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domingo, 16 de outubro de 2016

Alívio ou "o folgar das costas"


Depois de Centeno ter sido avisado pela agência de rateio que a situação fiscal era confortável (e por isso se manteria a avaliação de Portugal), nota-se um ligeiro suavizar da percepção da doença de que padecemos.
Essa suavização não é genuína, não nos enganemos.
É apenas a condição para que o BCE se mantenha "a pagar a festa". E como é preciso manter os espíritos alegres e plenos de esperança, impõe-se a manutenção da parada.

Aliás, o nosso governo fará a sua parte e dará cumprimento à "expansão económica" (note-se as aspas) pela força de... impostos. Por outro lado, não obstante as pressões alemãs, o investimento público avançará em sectores que revelem bom retorno. Político, bem entendido. Mas tudo se fará pela folga que o BCE garante. Como de resto mostra a segunda imagem.
Há alguma margem, comparando com as congéneres, para o BCE continuar a intervir.
Até quando?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

E se...


Apenas uma agência internacional mantém as obrigações portuguesas com estatuto de investimento suficiente para que o Banco Central Europeu as continue a comprar. Até quando?
Até ao agravar da discussão em torno do orçamento?
Até à próxima corporação levar a cabo uma qualquer estratégia de extorsão?

Uma nota para o excelente serviço da equipa do "The Daily Shot". Passará (a partir de Novembro) a estar associado à subscrição de um grande jornal americano. Deixarei de acompanhar a equipa e o seu trabalho.
Godspeed.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Compensa errar redondamente anos a fio (pelo menos € 125 milhões):

Assisti, observando uma recatada distância, aos vigorosos protestos das entidades domésticas "produtoras de ciência" que se sentiram injustamente excluídas da fatia do orçamento do estado a que julgavam ter "direito" alegando deficiências no processo de avaliação encomendada pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia. O meu propósito não é o de questionar a bondade (ou falta dela, de tal processo - não tenho competência para tal. Todavia, não consigo - é superior a mim mesmo - deixar de achar estranhíssima a escala de avaliação utilizada ainda que saiba que ela é internacionalmente utilizada: "Insuficiente", "Razoável", "Bom", "Muito Bom", "Excelente" e "Excepcional". Mas com uma tal escala é de estranhar, neste país de excelência, que mais de 55% das 322 instituições avaliadas ocupem os três últimos graus da escala, por sinal aqueles que conferiam o "direito" ao bolo orçamental relevante? E ainda há quem se admire com a inflação nas classificações dos alunos ("grade inflation") dos bancos da escola primária até à universidade? Enfim.

Vem este longo intróito a propósito da recente decisão tomada pelo governo britânico de dotar o Met Office (uma agência estatal do Reino Unido) de um novo supercomputador, com o custo de 125 milhões de euros, para melhorar a qualidade das previsões meteorológicas e da "evolução do clima" a 100 anos de distância (!). Isto, cinco anos depois de os contribuintes britânicos terem pago 40 milhões de euros por um outro supercomputador invocando os mesmíssimos motivos. Um breve fact-checking referente à qualidade das previsões "climáticas" do Met Office - um dos mais notáveis centros de difusão alarmista do aquecimento global - nos últimos 10 anos, permite legitimar sérias dúvidas da sua razoabilidade, embora saiba que, nos tempos que correm, é uma heresia passível de excomunhão irrevogável duvidar da bondade de todo e qualquer "investimento em ciência". Para o efeito, irei socorre-me da excelente memória de Christopher Booker:

Imagem daqui
«Em 2004, [o Met Office] previu que o mundo em 2014 aqueceria 0.8ºC e que em 4 dos 5 anos após 2009 seria batido o recorde alcançado em 1998, "o ano mais quente de sempre". Em 2007, o computador do Met Office previu que aquele seria "o ano mais quente de sempre", justamente antes de as temperaturas globais terem baixado 0.7ºC, o equivalente a todo o aumento verificado no século XX. O Verão iria ser "mais seco que a média", precisamente antes das piores cheias de sempre.

