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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Para lá do contraplacado



Depois das "boas notícias" aos bons alunos e da soberba dos políticos nacionais, a realidade mostra-se bem mais difícil de domesticar. Por maior que seja a carga de napalm-liquidez que se largue do computador do BCE.
"Adoramos o cheiro da intervenção pela manhã."

Saberemos o que está para lá do contraplacado?

quinta-feira, 7 de maio de 2015

40 anos após o termo da Guerra do Vietname - testemunho e análise de Eric Margolis

A dia 30 de Abril último passaram 40 anos sobre a queda de Saigão (hoje cidade de Ho Chi Minh) às mãos do exército regular norte-vietnamita (imagens). Terminava assim a 2ª guerra da Indochina (uma outra designação para a guerra do Vietname), que se iniciara de forma larvar logo após o termo da 1ª (1946-1954) - quando os franceses foram forçados a abandonar as suas pretensões coloniais no sudeste asiático - para grande consternação americana - na sequência da estrondosa derrota militar sofrida em Dien Bien Phu. Era o tempo da "teoria do dominó", adoptada pela administração Eisenhower, doutrina segundo a qual era imperioso conter a "contaminação" de um país numa dada região pelo vírus comunista pois, caso contrário, a infecção espalhar-se-ia inexoravelmente aos seus vizinhos. As sucessivas administrações decidiram aumentar a sua intervenção no Vietname até que, com Lyndon Johnson, se iniciou o horror em grande escala. A derrota americana deixou marcas profundas e fez regredir, embora momentaneamente como se veria, a pulsão intervencionista no país. Não por acaso, o então (e ainda) influente Zbigniew Brezhinski gabava-se de ter conseguido atrair a então União Soviética para o seu próprio "Vietname" (quando a URSS invadiu o Afeganistão em 1979. Uns anos mais tarde (1983) será Reagan, pela via da invasão da minúscula Granada, que faria reacender o activismo militar intervencionista americano.

No texto que hoje proponho aos leitores, Eric Margolis refere a sua condição de participante directo no conflito e como a sua própria adesão inicial se desvaneceu. Passa em revista alguns dos marcos daquela guerra, das doutrinas e da geopolítica, não lhe custando encontrar paralelismos com os tempos que correm. E com os erros que se repetem. Não está optimista - «Infelizmente, parecemos ter esquecido tudo sobre a guerra do Vietname sem que tenhamos aprendido nada.»
2 de Maio de 2015
Por Eric Margolis


Eric Margolis
Corria o ano de 1967. A guerra do Vietname estava no auge.

Eu tinha 24 anos e acabara de sair da escola de pós-graduação de New York City. Tinha sido aceite na Universidade de Cambridge para fazer um doutoramento em história.

Mas não. Num acesso de patriotismo de juventude, concluí que era dever de todo o cidadão alistar-se nas forças armadas em tempo de guerra. Foi assim que me ofereci como candidato a oficial de infantaria do Exército dos EUA e enviado para a instrução básica.

A vida só pode ser compreendida em retrospectiva e é com a sabedoria que ela proporciona que a maioria das pessoas considera que os longos 20 anos da Guerra do Vietname foram um erro terrível, um crime mesmo. Mas, à época, o envolvimento militar dos EUA na Indochina parecia fazer sentido. Para mim não havia dúvidas. Eu estava orgulhoso por vestir o uniforme do meu país.

O general Douglas MacArthur advertira os americanos para "nunca travarem uma guerra terrestre na Ásia". Ele havia presidido, uma década antes, ao impasse sangrento na Coreia e conhecia a capacidade combativa e a tenacidade dos soldados asiáticos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Energia: o que devemos temer é o "pico estatal", não o "pico do petróleo"

Inicio com este post a "penitência" a que me impus aqui. A oportunidade surgiu ao ter-me deparado com o artigo de Robert Murphy que me propus partilhar hoje com os leitores (minha tradução). Trata-se, uma vez mais, de desmistificar o sucessivamente anunciado, e sempre adiado, "esgotamento" dos combustíveis fósseis o que, recorde-se, constitui um dos pilares da argumentação em favor das energias "renováveis" e da urgência da sua adopção. Ora, atravessamos precisamente à escala mundial mais um período em que os recursos petrolíferos, medidos pelas quantidades produzidas e pelas reservas conhecidas, não apenas não diminuem como não cessam de aumentar. E a revolução do shale não saiu ainda sequer dos EUA (nem o Irão a disponibilizar ao mercado todo o seu potencial)! A mente humana é um instrumento extraordinário de criação de riqueza e recursos, esses sim inesgotáveis. Assim os governantes não a cerceiem totalmente pela continuação da espiral  aparentemente insaciável do esbulho fiscal e regulatório. Uma última nota para a informação que o Engº Henrique Gomes disponibilizou recentemente: o défice tarifário, projectado para 5.080 milhões € pela ERSE para 2015, já vai em 5.400 milhões.

