quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Radar

O guião euro-americano das sanções contra a Rússia continua. Mas, do outro lado, age-se de forma muito clara para acomodar necessidades de novos eixos.
Andava o PM inglês a prometer correr com a Rússia do sistema SWIFT. Pois, as mudanças parecem ter começado. Antes mesmo das ameaças ocidentais.
Tanta acção a decorrer. Tanto cavalo furtivo. E nós, o que vemos?

6 comentários:

Anónimo disse...

Carissimo,

na minha opiniao nao tem sentido comparar o Ocidente com os BRICS. Estes nunca vao ser uma alternativa real ao dominio do Ocidente, enquanto persistirem com os seus graves problemas politicos e sociais.

É tudo uma questao de liberdade, e aqui neste blogue tem focado isto muitas vezes.

Em termos de dominio tecnológico, científico e económico, o Ocidente permanece (e irá permanecer) anos luz à frente dos BRICS, basta ver em termos de criatividade, inovacao, organizacao, onde estao os verdadeiros centros de competencia.

Claro, os BRICS podem escavar uns buracos no chao e extrair de lá petróleo (para alimentar as suas elites corruptas) podem construir (via governos) auto-estradas e casas (muitas delas para ninguem), mas isso nao é verdadeiro desenvolvimento económico (a nao ser na visao de Sócrates e cia).

Nao ha verdadeiro desenvolvimento económico sem liberdade, e o Ocidente - apesar de todas as restricoes que aqui sao bem apontadas - tem niveis de liberdade que os BRICS, com elites corruptas, semi-escravatura, falta respeito pelos contratos assinados (estado de direito), expropriacoes politicas, falta de liberdade de imprensa, perseguicoes politicas estao a milhas.

Como pode haver inovacao e creatividade quando a dissidencia e incoformismo sao perseguidos implacavelmente?

Alias, do progresso que alguns BRICS atingiram, foi apenas por causa das empresas ocidentais. Imagine o que seria a China hoje sem as Apples? Estaria como há 20 anos! Ter mao-de-obra barata a executar funcoes repetiticas numa linha de montagem nao e uma mais valia particularmente relevante, se o nivel de vida subir muito lá, as empresas ocidentais provavelmente mudam para Vietnames e Malasias, ou entao substituem por robots. A verdadeira mais valia desse desenvolvimento nao esta na China, mas no Ocidente.

Em relacao á India, a censura nao e exercida formalmente, mas é uma forma de auto-censura devido a constrangimentos religiosos e sociais, é portanto ainda mais poderosa.

Relativamente á Russia, de facto é um pais que se baseia apenas na exploracao de recursos minerais, mas em termos de empreendorismo é terceiro mundista. Por isso as sancoes do Ocidente vao colocar aquele pais em problemas económicos muito sérios, o que é uma excelente noticia para quem preza a liberdade e gostaria de conter uma potencia militarista e imperialista.

Cumprimentos,
Joao

Antonio Cristovao disse...

Temo que os parceiros na UE estejam a seguir interesses do eixo Londres/EUA em vez dos próprios. Mas as consequencias a seu tempo vão-se fazer notar, mais que não seja com o que a City desja - a fraqueza da UE.

SAC disse...

Caro LV,
Entre outras evidências observo que enquanto os EUA se entretêm a exibir o seu poderio militar junto do ISIS, e numa altura em que as emoções do 11/setembro estão à flor da pele, russos e chineses, à margem desses acontecimentos, buscam uma solução económico-financeira para uma menor dependência face ao dólar.
Se os 1.º’s foram empurrados para esta aliança de conveniência por força das circunstâncias, os 2.º’s vêm nestas circunstâncias uma forma de ganhar maior destaque no sistema mundial de transações comerciais.
Será interessante analisar daqui a uns tempos se este braço de ferro com imposição de sanções, não tornará o sancionado num ser mais forte e independente. A história o dirá.
E a UE, estará ciente das suas ações/consequências ou vai a reboque da visão “Obamizada” dos factos? Também aqui as dúvidas são mais que muitas.
Abraço
SAC

floribundus disse...

nunca me pronunciei sobre o futuro.
não faço como este Senhor

“¡Cataluña y Vascongadas, Vascongadas y Cataluña, son dos cánceres en el cuerpo de la nación! ¡El fascismo, remedio de España, viene a exterminarlos, cortando en la carne viva y sana como un frío bisturí!”
―José Millán-Astray

LV disse...

Caro João (Anónimo),

Agradeço desde já a análise que procurou fazer. Ela merece-me as seguintes considerações:

- quando começa por dizer que "minha opiniao nao tem sentido comparar o Ocidente com os BRICS. Estes nunca vao ser uma alternativa real ao dominio do Ocidente, enquanto persistirem com os seus graves problemas politicos e sociais", considera que os países que fazem parte da charneira dos BRICS (porque há logo um conjuntos de países que estão na segunda linha - Indonésia, Vietname, México, Filipinas, Turquia e Coreia do Sul) que estarão arredadas de progressos incríveis nos próximos anos? O facto inegável destas economias não estarem imunes aos "choques e jogadas" promovidas pelos economias e governos do Ocidente, não significa que essa dependência perdure muito mais. Estas sociedades (BRICS e associadas, digamos) demonstram variáveis decisivas para poderem suplantar o Ocidente, veja a demografia, veja a relocalização do tecido produtivo industrial, o crescimento da classe média (precisamente o oposto verificado por cá!), o aumento das taxas de poupança, as aquisições de ouro, prata ou matérias-primas fundamentais. Todavia, isso não significa que vá acontecer este ano. Mas que o movimento de mudança já começou, isso, julgo, é inegável. Que lhe parece?

