta mistificação. A "actualidade estrutural" do texto de Thornton compeliu-me a traduzi-lo. (Todos os erros que possam decorrer da tradução são da minha responsabilidade, bem assim como das notas introduzidas.)
O presidente Barack Obama divulgou recentemente a sua proposta de orçamento na qual apela ao "fim da austeridade". Esta é uma declaração surpreendente por parte de um presidente sob cuja administração a despesa pública federal atingiu a maior percentagem de sempre no PIB e em que a dívida pública aumentou mais do que no conjunto de todos os presidentes que o precederam. O que entenderá ele por austeridade?

Mark Thornton
Há manifestações pelo mundo fora contra a austeridade quase todos os dias. Ela é condenada por constituir um veneno em tempos económicos difíceis, enquanto outros a tomam pelo elixir contra as depressões económicas.

A rejeição da austeridade pelo presidente representa a visão keynesiana, que rejeita completamente a austeridade em favor da abordagem às recessões conhecida por "pedir emprestado e gastar" - a de fazer crescer a procura agregada. O que ele na realidade está a rejeitar são as reduções infinitesimais na taxa de crescimento da despesa e os obstáculos políticos a novos programas de despesa.

Embora os níveis de despesa nos orçamentos entre 2009 e 2012 tenham permanecido relativamente constantes, eles foram ainda assim 15% superiores ao de 2008 e 75% mais elevados que os verificados na década anterior. Este salto na despesa nestes quatro anos foi financiado com um aumento de 5 milhões de milhões de dólares da dívida pública. Austeridade, aqui? Nenhuma!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O que andará aquela gente (no FMI, e não só) a fumar?

Vivemos tempos de um esplendorosamente triunfante cientismo empirista-positivista. Segundo este paradigma, a verdade (a ciência) sustenta-se naquilo que é empiricamente constatável ou, pela negativa, tudo o que não possa ser verificável através de mensuração adequada, não é susceptível de ser aceite como "científico". Daí a proliferação exponencial de "estudos" e de "modelos", de base estatística-matemática, avidamente divulgados pelos media, e, aspecto nevrálgico, que sustentam em larguíssima medida toda uma comunidade que se acha investida do direito absoluto de viver à custa do contribuinte em nome da "promoção da ciência". Este fenómeno, endémico nas ciências sociais, tem vindo a alargar-se igualmente a outros domínios como sejam os da Medicina e da Biologia e dele não escapam até mesmo supostas "hard sciences" como a Climatologia (num próximo post, abordarei algumas questões que este artigo me sugere).

Temos assim, por exemplo, que questões até há bem tempo tidas por elementares e universalmente consagradas nos manuais universitários (até por Krugman) - como as leis da procura e da oferta -, são agora descartáveis por alguns economistas (?), prémios Nobel inclusive. Segundo estes, não haveria evidência empírica de que o salário mínimo afecte (negativamente) os níveis de emprego! (Compreendo agora melhor porque desapareceu a axiomática formal no ensino da geometria no ensino básico, ou o capítulo de lógica da matemática do secundário). Deste modo, não é surpreendente que assistamos à divulgação de mais um "estudo" (lá está!) onde se terá detectado algo de extraordinário: quanto mais insustentável for o stock de dívida pública acumulada, menor é a sua influência sobre os níveis de crescimento económico. É sobre esta formidável descoberta que Simon Black se debruça em IMF Report: "Debt is Good. What are the people smoking?, cuja tradução, da minha responsabilidade, se segue.

Chile, 18 de Fevereiro de 2014

Por Simon Black

Provavelmente, em algum momento da vida, toda a criança sonhou ter uma máquina do tempo e ser capaz de viajar até ao passado... normalmente para ver os dinossauros ou algo do género.

Viajar no tempo é uma fantasia quase universal. E se eu pudesse estalar os dedos e folhear as páginas do tempo, teria uma séria curiosidade em rever o período de mil anos entre o declínio do Império Romano do Ocidente e a ascensão do Renascimento.

Era usual referir esse período como a "Idade das Trevas" (embora os historiadores tenham entretanto desistido dessa designação), uma época em que todo o continente europeu esteve praticamente numa pausa intelectual.