ACTUALIZAÇÃO: A talhe de foice.
8 de Abril de 2015
Por Robert P. Murphy


Robert P. Murphy
Independentemente da existência de várias versões da teoria do "pico do petróleo", durante décadas esta acumulou hossanas porque se revelou correcta no caso dos EUA. Especificamente, o geofísico M. King Hubbert publicou uma teoria da exploração dos campos petrolíferos em 1956 onde se previa que a produção total de petróleo nos EUA fosse atingir o seu "pico" cerca de 1971 (o mais tardar), declinando a partir daí. Hubbert previu também que o mundo assistiria a um declínio na produção total de petróleo por volta de 2006. Hubbert estava errado relativamente ao mundo. Mas, durante algum tempo, parecia ter acertado em cheio quanto aos EUA. Porém, o desenvolvimento dos recursos em formações xistosas (shale), e a expansão na utilização do "fracking" e da perfuração horizontal nos Estados Unidos nos últimos anos, mostram que o "pico do petróleo" já nem sequer se aplica à que chegou a ser a sua história de sucesso.

O gráfico abaixo é o mais recente da Administração de Informação de Energia (EIA) que mostra a história da produção mensal decrude dos EUA:



segunda-feira, 23 de março de 2015

Mercado e regulação estatal - lições a tirar da guerra dos browsers

Confirmando vários rumores que há algum tempo circulavam, a Microsoft oficializou esta semana o processo de descontinuação (phasing out) da mítica marca Internet Explorer e a decisão tomada de rumar noutras direcções embarcando num projecto significativamente designado de "Espartano". Foi este o pretexto para revisitar a épica guerra dos browsers (navegadores na Internet); recordar a intervenção estatal e judicial que, como sempre, pretendeu ditar vendedores e vencidos em nome da "sã concorrência"; e, por fim, e mais importante, retirar as riquíssimas lições do sucedido. É este o foco do artigo de Jeffrey Tucker que hoje vos proponho.

Mas primeiro um breve interlúdio para contextualizar a minha leitura do sucedido. Na faculdade, tivera uma cadeira introdutória de Informática - de papel e lápis. Uns bons anos depois, num momento de maior desafogo financeiro, comprei um ZX Spectrum com o qual, para além de jogar (muito), me divertia a fazer umas habilidades com a sua versão de Basic (pouco). O meu primeiro PC doméstico foi adquirido em 1991 (mediante empréstimo bancário). Juntamente com a impressora, a coisa importou em 500 contos, à volta de 5500 euros a preços de hoje! Com ele viria pouco depois o primeiro Windows a sério - o 3.1. Dois anos antes, tivera contacto profissional com o salto gigantesco que representava o passar da estação de trabalho individual para um ambiente colaborativo assente numa rede (com partilha de impressoras!) e tomo contacto com a extraordinária beleza e facilidade de utilização dos (porém caríssimos) Apple Macintosh. Desde então, que o portátil passou a fazer parte da minha bagagem permanente. Depois, creio que foi em 1995, durante as férias de Verão, ao "digerir" um breve manual, que finalmente compreendi o poder da internet - e o sentido de urgência que Bill Gates tentava então incutir em toda a Microsoft - quando me apercebi da extraordinária facilidade em criar páginas web que a linguagem HTML permitia. Foi uma autêntica epifania. "A rede era o computador", proclamava-se na Sun Microsystems. Foi mais ao menos por essa altura que me recordo de ler nos jornais o caso da guerra dos browsers a que alude o artigo de Jeffrey Tucker. Recordo-me de ter achado um absurdo a acusação de monopólio que se imputava à Microsoft. Já tivera até então experiência bastante para perceber, que máquinas e software não só não paravam de melhorar, em qualidade e desempenho, como o seu preço (real e nominal) tinha descido vertiginosamente (e assim tem continuado até hoje). Se algo caracterizava a indústria era a sua duríssima competitividade em benefício dos consumidores, traduzida na extraordinária ascensão e queda de protagonistas (Wang, Digital, IBM, etc.). Só bem mais tarde viria a compreender a lenda criada à volta das leis "antitrust" da época "progressiva" nos EUA e o posterior surgimento do suporte teórico "justificativo" do intervencionismo regulatório estatal cujo orwelliano lema se pode resumir em algo como: "A melhor defesa da concorrência é a sua eliminação". A guerra dos browsers, e o apelo que então foi dirigido ao poder (por competidores directos e prospectivos, auxiliados pela histeria mediática dos media convencionais), é um exemplo eloquente da verdadeira utilidade da regulação estatal: servir compadrios. A inevitável consequência é a destruição, ou pelo menos, o sério prejuízo da criatividade e pujança do mercado. Uma última nota para voltar a sublinhar, aspecto que não é endereçado no artigo, que o sector das TIC há bem mais de 30 anos que demonstra à evidência a falácia do papão deflacionista.

