quinta-feira, 9 de abril de 2015

Energia: o que devemos temer é o "pico estatal", não o "pico do petróleo"

Inicio com este post a "penitência" a que me impus aqui. A oportunidade surgiu ao ter-me deparado com o artigo de Robert Murphy que me propus partilhar hoje com os leitores (minha tradução). Trata-se, uma vez mais, de desmistificar o sucessivamente anunciado, e sempre adiado, "esgotamento" dos combustíveis fósseis o que, recorde-se, constitui um dos pilares da argumentação em favor das energias "renováveis" e da urgência da sua adopção. Ora, atravessamos precisamente à escala mundial mais um período em que os recursos petrolíferos, medidos pelas quantidades produzidas e pelas reservas conhecidas, não apenas não diminuem como não cessam de aumentar. E a revolução do shale não saiu ainda sequer dos EUA (nem o Irão a disponibilizar ao mercado todo o seu potencial)! A mente humana é um instrumento extraordinário de criação de riqueza e recursos, esses sim inesgotáveis. Assim os governantes não a cerceiem totalmente pela continuação da espiral  aparentemente insaciável do esbulho fiscal e regulatório. Uma última nota para a informação que o Engº Henrique Gomes disponibilizou recentemente: o défice tarifário, projectado para 5.080 milhões € pela ERSE para 2015, já vai em 5.400 milhões.

ACTUALIZAÇÃO: A talhe de foice.
8 de Abril de 2015
Por Robert P. Murphy


Robert P. Murphy
Independentemente da existência de várias versões da teoria do "pico do petróleo", durante décadas esta acumulou hossanas porque se revelou correcta no caso dos EUA. Especificamente, o geofísico M. King Hubbert publicou uma teoria da exploração dos campos petrolíferos em 1956 onde se previa que a produção total de petróleo nos EUA fosse atingir o seu "pico" cerca de 1971 (o mais tardar), declinando a partir daí. Hubbert previu também que o mundo assistiria a um declínio na produção total de petróleo por volta de 2006. Hubbert estava errado relativamente ao mundo. Mas, durante algum tempo, parecia ter acertado em cheio quanto aos EUA. Porém, o desenvolvimento dos recursos em formações xistosas (shale), e a expansão na utilização do "fracking" e da perfuração horizontal nos Estados Unidos nos últimos anos, mostram que o "pico do petróleo" já nem sequer se aplica à que chegou a ser a sua história de sucesso.

O gráfico abaixo é o mais recente da Administração de Informação de Energia (EIA) que mostra a história da produção mensal decrude dos EUA:



O gráfico mostra por que razão Hubbert foi considerado um visionário, pelo menos por uns tempos. Depois da sua previsão de 1956, a produção americana iria realmente aumentar até que atingiu um pico sensivelmente dentro da janela temporal que Hubbert previra. O declínio suave na produção dos EUA a partir de meados da década de 1970 até aos primeiros anos de 2000, era também consistente com a teoria de Hubbert, que via a produção nacional total como uma agregação dos poços individuais, cada um deles com uma tecnicamente definida curva do ciclo de vida de produção em forma de sino.

No entanto, como o gráfico também evidencia, a bem comportada forma de sino começou a inverter-se por volta de 2009 e disparou como um foguete em 2011. Olhando para os valores mensais, os volumes de produção de crude norte-americano  em Dezembro e Janeiro últimos foram os maiores desde 1972, e não estar muito longe do recorde de todos os tempos estabelecido em 1970. Embora o declínio acentuado no preço mundial do petróleo desde o ano passado possa travar o rápido aumento da produção dos Estados Unidos, resulta evidente da leitura do gráfico que o modelo mecanicista da teoria do "pico petrolífero" está incorrecto.

