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sábado, 1 de março de 2014

Fim à austeridade?

Os leitores habituais do Espectador Interessado ter-se-ão dado conta do progressivo afastamento do ruído do dia-a-dia, próprio do "combate de blogues", para privilegiar um olhar mais sereno embora nem por isso menos incisivo e, quiçá, até mesmo mais "radical" sobre os temas que são alvo da atenção dos seus autores.

De facto, usando para aferição o número de posts (não) publicados, temos estado muito alheados dos "debates" (?) sobre uma suposta "espiral recessiva" e uma não menos suposta "recuperação redentora" (que, num momento de arrebatamento,  chegou mesmo a ser apelidada de "milagre") decorrente da acção patriótica do governo de turno. Do mesmo modo, o interesse que manifestámos em exercícios de exegese económica ao ritmo da divulgação das mais variadas estatísticas, tem sido bastante diminuto. E não apenas porque, parafraseando Ronald Coase, os dados estatísticos, se sujeitos a suficiente tortura, acabarão por confessar tudo (e um par de botas). Por aqui, preferimos cingirmo-nos à aritmética elementar aliada ao bom senso. E, aqui chegados, é fácil concluir, à semelhança aliás do verificado nas situações de pré-bancarrota de 1978-1979 e de 1983-1985, que o "ajustamento" da economia portuguesa foi conseguido quase integralmente à custa do sector privado da economia, continuando o Estado estruturalmente tão rotundo quanto o era em Abril de 2011. Sem receitas extraordinárias, o défice do orçamento continuaria acima dos 5% do PIB e isto depois de uma punção fiscal de que não há memória, nem plano (ou vontade) para a aliviar.

É então a austeridade inevitável? A resposta a esta pergunta depende do que entendamos por "austeridade". Constituirá "austeridade" ter um défice orçamental superior a 5% do PIB? Constituirá austeridade a situação de "risco" de inclusão nas contas públicas de outras rubricas que sempre lá deveriam ter estado? Há uns meses atrás, João Cortez proporcionou-nos uma boa tradução de um excelente texto de Franz Hollenbeck intitulado "As três formas de austeridade" que aconselharia agora a (re)ler. Na 5ª feira, dia 27 de Fevereiro, Mark Thornton, a propósito da nova proposta de orçamento de Obama onde este proclama a necessidade de pôr "fim à austeridade", volta ao tema que continua a ser alvo de basta mistificação. A "actualidade estrutural" do texto de Thornton compeliu-me a traduzi-lo. (Todos os erros que possam decorrer da tradução são da minha responsabilidade, bem assim como das notas introduzidas.)
O presidente Barack Obama divulgou recentemente a sua proposta de orçamento na qual apela ao "fim da austeridade". Esta é uma declaração surpreendente por parte de um presidente sob cuja administração a despesa pública federal atingiu a maior percentagem de sempre no PIB e em que a dívida pública aumentou mais do que no conjunto de todos os presidentes que o precederam. O que entenderá ele por austeridade?

Mark Thornton
Há manifestações pelo mundo fora contra a austeridade quase todos os dias. Ela é condenada por constituir um veneno em tempos económicos difíceis, enquanto outros a tomam pelo elixir contra as depressões económicas.

A rejeição da austeridade pelo presidente representa a visão keynesiana, que rejeita completamente a austeridade em favor da abordagem às recessões conhecida por "pedir emprestado e gastar" - a de fazer crescer a procura agregada. O que ele na realidade está a rejeitar são as reduções infinitesimais na taxa de crescimento da despesa e os obstáculos políticos a novos programas de despesa.

Embora os níveis de despesa nos orçamentos entre 2009 e 2012 tenham permanecido relativamente constantes, eles foram ainda assim 15% superiores ao de 2008 e 75% mais elevados que os verificados na década anterior. Este salto na despesa nestes quatro anos foi financiado com um aumento de 5 milhões de milhões de dólares da dívida pública. Austeridade, aqui? Nenhuma!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Ciclos económicos e arranha-céus

Doug French, usando uma ferramenta de análise desenvolvida por Mark Thornton em "Arranha-céus e ciclos económicos", alerta para a existência de um sinal de alerta vermelho - a possibilidade de uma forte correcção bolsista num prazo não muito distante em Skyscraper Index is Flashing Red Alert, publicado no Insituto Mises do Canadá.

Ainda que o quadro conceptual usado nesta previsão possa ser tida por alguns como, digamos, algo exótico, creio bem que ela está em linha com as análises de outros analistas que, com regularidade, daqui tenho dado eco (entre outros, Marc Faber, Jim Rogers, Peter Schiff, Jim Grant, Doug Casey ou Simon Black). A responsabilidade pela tradução que se sege é, como habitualmente, minha.
O Índice de Arranha-céus está vermelho intermitente

Coloquem os vossos capacetes, pois há um colapso que se aproxima. Os promotores afadigam-se para construir o prédio mais alto do mundo. A economia da China pode estar a abrandar, mas 60 dos 100 mais altos edifícios em construção no mundo estão lá localizados.