20 de Março de 2015
Por Jeffrey Tucker


Sem muito alarde, a Microsoft anunciou este mês que irá descontinuar progressivamente o seu muito conhecido navegador web - o Internet Explorer (IE). Nas notícias, o foco principal tem incidido nas razões que o levaram a ser suplantado pelo Chrome, Safari e Firefox, entre muitos outros navegadores existentes no mercado. Além disso, as aplicações móveis estão a dar passos gigantescos na navegação web em geral.

Imagem daqui

Isto é de facto verdade. Nas plataformas com que lidei, assisti à forma como o IE passou de uma quota de utilização dos 95 para os 20%, um crash espectacular e bem merecido, do pináculo em que se tinha instalado, que demorou uns bons 20 anos. A Microsoft nunca foi capaz de corrigir os seus infindáveis problemas de segurança. Cada nova versão, da 1 à 10, parecia corrigir alguns problemas da versão anterior ao mesmo tempo que introduzia outros mais.

Não foi inteiramente culpa da Microsoft: a condição de navegador dominante do IE tornou-o num alvo incessantemente submetido aos ataques de todos os criadores de malware no mundo. Mesmo uma equipa de mil programadores da Microsoft foi incapaz de ultrapassar esse problema. Não ajudou que a própria Microsoft estivesse tolhida pela sua gigantesca dimensão e estrutura de gestão burocrática.

sábado, 21 de março de 2015

A mão dura ou a suavidade arrepiante do aço

Realismo intervencionista

Há muito que nem os apaixonados pela "mão macia" da diplomacia se opõem a nada disto. Talvez tenham acompanhado sempre a intenção, mesmo que não a acção propriamente dita destes "falcões".
Veja-se como se justificam, com a simplicidade de uma martelada, as intervenções, os discursos, as sanções que os EUA impõem por esse mundo fora. Até a NATO - como artifício institucional - se desmascara aqui.
Sinto arrepios. E os leitores?

terça-feira, 17 de março de 2015

Quem de facto combate o Estado Islâmico no terreno

Foram as constantes interferências de ordem externa que transformaram grande parte do Médio Oriente no atoleiro letal que hoje conhecemos. Primeiro, pelo retalhar da história e geografia milenar através da criação de fronteiras totalmente arbitrárias após o fim do império Otomano. Depois, porque o controlo da incrível riqueza em petróleo da zona tudo justificava. Um dos marcos desse intervencionismo foi o golpe que em 1953 depôs o democraticamente eleito Mohammed Mossadegh no Irão e instalou no trono Reza Pahlavi (uma "teoria da conspiração" finalmente reconhecida pela CIA, 60 anos depois). Em 1979, com a fuga do Xá e a instalação de um regime para-teocrático, o Irão passou a ser demonizado, guerreado, ostracizado, e sujeito a pesadas sanções económicas. Com o apoio explícito dos EUA - logístico, militar e de informações - Saddam Hussein atacou o Irão (também com armas químicas que, como a CIA igualmente confirmaria, eram do perfeito conhecimento americano), daí resultando uma guerra que durou oito anos (1980-1988) e causou 400 mil mortos. Com George W. Bush, o Irão foi catalogado como pertencente a um "eixo do mal" que tem persistido até hoje, reforçado com novos membros. Como os neocons nunca esconderam, o Irão é o "grande prémio".

