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terça-feira, 2 de junho de 2015

A Idade do Cientismo não se recomenda

Voltando a insistir no tema abordado aqui e aqui recentemente (ver também caixa de comentários), via Rob Dreher, um excerto do editorial da edição de Abril último do jornal médico The Lancet, a publicação regular reconhecidamente mais prestigiada da profissão médica na Grã-Bretanha (tradução e itálicos meus):
«O caso contra a ciência está claro: grande parte da literatura científica, quiçá metade, poderá simplesmente não ser verdadeira. Afligida por estudos com pequenas amostras, efeitos minúsculos, análises exploratórias inválidas e flagrantes conflitos de interesses, a que se alia uma obsessão para prosseguir tendências em moda de importância duvidosa, a ciência tomou o rumo da escuridão. Como referiu um participante, "com métodos pobres conseguem-se resultados". A Academia de Ciências Médicas, o Conselho para a Investigação Médica e Biotecnologia e o Conselho para a Investigação das Ciências Biológicas emprestaram agora o seu peso reputacional a uma investigação sobre estas práticas questionáveis de investigação. O aparente carácter endémico de má conduta em investigação é alarmante. Na busca de uma história convincente para contar, os cientistas esculpem com demasiada frequência os dados para os ajustar à sua teoria preferida do mundo; ou ajustam retroactivamente as hipóteses para acomodar os dados de que dispõem. Os editores dos jornais médicos também merecem a sua quota-parte de críticas. Nós ajudamos e incentivamos os piores comportamentos. A nossa aquiescência ao "factor impacto" alimenta uma concorrência pouco saudável para ganhar um lugar num número muito reduzido e selecto de revistas. O nosso amor pela "significância" polui a literatura com muitas estatísticas que são contos de fadas. Rejeitamos confirmações importantes. Os jornais não são os únicos escroques. As universidades vivem numa luta perpétua por dinheiro e talento, objectivos que fomentam métricas redutoras, tais como a publicação de grande impacto. Os procedimentos nacionais de avaliação, tais como o Quadro de Excelência da Investigação, incentivam as más práticas. E os cientistas individuais, incluindo os seus dirigentes mais séniores, pouco fazem para alterar uma cultura de investigação que ocasionalmente bordeja a prática profissional grave.»

sábado, 30 de maio de 2015

O colesterol passou a ser uma coisa boa

Apesar de uma episódica e já longínqua passagem pela Faculdade de Medicina de Lisboa, esta não é uma matéria que, enquanto leitor, siga de forma sistemática. Não obstante, creio detectar muitas semelhanças numa maleita que, digamos, é transversal a domínios aparentemente tão distintos como a medicina, o "aquecimento global" (se preferirem, "alterações climáticas") e, área da minha formação, a economia (na versão mercantilista e keynesiana vigente). Refiro-me à doença infantil do cientismo empiricista pela qual a preguiça e o "massajar" estaticista, quando não a fraude pura e simples, veio substituir a verdadeira ciência - o estudo, identificação e explicitação de relações de causa e efeito. É certo que não pode haver causalidade sem que exista correlação, mas a tentação de fazer "ciência" à custa da detecção de correlações, reais ou forjadas, é avassaladora. O artigo que vos proponho hoje é disso revelador. Nele se fala do embuste do consenso científico e da ira com que o establishment reage perante quem o ouse afrontar. Quando o dogma se instala, com o beneplácito e, logo depois, com o patrocínio estatal, é dificílimo quebrá-lo - a ciência dá lugar ao aparelhismo burocrático que,por natureza, nunca reconhecerá a admissão do erro e tenderá a perpetuá-lo até ao limite. Parece-me ser um bom complemento ao vídeo de Freeman Dyson que se volta a recomendar.

Um excelente fim-de-semana!

25 de Maio de 2015
Por Matt Ridley


Se estiver a ler isto antes do pequeno-almoço considere por favor a hipótese de comer um ovo. Está iminente a aceitação oficial pelo governo dos EUA de um parecer no sentido de, sem mais, retirar o colesterol da sua lista de "nutrientes preocupantes". Governo que pretende ainda "desenfatizar" a gordura saturada, constatada "a falta de evidências da sua ligação à doença cardiovascular".

