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terça-feira, 22 de abril de 2014

Dormindo com o inimigo (ou a corrupção da ciência)

4000 anos de evidência empírica continuam a não ser suficientes para impedir o recurso dos governos aos controlos administrativos dos preços e salários. E todavia, mesmo sob a ameaça de aplicação de sanções severas – incluindo tantas vezes a pena de morte –, a persistência dos efeitos da fixação administrativa de preços é algo de notável – indução da escassez (com a fixação de “preços máximos” abaixo dos que o mercado, deixado a si próprio, determinaria) ou de “subprocura” (resultantes do estabelecimento de “preços mínimos” acima dos de mercado). Não há nada de estranho ou de sobrenatural nisto – trata-se apenas do mero funcionamento das leis da procura e da oferta.

Claro que, em períodos de agitação política, e para tentar enganar acalmar o povoléu, é usual que o poder aponte o dedo aos “especuladores”, “açambarcadores” ou a uma “5ª coluna” ao serviço do “inimigo externo” atribuindo-lhes a culpa seja da escassez, seja dos aumentos de preços generalizados (que aliás estiveram normalmente na origem do tabelamento de preços). Enfim, o dia-a-dia por que passam venezuelanos e argentinos nos dias que correm. (Entre nós, agora que nos aproximamos da comemoração dos 40 anos sobre o 25 de Abril de 1974, ainda haverá muitos que se recordarão desse linguajar tão comum na década subsequente.)

Mas se as leis da oferta e da procura são até facilmente intuídas pela generalidade das pessoas, há um caso muito particular em que seria possível e desejável suspender ou "comandar" o seu funcionamento. Refiro-me, claro, à existência de um salário mínimo nacional que, para além de considerações morais atinentes à “dignidade”, até teria consequências positivas sobre a economia (pela via do aumento do consumo proporcionado àqueles abrangidos pela sua criação ou pelo seu aumento). É muito triste que hoje haja muitos economistas (?) (Gary North fala em metade) que sustentem, com base empírica inteiramente desassociada da teoria económica (os famigerados “estudos”), tomar os desejos por realidades. É sobre este estado de degradação científica que o artigo de Frank Hollenbeck se debruça e que me levou a partilhar uma sua tradução (de minha responsabilidade) com os leitores do EI.
17 de Abril de 2014
Por Frank Hollenbeck

O triste estado da profissão de economista

Não é um exagero afirmar-se que a reputação actual dos economistas está, provavelmente, logo abaixo da de um vendedor de carros usados. Os recentes falhanços das políticas económicas de estímulo ao crescimento e ao emprego mancharam ainda mais esta imagem. Isto, porém, contrasta de modo nítido com o que sucedia no passado, quando os economistas eram vistos como o obstáculo intelectual a populares mas erróneas concepções, más ideias, ou, e o mais importante, a políticas governamentais vendidas ao público baseadas em falsas premissas. Slogans populares como "proteger os empregos americanos" apostam no nacionalismo, mas, na realidade, apenas servem interesses especiais. O economista de antigamente nunca teria hesitado em expor as falácias que um tal argumento encerra.

Frank Hollenbeck
Hoje, no entanto, a maioria dos economistas vendeu-se ao inimigo. Eles trabalham para organismos governamentais como o FMI, a OCDE, o Banco Mundial, os bancos centrais ou instituições académicas onde a sua investigação é fortemente subsidiada por agências governamentais. Para terem êxito, têm que "andar na linha" - não se morde a mão a quem lhe dá de comer.

Hoje, esses economistas e jornalistas arregimentados informam-nos dos perigos da deflação e dos riscos da "baixaflação", e de como as impressoras nos irão proteger dessa catástrofe. E contudo não há qualquer justificação teórica ou empírica para este medo. Pelo contrário, uma oferta monetária estável permitiria que os preços desempenhassem melhor a função crítica de afectar os recursos [às actividades – N.T.] onde são mais necessários. O crescimento resultante de uma moeda estável estaria normalmente associado à rápida queda dos preços como sucedeu na maior parte do século XIX.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O que andará aquela gente (no FMI, e não só) a fumar?