Não deixa portanto de ser irónico que da 2ª guerra do Iraque tenha resultado um fortalecimento de facto da posição estratégica do Irão, ou, talvez melhor, do Islão xiita. Como não deixa de ser do domínio do factual que são os xiitas, e em particular Assad (aqui, numa entrevista recente à RTP), quem de facto tem combatido no terreno essa entidade difusa que dá pelo nome de Estado Islâmico bem como as diversas declinações da Al-Qaeda na região como é o caso da Frente al Nusra. É esta a leitura, lúcida e serena como é habitual, que Pat Buchanan faz da situação actual ao deflectir a retórica tonitruante dos neocons e de Netanyahu, também preocupado com a sua própria sobrevivência no poder em Israel, que tudo estão a fazer para torpedear as negociações em curso com o Irão relativas ao seu programa nuclear.

10 de Março de 2015
Por Patrick J. Buchanan


Patrick J. Buchanan
América, temos um problema.

No sangrento e caótico Médio Oriente, salvo raras excepções como a dos curdos, os nossos amigos ou não conseguem ou não querem combater.

O Exército Livre da Síria claudicou. As forças do movimento Hazm na Síria, armadas pelos Estados Unidos, desmoronaram-se depois de serem alvo da perseguição pela Frente al Nusra. O exército iraquiano, treinado e equipado por nós, fugiu de Mosul em grande debandada até Bagdad. Os turcos poderiam aniquilar o ISIS na Síria, mas não irão combater. A Arábia Saudita e os países árabes do Golfo enviaram zero militares para combater o ISIS. Ficaram-se por um punhado de ataques aéreos.

Consideremos agora o que os nossos velhos inimigos já fizeram e estão a fazer.

Quando já não se acredita nas suas próprias mentiras

Por razões que o comum dos americanos não merece conhecer, Barack Obama decidiu há dias anunciar (mais) uma situação de "emergência nacional". Trata-se agora do "extraordinário risco" que a situação política na Venezuela colocaria à segurança dos EUA. Como seria de esperar, Nicolás Maduro não enjeitou a ocasião para tornar a imputar aos inimigos externos a culpa pelas enormes dificuldades por que passa o país que desgraçadamente (des)governa - Maduro, com o petróleo venezuelano, fez jus a Friedman quanto este afirmava que caso se entregasse a gestão do deserto do Sahara ao governo federal, em cinco anos sobreviria uma escassez de areia...

Perante um pedido de comentário à reacção de Maduro às novas sanções impostas por Obama no decorrer de uma conferência de imprensa no passado dia 11, a porta-voz da secretaria de Estado, Jen Psaki, lendo uma declaração pré-preparada sobre o tema, refere a certa altura sem se rir:
«No que constitui uma política de longa data, os Estados Unidos não apoiam transições políticas concretizadas por meios não constitucionais. As transições políticas devem ser constitucionais, democráticas, pacíficas e legais.»

O leitor que faça a sua própria avaliação e, nomeadamente, que atente na linguagem corporal da porta-voz perante a incredibilidade que tais declarações suscitaram na assistência:


Mike Krieger, que conta a história, assinala o curioso facto de a ele lhe parecer que, ao longo da sua vida, a política externa dos Estados Unidos não tem visado outra coisa que não seja a iniciação de transições políticas concretizadas por meios não constitucionais. Não vejo como não o acompanhar nessa observação, especialmente válida para a América Latina.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Citação do dia (181)

"Os mercados financeiros modernos são um jogo de objectos impossíveis. Num mundo onde, globalmente, os bancos centrais manipulam o custo do risco, a mecânica da descoberta dos preços está separada da realidade, resultando em expressões paradoxais de valor que não deviam existir de acordo com uma eficiente teoria do mercado. Medo e segurança são agora permutáveis num jogo especulativo de alto risco."
Christopher Cole (2012)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lições de Paris

Do mesmo modo que, agora que os preços do petróleo não param de afundar, não surpreende que surjam vozes a defender o aumento dos impostos sobre os combustíveis ("porque não seria doloroso"), parece-me evidente que o resultado último do obsceno e intolerável ataque terrorista à Charlie Hebdo consistirá, em nome da "nossa segurança", numa ainda maior redução da liberdade e privacidade de todos. Como Jonathan Turley escreveu no Washington Post, "a maior ameaça à liberdade de expressão provém não do terrorismo mas dos governos" (atente-se na evolução do Índice de Liberdade de Imprensa, nomeadamente, nos EUA, em França ou no Reino Unido.)

As acções têm consequências, sendo que estas últimas são com frequência não-intencionadas e tantas vezes contraproducentes relativamente aos objectivos anunciados pelos governos que as iniciaram. Com a autoridade de alguém que há bem mais de 40 anos chama a atenção para este facto, o texto de Ron Paul que achei por bem partilhar (minha tradução) merece a nossa reflexão.