Os recursos "finitos", havendo engenho suficiente, nunca se esgotam

O problema fundamental com a teoria do "pico petrolífero" é o da adopção de uma mentalidade malthusiana, na qual se encara a humanidade como os administradores de uma única reserva de petróleo que diminui de cada vez que queimamos um barril. Embora o petróleo (tanto quanto sabemos) seja de facto um recurso finito, esgotável, o certo é que do ponto de vista económico a restrição real é sempre a da criatividade humana, como as obras de Julian Simon e de Robert Bradley enfatizam.

A humanidade não necessita de tecnocratas a microgerir as políticas de utilização de energia, porque os seus conhecimentos técnicos frequentemente ignoram a totalidade da disciplina da economia. A perspectiva dos geólogos e de outros especialistas será reflectida nos preços de mercado, em especial nos contratos de futuros e nos mais exóticos derivativos. Nenhuma instituição humana é evidentemente perfeita, mas o funcionamento livre da economia de mercado irá promover o desenvolvimento optimizado da energia a partir das diversas fontes disponíveis. Se a história nos serve de guia, podemos esperar que a humanidade vá continuar a utilizar o petróleo e outros combustíveis fósseis até que as inovações do sector privado produzam uma outra qualquer coisa mais eficiente.

Nós não temos que temer uma escassez de energia. Parafraseando o slogan dos Doritos: Quando se trata de petróleo bruto, queimem tanto quanto quiserem; nós iremos encontrar mais. A única ameaça à energia abundante a preços acessíveis é a interferência política - por outras palavras, o "pico estatal".

6 comentários:

inphinitorumdotcom disse...

Olá Eduardo,

Como bem sendo hábito, deixe-me expressar a minha posição antagónica em relação ao assunto apresentado.

Não trato de desvirtuar o que a tecnologia conseguiu e bem conseguindo em relação aos combustíveis fosseis. Trata-se isso sim de adquirir uma visão mais imparcial em relação ao assunto.

Analise bem a citação: "Os recursos "finitos", havendo engenho suficiente, nunca se esgotam". Não lhe parece um contra senso, não seria mais correcto afirmar que podemos sim retardar o fim das reservas ora por tecnologias mais eficientes tanto de extracção quanto de consumo?

Relativamente ao shale, tal monstruosidade bem sido referida por vários estudos como inimiga do meio ambiente: aumento de sismos em zonas de fracturação e poluição dos recursos hídricos pelas substâncias"censuradas" que são utilizadas em tal processo. Chegando já a ser proibida em algumas zonas do globo!

Cumprimentos cordiais.

inphinitorumdotcom disse...

Entende-se: "...vem conseguindo em relação aos combustíveis fósseis."

Eduardo Freitas disse...

Caro inphinitorumdotcom,

Temos, de facto, uma posição adversarial relativamente a este tema.

Compreenderá que não veja nenhum tipo de contradição interna na afirmação que cita (repare na utilização das aspas em "finitos"). Aí reside, pelo contrário, o mais poderoso argumento contra o espectro (sempre apocalíptico) da finitude.

Este é um assunto já muito antigo e há que reconhecer que mesmo personalidades familiares com a disciplina da economia caíram nessa armadilha, como foi o caso do grande marginalista Stanley Jevons em The Coal Question (1865). Os "recursos" não são um dado estático sendo sim resultantes de um processo dinâmico de "criação" pela via do inesgotável engenho humano.

Relativamente às objecções que levanta quanto aos alegados perigos ambientais do "fracking", e sem querer entrar em polémica, peço-lhe que tenha também em atenção na avaliação da “balança ambiental” os perigos, conhecidos mas muito pouco divulgados, da exploração das "renováveis". Quatro rápidos exemplos: (1) o desassoreamento da costa a sul do Douro (delta do Nilo, Yangtzé, etc.) é directamente provocado pela brutal redução dos detritos sólidos que o tio transporta provocado pela proliferação de barragens ao longo do seu curso; (2) Conhece as condições de exploração das minas (“terras raras”) onde se extraem os metais essenciais ao funcionamento, por exemplo, das turbinas eólicas?; (3) Que dizer da enorme ocupação do solo exigida à produção de energia solar?; (4) Valerá a pena falar nos problemas para o ambiente decorrentes do recurso massivo a enormes baterias nos veículos eléctricos?