Vivemos tempos de um esplendorosamente triunfante cientismo empirista-positivista. Segundo este paradigma, a verdade (a ciência) sustenta-se naquilo que é empiricamente constatável ou, pela negativa, tudo o que não possa ser verificável através de mensuração adequada, não é susceptível de ser aceite como "científico". Daí a proliferação exponencial de "estudos" e de "modelos", de base estatística-matemática, avidamente divulgados pelos media, e, aspecto nevrálgico, que sustentam em larguíssima medida toda uma comunidade que se acha investida do direito absoluto de viver à custa do contribuinte em nome da "promoção da ciência". Este fenómeno, endémico nas ciências sociais, tem vindo a alargar-se igualmente a outros domínios como sejam os da Medicina e da Biologia e dele não escapam até mesmo supostas "hard sciences" como a Climatologia (num próximo post, abordarei algumas questões que este artigo me sugere).

Temos assim, por exemplo, que questões até há bem tempo tidas por elementares e universalmente consagradas nos manuais universitários (até por Krugman) - como as leis da procura e da oferta -, são agora descartáveis por alguns economistas (?), prémios Nobel inclusive. Segundo estes, não haveria evidência empírica de que o salário mínimo afecte (negativamente) os níveis de emprego! (Compreendo agora melhor porque desapareceu a axiomática formal no ensino da geometria no ensino básico, ou o capítulo de lógica da matemática do secundário). Deste modo, não é surpreendente que assistamos à divulgação de mais um "estudo" (lá está!) onde se terá detectado algo de extraordinário: quanto mais insustentável for o stock de dívida pública acumulada, menor é a sua influência sobre os níveis de crescimento económico. É sobre esta formidável descoberta que Simon Black se debruça em IMF Report: "Debt is Good. What are the people smoking?, cuja tradução, da minha responsabilidade, se segue.

Chile, 18 de Fevereiro de 2014

Por Simon Black

Provavelmente, em algum momento da vida, toda a criança sonhou ter uma máquina do tempo e ser capaz de viajar até ao passado... normalmente para ver os dinossauros ou algo do género.

Viajar no tempo é uma fantasia quase universal. E se eu pudesse estalar os dedos e folhear as páginas do tempo, teria uma séria curiosidade em rever o período de mil anos entre o declínio do Império Romano do Ocidente e a ascensão do Renascimento.

Era usual referir esse período como a "Idade das Trevas" (embora os historiadores tenham entretanto desistido dessa designação), uma época em que todo o continente europeu esteve praticamente numa pausa intelectual.

A Igreja tornou-se NA autoridade sobre todos os domínios - Ciência, Tecnologia, Medicina, Educação. E manteve a informação mais vital fora do alcance do povo... limitando-se simplesmente a dizer a todos o que deviam acreditar.

As pessoas que viviam nesse tempo tinham que confiar em que os altos sacerdotes fossem pessoas inteligentes e que sabiam do que estavam a falar.

Interpretar factos e observações por si próprio era uma heresia, e todo aquele que formulasse um pensamento original e desafiasse a autoridade da igreja e do estado era queimado na fogueira.

É verdade que a civilização humana já percorreu um longo caminho desde então. Mas os módulos básicos da sua construção não são hoje muito diferentes do que eram então.

Quem quer que desafie o estado ainda é queimado numa fogueira. E todo o nosso sistema monetário requer que todos nós confiemos nos altos sacerdotes da banca central e da economia. Aqueles que se desviam da mensagem estatal e difundem a heresia económica são abatidos e vilipendiados.

O leitor recordar-se-á do caso dos professores de Harvard, Ken Rogoff e Carmen Reinhart, que escreveram o clássico "Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira".

O livro destacou dezenas de padrões históricos chocantes onde nações antes poderosas acumularam demasiada dívida e entraram em declínio terminal.

A Espanha, por exemplo, entrou em incumprimento no serviço da sua dívida por seis vezes, entre 1500 e 1800, e posteriormente por outras sete vezes no século XIX.