- O João diz que é uma questão de Liberdade. Nada acrescentar, mas pergunto-lhe: as sociedades Ocidentais (que evidenciam índices de bem-estar muito superiores do que as sociedades dos BRICS - pelo menos para já) revelam estar a caminhar para garantir ou alargar o espaço da Liberdade dos seus cidadãos? As políticas levadas a cabo por instituições internacionais (FMI, BM, BIS, FED, etc e etc…) de verdadeira repressão financeira com custos importantes para as sociedades Ocidentais, revelam uma erosão acelerada da Liberdade e da "vantagem competitiva" a que o João faz referência para justificar a inultrapassável posição do Ocidente. Para além de que a sua posição parece não tomar a História como evidência do contrário.

- a dependência dos países BRICS (e associados) face aos seus recursos (alguns chamam até de maldição) naturais tem, efectivamente, permitido a manutenção de situações políticas e sociais condenáveis. Mas a a origem e a manutenção dessas situações é da responsabilidade de quem? É incentivada por quem? Com o intuito de dividir para reinar. De impedir que, por si, esses países possam transformar-se em sérios concorrentes económicos. Quem parecendo querer resolver, tem mantido o estado de coisas?

- naturalmente, o João compreenderá que ao assinalar estas vantagens (BRICS & companhia), não estou a caucionar totalitarismos ou lideranças. Certo?

- a perseguição da dissidência e da criatividade existe, seguramente, mas, lá como cá, é apenas uma questão de tempo para a "bota cardada e o arame farpado" caírem por terra; mais uma vez, a História;

(cont.)

LV disse...

(cont.)

- se as economias emergentes beneficiaram das deslocalizações de sectores produtivos (e o ocidente também beneficiou), isso conferiu-lhes vantagens que não se apagam ou desaparecem, assim as marcas que referiu deixarem de investir lá. Ao estarem lançadas as sementes de uma sociedade mais livre (por pequenas que sejam) é do próprio interesse das elites fomentar o crescimento de economias mais autónomas face ao exterior. Caso contrário, teriam uma bomba entre mãos que, combatida com terror e violência, assenta as bases da sua destruição. Olhe que a Malásia e o Vietname já são lugares com grande índice de localização de infra-estruturas industriais (ind. automóvel, electrónica). Quando refere a mão-de-obra barata e de execução repetitiva… bem ocorrem-me alguns países europeus que estiveram nessa situação… e no entanto… o João defende-as agora como tendo uma vantagem sobre os BRICS… basta ver a História, João e não esqueça que, só a China, já é o país que mais petróleo, ouro e carvão importa (entre outras commodities essenciais) e tem planos para construir 86, repito 86 centrais nucleares para satisfazer a necessidade de ser mais autónoma do ponto de vista energético.

- permita-me uma observação final acerca da sua passagem: "Por isso as sancoes do Ocidente vao colocar aquele pais em problemas económicos muito sérios, o que é uma excelente noticia para quem preza a liberdade e gostaria de conter uma potencia militarista e imperialista." Desengane-se João, as sanções têm fundamento no medo, não na defesa da Liberdade. Medo que os BRICS (destaquemos a Rússia e a China) possam assumir uma agenda autónoma, que retire a iniciativa ao Ocidente, nomeadamente um Ocidente refém de energia que não produz, mas que consome em grau crescente. As renováveis são um logro e uma fraude que os governos (pouco livres e sérios) querem manter com custos que vão chegar (na Alemanha já se discute o impasse a que o investimento nas "verdes" está a conduzir a indústria alemã). Não esqueça que o contrato que a Rússia e a China (energia e outros recursos) assinaram recentemente envolve quantias e valores que suplantam tudo o que na História quaisquer países tenham alguma vez acordado. E concluo colocando a seguinte hipótese: se fosse a China ou a Rússia a quererem colocar um governo "amigo" às portas dos EUA, acha que o POTUS ficaria a jogar golfe?

Caro SAC,

Coloca a questão nos termos que me parecem adequados. Não há certezas face a estas matérias, mas podemos ir somando os factos (que sintetizou muito bem) e antecipar eventuais cenários.
Por que razão o Congresso dos EUA têm em cima da mesa, desde 2010 (se não me engano), um conjunto de modificações para aprovar alterações na estrutura do FMI (não esqueçamos que os EUA têm um estatuto especial nestas instâncias) para contemplar uma distribuição mais "equitativa" do poder dentro do FMI, da emissão de moeda internacional (SDR´s) para acomodar os novos balanços e poderes que se deslocam para Oriente?
As mudanças estão em curso. Não as vemos até ao dia em que…

Caro António Cristovão,

O eixo Londres/Washington joga com a divisão aquém do Atlântico. Mas e o que fazemos nós? Os disparates franceses? As confusões italianas?
Essas divisões ficaram outra vez evidentes na questão da Ucrânia e das sanções à Rússia. Deixemos o Inverno chegar. Podemos assistir a mais evidências dessas fracturas, da ausência de visão realista dos problemas e a mesma sonolência do consenso europeu que tudo é suposto curar e reabilitar.

Saudações a todos,
LV