12 de Janeiro de 2015
Por Ron Paul

Ron Paul
Após o trágico tiroteio numa revista de índole provocatória em Paris na passada semana salientei, atentas as posições francesas na política externa, que é necessário considerar o blowback [efeito de bumerangue não previsível - NT] como um factor. Aqueles que não compreendem o blowback lançaram-me a ridícula acusação de estar a desculpar o ataque ou mesmo a culpar as vítimas. O que é um absurdo, uma vez que abomino a iniciação da força para além de que a polícia não culpa as vítimas quando investiga o motivo de um criminoso.

Os media convencionais imediatamente decidiram que o tiroteio foi um ataque à liberdade de expressão. Muitos nos EUA preferiram esta versão de "eles odeiam-nos por causa das nossas liberdades", a afirmação proferida pelo presidente Bush após o 11 de Setembro. Eles expressaram solidariedade para com os franceses e prometeram lutar pela liberdade de expressão. Mas não repararam essas pessoas que a Primeira Emenda é rotineiramente violada pelo governo dos EUA? O presidente Barack Obama fez mais vezes uso da Lei de Espionagem [de 1917 - NT] que todas as administrações anteriores no seu conjunto para silenciar e encarcerar os denunciantes. Onde estão os protestos? Onde estão os manifestantes a exigir a libertação de John Kiriakou, que denunciou a utilização pela CIA do waterboarding [simulação de afogamento - NT] e de outras formas de tortura? O denunciante foi preso enquanto que os torturadores não serão processados. Protestos? Nenhum.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Solilóquio

Seguindo a sugestão de Koos Jansen, olhando para este gráfico não posso deixar de me perguntar: a que episódios da nossa peça colectiva correspondem estes grandes movimentos decrescentes nas reservas de ouro da FED em Nova Iorque? 1999-2000... 2007-09... 2013-14...
O que será que terá acontecido?

sábado, 13 de setembro de 2014

"A guerra para todo o sempre", por Pat Buchanan

Uma das maiores dificuldades, impossível de contornar, na compreensão dos fenómenos sociais foi apontada pelo francês Frédéric Bastiat, uma das grandes figuras do liberalismo do século XIX, no seu famoso conjunto de ensaios coligido sob o título de "Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas" (O que se vê e o que não se vê), publicado em 1850. Referindo-se à matéria económica, Bastiat explicava como a parte invisível, "submersa" e diferida no tempo dos fenómenos, poderia até ser mais importante que aquela que se apresenta imediatamente visível aos olhos de todos.

O artigo de Pat Buchanan que me propus hoje traduzir (imagens e links meus) ilustra bem, creio, esta ideia. Obama, tudo o indica, decide entrar numa nova guerra porque (convenientemente?) surgiram uns vídeos no YouTube (e portanto na televisão) coreografando a decapitação de dois jornalistas americanos pelo "Estado Islâmico". Sem surpresa, a comoção no mundo ocidental, e nos EUA em particular, foi de generalizado horror pelo barbarismo das imagens (mas acaso esta imagem será menos bárbara?). Daqui resultou a inversão da opinião americana, aferida pelas sondagens, relativamente à participação no atoleiro mortal em que se transformou a Síria. Aparentemente, o que se viu (o que se deu a ver?) produziu os seus efeitos e tornou dispensável uma ponderação de médio e longo prazos. Obama bin Laden, onde quer que esteja, não poderá deixar de sorrir.
Por Patrick J. Buchanan
12 de Setembro de 2014

A guerra para todo o sempre
(The Forever War)

A estratégia que o presidente Obama anunciou na quarta-feira à noite para "degradar e finalmente vir a destruir o grupo terrorista conhecido como ISIL", é incoerente, inconsistente e, em última análise, não credível.

Patrick J. Buchanan
Há um ano atrás, Obama e John Kerry estiveram entusiasticamente à beira de lançar ataques aéreos contra o presidente sírio, Bashar al-Assad, devido à sua alegada utilização de armas químicas para "matar o seu próprio povo".

Mas quando os americanos se ergueram como um todo exigindo ficar de fora do conflito na Síria, Obama rapidamente fez desaparecer a sua "linha vermelha" e anunciou uma nova política de não envolvimento nas "guerras civis de outros".

Agora, depois de vídeos das decapitações de dois jornalistas norte-americanos terem incendiado a nação, o presidente, lendo as sondagens, fez uma nova pirueta.