A Igreja tornou-se NA autoridade sobre todos os domínios - Ciência, Tecnologia, Medicina, Educação. E manteve a informação mais vital fora do alcance do povo... limitando-se simplesmente a dizer a todos o que deviam acreditar.

As pessoas que viviam nesse tempo tinham que confiar em que os altos sacerdotes fossem pessoas inteligentes e que sabiam do que estavam a falar.

Interpretar factos e observações por si próprio era uma heresia, e todo aquele que formulasse um pensamento original e desafiasse a autoridade da igreja e do estado era queimado na fogueira.

É verdade que a civilização humana já percorreu um longo caminho desde então. Mas os módulos básicos da sua construção não são hoje muito diferentes do que eram então.

Quem quer que desafie o estado ainda é queimado numa fogueira. E todo o nosso sistema monetário requer que todos nós confiemos nos altos sacerdotes da banca central e da economia. Aqueles que se desviam da mensagem estatal e difundem a heresia económica são abatidos e vilipendiados.

O leitor recordar-se-á do caso dos professores de Harvard, Ken Rogoff e Carmen Reinhart, que escreveram o clássico "Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira".

O livro destacou dezenas de padrões históricos chocantes onde nações antes poderosas acumularam demasiada dívida e entraram em declínio terminal.

A Espanha, por exemplo, entrou em incumprimento no serviço da sua dívida por seis vezes, entre 1500 e 1800, e posteriormente por outras sete vezes no século XIX.

A França incumpriu por OITO vezes, entre 1500 e 1800, incluindo o episódio de 1788, nas vésperas da Revolução Francesa. E a Grécia por cinco vezes desde 1800.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Conheça o caminho das saídas para que, chegado seja o momento, ainda as consiga franquear

Douglas E. French, ex-presidente do Mises Institute e actual editor sénior da Laissez-Faire Books é, para além de um profundo conhecedor do funcionamento do sistema bancário, um estudioso do fenómeno das bolhas especulativas, tema que aliás abordou na sua tese de mestrado (sob orientação de Murray Rothbard) e que daria origem ao seu livro Early Speculative Bubbles and Increases in the Supply of Money (de borla, aqui, nos formatos pdf e ebook/.epub). Neste livro, Doug French aborda três episódios de especulação desenfreada que a história viria a registar, a saber: a "Tulipomania" ou "febre das tulipas", ocorrida na Holanda no século XVII (1634?-1637) e as temporalmente coincidentes bolhas da "Mississippi Company" (em França) e da "South Sea Company" (do lado de lá do Canal da Mancha), em 1719-1720, de resto interligadas entre si. Nos três casos, estabelece uma ligação de causa-efeito, espelhada no título do livro, entre uma aceleração continuada da expansão da oferta monetária, sem correspondência real a mais bens e serviços produzidos, e a consequente emergência e posterior estouro das respectivas bolhas especulativas que essa expansão provocou.

No artigo que achei interessante procurar ampliar a divulgação, através de tradução de minha responsabilidade, e cujo significativo título é Signs That It’s Time to Head for the Exits ["Sinais de Que Chegou a Altura de Nos Dirigirmos para As Saídas"], French descreve um desses episódios onde o escocês John Law [link], que aquele baptiza de "o primeiro keynesiano antes de Keynes", ensaia o recurso em grande escala da destruição do "dinheiro verdadeiro" com a intenção de "resolver" em definitivo as dificuldades do tesouro real francês (decorrentes de décadas contínuas de guerras) e acabar de vez com quaisquer restrições orçamentais à actividade governamental (se isto lhe parece familiar, tem o leitor toda a razão). Percorre de seguida o ainda recente episódio da hiperinflação no Zimbabwe (que culminou na destruição da moeda local), aborda em seguida a espiral que continua a decorrer numa Venezuela a caminho da implosão e também o pouco conhecido caso da África do Sul, todos eles exemplos do sério perigo que a instituição de sistemas de controlos de capitais sempre sinaliza, com os governos a tentar impedir a fuga às suas moedas fiat por parte dos cidadãos. Termina o artigo assinalando que os próprios americanos não estão isentos de perigos semelhantes até porque os primeiros sinais (e já são muitos) aí estão pelo que deixa um (avisado) conselho aos seus leitores. É minha convicção que, pese embora a sua extensão, a leitura integral do texto poderá proporcionar um retorno adequado ao esforço despendido. Só posso desejar que tal venha a suceder (como sempre, de preferência, no original). Os comentários e reflexões, também como sempre, serão bem-vindos.
17 de Janeiro de 2014
Por Doug French

O dinheiro verdadeiro, como o ouro e a prata, é adoptado pelo mercado e trocado por bens e serviços de modo voluntário. A moeda fiduciária governamental é algo de diferente. A maioria das pessoas esquece-se que vivemos sob leis de curso legal [link] que nos forçam a utilizar os pedaços de papel que a Reserva Federal e o Tesouro criam a partir do nada.