A França incumpriu por OITO vezes, entre 1500 e 1800, incluindo o episódio de 1788, nas vésperas da Revolução Francesa. E a Grécia por cinco vezes desde 1800.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os Escolásticos de Salamanca e a Ciência Económica: uma lição magistral por Jesús Huerta de Soto

Uma excepcional oração de sapiência por parte do incontestável líder da Escola Austríaca em Espanha (Philipp Bagus, um seu jovem discípulo bem conhecido, está sentado entre a assistência), proferida na homenagem a Diego de Covarrubias (um dos escolásticos do "século de ouro" espanhol, proferida na catedral de Segóvia, em Novembro passado. Jesús Huerta de Soto apresenta o caso da Escolástica tardia espanhola para "reivindicar" as raízes da Escola que Carl Menger, em 1871, viria a iniciar. Traçando sucessivos paralelos entre os ensinamentos de então e os caminhos que a doutrina económica dominante assumiu nos sécs. XX e XXI, com as terríveis consequências que hoje conhecemos e atravessamos, Huerta de Soto aponta o dedo da responsabilidade a Adam Smith (como Murray Rothbard já o havia feito). Absolutamente fascinante, para quem se interessa pela história económica.

sábado, 30 de novembro de 2013

O salário mínimo é um exterminador de empregos; um crime, portanto

Ao longo destes últimos dias, o tema do salário mínimo voltou em força à ribalta pelos diferentes quadrantes políticos, incluindo do próprio governo (ou pelo menos parte dele, não fosse a troika...). Celeste Cardona, por exemplo, numa "comovente" crónica no DN, diz que "seria inteligente proceder, de imediato, ao seu aumento"; Patrick Monteiro de Barros, numa tirada à Warren Buffet à lusa escala, diz ter "vergonha" do seu valor ser tão baixo; para o PS (à boleia da "vitória" do SPD sobre Merkel) e a UGT, idem aspas e por aí adiante. Entretanto, quem ousa dizer a verdade em voz alta é alvo de um chorrilho inacreditável de insultos. Foi o que aconteceu ao prof. César das Neves quando afirmou, de resto correctissimamente, que aumentar o salário mínimo significaria a "estragar a vida dos [mais] pobres". Noutros tempos, talvez não escapasse à fogueira (literal) devido à "insensibilidade social" que as suas declarações veicularam.

Tinha prometido voltar a este assunto ainda que há pouco tenha aqui postado o artigo Salário mínimo, disparate máximo. Mas a indignação demonstrada pela generalidade dos media e das personalidades sobre este tema é tão despropositada (para usar um acentuado eufemismo) que tenho que voltar ao tema. De permeio, uma referência ao chavão, também largamente utilizado por quase toda a gente (incluindo Cavaco Silva), da rejeição de uma "estratégia de baixos salários" e da promoção de "políticas de crescimento". Mas acaso viveremos sob um regime estalinista em que a economia marcha ao ritmo dos planos quinquenais? Ou preferiremos emular Kirchner ou Maduro? Ou viveremos sob a nostalgia dos planos de fomento de Salazar?

Volto assim a socorrer-me de mais um excelente artigo de Dominick T. Armentano, Minimum Wages and Unemployment: Case Closed que arrasa a "argumentação" dos defensores do aumento do salário mínimo.
A única questão relevante no debate sobre um salário mínimo imposto pelo governo é: será que ele reduz as oportunidades de emprego? O debate não está em saber se alguns trabalhadores ficarão melhor depois dos mínimos legais aumentarem; tal acontecerá com alguns trabalhadores. O debate não está em saber se o "consumo" pode vir a aumentar quando forem pagos salários mais altos a alguns trabalhadores; isso poderá suceder, apesar de os trabalhadores desempregados passarem a consumir menos. E o debate não está em saber se os empregadores "ricos" têm condições para pagar salários mais altos; alguns certamente que têm, mas se eles devem ser obrigados a fazê-lo por força legal é uma outra questão completamente distinta.

Os defensores da lei do salário mínimo fazem duas afirmações gerais. A primeira é a de que o aumento do salário mínimo não aumenta o desemprego entre os jovens e os menos qualificados, o único segmento laboral relevante; e a segunda, é a de que existem estudos empíricos que suportam a conclusão de que aumentar o salário mínimo não prejudica o [nível de] emprego.

O senso comum, a lógica, e a lei da procura refutam facilmente a primeira alegação. Aumentar o preço de qualquer coisa, mantendo as outras variáveis ​​constantes, reduz sempre em alguma quantidade o consumo. Com rendimento fixo e substitutos disponíveis, os empregadores privados utilizarão marginalmente menos trabalhadores quando os seus salários são aumentados por via legal. Bastará exagerar o aumento salarial para tornar o ponto óbvio: se se dobrasse o salário mínimo e a produtividade permanecesse inalterada, haverá alguém no planeta que acredite que o emprego não iria diminuir drasticamente? Bem, pela mesma lógica, um aumento marginal no salário mínimo, digamos, de 8 para 10 dólares, como a Califórnia acaba de legislar, terá um efeito marginal negativo sobre o emprego dos jovens e dos pouco qualificados. Caso encerrado.