Matt Ridley
Este é um ponto de viragem poderoso, ainda que protegido por ressalvas, e que há muito era devido. Havia anos que as provas se acumulavam no sentido de concluir que a ingestão de colesterol não provoca níveis altos de colesterol no sangue. Uma reavaliação levada a cabo em 2013 pela Associação Americana do Coração e pelo Colégio Americano de Cardiologia, não encontrou "nenhuma relação significativa entre o consumo do colesterol alimentar e o colesterol no soro [sangue]".

O colesterol não é um veneno vil, mas um ingrediente essencial à vida, que confere flexibilidade às membranas das células animais e que é a matéria-prima utilizada na síntese de hormonas como a testosterona e o estrogénio. O fígado produz, por si só, a maior parte do colesterol encontrado no sangue, e faz o ajustamento face ao que se ingira, razão pela qual não é a dieta que determina os níveis de colesterol no sangue. Reduzir o colesterol no sangue através da alteração da dieta é algo de praticamente impossível.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A fraude da discriminação de género no trabalho

Um dos filões, aparentemente inesgotável, que vem alimentando o intervencionismo estatal é o de uma espécie de meta-guerra perpétua à discriminação onde têm cabido as “causas fracturantes” (muito caras à esquerda caviar e às franjas chiques dos partidos do poder) e, muito em especial, a vastíssima discriminação pelo sexo de género. O recurso ao vocábulário bélico não é em vão. Usando por aferidor o Google, até aqui têm sido pouco mais que esporádicas entre nós as referências à “guerra contra as mulheres”; mas talvez não esteja enganado em antever uma próxima vaga de fundo no Rectângulo. É que do outro lado do Atlântico uma busca por “war on women” devolveu-me 29,8 milhões de resultados. E este resultado não é alheio – é mesmo um dos temas que está a dar nos dias de hoje na América - o apadrinhamento que tem recebido do inquilino da Casa Branca.

O Prof. Mark Perry – que aborda regularmente este tema - há um par de semanas que se vem dedicando a desmontar com denodo uma suposta discriminação salarial de género contra a qual Obama se insurge e pretende combater (o seu post de ontem é particularmente revelador). Tal como Perry, também Thomas Sowell acusa Obama de fraude estatística nesta "guerra". Daí o título do seu artigo de ontem – Statistical Frauds. A mim, confesso, interessa-me bem mais a componente lógica da sua argumentação resumida no convite com que termina o seu artigo e que me motivou a publicar uma sua tradução de minha exclusiva responsabilidade.
15 de Abril de 2014
Por Thomas Sowell

Fraudes estatísticas

A "guerra contra as mulheres" é um slogan político que, na realidade, é uma guerra contra o senso comum.

É a uma fraude estatística que Barack Obama e outros políticos recorrem quando afirmam que as mulheres ganham apenas 77% do que os homens auferem - e que isso se deve à discriminação.

Thomas Sowell
Tratar-se-ia certamente de discriminação se as mulheres fizessem o mesmo trabalho que os homens, durante o mesmo número de horas, com a mesma formação e experiência, e se fossem também iguais nas restantes coisas. Porém, ao longo das últimas décadas, estudos sucessivos têm repetidamente mostrado que não são iguais nessas coisas.

A repetição constante da estatística dos "77%" não altera essa realidade. Apenas tira partido da ignorância de muitas pessoas - algo em que Barack Obama tem sido muito bom em muitos outros temas.

E se se comparassem as mulheres e os homens que são iguais em todas as características relevantes?

Em primeiro lugar, isso raramente é possível porque as estatísticas necessárias nem sempre estão disponíveis para todo o leque de actividades profissionais e para a gama completa de diferenças entre os padrões das mulheres e dos homens no mercado de trabalho.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O que andará aquela gente (no FMI, e não só) a fumar?

