segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

As conexões sauditas no 11 de Setembro

Praticamente logo após os atentados de 11 de Setembro, circularam intensos rumores quanto a uma alegada (e estreita) ligação de membros da elite saudita que, através de apoio logístico, e sobretudo financeiro, teriam apoiado (tornado possível?) aquela operação terrorista. Este era um elo que começava por surgir como natural já que 15 dos 19 piratas do ar eram nacionais do país governado pela Casa de Saud. Desde muito cedo (antes mesmo da formação da oficial Comissão de Inquérito aos acontecimentos - 2002) que familiares das vítimas fizeram sentir as suas suspeições nessa direcção. E a caminho dos quinze anos passados sobre o sucedido, o certo é que continuam classificadas como secretas 28 páginas do relatório oficial as quais, precisamente, se crê evidenciarem essa conexão. A isto acrescem as acusações da semana passada provenientes de Zacarias Moussaoui que até mesmo o New York Times entendeu destacar. Emprestando todo o seu envolvimento jornalístico de longa data, no terreno, no mundo islâmico, Eric Margolis elabora sobre a verosimilhança das acusações de Moussaoui recuando para isso ao tempo em que conheceu pessoalmente um dos fundadores da Al-Qaeda. É um artigo informativo, pleno de pormenores relevantes para um maior entendimento sobre o reino saudita ou, melhor, sobre a razão de ser dos comportamento da dinastia de Saud.

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7 de Fevereiro de 2015
Por Eric Margolis


Desde 2001 que circulam alegações do envolvimento da Arábia Saudita nos ataques à América do 11 de Setembro. Os sauditas têm negado qualquer envolvimento muito embora 15 dos 19 piratas do ar fossem cidadãos sauditas.

Eric Margolis
Esta semana, as alegações de envolvimento saudita reacenderam-se quando um dos homens condenados pelos ataques de 11 de Setembro, Zacarias Moussaoui, reafirmou aquelas acusações. Moussaoui, que está numa prisão de segurança máxima nos EUA, acusa príncipes e altos funcionários sauditas de terem financiado os ataques do 11 de Setembro e outras operações da Al-Qaeda. Ele talvez tenha sido torturado e tem problemas mentais.

Entre os sauditas que Moussaoui nomeou estão o príncipe Turki Faisal e o príncipe Bandar bin Sultan, dois dos homens mais poderosos e influentes do reino. Turki foi chefe da inteligência saudita; Bandar foi embaixador em Washington durante a administração Bush.

Estas acusações surgem num momento em que decorre em Washington uma luta furiosa pela (não) divu, lgação das páginas secretas do relatório da Comissão de Inquérito aos ataques do 11 de Setembro que supostamente implicam a Arábia Saudita. A Casa Branca alega que a divulgação do relatório seria embaraçante e prejudicaria as relações entre os EUA e a Arábia Saudita.
Desde os anos 1980, quando estava no Paquistão e no Afeganistão, que acompanho esta história tortuosa. Encontrei-me com o sheik Abdullah Azzam, fundador da Al-Qaeda,
em Peshawar, uma louca cidade fronteiriça no Paquistão.

Nessa altura, a Al-Qaeda era uma montra minúscula de um balcão de informações que prestava apoio os combatentes "mujahedin" que eram enviados pela Arábia Saudita e pelos EUA para combater os soviéticos que ocupavam o Afeganistão.

O sheik Abdullah, um expoente de renome da "jihad", disse-me algo que me abalou: "quando tivermos libertado o Afeganistão do colonialismo soviético, iremos prosseguir e libertar a Arábia Saudita do domínio colonial americano." Esta foi a primeira vez que ouvi chamar a América de potência colonial.

Azzam foi assassinado pouco depois. Mas um seu brilhante aluno, um tal Osama bin Laden, continuou a demanda de Azzam - acabar com a influência ocidental no mundo muçulmano.

Nessa época, os "nossos" muçulmanos que lutavam contra a ocupação soviética eram saudados como "combatentes da liberdade" pelo presidente Ronald Reagan. Hoje, por via de uma reescrita da história, são amplamente designados de "terroristas".

O que Moussaoui terá alegadamente dito é que os dois supracitados príncipes, Turki e Bandar, doaram dinheiro aos mujahedin afegãos durante a década de 1980, não à Al-Qaeda. Muitos americanos terão dificuldade em compreender a distinção.

A Arábia Saudita canalizou grandes somas de dinheiro para grupos militantes no Médio Oriente, Balcãs, Cáucaso, África e Sul da Ásia. O objectivo era duplo: em primeiro lugar, manter jovens exaltados tão afastados do reino quanto possível; em segundo, combater a propagação da influência iraniana. Washington deu o seu apoio tácito.

O Irão, dominado pelo zelo revolucionário islâmico, estava a enviar pregadores e professores para a Ásia e África, especialmente para o Paquistão e Afeganistão. Os sauditas, com um temor mortal da revolução islâmica em Teerão que apelava à partilha da riqueza do petróleo com os pobres do mundo islâmico, lançaram uma guerra por procuração contra o Irão que opunha os sunitas wahabitas aos xiitas. Washington, tomada por uma febre anti-iraniana, apoiou a ofensiva religiosa dos sauditas.

No meio deste conflito político-religioso, surgiu o exilado saudita bin Laden. Embora o seu pai fosse um dos homens mais ricos do reino, bin Laden opôs-se à governação dos príncipes sauditas acusando-os de roubar a riqueza do mundo muçulmano e de ajudar a permitir a continuação do domínio americano do mundo muçulmano - o que designei no meu segundo livro por "The American Raj".