O Broad Group está a construir o prédio mais alto do mundo em Changsha, capital da província de Hunan. A empresa iniciou a escavação das fundações do edifício "Sky City", de 202 andares, nos finais de Julho. Normalmente, apontar-se-ia para que a conclusão do Sky City, com uma altura de 838 metros, estivesse a anos de distância da sua conclusão. Mas este é um edifício para ser concluído em apenas quatro meses, utilizando módulos pré-fabricados.

O presidente do Broad Group, Zhang Yue, atrasou um pouco o projecto, por razões de segurança, mas promete terminá-lo em Junho ou Julho do próximo ano. "Quaisquer que sejam as dimensões dos obstáculos, irei com toda a certeza superá-los para garantir que este projecto seja concluído", declarou Zhang ao jornal The New York Times.

A relação entre os arranha-céus e os crashes bolsistas foi exposta no artigo "Arranha-céus e ciclos económicos", pelo professor Mark Thornton, publicado na edição da Primavera de 2005 do The Quarterly Journal of Austrian Economics [link].

Thornton, utilizando o "Índice de Arranha-céus" [link] do economista Andrew Lawrence em conjugação com a teoria austríaca dos ciclos económicos, veio a descobrir que o índice de arranha-céus é um bom preditor [i.e., um "indicador avançado"] de crise económicas e que "quer as causas dos arranha-céus atingirem novos recordes de altura quer as dos severos ciclos económicos estão relacionadas com a instabilidade no financiamento da dívida...".

O primeiro "ciclo de arranha-céus" iniciou-se em 1904 em Nova Iorque, quando começou a construção do edifício Singer, de 47 andares, e do edifício de 50 andares da Metropolitan Life. Este boom de construção foi rapidamente seguido pelo Pânico de 1907 [link].

Nos finais da década de 1920, Wall Street vivia a euforia. Três torres recordistas - Wall Street 40, Chrysler Building, e o Empire State Building - iniciaram a sua construção, ainda que só viessem a ser concluídas após o crash da bolsa de 1929 e o início da Grande Depressão. O Empire State Building foi concluído em 1931. Inicialmente apelidado de "Empty [vazio] State Building", levou cerca de duas décadas a para que fosse totalmente ocupado.

O terceiro ciclo começou com o início da construção da Torre Sears, em Chicago, em 1970, e do World Trade Center, em Nova Iorque, cuja construção se iniciou em 1966. Quando finalmente esses projectos se concluíram, a economia dos EUA viu-se mergulhada na estagflação.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Contra o proibicionismo (act.)

Um dia após a celebração de mais um aniversário sobre o fim da Lei Seca, apesar da continuação do massacre em grande escala que vem ocorrendo no México devido à "Guerra às Drogas", e na sequência de "O mercado de rins: a razão moral", é com esperança que leio no WSJ, via Carpe Diem, que um tribunal de recurso nos EUA considerou que a proibição vigente relativa ao pagamento de verbas a dadores de medula óssea (através de método em tudo idêntico à colheita de sangue no braço do dador) não deve subsistir.

A moral hoje predominante segundo a qual o transplante de órgãos se deve circunscrever apenas aos actos de natureza altruísta, isto é, sem compensação monetária para com o dador, tem apenas como consequência que o número de transplantes seja muito menor do que sucederia caso um "mercado de órgãos" existisse (impedindo-se assim a salvação de muitas vidas), sem com isso evitar que esse mercado exista ilegalmente e que sejam os receptores ricos os únicos a poder beneficiar desse mercado negro. A não ser que se aceite viver num sistema totalitário sustentado num estado policial.
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Recursos complementares: Milton Friedman: Why Drugs Should Be Legalized (video)
                                         Mark Thornton: The Economics of Prohibition (PDF)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Porquê legalizar agora?

«De repente, o mundo alvoraça-se com a legalização da marijuana e outras drogas. Candidatos a políticos, políticos, ex-presidentes, grupos de interesses, e até mesmo a Comissão Mundial sobre Política de Drogas todos estão a exigir a reforma política quanto às drogas. Tendo em conta que estamos numa crise mundial económica e fiscal, porque é que toda a gente está interessada na política sobre as drogas ? Teremos todos nós ,de repente, recuperado os sentidos e percebido que o proibicionismo é irracional?

Não, a razão mais importante para o interesse por esta questão é sentido económico. A proibição das drogas é um fardo para os contribuintes. É um fardo para com os orçamentos nacionais. É um fardo para o sistema de justiça criminal. É um fardo para o sistema de saúde. A crise económica intensificou a dor de todos esses encargos. A legalização reduz ou elimina todas estas penalidades. Não deve constituir nenhuma surpresa que a lei seca tenha sido revogada durante as profundezas da Grande Depressão.»

Ler o resto do artigo, da autoria de Mark Thornton (tradução minha do excerto acima).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

"Economia numa única lição" em 12 videos - II


Parte 7 - Mark Thornton

Parte 8 - Peter G. Klein

Parte 9 - Jörg Guido Hülsmann

Parte 10 - George Reisman

Parte 11 - Joseph T. Salerno

Parte 12 - Roger W. Garrison