Vivemos tempos de um esplendorosamente triunfante cientismo empirista-positivista. Segundo este paradigma, a verdade (a ciência) sustenta-se naquilo que é empiricamente constatável ou, pela negativa, tudo o que não possa ser verificável através de mensuração adequada, não é susceptível de ser aceite como "científico". Daí a proliferação exponencial de "estudos" e de "modelos", de base estatística-matemática, avidamente divulgados pelos media, e, aspecto nevrálgico, que sustentam em larguíssima medida toda uma comunidade que se acha investida do direito absoluto de viver à custa do contribuinte em nome da "promoção da ciência". Este fenómeno, endémico nas ciências sociais, tem vindo a alargar-se igualmente a outros domínios como sejam os da Medicina e da Biologia e dele não escapam até mesmo supostas "hard sciences" como a Climatologia (num próximo post, abordarei algumas questões que este artigo me sugere).

Temos assim, por exemplo, que questões até há bem tempo tidas por elementares e universalmente consagradas nos manuais universitários (até por Krugman) - como as leis da procura e da oferta -, são agora descartáveis por alguns economistas (?), prémios Nobel inclusive. Segundo estes, não haveria evidência empírica de que o salário mínimo afecte (negativamente) os níveis de emprego! (Compreendo agora melhor porque desapareceu a axiomática formal no ensino da geometria no ensino básico, ou o capítulo de lógica da matemática do secundário). Deste modo, não é surpreendente que assistamos à divulgação de mais um "estudo" (lá está!) onde se terá detectado algo de extraordinário: quanto mais insustentável for o stock de dívida pública acumulada, menor é a sua influência sobre os níveis de crescimento económico. É sobre esta formidável descoberta que Simon Black se debruça em IMF Report: "Debt is Good. What are the people smoking?, cuja tradução, da minha responsabilidade, se segue.

Chile, 18 de Fevereiro de 2014

Por Simon Black

Provavelmente, em algum momento da vida, toda a criança sonhou ter uma máquina do tempo e ser capaz de viajar até ao passado... normalmente para ver os dinossauros ou algo do género.

Viajar no tempo é uma fantasia quase universal. E se eu pudesse estalar os dedos e folhear as páginas do tempo, teria uma séria curiosidade em rever o período de mil anos entre o declínio do Império Romano do Ocidente e a ascensão do Renascimento.

Era usual referir esse período como a "Idade das Trevas" (embora os historiadores tenham entretanto desistido dessa designação), uma época em que todo o continente europeu esteve praticamente numa pausa intelectual.

A Igreja tornou-se NA autoridade sobre todos os domínios - Ciência, Tecnologia, Medicina, Educação. E manteve a informação mais vital fora do alcance do povo... limitando-se simplesmente a dizer a todos o que deviam acreditar.

As pessoas que viviam nesse tempo tinham que confiar em que os altos sacerdotes fossem pessoas inteligentes e que sabiam do que estavam a falar.

Interpretar factos e observações por si próprio era uma heresia, e todo aquele que formulasse um pensamento original e desafiasse a autoridade da igreja e do estado era queimado na fogueira.

É verdade que a civilização humana já percorreu um longo caminho desde então. Mas os módulos básicos da sua construção não são hoje muito diferentes do que eram então.

Quem quer que desafie o estado ainda é queimado numa fogueira. E todo o nosso sistema monetário requer que todos nós confiemos nos altos sacerdotes da banca central e da economia. Aqueles que se desviam da mensagem estatal e difundem a heresia económica são abatidos e vilipendiados.

O leitor recordar-se-á do caso dos professores de Harvard, Ken Rogoff e Carmen Reinhart, que escreveram o clássico "Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira".

O livro destacou dezenas de padrões históricos chocantes onde nações antes poderosas acumularam demasiada dívida e entraram em declínio terminal.

A Espanha, por exemplo, entrou em incumprimento no serviço da sua dívida por seis vezes, entre 1500 e 1800, e posteriormente por outras sete vezes no século XIX.