Mais devagar, dizem os defensores do salário mínimo. E quanto aos estudos (presumivelmente realizados por economistas de renome) que não identificaram perdas de emprego quando se aumentaram os mínimos legais? Bem, o problema aqui, claro, é que "testar" uma proposição em economia não é como testar uma teoria em física ou química.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Ciência é mais que a Matemática (particularmente nas ciências sociais)

Como tinha ameaçado, regresso ao tema do papel da matemática (e em particular da estatística) em Economia como aliás, genericamente, nas diferentes ciências sociais. Em post anterior, tinha observado que mesmo numa ciência física como é a climatologia se constata, apesar da propaganda dos que continuam a teimar que "a ciência está estabelecida", existir uma crescente dissociação entre a modelação dos efeitos da crescente concentração de CO2 e a realidade tal como ela é observada e medida. Estranhamente, muitos daqueles que escolhem ignorar este facto (ocorre-me, no plano doméstico, a generalidade da redacção do Público...) são muito menos tolerantes para aquilo que designam de "erros" de previsão económica atribuíveis, presume-se, a mera incompetência técnica (ou, de quando em vez, a lapsos na respectiva folha de Excel de suporte ao "modelo"). E é aqui que se entra no domínio das intermináveis, e de resto inúteis, discussões sobre os "verdadeiros" valores dos multiplicadores. Como se estivéssemos a falar da utilização de constantes equivalentes, sei lá, àquelas próprias da física e da química. Ora a questão é exactamente essa: NÃO EXISTEM constantes em ciências sociais. Retrospectivamente, poder-se-á dizer que, no âmbito de um dado "modelo", uma constante, isto é, um dado "multiplicador", foi de "X". Mas esse é um conhecimento que só se adquire a posteriori sem que haja qualquer garantia que se repetirá no futuro. E que outra coisa poderia suceder quando o sujeito da investigação não é uma pedra ou um robot mas sim a pessoa humana?

Esta era a oportunidade que aguardava para publicar uma tradução deste interessante artigo de Christopher Westley sendo que, por coincidência, o Instituto Mises Brasil também fez publicar uma outra tradução na 3ª feira passada e de que aliás me socorri, pelo que me resta agradecer-lhe.
Em Abril deste ano, o ilustre biólogo de Harvard, E.O. Wilson, escreveu um artigo no Wall Street Journal sobre as limitações da utilização da matemática nas ciências. Natural de Mobile, Alabama - mais conhecido como o Pai da Sociobiologia - defendeu que a capacidade para formular contribuições conceptuais científicas não exige necessariamente especiais competências matemáticas ou mesmo uma componente matemática. Wilson concluiu que "afortunadamente, uma fluência matemática excepcional apenas é necessária em algumas disciplinas, como a física de partículas, a astrofísica e a teoria da informação. Para todas as outras disciplinas científicas é bem mais importante a capacidade para formular conceitos, actividade para a qual o investigador convoca imagens e processos por intuição". O próprio Wilson observou que ele próprio só aprendera cálculo depois dos seus 30 e poucos anos - após conseguir um lugar no quadro em Harvard - e lamenta a perda de conhecimento científico resultante do abandono de potenciais contribuidores [ao desenvolvimento de um dado ramo científico] quando optam por outras carreiras devido à sua deficiente formação matemática.

Clicar para ver melhor

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ciência, matemática e previsões

Tal como em Economia, na variante herdeira da corrente dita "neo-clássica" que há muito é largamente maioritária na disciplina, também na climatologia se faz recurso a "modelos" matemáticos, cuja complexidade tem vindo a crescer com a cada vez maior capacidade computacional, que procuram representar, ainda que de forma simplificada, a realidade. Em qualquer dos casos, o fim último pretendido com a utilização de "modelos" é a capacidade de obter projecções, i.e., fazer previsões sobre o futuro (uma tarefa bem arriscada, como sabemos...). E se bem que haja quem dispute que a disciplina da Economia seja de facto um domínio científico (matéria que abordarei em posts subsequentes), nomeadamente pela incapacidade reconhecida em "acertar" nas suas previsões e/ou em produzir previsões/estudos para todos os gostos, confesso não conhecer - o que será ignorância minha - nenhuma objecção à qualificação científica da Climatologia (ou, de igual modo, da Biologia Evolutiva...).

