sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Energia barata ou energia verde - é impossível ter ambas as coisas

Já tinha pensado em publicar uma tradução do texto que Matt Ridley assinou na sua coluna regular no Times londrino, no passado dia 26 de Setembro - "Cheap energy or green energy - you cannot have both". Esta notícia de ontem convenceu-me que havia utilidade em fazê-lo. É uma história dolorosamente parecida com a nossa aquela que Ridley conta relativamente ao Reino Unido, ilustrando na perfeição o conúbio, que tantas vezes aqui tenho referido, entre os governos e os interesses especiais, no caso as empresas do sector energético. Apesar da propaganda, as "rendas excessivas" não nasceram do céu; antes foram proporcionadas, propositadamente, pelos governos às empresas que Henrique Neto apontava como pertencendo ao "regime". Vale a pena ler Matt Ridley para melhor ficar a perceber a mecânica da coisa e ilustrar o que é o crony capitalism.
A hipocrisia pode ser uma coisa fantástica quando bem feita. Passar, como sucedeu com Ed Miliband, em quatro anos, do ministro que insistia em que os preços da energia deviam subir - de modo a que os não-competitivos produtores de energia verde pudessem ser atraídos para o fornecimento de electricidade - para passar a ser o líder da oposição que defende o congelamento dos preços da energia é uma dupla pirueta de tal ordem que faria inveja a Torvill e Dean [famoso par inglês de patinagem artística no gelo nos finais nos anos do séc. XX].

Recorde-se que este é o próprio arquitecto da nossa actual política energética, o homem que manobrou a suicidariamente dispendiosa Lei das Alterações Climáticas através do parlamento; o homem que ainda esta semana se comprometeu a descarbonizar toda a economia britânica (não apenas o sector eléctrico) em 2030, o que significa que não será permitido a ninguém que aqueça a sua casa usando gás.

Terá ele comparado, recentemente, o preço do aquecimento eléctrico com o do aquecimento a gás? A diferença tenderá a crescer cada vez mais. Em 2030, grande parte da electricidade virá, em teoria, das eólicas offshore, a quem está prometido um preço três vezes maior do que é pago às centrais a gás na produção de electricidade. Assim, Miliband está a dizer-nos para triplicar, e congelar, as nossas facturas de aquecimento ao mesmo tempo.

"Não existe um futuro com energia de baixo custo", afirmou Miliband enquanto Secretário de Energia, em Julho de 2009, insistindo para que aprendêssemos a viver com preços da energia mais elevados. "Podemos trabalhar juntos a partir deste congelamento de preços para fazer funcionar o mercado no futuro. Ou podemos reforçar na opinião pública a ideia que vós sois parte do problema e não da solução", palavras de Miliband, o líder da oposição, ameaçando ontem [25 de Setembro de 2012] as empresas produtoras de energia eléctrica.

Num presciente parágrafo intitulado "E adivinhem quem vai levar um tiro?", um relatório de Abril do Liberum Capital [um banco de investimentos], sugeria que quando a crise do preço da energia chegasse, o governo da altura iria fazer recair a maior parte da dor financeira nos investidores insistindo para que estes cortassem nos seus lucros. Esse dia chegou, bem cedo. Miliband efectivamente admitiu que tentará eliminar o [ou pelo menos parte do] retorno dos investidores sobre o capital em vez de assumir quaisquer culpas pelas enormes facturas que irão conduzir as pessoas à pobreza energética.



O Liberum estimou que para concretizar a actual política energética do Governo de baixo carbono, que os trabalhistas pensam ser muito tímida, seria necessário despender 161 mil milhões de libras até 2020 e algo como 376 mil milhões de libras até 2030. O que será "passado" aos consumidores [i.e, irá aumentar-lhes a factura energética]. Muita da discussão sobre o projecto de lei da Energia, que teve lugar este Verão na Câmara dos Lordes, incidiu sobre a forma de assegurar que os subsídios fossem suficientemente generosos para atrair um tão grande investimento. O Liberum calculou que "se o investimento não ocorrer [em eficiência energética das habitações, por exemplo] iremos assistir ao aumento das facturas de electricidade em pelo menos 30% até 2020 e em 100% até 2030, em termos reais".

Miliband pode ter garantido que tal não venha a suceder. Nunca houve um sistema de controlo de preços que não fizesse diminuir a oferta. Nos Estados Unidos, os controlos de preços sobre o gás natural, instituídos na década de 1950 no pressuposto de que os stocks eram limitados e destinados a proteger os consumidores de preços de monopólio, acabaram por provocar situações de escassez e preços elevados. Ninguém queria fazer prospecção de gás caso o preço fosse fixado pelo governo. Depois de os controlos terem terminado, em 1989, a América foi inundada com gás natural e os preços caíram drasticamente.

Imagine o leitor que está na pele de uma grande empresa de fornecimento de energia que se interroga se deve ou não despender milhões despejando cimento no Dogger Bank [zona de terrenos arenosos no Mar do Norte] para suportar o peso de turbinas eólicas. O leitor pensa que há uma probabilidade de 50% de existir um governo Miliband em 2015, quando as turbinas entrarem em funcionamento. Mas o leitor acabou de ouvir que o primeiro-ministro Miliband não o irá deixar obter lucro. Vai então reduzir agora os seus planos. "Se a Centrica e a SSE [duas grandes empresas do sector energético britânico] não conseguem fazer dinheiro a fornecer electricidade para o mercado de retalho, então elas não irão fornecê-la. As luzes irão apagar-se", afirmou Neil Woodford, o director do mercado de acções na Invesco Perpetual, um dos maiores accionistas da Centrica. E ele tem os meios para fazer com que tal aconteça.