De 2008 a 2010, os modelos previram consistentemente "Invernos mais quentes que a média" e "Verões mais quentes e secos que a média": três anos em que a maior parte do hemisfério norte registou recordes de frio e neve; no Reino Unido, salientando-se o prometido Verão de "churrasco" de 2009, verificaram-se Verões mais chuvosos e frescos do que o habitual. Um triunfo particular foi alcançado, em Outubro de 2010, quando foi anunciado que o Inverno iria ser "2ºC mais quente que a média", justamente antes do mais frio mês de Dezembro verificado desde que se iniciaram os registos em 1659.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Notícias do governo mais liberal de sempre

Não sei se arranjarei paciência para ir ler a proposta de orçamento de estado para 2015, mas é indubitável o que já "ganhámos" (notem o uso da 1ª pessoa do plural): Carga fiscal atingirá novo máximo histórico (37% do PIB em 2015). Conseguirá fazer melhor um governo nominal e assumidamente socialista? Sim, com certeza que sim. Podeis ficar descansados.

Foi também ontem conhecida a proposta da ERSE de evolução das tarifas de electricidade para 2015. No Jornal de Negócios a notícia surge: Tarifas de electricidade deverão subir 3,3% em Janeiro. Deo gratias! Só 3,3%! Reparem que poderia ser muito pior! Até porque "temos" que lutar contra a deflação que ameaça abater-se sobre as nossas cabeças. Como aliás acontece com o stock de défice tarifário: na senda do conseguimento prospectivo, ele só aumenta cerca de 400 milhões de euros, perspectivando-se que consiga alcançar a elegante soma de 5080 milhões de euros. Deo gratias!

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mas afinal onde pára a austeridade?

No magnífico post que o meu colega de blogue deu ontem à estampa, somos persuasivamente convidados a que não confundamos as peculiaridades da encenação e dos seus episódios laterais, com o guião "dorsal" da peça que se vem desenrolando.

Peça deste jogo de espelhos vem sendo reservada à "austeridade". Para uns, ela tem sido a receita adequada e a causa primeira da obtenção de resultados encorajadores (aumento das exportações, queda na taxa de desemprego, redução do défice orçamental em percentagem do PIB, menores custos de financiamento na emissão de nova dívida pública, etc.); para outros, depois de nos ter colocado numa rota de "espiral recessiva", a continuação da austeridade impede-nos agora de retomar o "caminho de crescimento" (através de mais défice/dívida por conta dos supostamente indispensáveis "investimentos" públicos de "estímulo" à economia). O manifesto dos 70 enquadra-se neste último grupo pois na realidade a "reestruturação" da dívida pública que os seus subscritores propõem é meramente instrumental no acomodar de (ainda) mais despesa pública. Tão só e apenas.

Sendo certo que, como Mark Thornton recordava, há três formas de austeridade e, numa delas, até se encara seriamente a hipótese de repúdio da dívida pública (sem iludir as consequências dessa via), importa ter presente uma clarificação adicional quanto à "narrativa" da austeridade. É o que David Howden faz no texto Where's the Austerity? cuja tradução, de minha responsabilidade, se segue.

(Entretanto, assinei este outro manifesto por força do que aqui se alude ironicamente.)
10 de Março de 2014
Por David Howden

A dívida global já ultrapassa 100 milhões de milhões (trillions) de dólares, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais[1]. Ao longo dos últimos cinco anos, a dívida aumentou em cerca de 30 trillions de dólares. E, saliente-se, os maiores emitentes de dívida foram os estados.