O "boneco" abaixo, retirado daqui, contrasta a realidade com as previsões de 138 (cento e trinta e oito!) modelos matemáticos "computarizados", autênticas "caixas pretas", relativos à previsão da evolução da temperatura à superfície terrestre, matéria do domínio da Física. O resultado da comparação é, no mínimo, tristemente desfavorável para os ditos "modelos" já que a realidade teima em comportar-se de modo diferente do "previsto". Será que, afinal, também é disputável classificar a Climatologia de ciência? Ou será que a tentativa de modelar sistemas não-lineares, caóticos, é, essa sim, uma impossibilidade? E é com "isto" que nos vêm espoliando os bolsos para prevenir o horror de um Armagedeão Climático?

Para aqueles que vêm registando com atenção a evolução da sua factura de electricidade e não se esquecem de que, em paralelo, o défice tarifário não tem parado de subir, esta não é (ou não de via ser) uma questão lateral. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A ciência climática e o método científico

Um breve apontamento de Peter G. Klein, um economista de pendor austríaco especializado nas matérias do empreendedorismo e da empresa, a propósito de um artigo publicado no habitualmente eco-teócrata The Guardian, chamando a atenção para a insuportável jactância, vazia da saudável (e necessária) humildade científica, que tem caracterizado os últimos 25 anos da ortodoxia climática. A tradução, como habitualmente, é da minha responsabilidade.
Este artigo acerca dos cépticos da ciência climática está a fazer o seu caminho e a provocar as denúncias expectáveis nos sítios habituais. De facto, nele se fazem algumas afirmações razoáveis e bastante moderadas, nomeadamente que a ciência climática, como a astronomia ou a biologia evolutiva, pertence a um tipo diferente de "ciência" do da física, da química ou da geologia ou de outras ciências mundanas. Nos primeiros domínios, os pressupostos fundamentais e os principais mecanismos não são geralmente falsificáveis​​, os dados muitas vezes são mais imprecisos do que é habitual e há frequentemente recurso a muita "criatividade" para colmatar as lacunas.
Muitos cépticos têm dúvidas que a ciência climática possa ser classificada como científica uma vez que ela não é falsificável (segundo o critério de demarcação de Popper). Eles alegam que muito embora alguns elementos da ciência climática possam ser testados em laboratório, a complexidade das interacções e dos ciclos de feedback, bem como os níveis de incerteza nos modelos climáticos, são demasiado elevados para poderem constituir uma base útil para a definição de políticas públicas. A relação entre as observações  e estes modelos [ou seja, as suas previsões] constituem igualmente uma preocupação para os cépticos da ciência climática. Em particular, o papel da sensibilidade climática.

Para além das questões com a utilização dos modelos, a própria qualidade das observações tem sido alvo de críticas. Algumas das quais têm sido tentativas de sanar os problemas decorrentes da bagunça na recolha de dados no mundo real (por exemplo, as questões ligadas ao posicionamento das estações meteorológicas), enquanto outras se concentraram nas debilidades percebidas nos métodos indirectos [proxy] necessários para calcular dados históricos relativos a temperaturas tais como cortes nas placas de gelo polar ou aneis de árvores fossilizadas.

Tais alegações são de qualidade variável, mas o que as une é a convicção de que a qualidade dos dados em vários ramos da ciência climática está abaixo da que é exigível pela "verdadeira ciência".
O que mais me impressiona nestas "grandes" ciências é a linguagem e o tom tipicamente usados para comunicar os resultados ao público. Onde os cientistas nos domínios mundanos expressam as suas conclusões cautelosamente, enfatizando que os resultados e conclusões são tentativos e sempre sujeitos a contestação e a revisão, os cientistas climáticos parecem ver-se a si próprios como Bravos Cruzados pela Verdade derrubando os "Negacionistas" (que têm de ser financiados pela indústria do petróleo ou por algum outro pérfido grupo). Eles gritam que "sabemos" isto ou aquilo sobre as alterações climáticas, como estará o planeta daqui a 5000 anos, etc. Dificilmente ouvimos outros cientistas a falar assim, ou a agir como se os cépticos fossem necessariamente preconceituosos e irracionais.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Mitos persistentes: a deflação é um fenómeno a evitar

