segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma mentira despudorada

Tem havido um grande alarido no milieu "crescimentista" pelo facto de terem sido detectadas práticas metodológicas duvidosas (?) num paper de 2010, da autoria de Carmen Reinhard e Kenneth Rogoff - "Growth in a Time of Debt" -, incluindo até, autêntica cereja no cimo do bolo, um erro "no Excel" (leia-se, numa folha de cálculo usada pelos autores para sustentarem a sua análise). Os autores vieram a público reconhecer a existência de um erro relevante no seu trabalho cuja identificação conduz a "uma importante correcção na Figura 2 do paper" sem que com isso, todavia, e na opinião dos autores, tenha sido invalidada a sua "mensagem central" e o trabalho subsequente produzido que nele assentou. No essencial, está em causa a correlação, negativa, entre crescimento económico e o stock dívida pública que seria marcante quando é ultrapassada a fasquia dos 90% do PIB.

Os crescimentistas, com o inevitável Paul Krugman à cabeça a evocar a Depressão do Excel, logo vieram sentenciar que o fundamento/justificação para as políticas de "austeridade" tinha sido ferido mortalmente. Para estes, afinal, a solução para a crise é simples e assenta em dois pilares para "estimular" a economia: 1) pôr os governos a gastar, gastar e continuar gastar furiosamente o dinheiro "impresso" pelos bancos centrais; 2) em simultâneo, punir, punir e voltar a punir (através da prática continuada de taxas de juro zero) todos aqueles que, infectados por um vírus letal, impedem que a "procura agregada" cresça "adequadamente" ao optarem por um obsessivo e doentio comportamento que, como é evidente para os keynesianos, caracteriza a poupança e os que a praticam.

Não vou aqui defender o trabalho de Reinhard e Rogoff1 pois não acredito que no domínio das Ciências Sociais e, portanto, da Economia, seja sequer possível produzir conhecimento por recurso ao empirismo positivista, por mais sofisticados que sejam os modelos estatísticos e econométricos utilizados. Aliás, mesmo que alguma vez se conseguisse "explicar", através de um modelo, a evolução verificada de um dado indicador económico no decorrer de um longo período histórico2 - e nunca o foi -, daí não decorreria qualquer validade de uma previsão meramente assente em dados históricos. Afinal, os homens não são pedras nem robots, apesar das contínuas tentativas de tenebrosas elites intelectuais cuja génese é conhecida. Citando Gary North, "This time, it’s still not different. Non-Austrian economists still cling to their historical relationships, as if these were anything other than historical relationships".

Como não acredito em alquimia, não posso ter em boa conta aqueles que a praticam sustentando que seria possível chegar à prosperidade através da despesa proporcionada por dinheiro criado a partir do nada. Como não acredito em charlatães, indigno-me com aqueles - alguns deles insultando a condição que invocam de economistas - que advogam que a subida do salário mínimo seria uma boa medida para estimular a economia e mesmo - pasme-se! - para "estimular" o mercado de emprego.

Por essa razão, não me interessa discutir - não interessa discutir - se o limiar do desastre está nos 90% ou nos 100% (as estatísticas hoje divulgadas apontam para os 123,6% para o rácio dívida pública/PIB em Portugal no final do ano passado). O que é relevante - ainda que muito difícil de digerir por muitos - é que não é o consumo que reboca a economia. Só a produção o faz. Foi o que Robinson Crusoe e Sexta-Feira rapidamente perceberam.

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1Steve McIntyre encontra semelhanças perturbadoras entre este caso e o do infame "hockey stick".

2Uma das questões histórico/económicas mais intrigantes que permanece por explicar é o fenómeno de superação do que ficou conhecido pela "armadilha malthusiana", isto é, alcançar o crescimento sustentado do rendimento per capita. Hans Herman-Hoppe avançou recentemente com uma hipótese explicativa. Gary North aponta aqui para a forte possibilidade de Deirdre McCloskey estar perto de a desvendar.