Tendo seguido o percurso de bin Laden desde os finais dos anos de 1980, estou convencido de que ele não tinha o apoio directo dos príncipes sauditas no poder - nem da CIA. Os sauditas tinham ainda mais medo dele do que do Irão. Mas eu não tenho nenhuma dúvida, como referi na CNN em 2001, que numerosos sauditas e kuwaitianos abastados estivessem a fazer doações privadas à Al-Qaeda e a outros grupos militantes.

Para os americanos, impedir o financiamento da Al-Qaeda era um objectivo primordial. Eles nunca compreenderam - como hoje continuam a não compreender - que a resistência à influência norte-americana possa ser facilitada pelo dinheiro mas não impulsionada por ele. Os inimigos dos EUA são motivados pela ideologia e pelo fervor revolucionário, não por dinheiro. É difícil para alguns ocidentais entender que o dinheiro não está por trás de tudo.

O que os media nunca referem é que há muito que existe uma dissidência fervente na Arábia Saudita, talvez o país mais rígido e reaccionário do mundo. Ela provem quer da nação xiita de cidadãos de segunda classe, como do número crescente de jovens sauditas que anseiam romper com a estulta sociedade em que vivem. Há até mesmo rebeldes entre os 22 mil príncipes do reino.

Um número considerável de sauditas acredita que a sua nação está ocupada pelos Estados Unidos. Isto não é uma quimera. Há cerca de 40 mil "técnicos" americanos e "contratados" na Arábia Saudita ao serviço da indústria petrolífera e dos militares. Forças dos EUA no Qatar, Bahrein, Kuwait e Diego Garcia vigiam a Arábia Saudita. Existem bases secretas dos EUA na Arábia Saudita. Israel é um aliado secreto da família real saudita.

A família real saudita está protegida pelas agências americanas de informações CIA, FBI, NSA, e pela inteligência militar. Isto, no entanto, não constitui uma garantia de absoluta segurança: o mesmo arranjo estava em vigor para proteger o ditador militar do Egipto, Hosni Mubarak, e todavia falhou. Na década de 1980, toda uma divisão de elite do exército do Paquistão protegia a família real. "Os sauditas não confiam nas suas próprias forças armadas", disse-me o falecido líder do Paquistão, Zia ul-Haq, depois de ser destacado para a Arábia Saudita.

A Arábia Saudita mantém duas forças armadas paralelas: um exército fraco, a quem são negadas munições, e os beduínos ou "Exército Branco", que protege a família real. A maior parte das armas, que custaram dezenas de milhares de milhões, compradas pelo reino aos americanos e britânicos estão a enferrujar em depósitos, ou são operadas por mercenários ocidentais. Empresas americanas de mercenários dirigem a Guarda Branca.
Tanto quanto sei, não há nenhuma razão para que a elite real saudita tenha financiado Osama bin Laden ou os piratas do 11 de Setembro. Mas o ataque foi claramente uma tentativa de dissidentes sauditas de retaliação contra o domínio do seu país pelos EUA.

De facto, as razões para os ataques do 11 de Setembro têm sido obscurecidas por uma torrente de desinformação e histeria. Os atacantes foram bastante claros nas suas razões: para punir os EUA pelo apoio a Israel e opressão dos palestinos; e pela sua "ocupação" da Arábia Saudita e assim mantendo um regime tirânico no poder.

A administração Bush alegou que os ataques foram causados pelo fanatismo religioso e pelo ódio aos valores ocidentais, um falso diálogo que continua até hoje como acabámos de assistir com os assassinatos no Charlie Hebdo em Paris. Não é admissível que os muçulmanos tenham quaisquer motivações políticas legítimas; são todos cães raivosos. Mesmo que ataquemos as suas pátrias, eles não têm o direito de nos atacar.

A Arábia Saudita permanece em fervura em lume brando, com os serviços de inteligência ocidentais a perseguir os opositores ao seu governo feudal. A intensa preocupação dos EUA com o remoto Iémen reflecte a profunda preocupação de Washington de que milhões de expatriados iemenitas na Arábia Saudita possam vir a tornar-se numa vanguarda revolucionária. Os bin Laden, evidentemente, eram de origem iemenita.

Sim, os homens e os fundos para os ataques do 11 de Setembro vieram provavelmente da Arábia Saudita; sim, a família real sabia disso - após o facto - mas permanece silenciosa até hoje; sim, Washington sabe que os príncipes sauditas sabiam, mas permanece muda e continua a tentar censurar a Parte 4 do incriminador relatório do 11 de Setembro. Tem havido demasiados altos funcionários e legisladores de nomeada dos EUA na folha de pagamentos saudita.

O rei Salman, sucessor de Abdullah,
ao lado de George W. Bush (foto de 2008)
Enquanto exerceu funções, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair invalidou um importante relatório do Serious Fraud Office envolvendo dezenas de milhões em pagamentos ilícitos de fabricantes britânicos de armas a membros da realeza saudita... por "razões de segurança nacional". Será de esperar algo de semelhante por parte de Washington.

Poucos nos corredores de Washington querem saber que o aliado-chave, a Arábia Saudita, esteve envolvido no 11 de Setembro. Menos ainda pretendem reabrir a investigação relativa ao 11 de Setembro, cheia de lacunas e omissões e talvez susceptível de suscitar perguntas sobre alguns dos outros aliados da América.

A mudança de soberano na Arábia Saudita, até agora, não produziu grandes alterações. A música continua a mesma. Mas, nos bastidores, a pressão está a crescer.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Esta vergonha da Inglaterra e EUA fazerem esta exploração das riquezas mesmo a custa de crimes diários só mostra como os média são importantes ser controlados como são.