Agora, Obama quer conduzir o Ocidente e o mundo árabe directamente para a guerra civil da Síria. Só que, desta vez, iremos bombardear o ISIL e não Assad.

Quem fornecerá as legiões que Obama irá envolver para esmagar o ISIL na Síria? O Exército Livre da Síria, os mesmos rebeldes que foram derrotados uma e outra vez e cujas possibilidades de derrubar Assad foram ridicularizadas pelo próprio Obama em Agosto último como sendo uma "fantasia"? O ELS é uma força de "antigos médicos, agricultores, farmacêuticos e assim por diante", zombou o presidente.

Agora, Obama pretende que o Congresso autorize o dispêndio de 500 milhões de dólares destinados a treinar e armar aqueles médicos e farmacêuticos e a enviá-los para o combate contra um exército de terroristas jihadistas que acaba de se apoderar de um terço do Iraque.

Antes que o Congresso vote um cêntimo que seja, deverá obter algumas respostas.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – A actualidade das suas consequências

No ano do seu centenário, temos vindo a apresentar aos leitores do Espectador Interessado, um conjunto de perspectivas de índole revisionista sobre a importância determinante da I Guerra Mundial não tanto visando o relato dos inomináveis horrores que nela ocorreram mas, e sobretudo, das suas consequências que perduram até hoje como do verdadeiro "ponto de viragem" que ela constituiu ainda que pelas piores razões. Até à data, dedicámos-lhe os seguintes posts:


Retomo agora o tema com a publicação de um artigo recente do colunista Doug Bandow (Forbes) que proporciona uma narrativa incomum também entre nós. Por exemplo, lê a génese de conflitos da actualidade (no Iraque, na Síria e na Ucrânia) à luz das circunstâncias e dos termos em que a Grande Guerra viria a terminar. Não pelos tons proclamatórios mais ou menos inflamados, mas pelos interesses das potências vencedoras e das suas conquistas e esferas de influência territorial que a novel Liga das Nações consagraria. Os diferentes protagonistas são sujeitos a um escrutínio severo, concluindo o autor pela partilha de responsabilidades na eclosão do conflito e pela dessacralização de figuras públicas que a ortodoxia historiográfica dos vencedores pretendeu (e continua a pretender) fixar. A tradução do texto é da minha responsabilidade, bem como dos links como das fotos inseridas. Como sempre, os comentários serão bem-vindos.
30 de Junho de 2014
Por Doug Bandow

Do Iraque À Ucrânia, Da Síria À Jugoslávia: Os Terroristas Que Destruíram O Mundo Moderno Há Um Século Atrás Estão Hoje A Criar Mais Guerras


O conflito no Iraque, tal como a guerra civil na Síria, começou há um século. Em bom rigor, há cem anos atrás feitos no sábado que passou. Juntamente com o desmembramento da Ucrânia por parte da Rússia; o colapso sangrento da Jugoslávia; a terrível experiência soviética; e a luta persistente entre israelitas e palestinianos.

Todos estes conflitos, e muitos mais, nasceram da I Guerra Mundial.

Doug Bandow
Na viragem para o século XX, os europeus tinham a expectativa de viver na boa vida a que chamaram belle époque. Os países estavam a industrializar-se, as economias a expandir-se, o comércio crescia, os impérios davam sinais de abertura.

Depois, o terrorista sérvio Gavrilo Princip disparou dois tiros e acendeu o rastilho para uma conflagração mundial que deixaria um rasto de morte, de destruição, de pobreza, de miséria e tirania. Continuamos a pagar o preço pelo que foi, talvez, o acto mais eficaz de terrorismo de estado na história da humanidade. Porém, no centésimo aniversário deste horrível momento, os sérvios bósnios erigiram estátuas, descerraram placas, e organizaram banquetes em homenagem ao homem que destruiu grande parte do mundo moderno.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (VII)