As baixas taxas de juros atraíram os governos a recorrer à dívida para financiar os projectos públicos do presente. Ora, como se costuma dizer, não há almoços grátis. A certa altura, essa dívida terá de ser paga. Na melhor das hipóteses, tudo o que esses governos fizeram foi deslocar despesa para o futuro à custa das gerações futuras em benefício das gerações actuais.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O veneno do estatismo em versão politicamente correcta

Ou a razão pela qual há apenas uma forma de diminuir o peso do estado: reduzir-lhe o financiamento disponível seja pela via dos impostos, como dos empréstimos e, evidentemente, do money-printing.
«Laws such as I-VAWA(*) rely on official data that becomes official "fact". The fact produces funding. The funding enables political or ideological goals. Truth and debate fall away.»
Wendy McElroy, I-VAWA'S global lie
(Tradução: Legislação como a da I-VAWA depende de dados oficiais que se tornam num "facto" oficial. O facto faz surgir o financiamento. O financiamento permite o estabelecimento de objectivos políticos ou ideológicos. A verdade e o debate desaparecem.)
(*) International Violence Against Women Act (Projecto de lei sobre a violência doméstica internacional contra as mulheres)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Segurança Social: um "excedente" largamente deficitário

Défice fica abaixo do previsto à custa do excedente na Segurança Social. A RTP, antecipando a anunciada "independência à la BBC", acrescenta mesmo que "[a] imprensa económica desta manhã avança que o défice vai ficar abaixo do previsto à custa do excedente registado nas contas da Segurança Social" (itálico meu).

Atente-se então, ensaiando ilustrar a diferença entre os verbos "olhar" e "ver", à execução orçamental da segurança social hoje divulgada cujo quadro resumo reproduzo abaixo. Subtraindo a linha da "receita efectiva" da "despesa efectiva", obtemos o saldo de "caixa" (não esquecer que nesta contabilidade nada se inclui quanto às responsabilidades futuras dos actuais reformados...) que, em 2013, resulta da operação aritmética, em milhões de euros (M€):

25.336,5 - 24.857,9 = 478,6 (M€) de "excedente" (+47,1 M€ que em 2012).

Com isto, conjugámos o verbo "olhar". Tentemos agora "ver" respondendo à pergunta: como foi conseguido um tal "brilharete"? A resposta é simples: pelo aumento das transferências do Orçamento do Estado de 8,4%  (750,7 M€) face ao ano transacto. Excedente?

Que dizer então do resultado do cálculo do saldo entre contribuições e quotizações e as pensões (de velhice, sobrevivência, invalidez e antigos combatentes)?:

13.413,9 - (15.295,9 + 506,5) = - 2.388,5 M€

verba indicativa do défice do financiamento das pensões da segurança social se cometermos o "esquecimento conveniente" que, para além das pensões, as contribuições e quotizações para a segurança social se destinam também a financiar a acção social, o subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, o subsídio de doença, etc., etc (para uma desagregação mais fina das receitas e despesas consultar a página 58, quadro 10, da síntese de execução orçamental hoje divulgada.). Excedente? Não! Antes, uma mistificação gigantesca de um esquema piramidal cada vez mais insustentável. Esta é o resultado iniludível do exercício de "ver".

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Da intrínseca constitucionalidade dos processos inflacionários

Este poderia ter sido, digamos, um sub-título do artigo de Vitor Bento - Duas questões fundamentais - publicado hoje no Económico. Com efeito, como se constatou nos dois anteriores processos de resgate do século passado, ninguém então se preocupou com a legalidade, no plano constitucional, do violento imposto inflacionário (por via da profusa emissão de moeda pelo Banco de Portugal para "alimentar" a tesouraria do Ministério das Finanças) e com as consequentes e muito violentas reduções que os salários reais sofreram nessas ocasiões.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Swaps - o Estado especulador