Fabricar notas, a um custo de cêntimos, para as trocar, em alguns casos, por uma centena de dólares, constitui um bom negócio. Criar lançamentos contabilísticos electrónicos tem um custo ainda menor. Os governos não desistirão deste negócio sem luta.

No final do processo, o governo irá fazer com que o valor do seu papel atinja o valor de, bem, do papel. Na sua essência, a impressão de dinheiro é uma forma silenciosa e sorrateira de tributar as pessoas. Eventualmente, elas aperceber-se-ão disso. Charles Mackay escreveu no seu livro, o clássico "Extraordinárias Ilusões Populares e a Loucura das Multidões" ["Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds"], "Como foi observado com sabedoria, os homens pensam em rebanho; viremos um dia a perceber que eles enlouquecem em rebanho enquanto só são capazes de recuperar a sanidade lentamente, e um de cada vez".

Estamos num processo composto de passos sucessivos e o governo sabe disso. Começaram a surgir [nos EUA] os primeiros sinais de imposição de controlos de capitais. Fazer sair do país activos financeiros no valor de 10.000 dólares é agora verboten [proibido]. O governo dos EUA estabeleceu acordos com países e bancos em todo o mundo para manter o dinheiro dentro dos EUA.

Mas o que é que acontece quando os cidadãos pretendem abandonar o dinheiro governamental? Se a História é boa indicação, o governo irá tornar-se pérfido.

John Law: o primeiro keynesiano no mundo

A França entrou em bancarrota em resultado das sucessivas guerras que travou, de 1689 a 1713, durante o reinado de Luís XIV. Como se isso não fosse punição suficiente, o povo francês teve que sofrer também as fomes de 1693 e 1694, e o extremamente frio Inverno de 1708-1709. As desvalorizações da moeda tornaram-se norma, e os franceses desenvolveram uma desconfiança para com o papel-moeda.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Qual destes não é como os outros?



O ouro é energia económica condensada
Michael Maloney

Apresentou-se no primeiro artigo desta série um conjunto de dados relativos às variações do preço do ouro. Evidenciou-se a volatilidade do preço, em papel-moeda, do ouro.
A partir do episódio da série que recomendámos podemos inferir uma das mais importantes razões para esta volatilidade. O dinheiro (verdadeiro, sólido) mede a expansão do papel-moeda que os governos proporcionam. Assim, quando se procede à criação de mais papel-moeda procede-se, simultaneamente, à dissolução do valor unitário de cada um desses papéis. O que provocará o efeito correspondente no aumento da quantidade de papel-moeda que cada um de nós tem de trocar para adquirir os bens de que necessita, assim como o ouro. Note-se que não é o valor intrínseco dos bens que aumenta, é o valor de cada uma das unidades de papel-moeda que diminui.
Consideremos noutra perspectiva a relação entre moeda e dinheiro. Alguns dirão que é esta a perspectiva que melhor expressa o mal que subjaz ao modo de organização política e económica das sociedades actuais.
As democracias manifestam uma tensão constitutiva que põe em causa a sua viabilidade como forma de governo. A democracia existirá enquanto os eleitores não compreendam que podem atribuir-se, pelo voto e acção de maiorias, benefícios de natureza monetária a partir do erário público. No momento em que o compreendam é fácil concluir o que acontece: a maioria vai eleger aqueles que garantam a atribuição de uma fatia maior desses benefícios. Colocando em contexto este raciocínio, o resultado desta estratégia resultará num desequilíbrio importante. E a questão que emerge é então: onde ir buscar moeda para satisfazer estas necessidades? As as soluções são conhecidas de todos – aumento de impostos ou... impressão de papel-moeda. Concentremo-nos na segunda, pois é ela que mais tem contribuído para aprofundar os problemas económicos e sociais das sociedades actuais. Importa compreender que a impressão de papel-moeda e criação de dívida são uma e a mesma coisa. E moeda não é dinheiro.
Compreenderão, então, os leitores onde estamos?
Tendo presente a questão que dá título a este desafio, considere-se uma pilha de notas do jogo “Monopólio”, uma pilha de notas de euro e uma moeda de ouro (1oz de ouro puro). Qual destes não pode ser impresso arbitrariamente? Qual deles não representa um crédito sobre outrem? Qual deles pode impedir a erosão da Liberdade que representa uma dívida galopante? 
Crianças de onze anos saberiam a resposta. E nós?