Frank Hollenbeck, professor na Universidade Internacional de Genebra, em What’s So Scary About Deflation?, desmonta o mito associado à suposta malevolência de uma baixa de preços sustentada no tempo. Um conhecimento de história económica (na parte não suprimida pelas universidades), deveria ser suficiente para descartar uma tese tão cara à generalidade dos economistas que constitui um "terror" para os banqueiros centrais. Já por aqui falei várias vezes do fenómeno, perceptível para o grande público pelo menos desde há 20 anos) que o sector das tecnologias de informação e telecomunicações é um gigantesco exemplo da infirmação da tese dos malefícios da deflação.

O artigo de Hollenbeck, situado entre um artigo de divulgação para o leigo e uma primeiríssima introdução (Econ 101) académica à disciplina, parece-me muito interessante na explanação dos pontos de vista da Escola Austríaca a que o autor deste blogue, paulatina mas crescentemente, vem aderindo (e defendendo). Como de costume, a tradução (e os seus erros) são da minha responsabilidade.
Quando se fala de deflação, o pensamento económico dominante torna-se não na ciência do senso comum, mas na ciência do absurdo. A maioria dos economistas de hoje são rápidos a afirmar que "um pouco de inflação é uma coisa boa", e temem a deflação. Claro que, nas suas vidas privadas, esses mesmos economistas vasculham os jornais em busca dos mais recentes produtos à venda.

Uma deflação sui generis (daqui)
A pessoa que melhor simboliza o medo de deflação é Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal. A interpretação que fez da Grande Depressão enviesou em muito a sua opinião contra a deflação. É verdade que a Grande Depressão e a deflação andaram de mãos dadas em certos países; mas nós devemos ter o cuidado de distinguir entre associação [correlação] e causalidade, e avaliar correctamente o sentido da causalidade [itálico meu]. Um estudo recente de Atkeson e Kehoe [link], abrangendo um período de 180 anos em 17 países, não detectou relação alguma entre deflação e depressões. Na realidade, o estudo encontrou um maior número de episódios de depressão acompanhados de inflação do que de deflação. Durante este período, em 65 dos 73 episódios de deflação não ocorreram depressões, e em 21 das 29 depressões não sucederam episódios de deflação.

O principal argumento contra a deflação é o de que quando os preços estão em queda, os consumidores irão adiar as suas compras para aproveitar preços ainda mais baixos no futuro. É claro que é suposto que tal situação conduza à redução da procura corrente, o que fará com que os preços caiam ainda mais, e assim por diante, até entrarmos numa espiral deflacionária/depressiva da economia. O sentido da causalidade é claro: a deflação provoca depressões. É possível encontrar este argumento em quase todos os livros de texto introdutórios de Economia. O Fed de St. Louis escreveu recentemente:
"Embora a ideia de preços mais baixos possa soar atractiva, a deflação é uma preocupação real por vários motivos. A deflação desencoraja a despesa e o investimento porque, ficando os consumidores na expectativa que os preços venham a cair ainda mais, eles diferem as suas compras preferindo pelo contrário poupar, esperando por preços ainda mais baixos. A redução da despesa, por sua vez, reduz as vendas e os lucros das empresas o que, finalmente, conduz ao aumento do desemprego."

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Citação do dia (117)

"The mainstream of the economics profession has long suffered from physics envy and has sought to model the unmodelable - human action - to make their “science” appear to be physics-like and scientific."

Thomas DiLorenzo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Citação do dia (115)

"There is no better means to disclose the absurdity of a mode of reasoning than to let it pursue its full course to the end."
Carl Menger

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma mentira despudorada

Tem havido um grande alarido no milieu "crescimentista" pelo facto de terem sido detectadas práticas metodológicas duvidosas (?) num paper de 2010, da autoria de Carmen Reinhard e Kenneth Rogoff - "Growth in a Time of Debt" -, incluindo até, autêntica cereja no cimo do bolo, um erro "no Excel" (leia-se, numa folha de cálculo usada pelos autores para sustentarem a sua análise). Os autores vieram a público reconhecer a existência de um erro relevante no seu trabalho cuja identificação conduz a "uma importante correcção na Figura 2 do paper" sem que com isso, todavia, e na opinião dos autores, tenha sido invalidada a sua "mensagem central" e o trabalho subsequente produzido que nele assentou. No essencial, está em causa a correlação, negativa, entre crescimento económico e o stock dívida pública que seria marcante quando é ultrapassada a fasquia dos 90% do PIB.

