terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Irão: Guerra ou Paz?

Mais um excelente artigo de Patrick J. Buchanan, na The American Conservative, que procurei traduzir na íntegra pela sua actualidade e importância. "Pat" Buchanan, que foi candidato à nomeação pelo partido republicano às eleições presidenciais de 1992 e 1996, é um paleoconservador, um homem da Old Right.
«David Petraeus, comparecendo ao lado do director da CIA, James Clapper, perante o Comité de Intelligence do Senado na semana passada, o director dos serviços secretos afirmou sobre o Irão: "Nós não acreditamos que eles na realidade tenham tomado a decisão de prosseguir com a construção de uma arma nuclear."

Antes da audiência, como relata James Fallows do The Atlantic, Clapper divulgou a sua "Avaliação de ameaças em todo o mundo." Nela lia-se: "Não sabemos ... se o Irão irá eventualmente decidir-se por construir armas nucleares."

Clapper reafirmou assim a avaliação de 16 serviços de informações dos Estados Unidos em 2007, alegadamente repetida em 2011, segundo a qual os EUA não acreditam que o Irão tenha decidido tornar-se num estado dotado de armas nucleares.

Em Dezembro, quando o secretário da Defesa Leon Panetta, disse que se o Irão apostasse tudo, talvez pudesse ser capaz de construir uma arma nuclear num ano, o porta-voz do Pentágono George Little apressadamente esclareceu aqueles comentários: "O secretário foi claro pois não temos qualquer indicação de que os iranianos tenham tomado a decisão de desenvolver uma arma nuclear".

Em 8 de Janeiro, o próprio Panetta disse à CBS: "(Está o Irão) tentando desenvolver uma arma nuclear? Não. Mas nós sabemos que eles estão tentando desenvolver capacidade nuclear. E é isso que nos preocupa. E a nossa linha limite para o Irão é: Não desenvolvam uma arma nuclear".

No Super Bowl no domingo, o presidente Barack Obama disse a Matt Lauer da NBC, que espera resolver o problema iraniano "diplomaticamente".

Do acima exposto, podemos concluir que a administração não acredita que o Irão tenha cruzado qualquer linha limite sobre a questão nuclear - e o presidente Obama não deseja a guerra com o Irão.

Quem, então, quer a guerra? O Ayatollah Ali Khamenei? O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad?

Julgando pelas suas acções, dir-se-ia que não. Se o Irão quisesse a guerra com os Estados Unidos, qualquer ataque terrorista no interior deste país ou sobre as forças dos EUA no Iraque ou no Afeganistão seria possível ser levado a cabo numa tarde.

A expulsão dos inspectores internacionais da Agência Internacional da Energia Atómica da unidade de enriquecimento de Natanz, a obstrução das câmaras da AIEA, o rompimento dos selos do urânio pouco enriquecido (UPE) lá armazenado, ou a remoção do UPE seria como que uma campainha de alarme para o Pentágono.

Mas os inspectores da AIEA e o UPE ainda lá estão.

Quando a alegada conspiração levada a cabo por um vendedor de carros usados ​​no Texas para contratar criminosos de um cartel mexicano para fazer explodir um restaurante em Washington D.C. e matar o embaixador saudita foi revelada, o Irão negou enfaticamente qualquer envolvimento e exigiu entrevistar o suposto mentor.

Além do mais, Teerão ainda não retaliou pelos assassinatos de cinco dos seus cientistas nucleares e dos quatro ataques terroristas levados a cabo pela Jundallah no Sistan-Baluquistão e pelo PJAK, uma organização curda terrorista que opera a partir do Curdistão iraquiano. O Irão alegou envolvimento de ocidentais e israelitas nesses ataques.

Agora que a secretária de Estado Hillary Clinton negou qualquer envolvimento dos EUA, a Mossad é o principal suspeito por trás do assassinato dos cientistas nucleares. E nos EUA o escritor Mark Perry, na Foreign Policy, alega que agentes do Mossad se fizeram passar por elementos da CIA e usaram dólares norte-americanos ​​em Londres para recrutar a Jundallah.

Se isto for verdade, esta seria uma operação clandestina para provocar o Irão a atacar a América. Aparentemente, o Irão não mordeu a isca.

Por que não prosseguiram os iranianos a sua ameaça de fechar o estreito de Ormuz e pelo contrário começaram a recuar nessa ameaça?

A guerra com os Estados Unidos seria um desastre. Embora o regime de Teerão pudesse sobreviver - como Saddam Hussein sobreviveu à "Tempestade no Deserto" - a marinha do Irão, a maior parte do seu armamento, das defesas anti-aéreas e anti-navio e a sua força de mísseis estratégicos seria destruída, como seria muita da infra-estrutura do país. O Irão recuaria anos.

