domingo, 2 de novembro de 2014

A quarta derrota britânica no Afeganistão

Depois da extraordinária herança deixada no Iraque, os Estados Unidos e os seus aliados, obtido um novo "sucesso" politico-militar no Afeganistão, encetam mais uma retirada de tropas, concluída que está, supostamente, a "missão" que justificou o seu envio. Como em outras ocasiões, deixam por lá um contingente de "conselheiros" e "instrutores" para auxiliar a integral assumpção das responsabilidades de segurança pelo exército (?) local. Deixam também uma florescente indústria do ópio (e heroína), droga com presença assídua nas guerras asiáticas em que as potências imperiais ocidentais participaram desde o século XIX até aos dias de hoje. É este o tema do artigo de Eric Margolis que me propus partilhar traduzindo-o. Margolis usa o seu profundo conhecimento no "terreno" da região cruzando-o com o sempre instrutivo e necessário enquadramento da história contemporânea da região.
Por Eric Margolis
1 de Novembro de 2014

Ninguém ousa classificá-la como uma derrota

Eric Margolis
Os últimos soldados britânicos saíram do Afeganistão na semana passada por via aérea, assim marcando o triste fim da quarta invasão falhada do Afeganistão pela Grã-Bretanha. Foram acompanhados pelo último destacamento de fuzileiros navais dos EUA que estava sediado em Helmand.

Muito tem feito o Afeganistão por merecer o epíteto de "cemitério de impérios"!

Para ser mais rigoroso, esta honra pertence às tribos pashtuns das montanhas do Afeganistão, que não dobram os seus joelhos perante ninguém e se orgulham do seu espírito guerreiro.

No meu livro, "War at the Top of the World" ["Guerra no Topo do Mundo" - NT], escrevi que os pashtuns eram "os homens mais valentes ao cimo da Terra". Mais tarde, acrescentaria os ferozes tchetchenos àquela fraternidade ilustre.

Os velhos imperialistas desapareceram, mas a ocupação do Afeganistão continua. O novo regime de Cabul, recém-instalado por Washington para substituir o anterior aliado e pouco cooperante Hamid Karzai, apressou-se a assinar um "acordo" que permite aos Estados Unidos manter cerca de 10 mil militares no Afeganistão por mais uns anos. Os seus membros não terão de observar as leis afegãs.

Todavia, há muito mais coisas neste arranjo. As tropas de combate dos EUA, diplomaticamente rotuladas de "instrutores" ou de "forças anti-terroristas", não são suficientemente numerosas para controlar todo o Afeganistão. A sua missão é a de defender o governo fantoche de Cabul do seu próprio povo e a crucialmente importante base aérea americana de Bagram.


Claramente, Washington planeia continuar a governar os destinos do Afeganistão e do Iraque à semelhança do que fez o Império Britânico. Um pequeno número de soldados britânicos guarnecia a capital; oficiais brancos comandavam o exército mercenário nativo. Mas o verdadeiro poder britânico era exercido pelas unidades da RAF [Força Aérea Real (britânica) - NT] estacionadas no Iraque e na província da fronteira noroeste.

Qualquer "perturbação" por parte dos nativos seria bombardeada e metralhada pela RAF. Nos anos 1920, Winston Churchill autorizou o uso pela RAF de bombas de gás venenoso contra os inquietos pashtuns e os membros das tribos curdas. Ironicamente, sete décadas depois, descobri cientistas britânicos que haviam sido enviados pelo governo de Sua Majestade para o Iraque para fabricar armas biológicas para Saddam Hussein as utilizar contra o Irão.

De modo similar, a "Pax Americana" será garantida pelo poder aéreo dos EUA estacionado em Bagram. Os aviões de guerra norte-americanos provenientes de Bagram, do Qatar, e dos porta-aviões disponíveis 24 horas por dia têm sido a única força que mantém o movimento dos talibãs pashtuns à distância. Sem a utilização intensiva do poder aéreo dos EUA, as forças de ocupação ocidentais, tal como os exércitos imperiais britânicos antes delas, teriam sido expulsas do Afeganistão.