 
(imagem retirada daqui)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lema da urgência despesista: Primeiro, gasta-se; depois, logo se vê

Imagem daqui
Nancy Pelosi, anterior Speaker da Câmara dos Representantes nas vésperas da aprovação do Patient Protection e Affordable Care Act (já conhecida por "Obamacare") e em plena e acesa controvérsia, nomeadamente de que não tinha havido tempo para os Representantes lerem todo o projecto de lei (de mais de 2000 páginas de extensão!) produziu esta afirmação espantosa, perante as câmaras de televisão (9 de Março de 2010):
"We have to pass the bill so that you can find out what is in it away from the fog of the controversy." (Tradução: Precisamos aprovar o projecto de lei para que se possa descobrir o que ela contém, longe da névoa da controvérsia.)
Algo de parecido ao método de avaliação de um melão - temos que o abrir e de o comer até ao fim para avaliar da sua real qualidade! Este e outros episódios semelhantes levaram a que o senador Rand Paul a viesse a apresentar uma resolução segundo a qual, por cada 20 páginas de um projecto de lei, seria obrigatório conceder pelo menos um dia aos membros do Senado para que a pudessem ler antes de ser iniciar o seu debate e eventual votação.

Imagem retirada daqui
Lembrei-me de tudo isto ao ler esta notícia - La CE tacha de "realmente insatisfactorio" el número de pasajeros de algunos AVE (A Comunidade Europeia classifica de "realmente insatisfatórios" os números de passageiros de alguns AVE (nome por que são conhecidos os comboios de Alta Velocidade em Espanha)).

Segundo a notícia, um deputado espanhol catalão da CiU, Ramon Tremosa,  intervindo  no plenário do parlamento europeu na presença do comissário europeu dos Transportes, Siim Kallas, afirmou que "um em cada quatro dos trajectos do AVE só transporta um passageiro por dia" (!) e que estações servidas pelo AVE como Tardienta, Huesca, Calatayud, Antequera, Puertollano, Cuenca, Utiel-Requena o Puente Genil não recebem mais do que um ou dois passageiro por dia (!).

Em resposta, Siim Kallas terá reconhecido que a exploração de alguns troços é "realmente insatisfatória" ainda que a sua análise se deva fazer ao longo de um horizonte de longo prazo: "Nas análises custo-benefício do comboio de alta velocidade em Espanha têm-se em conta pelo menos vinte a vinte e cinco anos de actividade." Por outro lado, afirmou ainda, "as análises de custo-benefício devem considerar não apenas a rentabilidade financeira, como também a rentabilidade económica no conjunto do país e da União Europeia". Acresce que, segundo o comissário, "na avaliação da rede espanhola de alta velocidade, se deve considerar o valor acrescentado europeu resultante de la integração da Península Ibérica na rede RTE-T através de linhas interoperáveis aptas para o tráfico misto [passageiros e mercadorias]". (Itálicos meus.)

E eis assim novamente, com ligeiras cambiantes, o pleno funcionamento do método de "avaliação do melão". No caso, para tentar confundir o pagode nada como invocar o argumento "definitivo" da suposta supremacia do "económico" sobre o "financeiro" o que, no contexto da despesa pública, apenas significa que são irrelevantes as contas de exploração de um qualquer empreendimento público que pode assim juntar-se a todos os outros investimentos (?) que mais não são que gigantescos empreendimentos de destruição (consumo) de capital por mera decisão de um qualquer político que quer deixar "obra". E dívida, claro.