domingo, 13 de outubro de 2013

Quanto mais tempo irá o dólar manter-se como moeda de reserva?

É esta a pergunta que titula o artigo de Patrick Barron publicado ontem no Mises Institute e que me propus traduzir por abordar uma das questões centrais da evolução próxima da economia mundial: o ameaçado estatuto do dólar enquanto "moeda de reserva" - inteiramente decorrente das decisões de política monetária que o Fed tem praticado, particularmente desde o fecho da "gold window" -, e as consequências que daí poderão advir para os Estados Unidos e para todo o mundo. É provável que a recente nomeação, ainda a confirmar pelo Senado, de Janet Yellen para chairman do Fed apenas venha a acelerar as mudanças que são já sensíveis (e que Barron assinala no seu texto), pois não será de esperar outra coisa do seu mandato senão "mais do mesmo, em maior quantidade" - planeamento central monetário.
Quanto mais tempo irá o dólar manter-se como moeda de reserva?

Usamos a expressão "moeda de reserva" quando nos referimos à utilização corrente do dólar por outros países para saldar as suas contas no comércio internacional. Por exemplo, se o Canadá comprar produtos provenientes da China, poderá pagar em dólares, em vez de dólares canadianos, e vice-versa. Todavia, a base a partir da qual se originou a expressão já não existe [a ligação do dólar ao ouro], e hoje o dólar é denominado de "moeda de reserva" apenas porque os países estrangeiros detêm grandes quantidades de dólares para facilitar o comércio.

A primeira moeda de reserva foi a libra esterlina britânica. Porque a libra era tão "boa quanto o ouro", muitos países consideraram, durante a era do padrão-ouro, que seria mais conveniente deter libras em vez do próprio ouro. As grandes nações comerciais do mundo utilizavam o ouro como forma de pagamento no comércio internacional, mas elas podiam optar por deter libras em vez de ouro, confiando que o Banco de Inglaterra entregaria o ouro correspondente, a uma taxa de câmbio fixa, mediante a apresentação das libras. Perto do fim da II Guerra Mundial, foi atribuído ao dólar dos EUA esse estatuto através de um tratado internacional, na sequência do Acordo de Bretton Woods. O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi formado com o expresso propósito de monitorizar o compromisso da Reserva Federal para com Bretton Woods assegurando que o Fed não inflacionaria o dólar e respeitaria o compromisso de trocar dólares por ouro ao câmbio de 35 dólares americanos por onça. Desta forma, os países confiavam que os dólares que detinham para fins comerciais eram tão "bons quanto o ouro", como tinha ocorrido em tempos com a libra esterlina.

Todavia, o Fed não manteve o seu compromisso para com o Acordo de Bretton Woods e o FMI não tentou forçá-lo a deter o ouro suficiente para honrar, em ouro, toda a sua moeda em circulação, ao câmbio de 35 dólares por onça. O Fed foi testado nos finais da década de 1960, primeiro pela França e depois por outros países, até que as suas reservas de ouro atingiram níveis tão baixos que só lhe restavam duas alternativas: ou revalorizar o dólar a uma taxa de câmbio mais alta, ou revogar as suas responsabilidades quanto a honrar a troca, integral, de dólares por ouro. Para sua vergonha eterna, os EUA escolheram a última opção e "saíram do padrão-ouro" em Setembro de 1971.

Não obstante, o dólar continuou a ser utilizado pelas grandes nações comerciais, porque ainda executava a função útil de meio de pagamento no comércio internacional. Não havia outra moeda que pudesse ombrear com o dólar, apesar do facto de ele ter sido "desligado" do ouro.


Há duas características numa moeda que a tornam útil no comércio internacional: uma primeira, é ela própria ser emitida por uma grande nação comercial, e, a segunda, que a moeda mantenha o seu valor relativamente às demais commodities ao longo do tempo. Estes dois factores criam uma procura para deter uma moeda como reserva. Embora o dólar estivesse sendo inflacionado pelo Fed, desta forma perdendo valor relativamente às outras commodities ao longo do tempo, o facto é que não havia nenhuma competição real. O marco alemão tinha mantido melhor o seu valor, mas o comércio alemão representava uma fracção do comércio dos EUA, o que significava que os detentores de marcos iriam encontrar menos produtos para comprar na Alemanha do que os detentores de dólares encontrariam nos EUA. Assim, a procura de marcos era menor do que a procura por dólares. É claro que houve também factores psicológicos na procura por dólares, uma vez que os EUA eram vistos como o protector militar de todas as nações ocidentais contra os países comunistas em grande parte do período do pós-guerra.