A França incumpriu por OITO vezes, entre 1500 e 1800, incluindo o episódio de 1788, nas vésperas da Revolução Francesa. E a Grécia por cinco vezes desde 1800.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Regulação e cálculo económico (II)

Robert Higgs, hoje reformado, encontrou o tempo e a disponibilidade mental para, entre sessões de homeschooling ao seu enteado e do cuidar dos animais da quinta onde vive com a família, iluminar o feed de notícias de quem o segue no facebook. O gigante intelectual que se dedicou ao estudo das razões que têm presidido ao crescente peso do estado (onde "Chrisis and Leviathan", de 1987, é uma peça essencial) e que avançou com a conjectura conhecida por "regimede incerteza para explicar a (até então) anormal duração da Grande Depressão, encontrou agora um registo de uma sobriedade, elegância e humor que se aliam à sua enorme sabedoria. Eis um seu exemplo que, humildemente, procurei traduzir o melhor que soube:
"A teoria das falhas de mercado é um dos desenvolvimentos mais infelizes do mainstream económico do século passado.

Em primeiro lugar, aspecto determinante, esta teoria não tem nada a ver com os mercados reais. Pelo contrário, ela só trata de discrepâncias postuladas entre estados alternativos de um modelo formal construído sobre pressupostos que não existem nem podem existir na realidade. Após identificar tais discrepâncias, o teórico económico salta de seguida para a totalmente injustificada conclusão que determinadas acções do governo real podem melhorar o estado do mundo real - o que é espantoso, considerando que o mundo real - seja o mercado real ou o governo real - nunca entrou neste quadro e que alcançar um resultado eficiente, nos termos do modelo definido, é impossível na realidade.

Em segundo lugar, a capacidade e vontade presumidas do governo para levar a "falhada" economia de mercado para uma configuração eficiente por via de impostos, subsídios e regulamentos exibe, no melhor dos casos, uma ingenuidade espantosa relativamente à natureza dos governos do mundo real e do modo como eles funcionam. Em que razões se baseia o economista neoclássico para supor que os governos reais possam ou queiram adoptar as medidas necessárias para atingir os ganhos de eficiência no mundo real? Absolutamente nenhuma. Ele não tem nada para além de uma mera possibilidade académica, o que é o mais diluído dos "caldos" possíveis no mundo real da política e das burocracias governamentais.

Em suma, o modelo não retrata o fracasso de nenhum mercado do mundo real, mas apenas o falhanço dos economistas em levar devidamente em linha de conta o mundo real nas suas teorizações. Além do mais, as recomendações de política rotineiramente derivadas do modelo revelam que os economistas que avançam nesta via a dar conselhos ou são tolos ou charlatães. Estou envergonhado por ter de admitir que já levei a sério todo este quadro de análise, e, neste aspecto, responsabilizo os meus professores por negligência do seu ofício."

domingo, 15 de setembro de 2013

A arrogância fatal do cientismo em sistemas caóticos

No WUWT, um artigo indispensável da autoria de Willis Eschenbach ("Um passo à frente, dois à rectaguarda") para ajudar a compreender a inutilidade das tentativas de modelar o sistema climático com o intuito de produzir previsões de longo prazo, apesar do exponencial aumento das capacidades computacionais postas ao dispor - com o dinheiro dos contribuintes - às instituições intrinsecamente alarmistas (de que outro modo conseguiriam o abundante financiamento estatal?).

Como se pode ler no website do Met Office (minha tradução), um dos antros ícones do alarmismo mundial climático, na página referente às sucessivas gerações dos seus famosos supercomputadores, cuja última actualização, à data de hoje, remonta a 7 de Novembro de 2011:
A investigação que levamos a cabo sobre as alterações climáticas está a ajudar os governos, empresas e indivíduos a planear antecipadamente os desafios que enfrentamos no futuro. As previsões que fazemos, e a orientação detalhada que proporcionamos, tem o potencial para proteger a vida numa escala gigantesca em todo o mundo, e, potencialmente, para permitir reduções ainda maiores [nas emissões de] CO2.
O mesmo Met Office, instituição alvo da crescente galhofa já não apenas no Reino Unido devido às suas previsões estrondosamente falhadas, de tal modo que resolveu cancelar a publicação de previsões de "longo prazo", ou seja, as que vão além de 30 dias, revistas todas as semanas. Não obstante, numa atitude em tudo semelhante à que Hayek, no contexto da disciplina de Economia, designou pelo "The Fatal Conceit - The Errors of Socialism" ("A arrogância/presunção fatal - os erros do socialismo"), o Met Office persiste em obter – com êxito - cada vez mais dinheiro poder computacional através da ampla generosidade dos governos. Por exemplo, depois de terem gasto 30 milhões de libras esterlinas em 2009 num novo supercomputador (que emite CO2 em profusão),  irá agora obter um outro, desta feita de 100 milhões de libras!