Depois de um interregno aparente, regresso explicitamente ao tema da I Guerra Mundial suprimindo o impulso de escolher para título deste post qualquer coisa como um (por aqui) improvável "Obrigado, Lorde Keynes!" Explico-me. No seu livro de 1919, As Consequências Económicas da Paz" (a paz (?) de Versalhes), Keynes oferece-nos uma breve mas ainda assim rica descrição do ambiente prevalecente no mundo ocidental até às vésperas da eclosão da hecatombe iniciada em Agosto de 1914. Ela ilustra a tripla liberdade então existente - a da livre circulação de pessoas, dinheiro e bens - que o liberalismo clássico tinha tornado possível pela primeira vez na História.  O trecho que se segue é, creio, disso bem ilustrativo. Finda a guerra, uma nova era se iniciaria: a da deificação do estado-nação, do nacionalismo, do proteccionismo e da autarcia. Em suma, a vitória do colectivismo sobre o individualismo para o que era imprescindível proceder à sistemática destruição do padrão-ouro moeda que tinha vigorado nos 100 anos precedentes. A tradução é minha, bem como os realces introduzidos. (O livro está disponível para download gratuito em português do Brasil.)
John M. Keynes
"Que extraordinário episódio de progresso económico humano constituiu aquela era que terminou em Agosto de 1914! É certo que a maior parte da população trabalhava duramente e vivia com um baixo padrão de conforto, mas, aparentemente, contentava-se com a sua sorte. Todavia, a qualquer homem de capacidade ou carácter acima da média, era possível escapar a esse destino, ascendendo às classes média e alta, para quem a vida oferecia, a baixo custo e com pouco esforço, conveniências, confortos e amenidades que iam muito além do que os monarcas mais ricos e poderosos de outras eras alguma vez possuíram. Enquanto beberricava o chá matinal ainda na cama, o habitante de Londres podia encomendar por telefone diversos produtos de todo o mundo, nas quantidades que achasse adequadas, na expectativa razoável que fossem entregues rapidamente à sua porta; em simultâneo, e pelos mesmos meios, podia investir a sua riqueza em recursos naturais e em novos empreendimentos em qualquer parte do mundo e participar, sem esforço ou dificuldade, nas vantagens em perspectiva; ou podia decidir ligar a segurança da sua fortuna à boa-fé dos habitantes de um município importante num qualquer continente que a sua fantasia ou as informações de que dispusesse pudessem recomendar. Se o desejasse, podia assegurar, sem demora, um meio de transporte barato e confortável para qualquer país ou clima, sem necessitar de passaporte ou outra qualquer formalidade; podia enviar um seu empregado ao balcão mais próximo de um banco para se abastecer dos metais preciosos que entendesse conveniente, viajando de seguida para um país estrangeiro, sem conhecer a religião, a língua ou os costumes locais, transportando consigo a sua riqueza sob a forma de moedas, e considerar-se-ia muito ofendido e muito surpreendido caso houvesse o mínimo de interferência nos seus movimentos. Mas, e o mais importante de tudo, considerava esse estado de coisas como sendo normal, certo e permanente, excepto no sentido da introdução de novos aperfeiçoamentos, pelo que considerava qualquer desvio como sendo aberrante, escandaloso e evitável. Os projectos e a política do militarismo e imperialismo, dos monopólios, rivalidades raciais e culturais, restrições e exclusões, que iriam desempenhar o papel de serpente neste paraíso, eram pouco mais do que diversões quotidianas dos jornais, sem que parecessem exercer qualquer influência no curso normal da vida social e económica, cuja internacionalização, na prática, estava quase completa."

John Maynard Keynes, As Consequências Económicas da Paz (1919)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O inimigo do meu inimigo tornou-se inimigo do meu amigo

A incapacidade de reconhecer os erros cometidos e assumir as respectivas responsabilidades é uma característica excessivamente comum nos políticos para reduzir estas declarações de Tony Blair a um mero caso do foro psiquiátrico. A mentira das "armas de destruição maciça" não foi no essencial diferente - à excepção, talvez, da sua escala - dos "incidentes" do Golfo de Tonkin, da explosão a bordo do USS Maine no porto de Havana ou do bombardeamento do Fort Sumter entre inúmeros outros exemplos. Mas a História ensina-nos que os Impérios não são eternos e, a meu ver, os acontecimentos recentes no Iraque são já extremamente parecidos com a última fase da guerra do Vietname (que começou com os franceses, recorde-se). Por muitas "linhas vermelhas" que se tracem (em caso de conveniência, já se vê). E não é que não tenha havido avisos prévios do que aí viria (um bom exemplo de avivar de memória pode ser lido aqui).

Com tradução de minha responsabilidade (tal como as imagem e os links introduzidos), o texto abaixo de Eric Margolis fornece uma narrativa que, infelizmente sem surpresa, não encontro eco nem nos media nem na blogosfera portuguesa. Também aqui as pistas para o que está a suceder no Médio Oriente remontam aos tempos da I Guerra Mundial e às maquinações imperiais das "Grandes Potências".
14 de Junho de 2014
Por Eric Margolis

Iraque: o caos todo-poderoso

Eric Margolis
O falecido Saddam Hussein tinha realmente razão quando previu que a invasão americana do Iraque se iria tornar na "mãe de todas as batalhas". Onze anos depois, a batalha continua.

