quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Pico quantos? (versão 2014)

Passaram menos de duas semanas sobre a publicação deste artigo (registo necessário) no Wall Street Journal, e é espantoso o trajecto seguido pelas cotações do petróleo desde então. Veremos até quando e onde irão os tenebrosos especuladores na sua ganância no seu perturbador altruísmo... Para além de outras importantes questões - no domínio da geopolítica mundial e do eventual rebentar da provável "bolha", alimentada por cortesia da Fed através do "milagre" do crédito abundante e barato, em boa parte (que parte?) responsável pelo espectacular ressurgimento dos EUA como produtor de petróleo -, a minha intenção com a tradução deste artigo queda-se no revisitar do recorrente tema do esgotamento "iminente" do petróleo, para o voltar a negar pela n-ésima vez (o "paradoxo da finitude"). A oportunidade surge também com a confirmação entre nós de um novo aumento de preços nas tarifas da electricidade para 2015. Este, conforme se tornou vincado de 2009 para cá, tem uma componente visível e uma outra "invisível" (défice tarifário, leia-se, novos aumentos futuros nas tarifas) que ultrapassará os 5 mil milhões de euros no ano que vem! No edifício argumentativo dos promotores das irremediavelmente intermitentes, e por isso não confiáveis, "novas renováveis", faz parte uma suposta inevitabilidade: a de que os preços da energia de origem fóssil iriam subir muito. Daí que achem irrelevante, quando não impertinente ou "marialva" (Moreira da Silva dixit), discutir esta coisa dos aberrantes sobrecustos que a sua sobre-adopção impõe e que, no cair do pano, até mesmo dos submarinos surgem "contrapartidas".

The Wall Street Journal
4 de Dezembro de 2014

O "pico do petróleo" desmistificado uma vez mais ainda

Foi há 216 anos que Thomas Malthus criou a ideia de que o apetite do homem pelos recursos naturais iria ultrapassar a capacidade da natureza em fornecê-los. Desde então que ocorrem alertas regulares segundo os quais o mundo estaria a assistir ao esgotamento da soja, do hélio, do chocolate, do tungsténio, etc., e que o crescimento da população se teria tornado insustentável. Os alarmes provocam um pânico político ou social durante algum tempo, até que vêm a revelar-se errados.

O mais recente embate com a realidade é o fim da obsessão com o "pico do petróleo" que durante anos levou pessoas sérias a proclamar que estávamos a entrar numa era de permanente escassez de combustíveis fósseis. Não foi isso que se verificou.

Imagem do Wall Street Journal
Esta é uma lição central a retirar da dramática queda no preço do petróleo neste ano, que chegou aos 69,49 dólares no barril do Brent de quinta-feira vindo de um máximo em Junho de 112,12 dólares. Ainda recentemente, nos inícios de Novembro, quando o petróleo oscilava em torno dos 80 dólares, funcionários da OPEP advertiram que iriam intervir para "segurar" o preço nos 70 dólares. Mas as autoridades sauditas recusaram-se visivelmente a anuir num corte na produção na reunião da semana passada da OPEP, e o ministro saudita do Petróleo, Ali al-Naimi, deixou bem claro que se sentiria confortável com preços mais baixos.



O cálculo a curto prazo dos sauditas passa por fazer descer os preços do petróleo com a finalidade de "espremer" os seus adversários geopolíticos e os produtores com custos mais elevados. Isto dirige-se especialmente aos seus adversários do outro lado do Golfo Pérsico - o Irão - cujas receitas dependem das exportações de petróleo em mais de 40%, e onde o regime construiu o seu orçamento na base de uma cotação de 100 dólares para o barril de petróleo.

Os sauditas têm também a esperança de fazer abrandar o crescimento explosivo da produção norte-americana, que, graças à exploração dos recursos domésticos de xisto, através da conjugação da perfuração horizontal e da fracturação hidráulica (fracking), aumentou para cerca de nove milhões de barris por dia quando era de cinco milhões em 2008. Segundo algumas estimativas, o preço do petróleo tem de ser pelo menos de 90 dólares o barril para o que extraído nos depósitos “tight” como é o caso do shale, embora a IHS, empresa de estudos do mercado do petróleo, acredite que a maioria dos poços de petróleo tight tenham o ponto de break-even entre os 50 e os 69 dólares o barril.

