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quarta-feira, 4 de abril de 2018

São círculos, senhor.


O novo truque, ou jogo de palavras, que o ministro das finanças sacou da manga é eficaz. Eficaz, pois o escrutínio dos argumentos que suportam o "racional" (notem-se as aspas) da justificação de que a carga fiscal dos portugueses não subiu está ausente. Grande excepção o artigo de Ricardo Arroja.
Só discordaria do título. Não é um cisma aquilo que, julgo, Arroja quer evidenciar. Aquilo que o artigo bem mostra é a natureza da acção e discurso políticos, no que toca a estas ou quaisquer outras matérias. E a dissimulação, o entorse e a manipulação têm lugar central naqueles domínios.
Para mim basta a simples simples constatação do seguinte:

Ainda que a argumentação de Centeno fosse consistente, o que espanta é a ausência da consciência (de muitos, pelos vistos) de que a massa salarial dos portugueses podendo aumentar, também pode, pelo contrário, diminuir. Efectivamente, essa é uma variável sensível e exposta a conjunturas, desempenhos e articulações muito complexas que ninguém está em condições de garantir.
De natureza diversa, a carga fiscal (uma constante), que por decreto se determina e pela força se impõe, tende a ser estrutural, duradoura e inflexível na sua aplicação.

Apenas este detalhe deveria ser suficiente para rejeitar mais este truque dos curadores de serviço. Muito aquém do conhecimento e acutilância que Arroja expõe no artigo que escreve, esta simples estupefacção que aqui se indicou, julgo, seria suficiente para mostrar o abuso na acção e no discurso políticos.

Não há muito se assinalou a circularidade destes truques. Mas essa é a natureza do jogo a que somos obrigados a assistir.
No lado de dentro do círculo. De fogo.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Citação do dia (167)

"No seu “World Economic Outlook” de Outubro de 2012, o FMI analisa com detalhe as provas práticas da austeridade e não gostou do que encontrou. Em particular, o FMI concluiu que o multiplicador associado ao aumento da carga fiscal pareceu maior do que tinham, previamente, assumido. Ou seja, por cada aumento da carga fiscal há uma contracção económica correspondente, que é maior do que se esperava. Isto resulta numa maior diminuição da actividade económica e ao, infeliz, desfecho de aumentar a percentagem da dívida pública face ao PIB. Que seria o oposto do esperado e desejado. Enquanto o FMI prefere não usar o termo, o que acabei de descrever é a armadilha da dívida.
A partir de um certo ponto, uma economia acumula mais dívida do que aquela que pode pagar sem recorrer a uma desvalorização da moeda. No caso desses países terem recorrido a crédito numa moeda estrangeira, então nem a desvalorização funcionará e alguma forma de reestruturação ou incumprimento se tornam necessários para liquidar a dívida.
O FMI está, tacitamente, a admitir que aquelas economias da zona euro que estão em esforço – e para já a falhar – na aplicação da auteridade, são vítimas da armadilha da dívida."

“As novas roupas dos keynesianos” – John Butler