Nesta semana, assistimos ao colapso de duas divisões do exército governamental do Iraque, 30 mil homens correndo como galinhas diante do avanço implacável dos combatentes do ISIS - Estado islâmico do Iraque e do Levante (Síria). O mesmo exército fantoche que foi treinado e equipado durante uma década pelos EUA pela soma de 14 mil milhões de dólares. Um mau augúrio para aquilo que aguarda o exército e a polícia do Afeganistão, também eles criados pelos EUA.

Recordam-se de quando o presidente George W. Bush se vangloriava da "missão cumprida"? Não foi o malévolo Saddam Hussein linchado pelos aliados xiitas dos EUA? Não foi a temida Al-Qaeda derrotada e o seu líder, Osama bin Laden, assassinado? Recordam-se de todo aquele palrar proveniente de Washington para "drenar o pântano" no Iraque?

Logo que os EUA derrubam um desafiante ao seu domínio no Médio Oriente - aquilo que chamo de American Raj - há outro que se ergue. O mais recente: o ISIS, uma feroz força jihadista que agora controla grandes parcelas da Síria e do Iraque.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Conquista dos EUA pela Espanha

Como aqui se dá conta, a declaração que se segue (minha tradução), alegadamente proferida por Winston Churchill em entrevista dada em Londres em 1936 a William Griffin, editor do The New York Enquirer, viria posteriormente a ser desmentida pelo próprio Churchill. Tal facto levou Griffin a intentar-lhe uma acção cível que todavia não chegaria a ser apreciada em tribunal (estava-se então em 1942, e Churchill era primeiro-ministro da Grã-Bretanha em plena II Guerra Mundial).
«A América deveria ter-se preocupado com os seus próprios assuntos e ficado de fora da Guerra Mundial. Se vós não tivésseis entrado na guerra, os Aliados teriam feito a paz com a Alemanha na Primavera de 1917. Tivéssemos feito a paz, não teria havido o colapso na Rússia seguido do comunismo, a desagregação na Itália seguida do fascismo, e a Alemanha não teria assinado o Tratado de Versalhes, que entronizou o nazismo na Alemanha. Se a América tivesse ficado fora da guerra, todos esses "ismos" não estariam hoje a varrer o continente europeu e a destruir o regime parlamentar - e se a Inglaterra tivesse feito a paz nos inícios de 1917, teria salvo as vidas de mais de um milhão de britânicos, franceses, americanos e outros.»

Winston Churchill (Agosto de 1936)
Tenha ou não Churchill proferido esta declaração (cujos pontos de vista eram à época partilhados por outras personalidades como o líder trabalhista Ramsay MacDonald ou o historiador Harry Elmer Barnes), é preciso recuar a 1898 para localizar o ponto de viragem em favor de um assumido intervencionismo externo dos EUA - sempre crescente até hoje - assim abandonando as mais veementes advertências dos Pais Fundadores quanto às consequências que adviriam para a América caso esta alguma vez enveredasse pelo aventureirismo externo.

Com a macabra oportunidade que o reemergir de mais um surto de violência no dilacerado Iraque vem proporcionar, venho sugerir ao leitor uma incursão pela pouco referida guerra Hispano-Americana (que se estendeu a Cuba e Porto Rico, Filipinas e Guam). Para guionista proponho aquele que é um dos meus historiadores preferidos dos séculos XIX e XX, Ralph Raico, que irá invocar o injustamente esquecido William Graham Sumner. A tradução do texto (de uma alocução proferida de Raico na FEE em 1995, também disponível em áudio) é da minha responsabilidade bem como das imagens escolhidas.
Por Ralph Raico (1995)


Ralph Raico
O ano de 1898 constituiu um marco na história americana. Foi o ano em que a América entrou em guerra com a Espanha - o nosso primeiro envolvimento com um inimigo estrangeiro no amanhecer da era da guerra moderna. À parte uns escassos períodos de contenção, nunca mais deixámos de nos enlear nos conflitos externos.

Algures na década de 1880, um grupo de cubanos iniciou a luta pela independência da Espanha. Tal como sucedeu antes e depois com muitos revolucionários, tinham pouco apoio real entre a massa da população. Recorreram assim a tácticas terroristas: devastando zonas rurais, dinamitando ferrovias, e matando aqueles que lhes surgiram pela frente. As autoridades espanholas responderam com duras contramedidas.