sexta-feira, 25 de julho de 2014

Cavalos Furtivos

Moldar percepções e expectativas

Gaston Phoebus, “Livre de Chasse” (1387)


O artigo que a seguir se publica foi traduzido e editado por mim a partir do original (mais longo e rico), cuja leitura se recomenda vivamente.
O Cavalo Furtivo”, Ben Hunt - 21 de Julho de 2014

Na guerra, a verdade é a primeira vítima” – Ésquilo

O cavalo furtivo é uma técnica de caça muito antiga onde o caçador consegue uma vantagem importante ao esconder-se atrás de um cavalo (ou da sua representação), levando a presa a considerar familiar ou natural o que está a ver. E a presa não sabe quantos pés tem o cavalo.
Os mercados de hoje estão atafulhados com cavalos furtivos, não para proceder a triviais aquisições hostis, mas para estabelecer objectivos macroeconómicos que são motivados politicamente. Seja o uso das palavras para criar representações furtivas ou o investimento num determinado activo para montar o mesmo cavalo furtivo, os governos são, hoje em dia, muito mais manipuladores do que em qualquer outra altura desde os anos 30. Muito pouco é o que parece nos mercados de hoje.
E sim, nós somos as presas. Somos nós os veados.

Aqui está um bom exemplo do que quero dizer. Recentemente o Wall Street Journal publicou um artigo com o título “A China desempenha importante papel durante a descida dos juros da dívida americana”, destacando, essencialmente, o ritmo e a quantidade de aquisições desde o início de 2014. (...)
A razão pela qual caracterizo estas aquisições chinesas como um cavalo furtivo assenta tanto no significado dessas compras para o governo chinês, bem como na percepção dessas compras por parte dos participantes no mercado.
A China não compra dívida americana pelas mesmas razões que um outro fundo de investimento. A China não é um comprador económico que toma a sua decisão baseada nas avaliações globais de crescimento. Não, a China é um comprador estratégico que adquire activos denominados em dólares para enfraquecer a sua própria moeda e, assim, agitar o crescimento doméstico pelo aumento das exportações. (...)
O interesse nisto é analisar a percepção que os participantes no mercado fazem dessas aquisições, em particular como não sendo a justificação para a queda nos juros. Como se a China não existisse, fosse invisível, que é exactamente o que a China quer que seja percepcionado.
A incapacidade do mercado em reconhecer que essas aquisições se destinam a enfraquecer o Yuan é, exactamente, a mesma incapacidade que a presa tem reconhecer que o caçador está por detrás do cavalo para conseguir o melhor tiro. O mercado tem acesso a toda a informação, tal como o veado que tem o cavalo à sua frente e vê quantos pés tem o cavalo. Nós vemos os seis pés debaixo do cavalo, mas não compreendemos o seu significado. Este é o segredo da estratégia do cavalo furtivo. (...)
O que estou a dizer é que na Idade de Ouro dos Bancos Centrais é impossível distinguir as razões económicas fundamentais para o movimento dos preços dos activos, das razões estratégicas politicamente motivadas. (...) E não são só os programas, as políticas ou os comportamentos no mercado (como o da China) que são os cavalos furtivos. Quando as palavras são usadas para obter efeitos estratégicos, mais do que veicular informação genuína, então, está criado o cavalo furtivo virtual.
Isto refere-se a todas as palavras usadas por políticos ou por governadores dos bancos centrais.
É isto que Bernanke, Yellen, Draghi, Abe, Obama e Merkel querem dizer quando se referem a uma política de comunicação. Esta é o uso estratégico das palavras para moldar percepções e expectativas. É por isso que a autenticidade é rara como um unicórnio no mundo público de hoje."

2 comentários:

JS disse...

Muito bom.
Por vezes certas presas até vêem e sabem contar pernas. Um cavalo com seis pernas é obviamente ou um embuste ou uma aberração da natureza.

Há, no entanto, quem defenda a pés juntos, como genuíno semelhante animal. Guarda de caça?. Serão também beneficiários da caçada?.
Saudações e boas merecidas férias.

LV disse...

Caro JS,

O que se aponta é, precisamente, o facto de nós podermos contar as pernas, mas nem sempre sermos capazes de compreender o que isso significa. Vemos, mas não entendemos. Participamos, mas não sabemos a que propósito. A peça a isso obriga.
Eu acrescentaria que, assim que as "presas" se dão conta da aberração, o mal está feito e o pináculo trágico é atingido. Sobram alguns (muito poucos) vencedores/ caçadores e todos os outros jazem por terra. Até por aqui se pode descortinar o rico potencial desta narrativa para a enriquecer ideologias políticas que reagem - APENAS APARENTEMENTE - ao desenrolar do jogo. É que estes pólos alimentam-se um ao outro.
O que é surpreendente é que o guião não permite sobressaltos nessa trama. Até que venha um Missionário para mostrar aquilo que todos sabem, mas têm medo de assumir.

Por aqui há quem vá tentando ler o guião e antecipar os próximos actos desta peça. Até porque é possível ser uma "presa" igualmente mais furtiva.

Saudações e, se for caso disso, bom descanso,
LV