Imagem retirada daqui

Ora, regressando ao artigo de Willis Eschenbach, e nas suas palavras, "por volta de 1980 [quando os computadores eram, digamos, "a pedal"], foram divulgadas as primeiras estimativas do que é conhecido por "sensitividade climática de equilíbrio" (em inglês, ECS) ou seja, qual seria o aumento na temperatura global em resultado de um aumento para o dobro da concentração de CO2. Nessa altura, o intervalo de variação estimado apontava para algo entre 1.5ºC e 4.5º C".

33 anos depois, o avanço é extraordinário, conforme se evidencia no 5º Assessment Report do IPCC (AR5) agora "soprado" à imprensa. Na análise de Eschenbach: o intervalo estimado para a "sensitividade climática de equilíbrio" é agora de... 1,5ºC - 4,5ºC! Notável, não é?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Do pretenso rigor e correspondente ridículo

Segundo o Económico (versão digital), verificou-se que "[o] número de desempregados em Espanha baixou em 31 para 4.698.783 milhões em Agosto" (realce meu).

Isto faz-me lembrar uma anedota, verídica, de um director de informática, há um quarto de século atrás, que quando perguntado sobre o número de PC então existentes na sua empresa respondeu que seriam "perto de sete"!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O mundo funcionava razoavelmente até que os sinistros neoliberais tudo desregularam provocando a crise

Mais coisa menos bico, o título do post resume razoavelmente a "narrativa" habitual do discurso público, dos partidos políticos aos media do mainstream. É certo que há cambiantes mas, relativamente aos partidos do "arco de governação", há apenas isso. Pequenas cambiantes.

O que se passa entre nós não é muito diferente da situação da generalidade do mundo ocidental. Veja-se, por exemplo, o caso dos EUA que mantêm uma estatística desde 1936, quanto à actividade legislativa federal: novas leis e regulamentos federais (ou meras alterações à legislação/regulamentação existentes) incluindo também as propostas que não chegaram a tornar-se efectivas. Toda esta actividade é registada no Federal Register e, como se pode observar no gráfico seguinte (dados provenientes daqui), só sugere uma pergunta: mas afinal onde é que está visível a desregulamentação?


Ou dar-se-á o caso de o valor semântico da "desregulamentação" se ter alterado entretanto? Para investigar essa hipótese consultemos, por exemplo, o Merriam-Webster. Traduzo: "o acto ou processo de remover restrições e regulamentos". Hipótese infirmada, pois. Alguma sugestão dos leitores?

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Nota: alguns amigos fizeram-me notar a ausência, na opinião deles excessiva, de argumentação formal (matemática/simbólica) nos meus modestos escritos por aqui. Pois bem: desta vez levam com uma regressão linear (que gera a curva de tendência a laranja no gráfico). Agradecendo à nova versão do Excel, aproveito para acrescentar o "doce" da equação da recta bem como do R2 (o qual, rondando os 0.9, sugere uma forte correlação estatística, entre a mera passagem do tempo e a crescente regurgitação legislativa e regulamentar). E pronto, a estatística confirma o que os não-distraídos e que trabalham nas empresas há muito sabiam.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

De sofá e pipocas

Krugman Accused of ‘Uncivil Behavior’, no Wall Street Journal. Para pormenores, na perspectiva de Reinhart e Rogoff, ver aqui. Quanto à de Krugman, basta seguir o seu blogue.