Quem, então, quer a guerra com o Irão?

Todos aqueles que gostariam de a ver exactamente acontecer ao Irão.

E quem são eles? O governo de Netanyahu e a sua câmara de ressonância na política dos EUA e nos media, os neoconservadores, os membros do Congresso, Newt Gingrich e o Rick Santorum.

E como a administração Obama é a força principal na política dos EUA que se opõe à guerra com o Irão, a sua derrota em Novembro aumentaria, à quase certeza, a probabilidade de uma guerra dos EUA com o Irão em 2013.

No entanto, se o Pentágono dos EUA e os serviços de informações estão correctas - o Irão não tem uma bomba e não decidiu construir uma bomba - por que deveríamos entrar em guerra com o Irão?

Resposta: o Irão representa "uma ameaça existencial" para Israel.

Mas Israel tem 200 bombas atómicas e três formas distintas de as lançar, enquanto o Irão nunca construiu, testou ou armou um dispositivo nuclear. Quem é a ameaça existencial para quem aqui?

E apesar de que uma guerra dos EUA contra o Irão seria desastrosa para o Irão, ela não seria nenhum passeio para os americanos, que poderiam tornar-se alvos terroristas durante anos no Golfo, Afeganistão, Zona Verde de Bagdad, Líbano e mesmo aqui nos EUA.

O ano de 2012 está assim se configurando numa eleição de guerra ou paz, com os Republicanos a representarem o partido da guerra e os Democratas o partido da paz e da diplomacia.

E com o passar dos meses daqui até Novembro, tal tornará-se-á claro para a nação.»

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro EF,

1. Se houver guerra Israel - qualquer que seja a perspectiva em que analise a situação - ficará sempre pior do que aquilo que já está. O único papel que está sempre reservado a Israel, é o de servir de bombo da festa. Infelizmente parece que eles se fartaram disso na Segunda Grande Guerra Mundial...

2. Não sei se Israel tem 200 bombas nucleares, mas se as tem nunca usou nenhuma, nem ameaçou usar! E se isto não é uma grande diferença político-militar entre Israel e o Irão (que já declarou publicamente, mais do que uma vez, pela boca dos seus responsáveis máximos, que Israel devia ser varrido do mapa, e outras pérolas do mesmo calibre) não sei o que será uma grande diferença...

3. O Irão não recuou. Foi até onde sempre pensou ir. Arranjar um inimigo, sempre foi a estratégia seguida pelos políticos medíocres para aglutinar a malta à sua volta e desmobilizar as oposições. Exemplos: Estaline, Mao, Fidel, Pol Pot, Hugo Chavez, José Sócrates... Ou tem dúvidas que o Irão não sabe que se os EUA se sentirem estrangulados no acesso ao petróleo, vão lá com tudo o que têm? Ou mais prosaicamente: que os líderes iranianos preferem as virgens de carne e osso a umas dezenas no paraíso?

4. Já reparou que as guerras em que os Norte-americanos se envolvem dão muito dinheiro a ganhar a grandes empresas? E que os executivos dessas grandes empresas passam dos conselhos de administração das mesmas, para a política e vice-versa?

Hoje em dia compreender o mundo é muito simples: temos apenas de saber quem é que está a ganhar dinheiro com uma situação. Depois as peças encaixam todas instantaneamente.

;-)

AM

Eduardo F. disse...

Caro AM,

Fico contente por si pela simplicidade da sua chave de compreensão do funcionamento do mundo. Pela minha parte, ainda que rejeitando a existência de uma complexidade tremenda que implicasse uma paralisia analítica, reconheço as minhas sérias limitações.

Não nego - seria naive, para não adjectivar de estúpido, que o fizesse - que o conselho de follow the money seja naturalmente muito útil para a compreensão de muitíssimos fenómenos (o EI existe também para isso). Tanto mais que muitos políticos, "confortados" pelas doutrinas keynesianas de que a guerra é algo de óptimo para "estimular" a economia, aliam o que designam por interesses "estratégicos" no exterior à suposta "promoção de empregos" na sede do império que a guerra traria.

Os israelitas sempre tentarão - seriam idiotas se o não fizessem -, caso detectem essa oportunidade, que outros que não eles carreguem o seu fardo ou, pelo menos, que exista uma cooperação efectiva que lhes permita negar a prática de acções unilaterais.

Porém, a História recente ensina-nos que Israel, salvo erro por duas vezes, já tomou a iniciativa de destruir instalações de processamento de material atómico no Iraque (em 1981) e na Síria (em 2007). apesar do clamor internacional, inclusivamente do governo americano.

Uma nota final para lembrar que, em 1981, houve uma voz solitária que no floor da câmara dos representantes defendeu o direito de Israel a exercer o seu direito de defesa. O nome do sujeito era Ron Paul.