Os crescimentistas, com o inevitável Paul Krugman à cabeça a evocar a Depressão do Excel, logo vieram sentenciar que o fundamento/justificação para as políticas de "austeridade" tinha sido ferido mortalmente. Para estes, afinal, a solução para a crise é simples e assenta em dois pilares para "estimular" a economia: 1) pôr os governos a gastar, gastar e continuar gastar furiosamente o dinheiro "impresso" pelos bancos centrais; 2) em simultâneo, punir, punir e voltar a punir (através da prática continuada de taxas de juro zero) todos aqueles que, infectados por um vírus letal, impedem que a "procura agregada" cresça "adequadamente" ao optarem por um obsessivo e doentio comportamento que, como é evidente para os keynesianos, caracteriza a poupança e os que a praticam.

Não vou aqui defender o trabalho de Reinhard e Rogoff1 pois não acredito que no domínio das Ciências Sociais e, portanto, da Economia, seja sequer possível produzir conhecimento por recurso ao empirismo positivista, por mais sofisticados que sejam os modelos estatísticos e econométricos utilizados. Aliás, mesmo que alguma vez se conseguisse "explicar", através de um modelo, a evolução verificada de um dado indicador económico no decorrer de um longo período histórico2 - e nunca o foi -, daí não decorreria qualquer validade de uma previsão meramente assente em dados históricos. Afinal, os homens não são pedras nem robots, apesar das contínuas tentativas de tenebrosas elites intelectuais cuja génese é conhecida. Citando Gary North, "This time, it’s still not different. Non-Austrian economists still cling to their historical relationships, as if these were anything other than historical relationships".

Como não acredito em alquimia, não posso ter em boa conta aqueles que a praticam sustentando que seria possível chegar à prosperidade através da despesa proporcionada por dinheiro criado a partir do nada. Como não acredito em charlatães, indigno-me com aqueles - alguns deles insultando a condição que invocam de economistas - que advogam que a subida do salário mínimo seria uma boa medida para estimular a economia e mesmo - pasme-se! - para "estimular" o mercado de emprego.

Por essa razão, não me interessa discutir - não interessa discutir - se o limiar do desastre está nos 90% ou nos 100% (as estatísticas hoje divulgadas apontam para os 123,6% para o rácio dívida pública/PIB em Portugal no final do ano passado). O que é relevante - ainda que muito difícil de digerir por muitos - é que não é o consumo que reboca a economia. Só a produção o faz. Foi o que Robinson Crusoe e Sexta-Feira rapidamente perceberam.

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1Steve McIntyre encontra semelhanças perturbadoras entre este caso e o do infame "hockey stick".

2Uma das questões histórico/económicas mais intrigantes que permanece por explicar é o fenómeno de superação do que ficou conhecido pela "armadilha malthusiana", isto é, alcançar o crescimento sustentado do rendimento per capita. Hans Herman-Hoppe avançou recentemente com uma hipótese explicativa. Gary North aponta aqui para a forte possibilidade de Deirdre McCloskey estar perto de a desvendar.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ciências sociais vs ciências naturais

Já por várias vezes procurei chamar a atenção (entre as quais, aqui, aqui e aqui) para as semelhanças que me parecem ocorrer entre as (inevitavelmente fúteis) tentativas de modelar (= prever) o clima e, por maioria de razão, uma Economia. Não irei aqui repetir as razões da futilidade de prever a evolução de sistemas complexos não-lineares, por muito poderosos que sejam quer o poder computacional disponível (que há décadas cresce exponencialmente), quer o número de equações e variáveis utilizadas na sua modelização. Gostaria apenas de chamar a atenção que, sendo o clima uma matéria indisputavelmente do domínio das ciências físico-naturais (das coisas, portanto) e a Economia do universo das ciências sociais (das pessoas e das suas interacções), a complexidade destas últimas é muitíssimo superior à das ciências físico-naturais. Porque, ao contrário das pessoas, de cada indivíduo, o sol, os oceanos, os ventos ou as pedras, não agem, não reagem, não pensam, não têm propósitos.