Via Blasfémias, cheguei ao Banda Larga que recorda uma didáctica intervenção do prof. João Cantiga Esteves quanto ao tema dos swaps. Nela, Cantiga Esteves separa a espuma da substância de um tema que, à boa maneira portuguesa amplificada pela generalidade da comunicação social, procura a todo o custo ofuscar o essencial - a especulação promovida pelo próprio Estado para, a qualquer custo e recorrendo a todo o tipo de artimanhas, encontrar financiamento para prolongar níveis de despesa insustentáveis em mais um exemplo de irresponsável e criminosa fuga (despesista) para a frente.

sábado, 4 de maio de 2013

Breve reflexão sobre o pensamento mágico em vigor

Qual a razão que leva o comum das pessoas a pensar que, ao contrário do que sucede com uma qualquer entidade privada (famílias ou empresas), seria possível ao estado, sistemática e indefinidamente, gastar mais do que colecta através dos impostos (actuais ou futuros/diferidos)?

Será por ser ele, estado, que detém o monopólio legal da emissão de papel-moeda, por essa via obtendo a "isenção" da observância de um princípio elementar que reconhecemos como evidente e essencial na gestão das finanças familiares? Dificilmente. Com efeito, se aceitássemos este excepcionalismo como válido, não seria lógico que, por exemplo, o Zimbabwe fosse hoje uma das nações mais ricas do mundo? Mais: se o que nos separa da prosperidade é simplesmente pôr "as rotativas a trabalhar", de que raio estamos à espera?

Se será razoável supor que muitos intuam o funcionamento da lei da procura e da oferta num mercado (como creio que suceda no quotidiano com os produtos agrícolas), qual a razão que leva quase todo o mundo a supor ser possível contrariá-las, por mero acto de vontade política, por exemplo através da fixação de um salário mínimo nacional? Acaso esperarão que o emprego cresça quando se aumenta administrativamente o seu preço?! Parece que nada se aprendeu com a ruína do comunismo e com a impossibilidade de funcionamento de uma economia desprovida de um sistema de preços reais.

É certo que há economistas (?) que muito têm contribuído para alimentar esta trágica e generalizada iliteracia económica. Paul Krugman é, evidentemente, um dos mais proeminentes como o título do seu último livro manifesta - End This Depression Now! Para o über-ultra-hiper-keynesiano e seguidores, a receita para a saída da crise é muito simples: o estado deve "estimular" a economia aumentando os níveis de despesa pública ao mesmo tempo que o banco central faz a sua quota-parte "estimuladora" imprimindo furiosamente moeda e manipulando as taxas de juro para níveis a rondar os zero por cento (quando não negativas!). O quanto gastar e o quanto imprimir é algo de indefinido - é "o que for preciso". A regra a observar é, pois, muito simples: ir aumentando sucessivamente as doses até que, um dia, finalmente, a crise acabe. Quando tal suceder, invocará a sua razão e lamentará o tempo perdido e a (supostamente inútil) dor provocada na perseguição dessa coisa terrível que é a "austeridade" - post hoc ergo propter hoc.

Na promoção da irracionalidade (insanidade lógica), a novilíngua é evidentemente indispensável. Gastar passou a ser considerada uma virtude enquanto poupar se transformou numa actividade de desprezível avareza e, em consequência, merecedora do respectivo opóbrio e merecido castigo - as tais taxas de juro nominais de 0%. Levando o "raciocínio" um pouquito mais além, há até quem defenda como solução um "regime de despesa privada obrigatória"!

Confirma-se assim que a Grande Insanidade, o "Pensamento Mágico", se instalou. Como Gary North observou, "Politicians cannot bring themselves to stop spending money the governments do not have" e, acrescento eu, haverá sempre "economistas" dispostos a sancionar, "cientificamente", a vontade dos políticos.

Não vejo pois razão alguma para optimismos.