Que não se vertam lágrimas pelas empresas de energia. Elas pactuaram com o plano crony capitalist do aumento dos custos, proclamando banalidades verdes que lhes deram cobertura para os aumentos de preços. Enquanto isso, o custo crescente do petróleo e do gás deu ao Governo a desculpa para argumentar que os preços subiriam em qualquer caso. Eles estão a contar com mais aumentos no futuro, mas podem vir a não ter tanta sorte assim caso a revolução do xisto [shale revolution] ganhe ritmo.

Num sistema subsidiado, o político torna-se no cliente. As empresas pensaram que tudo o que tinham que fazer para realizar lucros era atender o telefone do ministro da Energia, suspirar e dizer-lhe que não iriam construir um parque eólico a menos que ele subisse o preço garantido. E foi assim que se chegou aos inacreditáveis £150 libras/MWh. Com o encerramento, adiantado face ao planeado, das centrais nucleares e de carvão na Grã-Bretanha, e o atraso de cerca de três anos na abertura de centrais substitutas, verdes e nucleares, o ministro estava ao serviço dessas empresas.

Agora, de repente, elas irão compreender que deveriam ter escutado desde o inicio os seus clientes reais e serem os campeões da defesa da energia barata. Talvez até mesmo os ministros venham a pensar do mesmo modo. Se isso vier a acontecer, haverá uma luz ao fundo do túnel. Isto até pode fazer rasgar o consenso manso sobre a política energética que até agora acompanhou o actual projecto de lei da Energia no Parlamento. Afinal de contas, o público irá ficar com a impressão que Miliband está a defender os consumidores, ainda que contra o inimigo errado. David Cameron precisa flanqueá-lo ou arriscará parecer-se com um amigo dos cronies.

Por todo o mundo, governos atrás de governos distanciam-se do dispendioso fiasco que é a descarbonização da energia. Stephen Harper, do Canadá, liderou o caminho. Tony Abbott, da Austrália, está a enveredar pela mesma rota. A Espanha renegou as suas promessas aos investidores verdes. Até mesmo Angela Merkel, agora a liderar um parlamento amplamente verde-livre, está a ser instada pelo principal conselheiro económico de que a gigantesca despesa da verde "Energiewende" ["transição energética"] é incomportável. Ela já está a construir novas centrais termoeléctricas a carvão. (A propósito, quero declarar um interesse comercial no carvão.)

Quando chegou ao poder, Cameron pensou que a política energética não era muito importante e que poderia ser "contratada" em segurança ao wishful thinking dos Lib Dem para proteger o seu flanco ecológico. Na verdade, a energia a preços acessíveis é crucial para a recuperação económica (...)

5 comentários:

BC disse...

Ter energia barata e verde (seja lá o que isso for) é possível. Dito de outra forma energia barata sem recurso a combustíveis fósseis. A hidroeléctrica para os países que têm esses recursos é uma forma de produzir energia limpa de forma barata barata.

E claro o nuclear. É verdade que as novas formas de exploração não convencional de combustríveis fósseis vieram ameaçar a competitividade económica do nuclerar. Mas acredito que se houvesse liberdade em muitos países para as empresas construirem centrais nucleares o seu custo diminuiria.

Ainda que não seja contabilizado, para além do custo per se das renováveis intermitentes (eólica e solar) existe outros custos devido à sua intermitência que faz destas fontes alternativas inviáveis aos conbustíveis fósseis, hidro ou nuclear.

O custo é o menor problema das intermitentes. O grande problema é que isoladamente não são viáveis tecnicamente. É como fabricar rodas quadradas para os carros. Os carros precisavam de ser apmplamente modificados para as usar.

JS disse...

"...crony capitalism...."!

Que tal um pouco de:
"...crony judiciarismo...."?

http://www.nytimes.com/2013/10/03/us/snowdens-e-mail-provider-discusses-pressure-from-fbi-to-disclose-data.html?ref=technology&_r=0


Eduardo Freitas disse...

Caro JS,

E que bela dose...

Antonio Cristovao disse...

chamo a atençao para dois aspectos que noto menos certo - a energia verde vai ser sustentavel não com opçoes de investir muito em aumentar o rendimento em um bem gratuito em 1 ou 2% -sol/vento, como tem levado a falencia de muitas que seguiram por aí. Nas republicas das corporações como cá sentam-se a volta do tacho publico com os jotinhas e escravizam os contribuintes não correndo o risco de falir já.
incluir o nuclear na energia barata é um pouco duvidoso. fazendo um exercicio de acrescentar ao preço da de Fukushima todas as despesas e rendas que devem ser pagas algumas por 40 anos? de impossibilidade de uso de enormes espaços-estradas,escolas,fabricas.. talvez nem levando a Tepco a falencia pagariamos os "custos" da tal energia barata. Chernobyl ainda nem falar o que já custou e vai custar.
Se contabilizarmos os custos como despesas comuns da comunidade estamos a falsear as contas e se insistirmos na hipocrisia de levar o debate para o perigoso fazendo do publico tolo ainda menos objectivos somos (na UE morrem nas estradas 98 000 automobilistas por ANO e ninguem tem a lata de vir propor acabar com o uso dos carros)

Anónimo disse...

Energia Limpa

Muammer Yildiz Magnet Motor

http://peswiki.com/index.php/Directory:Muammer_Yildiz_Magnet_Motor