Mas mesmo que a jogada saudita venha a fazer diminuir a perfuração (drilling) nos EUA, a Agência Internacional de Energia prevê que a produção dos EUA irá superar a produção da Arábia Saudita de 9,7 milhões de barris por dia, e ultrapassar os 10,3 milhões da Rússia, talvez já no próximo ano. Isso tornaria a América no maior produtor de petróleo do mundo, posição que já foi a sua desde o alvorecer da era do petróleo até 1974. Graças à explosão do fracking, os EUA ultrapassaram a Rússia enquanto maior produtor de gás natural do mundo em 2013.

Tudo isso é uma recordação útil, como o membro da IHS, Daniel Yergin, nos referiu há uns tempos, que "a tecnologia reage às necessidades e aos preços". Foi o que sucedeu na década de 1970, quando o mundo respondeu aos embargos da OPEP através da exploração de novos recursos no Alasca e no Mar do Norte, e novamente nas décadas de 1980 e 1990, quando a perfuração offshore se tornou tecnologicamente viável e economicamente rentável a profundidades cada vez maiores. E é de esperar mais por parte dos mesmos, à medida que os “fracturadores” continuem a descobrir novas formas de redução de custos, e novos depósitos de xisto em lugares como o México, a Ucrânia e a Argentina comecem a ser explorados.

Também importa recordar o quão espectacularmente erradas se revelaram algumas das recentes previsões catastrofistas. Isto é como caçar galinhas na capoeira, mas eis Paul Krugman, em Dezembro de 2010, a proclamar que o "pico do petróleo chegara".

"O que os mercados das commodities nos estão a dizer", asseverou Krugman, "é que vivemos num mundo finito, onde o rápido crescimento das economias emergentes, exercendo pressão sobre os stocks limitados de matérias-primas, pressiona os preços em alta. E a América é, em grande medida, não mais que um espectador nesta história." Longe de ser um espectador, a América tem sido o principal inovador no mercado do petróleo.

Este catastrofismo é particularmente embaraçante porque os alertas relativos ao "pico do petróleo" são quase tão antigos quanto a indústria do petróleo. No seu livro "The Quest", Yergin relata que, em 1885, o geólogo do estado da Pensilvânia advertiu que "a incrível exibição do petróleo" era "um fenómeno temporário e destinado a dissipar-se - um que os homens jovens irão viver para assistir à chegada do seu fim natural."

Dado este registo de erros preditivos de 130 anos, por que razão persiste o mito do fim do petróleo? Parte do problema está no facto de o "pico do petróleo" ser mais um desejo do que uma previsão -  o desejo de assistir ao fim dos combustíveis fósseis para atender a uma agenda política de maior alcance. É também uma forma de assustar os governos e os levar a despejar dinheiro em fontes alternativas de energia que não podem competir com o petróleo e o gás natural sem ser através de subsídios e regulamentações. A previsão do desastre também pode constituir um negócio lucrativo e um caminho para celebridade construída pela via dos discursos.

O final feliz é que a noção de que o mundo está a ficar sem recursos acaba sempre por falhar porque o engenho dos empreendedores, estimulado pela necessidade e pelo incentivo, é sempre maior que a imaginação dos profetas da desgraça. É o que estamos novamente a aprender; esperemos que, desta vez, as memórias sejam mais duradouras.

7 comentários:

inphinitorumdotcom disse...

Caro Eduardo, gostei do artigo.

A questão que coloco é, atingimos o pico tecnológico?

Porque razão há mais de um século estamos reféns desta fonte de energia poluente, finita e regional, atingido ou não o pico. E só por analogia a perfuração hidráulica e a exploração offshore, com os seus custos ambientais inerentes, não são o puro acto de espremer a fonte, na qual nada podem acrescentar!

Um bem haja.

JS disse...

Uma pequena maravilha, para quem sabe ler.
"... É também uma forma de assustar os governos e os levar a despejar dinheiro ..." dos contribuintes... Óptimo Natal.

António Barreto disse...

As economias, como as da UE, que investiram forte e feio nas renováveis no pressuposto do preço de cerca de 110 USD do petróleo, enfrentam agora uma tremenda desvantagem competitiva encontrando-se perante o grave dilema de manter a trajectória - o mais provável - empobrecendo, ou inverter a estratégia.

