terça-feira, 11 de março de 2014

O que importa é a peça

Comunicação e mercado – guião e coreografia

O texto que a seguir se traduz é um exercício para identificar a natureza do guião da verdade oficializada. É uma tentativa de elencar os movimentos daquilo que, parecendo desconexo ou contraditório, acontece no palco daquela verdade alinhavada.

Parte de um texto maior, que desde já convidamos os leitores a considerar, é um convite a considerar aquilo que não é manifesto nos actos e nas palavras daqueles que levam a cabo a encenação de um guião que acabará por determinar o conteúdo da própria opinião pública acerca do que acontece. Esse guião oficial transporta, no desenrolar da sua encenação, as ferramentas da sua descodificação, semelhante a um ready-made. O guião contém os parâmetros da sua compreensão partilhada.

Os agentes dessa peça comunitária são políticos, empresários do regime, economistas, jornalistas ou governadores de bancos centrais. Acrescentaria também comentadores, de ofícios vários, mas que ocupam um lugar nos canais de comunicação convencionais.

Antes de avançarmos, tenhamos presentes alguns actos que vão enriquecendo a trama. Comecemos por considerar a seguinte peça jornalística. Dela destaco apenas uma passagem, que traduzo: "Fratzscher disse que o BCE deveria comprar dívida de todos os países da zona euro - incluindo da Alemanha - numa base proporcional para retirar toda a Zona Euro do baixio onde se encontra." Já aqui se fez referência à decisão do tribunal alemão em descartar responsabilidades na condenação ao BCE e às suas acções para salvar o euro.

Na semana passada, Draghi aludiu a uma ilha de estabilidade quando se referiu ao euro e este encontra-se em máximos de três anos face ao dólar. O que numa economia que está "nos baixios" não permite antecipar nada de bom.

Barroso (re)afirmou recentemente que a crise estava para trás. Registam-se descidas importantes nos juros da dívida portuguesa (e não só). Vemos tudo isto, mas sabemos porque sucedem estas cenas? Por exemplo, sabemos como podem os países em grandes dificuldades financeiras (e respectivas junk bonds), numa economia que está "nos baixios", ter os seus juros a baixar?

O que nos diz o guião acerca disso?
Há uma tendência a tratar a comunicação económica – seja de um famoso director geral, de um conhecido investidor, economista ou governador de um banco central – como sendo depurada da natureza teatral, sem alcance cénico ou atenção coreográfica para além da sua expressão política imediata. Mas isto é um erro.
Quando Ben Bernanke disse que a FED iria usar as suas comunicações e anúncios públicos como expressão do seu mandato, estava a declarar que era sua intenção iniciar o jogo linguístico. Mais, que iria jogar esse jogo de um modo mais sério do que no passado. Quando Jean-Claude Juncker – antigo primeiro ministro do Luxemburgo e chefe do Eurogrupo – disse acerca da política monetária europeia que “quando as coisas ficam sérias, é preciso mentir”, ele estava apenas a dizer aquilo que qualquer jogador vitorioso sabe: por vezes é necessário fazer bluff. Alguns banqueiros centrais são muito bons jogadores de póquer – como Draghi, por exemplo. Se não compreendermos as regras deste jogo, se não ouvirmos o que está a ser dito no contexto deste jogar, então estamos em clara desvantagem face a quem o consegue fazer. Não compreenderemos o fundamento do que existe atrás das declarações públicas, não compreenderemos PORQUE são pronunciados.

Neste momento decorre um jogo linguístico nos meios de comunicação financeira que é importante para a compreensão dos resultados que o mercado evidencia.

O significado mais profundo do que é afirmado na CNBC (canal de informação financeira - nt) nada tem de análise de investimentos específicos ou de notícias. A CNBC não poderia estar menos preocupada com o conteúdo daquilo que transmite. O propósito do jogo da CNBC não é dizer-nos o QUE pensar, mas antes COMO pensar. Pensar acerca do investimento nos termos dos relatos consensuais de um analista face a fundamentos técnicos. Ou assumir como inteligentes certas opções de investimento. Ou - ainda – como investem os tipos mais bem sucedidos.

Por que razão é que isso acontece? Porque a CNBC pode criar, à sua discrição, conteúdos televisivos pouco dispendiosos para dar resposta a essa procura, permitindo-lhes vender publicidade e dinheiro das assinaturas. Não há nada de mal nisto. É o que fazem as empresas de comunicação social geradoras de lucros. Mas o conteúdo que elas vão produzindo não é um conteúdo menos coreografado que o discurso do Estado da União, nada menos do que um jogo com múltiplos planos e precisa de ser entendido como tal. – W. Ben Hunt, “The Play´s the Thing

E tivemos conhecimento - hoje - de um manifesto contra a austeridade. Identificando o (apenas aparente) leque variado dos seus assinantes e a sua recepção junto do primeiro-ministro temos a oportunidade de vislumbrar mais um acto. Não esqueçamos: o que importa é a peça.

4 comentários:

JS disse...

Mais uma vez, parabéns.
Concorrer com "côdeas & futebole" é nobre .. mas quixotesco.

floribundus disse...

'a bola é qu'instrói,
a pulítica é qu'induca'

pensa que os 70 sábios (bruxa velha incluida) que criaram a dívida a iam pagar do seu bolso

'siga o enterro'

LV disse...

JS,
Se por aqui escrevem teimosos, não parece que ignorem a realidade. E a nobreza de carácter é sempre um bem.
Constatações partilhadas pelos leitores, como bem provam os comentários, como é o caso do seu.
Saudações,
LV

Antonio Cristovao disse...

o comentário de que procuram reformar para poderem aos gastos e "investimento" para o crescimento parece-me razoavel, mas acrescentava tambem que me parece uma tentativa de renovar os votos com largas franjas do eleitorado que começaram a mover o pé para fora do sistema ainda talvez sem saberem se vão para a abstenção (bençãopara os do governo) se para novas alternativas que se apresentem crediveis = o Partido dos Cidadãos Comuns era um prometedora iniciativa (na India ficou em 2º no ano de estreia).