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P.S.: tenho por dispensáveis quaisquer comentários às "medidas" ontem anunciadas por Passos Coelho bem como quanto à "agenda para o crescimento" que o ministro Álvaro Santos Pereira tirou da cartola. Não tenho nada para acrescentar ao que aqui escrevi.

sábado, 6 de abril de 2013

A incontestável constitucionalidade para aumentar os impostos

não faz antever muitas possibilidades depois do anunciado chumbo pelo TC, desta feita com efeitos retroactivos, de algumas normas do Orçamento. Por conseguinte, na ausência de qualquer espécie de arrojo político deste Governo, irá na certa significar uma redefinição do "enorme aumento de impostos" em vigor o que, evidentemente, se fará à custa do que ainda resta do sector privado da economia.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O regresso aos mercados

Vai por aí uma grande excitação porque "voltámos aos mercados" com uma emissão de dívida pública a 5 anos, no montante de 2,5 mil milhões de euros, à taxa de juro implícita de 4,891%.

"Demos um passo extraordinariamente positivo", afirma Eduardo Catroga. Ricardo Salgado, esse, ribomba com a "vitória sobre as agências de rating"! Para os lados do CDS, Ribeiro e Castro, num assomo pouco usual no seu partido, classifica de "movimento de mestre" a decisão de Vítor Gaspar de "antecipar a ida aos mercados"; já João Almeida prossegue o registo de cuidado extremo com que a direcção de Portas tem conduzido o CDS, preferindo sublinhar que o "[regresso aos mercados] tem que ter consequências" na "economia real" (crédito bancário disponível, crescimento e emprego).

Sendo inegável que o sucedido permite alimentar a ideia de que se tenha verificado uma inversão sustentada de expectativas (que os mercados secundários da dívida pública já vinham antecipando nos últimos meses), não vejo razões para grandes celebrações. A despesa pública estatal reduziu-se estruturalmente nos últimos 18 meses? Não! Pouco mais houve, à excepção notável do sector dos transportes públicos, que cortes temporários na mesma (alguns dos quais aliás já revertidos, vide 13º e 14º meses na FP e pensionistas). O défice orçamental desapareceu? Não, apenas diminuiu a sua magnitude (e não esqueçamos as receitas extraordinárias). E o que aconteceu com os impostos? Aumentaram desmesuradamente!

Daí que, sem mais, o "regresso aos mercados" pode até vir a transformar-se num mero paliativo, induzindo melhoras aparentes num corpo que continua extremamente doente (a propósito, veja-se como António José Seguro já se relembrou da linha de mercadorias entre Sines e Madrid para "estimular" a economia e o emprego). Não haja ilusões: o reequilíbrio das contas externas, se bem que em parte ajudado pelo bom comportamento das exportações (tal como em Espanha, por exemplo), só foi possível pela fortíssima redução induzida na procura interna (aumento de impostos, redução de salários, despedimentos, etc.) e, por essa via, na redução brutal das importações. Não é único, o caso luso. Pouco, muito pouco, foi feito por cada um dos países da zona euro, como o insuspeito Roubini assinala.

Por outro lado, é bem provável que o Tribunal Constitucional volte a pronunciar-se pela inconstitucionalidade quanto a medidas de redução da despesa pública constantes no OE/2013. Se tal ocorrer, qual é a alternativa para este ano? E para o ano? E para os seguintes? Continuar a redefinir o conceito de "rico" até ao desaparecimento por completo da classe média?

Ou será que a alternativa, à parte a ocorrência de um improvável milagre, é a adopção da política (?!) do despacho? Nos finais de Agosto de 2011, quando foi publicada a 1ª versão do designado Documento de Estratégia Orçamental, classifiquei de "cobarde" este Governo (António Barreto, retomava o adjectivo no fim-de-semana passado) ao não vislumbrar no documento o reflexo da existência de qualquer estratégia de longo prazo. Se outras razões não houvesse, teria bastado toda a longa e triste novela do relatório do FMI para o "repensar do Estado", do palácio Foz (que falta de tino!) e da regra de Chatham House, etc., para justificar o epíteto.

