segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Grande Guerra 1914-1918 - O Lusitania (um bom pretexto e um alvo fácil)

Não tencionava incluir o caso Lusitania na série de posts que vimos publicando sobre a I Guerra Mundial. Todavia, é-me difícil não dar conta que a campanha de bombardeamentos aéreos agora em curso contra o “Estado Islâmico” tenha ocorrido após a divulgação sucessiva, em quatro vídeos distintos, de outras tantas decapitações. Primeiro, de dois cidadãos americanos; posteriormente, de um súbdito britânico seguido de, há dias apenas, de um cidadão francês. Creio impossível não notar a coincidência do envolvimento das três nacionalidades notáveis na geopolítica da região após a queda do império Otomano. Em conclusão: o que Obama e Cameron não conseguiram há um ano, tornou-se agora possível devido à divulgação de uns vídeos no YouTube. A "linha vermelha" estava, afinal, no efeito de choque causado pelo visionamento de decapitações. A encenação revela-se, mais uma vez, fundamental para fazer vingar um pretexto adequado.

Após o início da I Guerra Mundial, talvez não tenha havido acontecimento singular mais relevante para o que viria a ser o seu desfecho do que o torpedeamento por um submarino alemão do paquete transatlântico Lusitania, ocorrido em 7 de Maio de 1915, de que resultaram 1153 mortos (128 dos quais de nacionalidade norte-americana). E muito embora só a 6 de Abril de 1917 os Estados Unidos tenham declarado guerra às Potências Centrais, é inegável a importância daquele evento no processo de decisão que levaria a essa decisão e, com ela, a sorte da guerra[1]. Sublinhe-se, não obstante, que o presidente Woodrow Wilson, que procurava a sua reeleição em 1916, fez essa campanha eleitoral sob o slogan "He kept us out of war" (“Ele manteve-nos fora da guerra” – N.T.) o que indubitavelmente traduz o sentimento, de facto largamente maioritário na opinião pública americana à época, contra o envolvimento dos EUA na terrível guerra que decorria no teatro europeu.


Ainda que formalmente não integrando a administração de Woodrow Wilson, o texano Edward Mandell House, graciosamente prefixado de “coronel”, foi um dos conselheiros mais próximos e influentes do presidente americano no domínio da política externa para a Europa entre 1914-1919. Não é por isso de admirar que na manhã do próprio dia do afundamento do Lusitania, pouco depois do pequeno-almoço, o Coronel House tenha conferenciado nos jardins botânicos de Kew com Sir Edward Grey, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, que, logo depois, por volta do meio-dia, o acompanharia a um encontro com o próprio rei Jorge V.

Ora, em The Intimate Papers of Colonel House - uma narrativa elaborada por um seu apoiante, o académico Charles Seymour, a partir do diário que House mantinha -, podemos ler o seguinte (minha tradução):
[Referindo-se à conversa a dois que manteve com Grey] House anotou: “Falámos da probabilidade de um navio transatlântico de passageiros ser afundado e eu disse-lhe que se isso acontecesse, uma chama de indignação varreria toda a América a qual, por si só, provavelmente nos levaria a entrar na guerra.”

[Logo a seguir, reportando-se à sua conversa com Jorge V], escreveu: “Acabámos por falar, curiosamente, da probabilidade da Alemanha afundar um paquete transatlântico…” tendo o rei dito: “Suponha que eles [os alemães – N.T.] afundam o Lusitania com passageiros americanos a bordo…”
Às 14:09 (TMG) o submarino U20 dispararia um torpedo (e um apenas, de acordo com o registado no seu diário de bordo pelo seu comandante, o capitão-tenente Walther Schwieger) contra um Lusitania desprovido de escolta. Menos de 20 minutos depois, o gigantesco navio tinha desaparecido na profundeza das águas sucumbindo a duas explosões: uma directamente causada pelo impacto do torpedo e uma outra, maior, cuja origem permanece ainda hoje sob disputa.

Anos mais tarde, em 7 de Setembro de 1939, Winston Churchill, tendo voltado a exercer o cargo de Primeiro Lorde do Almirantado (congénere de um ministro da Marinha de Guerra) que ocupava aquando do incidente, solicitaria o seguinte aos seus serviços (minha tradução): “Indicar os nomes dos navios de passageiros britânicos que, caso fossem afundados, provocariam uma prostração nacional.”[2] A resposta veio, rápida: o Mauretania (o navio gémeo do Lusitania) e o Queen Mary. Ambos partiram rapidamente para Nova Iorque onde esperariam até que se tornassem necessários ao transporte de tropas.

Não admira que o Lusitania continue a ser alvo de escrutínio e se anunciem novos livros quando se aproxima o centenário do seu afundamento.
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Notas:

[1] Cientes da ameaça mortal, as Potências Centrais ainda fizeram uma derradeira tentativa, na Primavera de 1918, para romper os mais de três anos de impasse na frente ocidental antes que a mole americana se tornasse avassaladora. Para isso fizeram deslocar os exércitos colocados a leste para ocidente movimentação tornada possível pela paz entretanto celebrada com a Rússia já soviética. Não resultou. A derrota alemã e dos seus aliados tornou-se então inevitável.
[2] Citado em Colin Simpson, The Lusitania, página 266.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

podemos imaginar os estragos que E Snowden fez nas narrativas- hoje fundamentais para se "justificar" certos roubos e assaltos, dos anglosaxonicos. Ainda são minorados pela fraca "memoria" dos analistas europeus e outros que mantêm a matriz das escolas em que se formaram.