terça-feira, 18 de junho de 2013

De Bush a Obama, do Iraque à Síria: intervencionismo fútil e destruidor

Ron Paul já não é membro da Câmara dos Representantes mas continua a manter uma presença cívica notável, nomeadamente e quanto a questões de política externa, através do novel Instituto para a Paz e Prosperidade a que empresta o seu nome. Nesse âmbito, anteontem, Ron Paul produziu uma declaração pública a propósito da decisão de Obama de fornecer, oficialmente, armas aos rebeldes sírios. A Síria é um atoleiro, como talvez até Recep Erdogan já terá compreendido. Outros só o compreenderão quando o desastre assumir proporções ainda mais calamitosas e finalmente se derem conta - mais uma vez - da futilidade da intervenção externa (apesar da propaganda que alguns títulos tentam transparecer). A tradução do texto é minha.
O presidente Obama anunciou na semana passada que a "comunidade" dos serviços de informações dos EUA acabara de estabelecer que o governo sírio usou gás venenoso em pequena escala assim matando cerca de 100 pessoas numa guerra civil que já levou à perda de cerca de 100 mil vidas. Devido a esta utilização de gás, alegou o presidente, a Síria havia cruzado a "linha vermelha" e, como tal, os EUA têm de começar a armar os rebeldes que lutam pelo derrube do governo sírio.

Deixando de lado a questão do porquê de 100 mortos por meio de gás serem algo mais importantes do que os 99900 mortos por outros meios, a verdade é que a sua explicação tem tantos furos quanto um passador. O Washington Post noticiou esta semana que a decisão de, publicamente, fornecer armas aos rebeldes sírios foi tomada "há semanas atrás". Por outras palavras, foi tomada num momento em que a comunidade dos serviços de informações não acreditava, "com um alto grau de confiança", que o governo sírio tivesse usado armas químicas.

Mais: este plano de cedência de armas aos rebeldes sírios tornara-se a política adoptada muito mais cedo que isso, como noticiava o Washington Post informando que a CIA havia expandido ao longo do ano passado as suas bases secretas na Jordânia para preparar a transferência de armas para os rebeldes na Síria.


O processo foi idêntico ao da maciça campanha de decepção que nos levou à guerra do Iraque. Lembram-se da famosa passagem do furtivamente divulgado "Downing Street Memo", onde representantes do governo do primeiro-ministro britânico Tony Blair discutiam a pressão de Washington para iniciar a guerra sobre o Iraque?

Aqui, o chefe dos serviços secretos britânicos estava reportando ao seu governo após uma viagem a Washington, no Verão de 2002:
"A acção militar era agora vista como inevitável. Bush queria derrubar Saddam, através de uma acção militar, justificada pela combinação de terrorismo e armas de destruição maciça. Mas a intelligence e os factos estavam sendo ajustados em torno da política traçada."
É exactamente isso que a administração Obama está fazendo com a Síria: ajustar a intelligence e os factos em torno de uma política já fixada. E o Congresso joga este jogo, tal como sucedeu da última vez.

Descobrimos, pouco depois de a guerra no Iraque se ter iniciado, que a intelligence e os factos ajustados em torno da política traçada não passavam de mentiras avançadas pelos belicistas neo-con e pelos informadores pagos, como o infame e reconhecido mentiroso conhecido por "Curveball". Mas nós parecemos nada ter aprendido com o facto de termos sido enganados anteriormente.

Assim, Obama planeia agora enviar ainda mais armas aos rebeldes sírios apesar de a sua administração estar ciente de que as principais facções rebeldes prometeram lealdade à Al-Qaeda. Mais alguém vê a ironia? Após 12 anos de "guerra contra o terror" e de luta contra a Al-Qaeda, os EUA decidiram fornecer armas aos aliados da Al-Qaeda. Será que alguém acha mesmo que esta seja uma boa ideia?

A administração Obama promete-nos que se trata apenas uma operação muito limitada, de fornecimento de armas ligeiras apenas, sem planos para uma zona de exclusão aérea ou para colocar tropas americanas no terreno. Tudo isto é excessivamente parecido com a forma como o Vietname começou. Apenas alguns conselheiros. Quando essas poucas armas ligeiras não alcançarem o objectivo pré-determinado pelos EUA de mudança de regime na Síria, o que irá a administração fazer? Admitir o fracasso e mandar retirar as tropas, ou escalar a intervenção? A história sugere a resposta e parece estar agora a repetir-se uma vez mais.

O presidente abriu uma caixa de Pandora que irá destruir a sua presidência e, possivelmente, destruir este país. Começou mais uma guerra de muitos milhares de milhões de dólares.

3 comentários:

Miguel Loureiro disse...

Caro Eduardo
Desta vez estamos de acordo! Só falta dizer-se quem tem alimentado a "revolução" até agora e onde se compram aqueles "toyotas" com bazucas e tudo, que aparecem nas hostes dos "rebeldes" em todas as Primaveras...
(O texto tem uns parágrafos repetidos)

Eduardo Freitas disse...

Caro Miguel,

Bem, uma vez por outra tinha que ser! E ainda bem que concordamos quanto a esta bem importante questão.

Obrigado também pela chamada de atenção que entretanto corrigi.

Miguel Loureiro disse...

E até fiz link!