Pelas razões que na altura apontei, não tenho muito a acrescentar quanto à "substância" da polémica daqueles autores com Krugman. De qualquer modo, como Robert Murphy ilustra no seu artigo Heads Krugman Wins, Tails ‘Austerity’ Loses diria que, em definitivo, a ausência de civilidade intelectual de Krugman é de facto notavelmente perturbadora.

domingo, 28 de outubro de 2012

O inesperado impacto do "multiplicador" do azeite

Segundo o Público,
A produção nacional de azeite atingiu, na última campanha, o valor mais alto desde os anos 1967 e 1968: 76.203 toneladas que ajudaram a estimular o ímpeto exportador do sector.
...
"Há cinco anos, ninguém teria imaginado que seria possível este crescimento. A forma como os indicadores dispararam não era expectável", admite Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, Associação do Azeite de Portugal.
Pois é, eis mais uma partida dos "multiplicadores". Depois dos tomates e das castanhas, chegou agora a vez do azeite surpreender (talvez não tanto os destinatários dos múltiplos subsídios à produção agrícola). Dogbert explica a coisa, de forma singela:


Portanto, e em resumo: não sendo as autoridades (nem de resto ninguém) capazes de antecipar o que vai acontecer, a prazo, com o mercado dos tomates ou o das castanhas, como crer, por um segundo que seja, na presunção - uma presunção fatal - de serem capazes de prever o resultado das escolhas e das interacções de milhões de indivíduos num dado intervalo de tempo? Não se trata de "errar" as previsões (por ter havido erro nas "contas"), trata-se tão só e apenas da incapacidade de prever o resultado de um fenómeno de  natureza caótica, não-linear. A Matemazição da disciplina da Economia é uma fraude intelectual como já em 1962, Ludwig von Mises, observava: "Como método de análise económica, a econometria é um acriançado jogo com números que em nada contribui para elucidar a realidade dos problemas económicos".

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Estudos e tretas ou tretas de estudos

Estudo da OCDE: baixas qualificações dos pais determinam percurso dos filhos

O título da "caixa" que reproduzo é-me intolerável.

Vivemos bombardeados de estudos estatísticos relativamente aos mais variados domínios da vida social, da fisiologia humana, etc. Os jornais e as televisões adoram-nos. Os activistas sociais, esses, são dos principais clientes destes "estudos" (e dos que mais deles beneficiam). Brandindo-os, apressam-se a pressionar os organismos estatais a "agir". Seja clamando por proibições ou punições (por exemplo, impostos) seja apelando à criação de "estímulos" positivos (por exemplo proporcionando tarifas acima das do mercado aos promotores das novas renováveis, pagando os ordenados a actores e a músicos, etc).

Ora o recurso à estatística, no domínio do social, seja para "fotografar" um momento ou para "filmar" uma sucessão de momentos, apenas permite (admitindo a não manipulação de dados...) medir o que já sucedeu. Trata-se de história, apenas isso e não mais do que isso. Aconteceu, é certo, mas nada garante que a identificação de algum padrão no passado signifique que o mesmo se repita no futuro. (Em ciências sociais, não existem coisas como, sei lá, a constante gravitacional universal.)

Acresce que é ilegítimo deduzir relações de causalidade a partir da mera detecção de correlações. Por exemplo: o facto de se ter observado uma estreita correlação entre o número de anos de ensino formal e o  nível de desenvolvimento económico não permite dizer que é o número de anos de ensino que o determina. Não será igualmente fácil defender o inverso? Ou seja, que foi o desenvolvimento económico que veio a possibilitar o desvio de recursos para, então, poder assegurar a educação formal generalizada?

Não é verdade que as baixas qualificações dos filhos DETERMINEM o percurso dos filhos. Só os robots estão pré-determinados. Os meus avôs eram camponeses de sequeiro; os meus pais têm o antigo Curso Geral do Comércio e dois dos meus tios mais jovens, irmãos da minha mãe, já foram capazes de chegar à universidade.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Estatísticas e humildade científica

Desde há décadas que se sucede, com intensidade e frequência crescentes, a realização de panóplias de ensaios empíricos que procuram estabelecer correlações entre a presença (ou ausência) num grupo alvo de estudo (de pessoas, de animais, de plantas) de uma dada substância e a ocorrência (ou não-ocorrência) de um certo fenómeno. De cada um destes ensaios, pelo menos dos que chegam ao seu termo, sai um "estudo" que, em regra, é muito apreciado pela imprensa e televisão já que lhes proporciona tema de notícia, quer "confirme" (ou "desminta") resultados de anteriores "estudos" dobre a mesma matéria. Ontem, tivemos mais um exemplo: Painel norte-americano recomenda fim do PSA para teste de rotina do cancro da próstata.