Saudações cordiais (ainda que discordantes),

Eduardo Freitas

inphinitorumdotcom disse...

Eduardo,

Talvez por mea culpa, tenha ficado com a ideia errada. Concordo e acrescentava bastantes mais inconvenientes às energias renováveis. Digamos que em boa verdade, sou mais pela via do decrescimento. Nomeadamente no que tudo toca a bens supérfluos...

A questão como já referi noutro comentário, é a de que um país dito soberano não pode estar dependente de recursos energéticos estrangeiros. Sou sempre a favor pelos recursos locais, mesmo que sejam energias fósseis. E claro que se devem pesar sempre os prós e contras relativamente a todos os tipos de energias.

Bem haja.

Eduardo Freitas disse...

Caro inphinitorumdotcom,

Talvez estejamos então mais perto do que julgava. Tanto melhor.

Todavia, o seu último comentário veio arrolar inequivocamente dois elementos de (profunda) discordância:

1º- Fora do estrito âmbito da esfera privada, não comungo da defesa da distinção entre bens "supérfluos" e "não-supérfluos". Admiti-lo seria aceitar sem mais o poder arbitrário (e frequentemente atribiliário) de burocratas que se arrogam do direito de decidir por outros sobre o que é ou não importante para estes últimos.

2º- A soberania de um país, como de uma comunidade, não reside na capacidade de se sustentar a si próprio, no domínio energético ou noutro qualquer. Historicamente, a lógica da auto-suficiência - autarcia - sempre levou à ditadura (interna ou imperial) e/ou à pobreza/racionamento (e tantas vezes à guerra). A soberania afere-se antes pela capacidade de comerciar com vantagens mútuas como sempre sucede com as trocas voluntárias. Importar não é um mal, pelo contrário. A importação torna possível aceder a bens e serviços desejáveis em condições de preço e qualidade que não seriam possíveis de conseguir internamente, ou seja, a um aumento do bem-estar. E repare: ninguém se preocupa se no distrito do Porto se importa muito, pouco ou nada de alfarroba do Algarve para fazer bolos. Para quê então preocuparmo-nos com a importação de milho da Galiza, da lã neozelandesa ou de automóveis sul-coreanos?

Saudações cordiais,

Eduardo Freitas

inphinitorumdotcom disse...

Uma última intervenção, visto que o assunto já não se enquadra no âmbito do artigo original:

1- Não referi que a "distinção" entre bens "supérfluos" e "não-supérfluos" deferia ser efectuada pelo estadismo. Sempre pelo cidadão à preferência do já citado, mas por certo concorda que na actual sociedade o consumidor perdeu a noção de prioridades por via do constante marketing diário a que é exposto... No antigo regime alemão que faliu, encontravam-se lâmpadas que por exemplo tinham uma duração de + de 100000 horas, uma existe que ainda se encontra a funcionar ininterruptamente! Contudo e apesar de relação preço/qualidade ser óptima para o consumidor aquando em contacto com o mercado ocidental desapareceu por via da concorrência com produtos de qualidade e preço inferior! No Mercado só se encontram actualmente o mesmo tipo de lâmpadas mas com uma duração de 20000 horas! Observa-se agora à obsolescência programada acordada entre os fabricantes em nome do lucro, não do bem do consumidor! Entenda-se também que consumidor é um ser biológico, este foi feito para preferir o bem imediato ao bem futuro, preferindo quase sempre o baixo custo de um item ao retorno futuro que esse lhe proporcionará. Sublinho que esta análise é apenas para o consumidor comum, como vários estudos psicológicos já demonstraram esta vertente biológica que nos caracteriza enquanto espécie.

2- Estou em crer que quando o preço do barril de crude aumentar, conforme os desvarios das monarquias do Golfo, se compreenderá melhor ao que me referia.

Grato pelo tempo despendido.