sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Primeiro, vagarosamente; depois, o turbilhão súbito

Finda, por agora, a pantominice mediática acerca do shutdown ("apagão") do governo federal e da (nova) elevação do limite de endividamento, deste modo prevenindo, num "dramático último momento", a catástrofe anunciada que impendia não apenas sobre os EUA mas sobre boa parte da humanidade, é tempo de procurar regressar à sanidade.

Assim, é de referir que o acordo alcançado no Capitólio, e visado na Casa Branca, em nada contribuiu para alterar os desequilíbrios gigantescos das finanças federais americanas (muito pelo contrário, vide Obamacare). Consequentemente, a dívida pública continuará a subir acentuando a sua já mais que insustentável trajectória e boa parte dela continuará a ser alvo de uma monetização pelo Fed (através da tecnologia da "printing press" que Ben Bernanke tanto elogiava) pelo que, por conseguinte, continuará a trajectória descendente do valor do dólar. Simon Black, na linha de um par de apontamentos que deixei recentemente aqui e aqui vê, entre outras, razões para valorizar o crescente incómodo das autoridades chinesas, aliás publicamente já assumido em termos vigorosos. Pareceu-me pois útil proporcionar uma tradução da sua missiva, enviada de Santiago do Chile, "Slowly at first, then all at once" até porque começaram a surgir sinais sérios que podem indiciar a intenção de implantar controlos de capitais dentro dos próprios EUA dificultando a movimentação de contas bancárias de e para o exterior.
17 de Outubro de 2013
Santiago do Chile

"Como é que foste à falência?", perguntou o Bill.

"De duas maneiras", respondeu o Mike. "Aos poucos e subitamente."

O diálogo acima faz parte do romance de Ernest Hemingway, de 1926, "O Sol também se levanta".

Ele é muitas vezes atribuído a Mark Twain ou a F. Scott Fitzgerald, ou mal citado como algo do género: "No início, entra-se lentamente em falência; de repente, tudo acontece de uma só vez". Mas o tema é o mesmo.

As nações entram em bancarrota da mesma maneira. Os colapsos bancários ocorrem da mesma maneira. As crises cambiais acontecem da mesma maneira. Todos estes casos acontecem gradualmente... até que, de súbito, tudo se precipita. Por vezes, de um dia para o outro.

A história é generosa em proporcionar exemplos de nações inteiras que sofreram este destino, do colapso da União Soviética, em 1991, à crise financeira do milénio na Argentina, em 2001.

Os sinais de alerta estão sempre lá, logo no início. Ao longo de um período de anos, às vezes de décadas, um pequeno gotejar de sinais de alerta transforma-se num fluxo constante... e, eventualmente, numa grande inundação.

Os Estados Unidos estão claramente dentro deste padrão, algures entre um fluxo constante e uma grande inundação. Isso é evidente.

Ontem à noite, depois de mais de duas semanas de um teatro absolutamente constrangedor, o governo da Terra dos Livres assinou um acordo para tudo adiar por mais alguns meses. E ao fazê-lo, foi estabelecido um precedente muito perigoso.

No âmbito da barganha codificada na HR 2775 (que o presidente Obama promulgou), o Departamento do Tesouro fica autorizado a SUSPENDER o limite de endividamento. Por outras palavras, para todos os fins e propósitos, não há agora NENHUM LIMITE à dívida pública [federal].

Esta autoridade ilimitada para contrair empréstimos expira a 7 de Fevereiro de 2014. Mas estabelece o precedente que ignorar o limite de endividamento é um curso de acção perfeitamente viável.

O Congresso eliminou eficazmente as algemas de que dispunha... pelo que se pode apostar com praticamente toda a segurança que aquela disposição será prorrogada e, a certa altura, se tornará permanente.

Na Terra dos Livres ninguém se parece importar. Mas não é o caso dos estrangeiros. A mensagem essencial do comentário dos media estatais chineses, há dias atrás, foi muito clara:
"É talvez um bom momento para que o mundo confuso comece a considerar a construção de um mundo desamericanizado".
A posição dominante da América está chegar ao fim. Praticamente todas as evidências objectivas apontam para esta conclusão - desde as absurdamente insustentáveis finanças ​​do governo dos EUA à reacção mundial contra as suas tácticas desesperadas de espionagem.

Há já vários anos que este declínio vem acontecendo gradualmente. Mas nós estamos rapidamente chegando ao ponto de bifurcação onde o fluxo constante de sinais de alerta se transformará numa torrente épica de consequências.

Com o desenrolar destes acontecimentos, isto tornar-se-á na maior história do nosso tempo. O fim da hegemonia do dólar dos EUA irá afectar praticamente cada ser humano do planeta. E se a história serve de guia, o que se seguirá será extremamente tumultuoso.

Simon Black

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

quem tem boa memoria talvez se lembre desse bom cidadão(europeu)Jaques Delors que quando deixou o cargo avisou os seus sucessores de alguns dificeis escolhos: em relação as relaçoes com a America teremos que ser muito cautelosos porque se os afrontarmos na liderança economica do mundo "eles" tornam-se muito perigosos =quem tem o poder de destruir tudo são eles e nós nunca vamos optar por igualar esse poder; é contra a nossa natureza