Jesús Huerta de Soto (JHS) explica as necessárias diferenças metodológicas entre ciências naturais e ciências sociais e o paradoxo que resulta de, sendo estas últimas muitas mais complexas que as primeiras ("complexíssimas" na classificação que JHS faz nesta lição), todo o mundo achar, por exemplo, que "sabe" de Economia ainda que reconheça que "nada sabe" sobre, sei lá, física quântica.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Frase do dia (15)

«When the search for truth is confused with political advocacy, the pursuit of knowledge is reduced to the quest for power»

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um brilhante economista em terrenos difíceis mas estimulantes

Na sequência desta notícia, Neutrinos and Appomatox, por Steve Landsburg:
Scientists at CERN have found apparent evidence that neutrinos can travel faster than light.

Suppose that tomorrow historians at Harvard find apparent evidence that the South won the American Civil War — not in some metaphorical “they accomplished their goals” sense, but in the literal sense that it was actually Grant who handed his sword to Lee at Appomatox and not the other way around.

Question: Of which conclusion would you be more skeptical?

Of course your answer might depend on exactly what this new “apparent evidence” consists of. So let me reword: As of this moment, which do you think is more likely — that neutrinos can travel faster than light, or that the South won the Civil War?
Uma chamada de atenção para a qualidade de muitas das intervenções registadas na caixa de comentários de Landsburg. Não deixem de as ler.

(Também publicado no Estado Sentido)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Estado e moral hazard (2) – A corrupção do cientista


Imagine-se que o Estado chama a si, tornando-a pois (mais) uma Função de Estado, a produção científica. A grande inspiração proveio do tristemente célebre projecto Manhattan. Fá-lo através de um sistema de bolsas (= subsídios) com o qual arregimenta toda uma comunidade que dele tende a ficar brutalmente dependente. Os (múltiplos) doutoramentos sucedem-se, os pós-doutoramentos também. As empresas privadas ganham um forte incentivo em diminuírem as suas actividades de produção científica.

Neste processo, as universidades dependem crucialmente do financiamento estatal para a produção científica, nomeadamente aquela de que se esperam as soluções para os problemas fundamentais que se julga estarem a assolar o planeta (v.g. “aquecimento global”). Os governos, por sua vez, demonstram efusivamente a sua prodigalidade tanto mais que a opinião publicada exige respostas “firmes” por parte dos governos. E assim se fecha o círculo. Mas atenção: as verbas para a investigação que não se insira na linha “politicamente correcta” e, pior, que se atreva a questionar a ortodoxia vigente, são exíguas se é que, sequer, existentes.

O establishment, por sua vez, vive no terror de que a opinião publicada se altere o que aliás é muito difícil pois os media têm horror à trivialidade, vivendo antes do alarmismo cataclísmico. Tal significaria, se não o fim, pelo menos uma acentuada míngua relativamente à prodigalidade de fundos públicos de que têm usufruído. Por essa razão, os “guardiões do templo” tudo fazem e a tudo recorrem para que tal não aconteça: tomando emprestada a máxima de que “notícia que não passe na televisão, não aconteceu”, a palavra de ordem é suprimir a expressão das opiniões dissonantes nas publicações científicas. Este é um superlativo exemplo do que mantenho.

Se Kuhn explicou o processo de formação de novos “paradigmas” científicos, isto é, a substituição das velhas por novas ortodoxias, o cientista das ciências naturais não se atreve, pelo menos publicamente, a contestar o falsificacionismo empírico popperiano. Assim, os guardiões do templo ortodoxo necessitam de uns compagnons de route que, usando a sua condição de leigos, podem dizer e escrever aquilo que a cientistas não seria admissível. É aos compagnons de route que cabe erigir o discurso da futilidade de qualquer tentativa de enfrentar a ortodoxia uma vez que, claro está, existe um largo “consenso”.  “Science is settled” e, provavelmente, “talvez já não tenhamos tempo suficiente para agir”.
A Universidade, no concubinato em que se deixou enlear, transformou-se num dos grandes focos de moral hazard contemporâneos. É preciso que reganhe a sua independência face ao Estado.

É preciso regressar à verdadeira atitude científica. Como nos lembra Fred Singer, “Scientists should all be skeptical" e “You don’t vote in science”.

segunda-feira, 25 de julho de 2011