Se tiverem  a paciência para lerem a notícia (presumo que mais provável para os homens que já passaram os 50 anos), encontrarão um padrão comum a milhentos outros estudos de índole exclusiva ou predominantemente estatística. Segundo o agora divulgado, não haverá "evidência" estatística que demonstre a utilidade do despiste do PSA, havendo inclusivamente suspeitas - estatísticas - que a sua realização sistemática (ortodoxia em vigor) possa inclusivamente conduzir à morte prematura de pessoas!

Mas, como sempre sucede com todo o estudo estatístico (e sem abordar o fenómeno da fraude científica, isto é, de resultados forjados), também a este lhe apontam problemas metodológicos que, a existirem, invalidariam as suas conclusões. Daqui resulta um fenómeno assaz curioso: em vez de se discutir a ciência relativa ao fenómeno que se pretende conhecer, discute-se a (in)correcção da metodologia estatística para o medir!

Tudo isto seria apenas de um domínio atribuível à excentricidade científica, não se desse o caso de ser através de processos desta natureza que se instituem novas práticas, novas ortodoxias, e se substituem outras (que tantas vezes "renascem" das cinzas para reganharem o estatuto perdido). Falando de saúde, não falamos de coisa pouca: no limite, falamos da vida e da morte. Nunca nos esqueçamos: a disciplina da Estatística, por sofisticados métodos quantitativos e probabilísticos que disponibilize para obter correlações, não pode substituir o conhecimento científico.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Economia, PIB e estatísticas

Extraído de uma página do manual Economics, de Paul Samuelson, edição de 1990 (via facebook):


Nota: por certo que esta estatística ajuda a perceber, à data, as razões pelas quais infindáveis autores (excepção notável para Hélène Carrère d'Encausse) explicavam a impossibilidade de destronar a potência soviética e, por maioria de razão, a "impossibilidade" de ela se reformar por dentro. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Estatística vs causa-efeito

No Portugal Contemporâneo, Joaquim Sá Couto, médico de formação, de há muito que nos proporciona excelentes posts que veiculam a perspectiva do economista defensor da economia de mercado. Num contraponto que se diria perfeito, hoje assistimos, tanto quanto creio pela primeira vez, ao economista Pedro Arroja escrever sobre medicina, mais propriamente sobre o cancro, para tal evocando a sua qualidade, em "acumulação", de estaticista (sinónimo de estatístico, aquele que se ocupa de estatísticas).

No seu habitual estilo combativo e, com frequência, provocador, Pedro Arroja conclui, explicitamente invocando estudos estatísticos que o próprio levou a cabo, que a medicina hoje "trata" cancros que o não são e que o "tratamento-rei" - a quimioterapia -, é muito menos eficaz do que temos por adquirido.

Não sou estaticista de profissão mas a Estatística é uma disciplina a que não sou alheio, não tivesse eu frequentado um curso de Economia de extrema ortodoxia neoclássica e a associada e vasta canga estatística e econométrica... Digamos que creio saber o suficiente para a considerar como uma matéria muito, muito tricky.

O ponto que gostaria de destacar é outro: não existindo uma teoria que explique a relação causal (a fonte) do surgimento do cancro (o efeito), pouco mais resta que a Estatística, ou seja, o estabelecimento de correlações, para tentar escorar uma ortodoxia de tratamento do cancro, ortodoxia que vai variando no tempo. Ora, se a exercícios estatísticos que apontam num sentido se sucedem outros que apontam em sentido diferente, e talvez oposto... outra atitude que não seja a de uma profunda humildade científica (Popper) é, a meu ver, de uma sobranceria intolerável.

E se o que precede é válido nas ciências naturais e biológicas como a Medicina, que dizer então das ciências sociais onde a estatística só é útil para contar o que já sucedeu (Mises)?