Hoje estamos a assistir ao início de uma mudança. O Fed tem vindo a inflacionar o dólar massivamente, reduzindo o seu poder de compra em relação às demais commodities, levando muitas das maiores nações comerciais do mundo a usar outras moedas em algumas ocasiões. Sei, de fonte segura, por exemplo, que a DuPont liquida muitas de suas contas internacionais em euros europeus e yuan chineses. É possível que haja também outras moedas envolvidas na liquidação de trocas comerciais por outras empresas internacionais. Apesar de tudo isto, um factor que tem ajudado o dólar a manter a procura de moeda de reserva é que as outras moedas têm também vindo a ser inflacionadas. Por exemplo, o Japão tem vindo a inflacionar o iene num grau ainda maior do que o dólar tem observado, numa tentativa insensata de fazer reavivar a sua economia estagnada através da depreciação da sua moeda. Deste modo, a doença da destruição monetária não se limita apenas aos EUA.

O dólar sujeita-se a perder a sua ostensiva posição de moeda de reserva quando o primeiro grande país interveniente no comércio internacional pare de inflacionar a sua moeda. Há provas de que a China entende o que está em jogo pois aumentou as suas reservas de ouro e instituiu controlos para evitar que saia ouro da China. Caso a segunda maior economia do mundo e uma das maiores nações comerciais do mundo estabeleça uma ligação entre a sua moeda e o ouro, a procura de yuan irá aumentar e a procura de dólares diminuir. Em termos práticos, isto significa que as maiores nações comerciais do mundo iriam reduzir as suas posições em dólares, e os dólares mantidos no exterior iriam fluir de volta à economia dos EUA, provocando a subida dos preços. Em quanto aumentariam? É difícil dizer, mas tenhamos em mente que existe uma quantidade de dólares fora dos EUA igual à que existe dentro dos EUA.

A iminente nomeação pelo presidente Barack Obama da burocrata de carreira, Janice Yellen, para presidente do Federal Reserve Board é uma prova de que a política americana de depreciar o dólar via Quantitative Easing irá continuar. A sua nomeação aumenta a probabilidade de que a procura de dólares vá diminuir ainda mais, aumentando a probabilidade da ocorrência de preços muito mais elevados na América à medida que aumente a procura dos parceiros comerciais para deter outras moedas como reservas para liquidação de transacções comerciais. Talvez somente a pressão não coerciva de um país soberano como a China possa fazer acordar o Fed para as consequências das suas acções forçando-o a acabar com a sua política de flexibilização quantitativa.

4 comentários:

JS disse...

Mais uma vez, execelente serviço público.

Vivendi disse...

Já faltou mais o dia em que alguém falar alto e a bom som que o Rei vai nu...

Antonio Cristovao disse...

Apesar de fraco analista penso que as posiçoes mais activas dos Bric´s vai provocar grandes alterações.O poderio militar eade medias dos FiveEyes deve trava um pouco a reforma mas vai nesse sentido.

LV disse...

Oportuna referência.
Atente-se nos desenvolvimentos recentes (desde o gub shutdown ao debt ceiling) relativos à moeda e ao papel dos EUA no mundo. Sejam os artigos nos jornais asiáticos a sublinhar as trapalhadas de um país em declínio ou as intervenções de alguns órgãos políticos/económicos, especialmente, chineses a pedir uma resolução rápida dos problemas orçamentais americanos. Para não falar na aquisição monumental de metais preciosos (Au e Ag) por parte de chineses e indianos (fazem parte dos BRICS). Até já falam, os chineses, numa nova moeda de reserva. Pudera! Primeiros produtores de ouro, primeiros a comprar ouro internacionalmente (a par com a India) aproveitando as maquinações dos preços do papel/ouro no ocidente. Tempos interessantes, estes. E Portugal que pensa fazer ao seu ouro no meio daquilo que parece ser uma corrida para um recomeço na ordem económica mundial?
Saudações,
LV