Estais optimistas? Muito boa sorte!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O longo prazo chegou e tão cedo não se irá embora

Vasco Pulido Valente (VPV), na sua crónica no Público de hoje, pergunta: "É a democracia compatível com o Estado providência?" Por outras palavras: será que precisamos de "suspender" a democracia para salvar o Estado social? VPV, fazendo referência aos apelos que se vão ouvindo para que um qualquer Monti lusitano ocupe o lugar de Passos Coelho, terminava a crónica com um sério aviso a Cavaco Silva "[Q]ue tome cuidado. Muito cuidado."

A mim, o que me parece totalmente incompatível é a persistência de um Estado social da dimensão do nosso quando a economia não gera recursos para o manter. E esse é que é o problema que em Portugal, praticamente, só Medina Carreira fala e os restantes, olimpicamente, ignoram (talvez por ignorância dos princípios elementares da aritmética). Não obstante, chega um momento em que já não será possível continuar a empurrar o problema com a barriga e, nestes últimos dois anos, já vimos sentindo a violência que o contacto com a realidade pode significar. Aliás, em minha opinião, boa parte do longo prazo de que falava Keynes, já chegou. E tão cedo não se irá embora.

O problema não me parece que resida na potencial oposição entre Estado social e democracia. A verdadeira questão está na (in)capacidade em ultrapassar a irresponsabilidade financeira do estado português democrático de que os últimos 38 anos constituíram exemplo exuberante. Mas um qualquer "Monti à moda do Minho" ou até mesmo um general, não poderá deixar de escapar ao inevitável recuo do Estado social1. Fá-lo-emos, como de costume, e por razões essencialmente ideológicas, demasiado tarde. Iremos pagar com língua de palmo por isso.
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1Por exemplo, nas pensões de reforma, através da introdução de plafonamento (veja-se o caso da Suíça onde a pensão máxima de reforma por velhice não excede os 1900 euros para um indivíduo e 2840 para um casal (dados de 2011)).

sábado, 20 de outubro de 2012

Contra os que querem subsumir a Economia à Política

José Pacheco Pereira (JPP), em "Contra o pensamento balofo" (link não disponível), escreve a certa altura:
Um país não é uma empresa.
   Portugal não é uma empresa.
   Portugal não é uma sociedade anónima, nem uma SA, nem uma SGPS.
   Repita, se faz favor: um país não é uma empresa.
  Repita de novo: o país não é uma empresa e tentar governar o país como se fosse uma empresa dá asneira.
   Mesmo que a empresa seja a mais bem gerida do mundo.
  Um país é um país. As regras são outras. Os métodos são outros. Os procedimentos são outros. As pessoas certas são outras.
   Repita: as pessoas certas são outras.
  As escolhas de pessoas devem obedecer a outros critérios. Porque um país não é uma empresa, não é uma burocracia, não é uma empresa de marketing, não é uma consultora, não é um think-tank, não é um blogue dos "nossos", não é uma secção partidária, nem um "grupo geracional" vindo de uma "jota" qualquer a tomar o poder.
Não creio que haja alguém que não concorde genericamente com o que precede. Agora, tenha-se presente que o que JPP não escreve é tão ou mais importante do que aquilo que explicita. JPP não escreve que o Estado não pode, eternamente, gastar mais do que colecta em impostos sem que daí decorram consequências graves para a grande maioria dos "súbditos". JPP não escreve que não existe tal coisa como dinheiro do Estado. JPP não escreve que só nas empresas se gera riqueza. JPP não escreve que o Estado se limita a redistribuir a riqueza taxada sobre o sector privado da economia. JPP não escreve que não se pode redistribuir o que não existe.

Mais à frente no artigo, JPP alude a uma das metáforas a que os diferentes "senadores" do regime recorreram nos últimos dias a propósito do assalto fiscal que a proposta de orçamento de estado para 2013 veicula. Elege a de Bagão Félix como a melhor: "[o OE 2013] funciona como uma septicemia, infecta tudo".