Sem o recurso ao poder aéreo americano, as tropas de guarnição e um grande número de "contratados civis" e de mercenários à moda antiga, o regime fantoche de Cabul rapidamente desapareceria. O exército governamental do Afeganistão é provável que se desmorone tão rapidamente como sucedeu ao do Iraque perante o ISIS. A maior parte do sul do Afeganistão para declarar aos talibãs que, no entanto dura, é o único movimento político autêntico do país além dos tadjiques e dos uzbeques comunistas no norte.

A guarnição americana em Cabul continuará a manter o Afeganistão seguro para o cultivo do ópio, que é a base da heroína. Os americanos limitaram-se a fazer vista grossa ao facto de serem os "proprietários" do maior produtor mundial de heroína.

Enquanto Washington produz oratória sobre a designada "Guerra às Drogas", a produção de ópio no Afeganistão aumentou em 2013 de 2 para 3 mil milhões de dólares. A ONU afirma que mais de 200 mil hectares de terra no Afeganistão estão agora dedicados à cultura da papoila do ópio - sob os olhos da guarnição militar americana.

Embora os governantes instalados pelos EUA em Cabul finjam ser favoráveis à erradicação do ópio, os senhores da guerra rurais que os apoiam, e fazem parte da folha de salários da CIA, continuam a enriquecer com o comércio de ópio. A tentativa de culpar os talibãs pelo flagelo do ópio é desonesta: quando os talibãs ocuparam o poder eles praticamente erradicaram a produção de ópio do país, segundo informação do Gabinete da ONU para a Droga e a Criminalidade, excepto na região controlada pela Aliança do Norte comunista que hoje partilha o poder em Cabul.

Foto daqui
Quando toda a história da guerra no Afeganistão for finalmente escrita, o envolvimento da CIA no tráfico de drogas naquele país constituirá um notório episódio. Os serviços secretos franceses envolveram-se profundamente no comércio de ópio do Laos para pagar os seus mercenários locais. Os EUA estiveram enterrados até ao pescoço com os seus aliados "Contra" na comercialização de cocaína na América Central.

Agora, os serviços de inteligência dos EUA mancharam o seu nome mais uma vez com a cumplicidade e ajuda que deram aos barões da droga no Afeganistão com a finalidade de, supostamente, combater os "terroristas". No paupérrimo Afeganistão, há apenas duas fontes de rendimento: o dinheiro de Washington e o proveniente dos narcóticos. A conivência de altos membros do governo, dos militares e da polícia é necessária para exportar toneladas de ópio seja para o Paquistão, como para a Ásia Central ou para a Rússia - onde a dependência da morfina é hoje uma epidemia grave.

A acrescentar a este registo vergonhoso, o auditor do Congresso dos EUA para a Reconstrução do Afeganistão acaba de informar que grande parte dos 104 mil milhões de dólares alocados à "reconstrução" do Afeganistão foi, sem surpresa, desperdiçado ou roubado. Parte foi usada para irrigar as plantações da papoila do ópio. As peças sobressalentes não estão disponíveis para os helicópteros russos comprados pelos EUA para utilização no combate aos talibãs e no suposto combate ao ópio. Porquê? Porque a imposição de sanções comerciais por parte dos Estados Unidos à Rússia proíbe os EUA de comprar essas peças. Artigo 22.

Até ao momento, a guerra mais longa da história dos EUA custou cerca de 1 milhão de milhões de dólares, talvez mesmo mais. Ninguém pode correctamente contabilizar os milhares de milhões e milhões de dólares despejados no Afeganistão e no Iraque e distribuídos aos indígenas - ou o número de afegãos mortos.

Para os aliados de Washington, como o Canadá e a Grã-Bretanha, a guerra foi um total desperdício de vidas e dinheiro. Para o Canadá, 158 mortos em troco de nada; para a Grã-Bretanha, 453. Esqueçam-se todas as falsas alegações acerca da "missão" e da "construção da nação". Isto tem sido mais uma pequena e suja guerra colonial que é melhor esquecer - e não repetir. Portanto, esta é uma guerra que irá ferver em lume brando, pelo menos até que Washington encontre alguma maneira de salvar a face do caos no Hindu Kush.

Fossem os EUA sábios, limitar-se-iam a abandonar o Afeganistão. Mas o poder, como o ópio, é altamente viciante. Por conseguinte, a guerra mais longa da América vai continuar a arrastar-se por mais uns anos.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Tenho pena que os jornalistas bons, que os há, não informem mais que as "agencias" lhes dão.