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sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Conquista dos EUA pela Espanha

Como aqui se dá conta, a declaração que se segue (minha tradução), alegadamente proferida por Winston Churchill em entrevista dada em Londres em 1936 a William Griffin, editor do The New York Enquirer, viria posteriormente a ser desmentida pelo próprio Churchill. Tal facto levou Griffin a intentar-lhe uma acção cível que todavia não chegaria a ser apreciada em tribunal (estava-se então em 1942, e Churchill era primeiro-ministro da Grã-Bretanha em plena II Guerra Mundial).
«A América deveria ter-se preocupado com os seus próprios assuntos e ficado de fora da Guerra Mundial. Se vós não tivésseis entrado na guerra, os Aliados teriam feito a paz com a Alemanha na Primavera de 1917. Tivéssemos feito a paz, não teria havido o colapso na Rússia seguido do comunismo, a desagregação na Itália seguida do fascismo, e a Alemanha não teria assinado o Tratado de Versalhes, que entronizou o nazismo na Alemanha. Se a América tivesse ficado fora da guerra, todos esses "ismos" não estariam hoje a varrer o continente europeu e a destruir o regime parlamentar - e se a Inglaterra tivesse feito a paz nos inícios de 1917, teria salvo as vidas de mais de um milhão de britânicos, franceses, americanos e outros.»

Winston Churchill (Agosto de 1936)
Tenha ou não Churchill proferido esta declaração (cujos pontos de vista eram à época partilhados por outras personalidades como o líder trabalhista Ramsay MacDonald ou o historiador Harry Elmer Barnes), é preciso recuar a 1898 para localizar o ponto de viragem em favor de um assumido intervencionismo externo dos EUA - sempre crescente até hoje - assim abandonando as mais veementes advertências dos Pais Fundadores quanto às consequências que adviriam para a América caso esta alguma vez enveredasse pelo aventureirismo externo.

Com a macabra oportunidade que o reemergir de mais um surto de violência no dilacerado Iraque vem proporcionar, venho sugerir ao leitor uma incursão pela pouco referida guerra Hispano-Americana (que se estendeu a Cuba e Porto Rico, Filipinas e Guam). Para guionista proponho aquele que é um dos meus historiadores preferidos dos séculos XIX e XX, Ralph Raico, que irá invocar o injustamente esquecido William Graham Sumner. A tradução do texto (de uma alocução proferida de Raico na FEE em 1995, também disponível em áudio) é da minha responsabilidade bem como das imagens escolhidas.
Por Ralph Raico (1995)


Ralph Raico
O ano de 1898 constituiu um marco na história americana. Foi o ano em que a América entrou em guerra com a Espanha - o nosso primeiro envolvimento com um inimigo estrangeiro no amanhecer da era da guerra moderna. À parte uns escassos períodos de contenção, nunca mais deixámos de nos enlear nos conflitos externos.

Algures na década de 1880, um grupo de cubanos iniciou a luta pela independência da Espanha. Tal como sucedeu antes e depois com muitos revolucionários, tinham pouco apoio real entre a massa da população. Recorreram assim a tácticas terroristas: devastando zonas rurais, dinamitando ferrovias, e matando aqueles que lhes surgiram pela frente. As autoridades espanholas responderam com duras contramedidas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 – Algumas notas e fragmentos (I)

No ano que decorre "comemoram-se" 100 anos sobre o início da "guerra para acabar com a guerra”. Uma guerra que iria "libertar os povos" do jugo dos impérios aristocráticos que negavam o direito daqueles à "autodeterminação". Uma guerra “justa” tanto mais que havia que “tornar o mundo seguro para a democracia”. Em definitivo, a decisão de participar no teatro de guerra europeu constituía um dever “humanitário” para os detentores do poder na “Terra dos Livres e Lar dos Bravos”. E é indisputável que a entrada na guerra da América foi absolutamente determinante para decidir quem seriam os imediatos vencedores e vencidos, 20 milhões de mortos depois. Poucos anos volvidos, todavia, ver-se-iam quais as suas ainda mais terríveis consequências mediatas. Como um militar britânico profeticamente observou na altura, "After the ‘war to end war’ they seem to have been pretty successful in Paris at making a ‘Peace to end Peace.’" (tradução: “Depois da ‘guerra para acabar com a guerra’ tudo indica que em Paris [Conferência de Paris, de 1919] foram coroados de êxito os esforços para alcançar uma ‘Paz para acabar com a Paz’”).

O grande historiador libertário Ralph Raico ensaia aqui, em jeito de prólogo, um telegráfico exercício "contrafactual" com o objectivo de ilustrar o real "ponto de viragem" que a I Guerra Mundial constituiu (minha tradução):
A Primeira Guerra Mundial é o ponto de viragem do século XX. Não tivesse a guerra ocorrido, os prussianos Hohenzollerns teriam muito provavelmente permanecido à frente dos destinos da Alemanha, com a sua subordinada panóplia de reis e nobreza a governar os mais pequenos estados alemães. Quaisquer que tivessem sido as vitórias de Hitler nas eleições para o Reichstag, teria ele conseguido erguer a sua ditadura totalitária e exterminacionista no meio desta poderosa superestrutura aristocrática? Teria sido altamente improvável. Na Rússia, os poucos milhares de revolucionários comunistas de Lenine confrontavam-se com o imenso exército imperial russo, o maior do mundo. Para que Lenine tivesse uma qualquer oportunidade de sucesso, aquele grande exército tinha primeiro que ser pulverizado, que foi o que os alemães fizeram. Assim, um século XX em que não tivesse ocorrido a Grande Guerra poderia muito bem ter significado um século sem nazis ou comunistas. Imagine-se um tal cenário! Foi também um ponto de viragem na história da nossa nação americana que, sob a liderança de Woodrow Wilson, se tornou em algo de radicalmente diferente daquilo que tinha sido anteriormente. Daí, a importância das origens daquela guerra, do seu desenrolar, e das suas consequências.
Com o devido respeito e ressalvadas as devidas distâncias, parece-nos que a Grande Guerra constituiu também um “ponto de viragem” em direcção a um horror inominável com contornos que o direito internacional prevalecente à sua eclosão considerava ilegais. Referimo-nos, nomeadamente, ao facto de com ela se ter tornado “legítimo” tomar as populações como alvos directos de guerra nomeadamente através da indução da fome severa e generalizada (mais tarde, com o desenvolvimento da aviação, viria o extermínio em massa das populações através dos bombardeamentos "estratégicos" de cidades desprovidas de objectivos militares).

Propomo-nos vir a fazer aqui no Espectador Interessado, ao longo das próximas semanas, um conjunto de incursões nessa época, e nas suas circunstâncias, tentando proporcionar aos leitores ângulos de abordagem desse "ponto de viragem" que, provavelmente, não serão dos mais comuns, antes se filiando assim numa visão inevitavelmente revisionista.

(Continua)