Erra o alvo JPP. A origem da septicemia foi bem enunciada por Margaret Thatcher (tradução do Artur Margalho):
«Nunca nos esqueçamos desta verdade fundamental: o Estado não tem outra fonte de dinheiro a não ser o dinheiro que são as próprias pessoas a ganhar.
«Se o estado desejar gastar mais, só o pode fazer ou pedindo emprestadas as vossas poupanças ou aplicando-vos mais impostos. E não é bom pensar que haverá mais alguém para pagar. Esse alguém são vocês.
«Não há tal coisa a que chamam dinheiro público, o estado não tem fonte de rendimentos para além do dinheiro dos contribuintes.
«Não há prosperidade inventando mais despesa Estatal! Ninguém fica mais rico por pedir um novo livro de cheques ao Banco! E nenhuma nação prosperou tributando os seus cidadãos acima das suas possibilidades (...)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Exageros segundo António Mexia

António Mexia, referindo-se às PPP: "Parece-me óbvio que se exagerou nas estradas", uma de entre as "muitas coisas que não devíamos ter querido".

Sim, há muitas coisas que não "devíamos ter querido" (embora a mim, e suponho que à generalidade dos portugueses, nunca ninguém nos tenha pedido uma opinião1). Uma delas foi - e continua a ser - a subsidiação maciça às novas renováveis (através das tarifas feed-in), de longe as grandes responsáveis, directa ou indirectamente, pelo défice tarifário e, dentro destas, os eco-crucifixos (na expressão feliz de James Delingpole para designar as torres eólicas) espalhados pelo país fora que produzem energia eléctrica não quando ela é necessária mas, naturalmente, apenas quando há vento (dominantemente à noite, de madrugada, quando a procura é muito baixa). Desta "coisa", Mexia não fala mas também não será de admirar...

E o governo - o actual - também não sai nada bem na figura. Ao mesmo tempo que faz um discurso carregado de retórica anti-rentista ao dirigir-se às empresas produtoras de electricidade, afirma "proteger" os consumidores diferindo no tempo os inevitáveis aumentos na electricidade que são consequência da política energética seguida anteriormente, ou seja, da promoção das "energias verdes". Jorge Vasconcelos, antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), que se demitiu precisamente pelo facto de o governo de Sócrates se ter recusado a retirar as consequências da sua própria política energética (ou seja, em aumentar os preços da electricidade), calcula em 110 milhões de euros o montante de juros a pagar em 2013 pela manutenção e agravamento do défice tarifário.
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1 E mesmo que nos tivessem explicitamente perguntado - e não "empacotado" em programas de governo que prometiam aumentar os "empregos verdes" (esquecendo-se de dizer que à custa dos empregos de outras colorações) - não creio que alguma vez nos tivéssemos deparado perante a pergunta adequada: "está disposto a ver aumentar o preço da electricidade de X% para contribuirmos (em 0,000Z%) para "salvar" o planeta  dos efeitos do aumento de concentração de CO2 (vulgo "aquecimento global") na atmosfera terrestre?"

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

No assentar da poeira (2)

Este quadro, constante da página 47 do Relatório do OE 2013 (reproduzo-o aqui pela fraca qualidade da imagem que consta do relatório), ilustra as variações do lado da despesa e da receita do Orçamento do Estado para 2013 face à execução estimada no ano corrente. Houve um tempo em que se propalava que o esforço da consolidação orçamental ira ocorrer nas proporções de 2/3 do lado da despesa e 1/3 do lado da receita. Ora, como o quadro bem expõe, o que se verifica é algo perto de 1/5 do lado da despesa e 4/5 (!) do da receita. Continuamos sem que se fale claro e Medina Carreira continuará a falar para as paredes. Até um dia (que está cada vez mais próximo).


No assentar da poeira (1)

A espuma governativa de que há tempos falava aqui, a propósito das fundações, vale uns insignificantes 40 milhões de euros (pág. 53 do Relatório do OE 2013).