Enquanto se persiste em condenar criminosos sem que tenham provocado vítimas (de que este é um caso flagrante), há organizações que se têm dedicado a evitar que, anualmente, sejam salvas milhões de pessoas de uma morte evitável. Já foi assim com o DDT e Matt Ridley vem recordar-nos de uma situação similar que vem ocorrendo como resultado da oposição militante das organizações ambientalistas, particularmente da icónica Greenpeace, às culturas agrícolas geneticamente modificadas (GM) - GM crops don’t kill kids. Opposing them does. Eis pois um crime que não consta de nenhum código penal pelo que, tecnicamente, não há criminosos apesar de as vítimas mortais se contarem por milhões.
A tradução é, como habitualmente, da minha autoria.
Foram os patos-arlequim que nos ligaram. Dez anos atrás, numa reunião em Monterey, na Califórnia, para celebrar o 50º aniversário da descoberta da estrutura do DNA, cruzei-me com o biólogo alemão Ingo Potrykus a observar patos-arlequim no porto antes do pequeno-almoço. O entusiasmo comum pela observação de aves quebrou o gelo entre nós.
Eu sabia quem era, claro. Ele tinha sido capa da revista Time por, potencialmente, ter solucionado um dos grandes desafios humanitários do mundo. Quatro anos antes, com o seu colega Peter Beyer, tinha acrescentado três genes aos 30 mil existentes no arroz para ajudar a prevenir a carência de vitamina A, uma das principais causas evitáveis de morbilidade e mortalidade em países pobres, com dietas fortemente dependentes do arroz. Fizeram-no a troco de nada, persuadindo as empresas a renunciar às suas patentes, de modo a que pudessem dar as sementes de arroz gratuitamente. Tratou-se de um impulso puramente humanitário.
Soubéssemos, Ingo ou eu próprio, que dez anos mais tarde este arroz ainda não estaria disponível para os pobres, que uma campanha sistemática para o denegrir, levada a cabo pelos colossos do movimento ambientalista, especialmente o Greenpeace, iria consumir honorários de advogados enquanto talvez 20 milhões de crianças morriam devido à deficiência de vitamina A, naquela manhã ele e eu teríamos ficado doentes de horror.
No debate sobre os alimentos geneticamente modificados que borbulha desde que Owen Paterson (sim, ele é meu cunhado, lidem lá com isso) se tornou no primeiro ministro europeu da Agricultura a entusiasticamente apoiar as culturas geneticamente modificadas há algumas semanas atrás, nem um único jornalista britânico ou blogger, que eu saiba, se preocupou em investigar os factos relativos ao arroz dourado, o qual ocupou um espaço tão proeminente no seu discurso. Certamente, pensei eu, alguns repórteres iriam sair para as Filipinas, para a China e para a Suíça e descobrir o que está de facto a acontecer. Mas não. Tal como aconteceu com a fracturação hidráulica [fracking], é mais fácil relatar a controvérsia.
Bem, vou eu próprio contar a história. A Syngenta, uma empresa de negócios agrícolas, melhorou o "arroz dourado" do Professor Potrykus através da adição de dois genes em vez de três (um proveniente do milho, um de uma bactéria do solo comum) até obter boas produtividades e proporcionar 60% das necessidades diárias de vitamina A de uma criança com apenas 50 gramas de arroz. Assim, para todas aquelas pessoas pobres que não podiam pagar, e a quem nunca lhes seriam oferecidos suplementos [vitamínicos], que não tinham onde semear espinafres mas que viviam em grande parte do arroz, a simples substituição do arroz normal pelo arroz dourado iria permitir salvar vidas.