Anónimo disse...

caro Eduardo

o seu blog está na minha restrita lista de blogues portugueses que subscrevo.
a sua análise sobre o peak oil decepcionou-me, porque há anos que se se sabe que o problema não é o esgotamento de petroleo, mas sim o esgotamento do petroleo barato, como o seu artigo implicitamente confirma.
dado que é espectador e interessado deixo-lhe entretanto fonte de informação fidedigna (WM): http://www.intrepidreport.com/archives/14736. já li que esta estratégia não funcionará. deixo a respectiva análise à sua curiosidade .

comentador interessado

Anónimo disse...

Este pandego do Paul Krugman é um Nobel. Realmente não percebo nada disto.
Ainda no final do mês de Novembro na sua coluna do NYT veio "explicar" aos simples mortais, que o problema da Europa era a Alemanha. De entre os vários problemas detectados na economia Alemã, pela eminencia económica destacam-se :

Baixo Consumo Alemão,
Baixa Inflação,
E Exportações Excessivas.

Estes "erros económicos" da Alemanha estão a causar imensos problemas a países (modelo - acrescento eu ) como a Grécia, França e Itália.

http://www.nytimes.com/2014/12/01/opinion/paul-krugman-being-bad-europeans.html?rref=collection%2Fcolumn%2Fpaul-krugman&_r=0

Só queria acrescentar um último comentário para o caro anónimo das 10:18:
Só existe petróleo, não existe petróleo barato ou caro, não percebo qual o motivo pelo qual este blog desceu na sua consideração.

cumps

Rui Silva

Anónimo disse...

Depois de enviar o meu comentário, lembrei-me que provavelmente o caro anonimo das 10:18 estaria classificar de "caros" os combustíveis que metemos nos caros nas estradas cá no burgo.
Se for isso, admito a sua classificação de petróleo "caro".

cumps

Rui Silva

Eduardo Freitas disse...

O meu pedido de desculpas prévio pelo atraso com que respondo aos comentários dos leitores.

Caro inphinitorumdotcom,

Nunca fui um adepto da "inevitabilidade do progresso" e há múltiplos exemplos, inclusivamente na disciplina da Economia, de regressão do conhecimento. Thomas S. Khun, em "A Estrutura das Revoluções Científicas", ofereceu-nos uma explicação, que permanece plausível desse facto. Às vezes por razões ambientais exógenas, caso da Tasmânia, outras, bem mais frequentes, atribuíveis ao entorno do poder e caldo cultural (a China dos mandarins vem-me à memória).
Dito isto, não vejo razão alguma que sustente a tese de um "pico tecnológico". Na exploração dos combustíveis fósseis como noutras áreas quaisquer.

Caro JS,

Um Feliz Natal também para si. Se possível, aprimorado por boas leituras.

Aproveito também a ocasião para agradecer a sua participação interessada no EI, também traduzida na regularidade e relevância dos seus comentários.

Caro António Barreto,

Partilho integralmente da sua observação. A combinação do maníaco politicamente correcto com a corrupção científica, produziu (produz) um discurso esquizofrénico que é um veiculo de negação das mais básicas realidades que, na mais pia das hipóteses, é do domínio da fantasia.

Caro Anónimo das 10:18 (de 19/12),

"Barato"/"caro"? Comparado com o quê e em que janela temporal?

Obrigado pelo seu interesse quanto aos conteúdos do blogue (a duas mãos desde o início deste ano) como pela indicação do link que forneceu. Sobre este último, e ainda que as estatísticas de produção dos membros da OPEP sejam reconhecidamente opacas, desta vez não creio que tenham sido os sauditas a "abrir as torneiras". O que certamente aconteceu foi que se recusaram a diminuir o seu débito (como tantas vezes aconteceu no passado o que, de resto, é um dos segredos da invulgar, se não única, duração deste cartel).

Caro Rui Silva,

Há muito que Paul Krugman abandonou a sua condição de economista (se é que alguma a vez a teve...) para se tornar um activista político promotor de um cada vez maior estatismo.

Também partilho as suas observações quando ao carácter relativo dos preços.

Obrigado pelos vossos comentários, permitam-lhe que termine desejando-vos um Feliz Natal.

Saudações.

Eduardo Freitas