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sábado, 7 de setembro de 2013

O enigma do desinteresse dos investidores pela TAP


A TAP, que é "nossa" porque presta um imprescindível serviço "público" (já a Ryanair, por exemplo, não o faz, como é evidente), em particular desde que Jorge Coelho atribuiu a Fernando Pinto a gestão (pelo menos em termos formais), vem batendo sucessivos recordes de transporte de passageiros que as suas relações públicas se esforçam por publicitar e os meios de comunicação social, particularmente os de "referência", de amplificar.

Ouvimos (d)isto anos e anos a fio. A TAP deveria ser, pois, um bombom apetitoso para os vorazes capitalistas predadores que por aí pululam, embora economistas (?), académicos de profissão, que chegaram a apontar para uma avaliação da companhia num valor superior a mil milhões de euros (esquecendo-se (!) de deduzir o passivo...) se tivessem indignado com o valor da proposta de compra de Germán Efromovitch, a única de que o governo dispôs, de 40 milhões de euros.

Mas não, mais uma vez, e agora com um perigosíssimo "ultraliberal" à frente do ministério da Economia, o resultado é este: Processo de privatização da TAP congelado. Assim, depois da RTP, o CDS preserva mais uma relíquia. Valiosíssima, está bem de ver. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

ANA - A privatização de um monopólio (2)

Michael O'Leary, CEO da Ryanair, voltou agora a Lisboa já com a ANA foi privatizada. Deu uma entrevista ao Jornal de Negócios (disponível na íntegra em formato digital apenas para assinantes). Julgo particularmente interessantes algumas passagens da mesma (realces meus) reafirmando O'Leary a disponibilidade da sua companhia para poder operar, a partir do Verão de 2013, uma nova base em Lisboa, com operação de 8 aviões, rotas e mais 4 milhões de passageiros (como se anunciou em Março do ano passado). 
P: Como vê a privatização da ANA?

R: Provavelmente é algo bom, porque em princípio teremos menos política no desenvolvimento no novo aeroporto, mas penso que isso também trará problemas, porque provavelmente a Vinci [a empresa que comprou a ANA] vai querer aumentar os preços e vai aplicar mais taxas (...)
...
P: Sem um segundo aeroporto, continuaria a ser interessante para vocês?

P: Depende das conversações com a Vinci, só com um aeroporto em Lisboa se abre a porta a aumentar os preços. Nós estamos a conversar com a Vinci e achamos que está a correr melhor do que quando a ANA era do Estado, que queria proteger a TAP. A política aqui tem sido proteger a TAP em vez de proteger os consumidores. Portugal está a perder tráfego, porque não cria o ambiente para as companhias “low cost”.
...
P: É fundamental um segundo aeroporto?

R: No limite sim, porque o que fizeram em Lisboa foi substituir um monopólio público por uma monopólio privado e isso pode ser perigoso.

P: Este ano vai ser de crescimento para a Ryanair em Portugal?

R: Sim, vamos passar de 3,8 milhões, para 4,2 milhões de passageiros. Espero que seja um bom ano.

P: Este modelo de “low cost” continua a fazer sentido?

R: É o único que faz sentido.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

ANA - A privatização de um monopólio

Foi hoje anunciada a venda de 95% do capital da ANA ao grupo francês Vinci, já presente em Portugal (et pour cause...) através de uma forte participação no capital social da Lusoponte.

Repetidamente (como aqui, aqui ou aqui), manifestei a minha total oposição ao modelo de privatização escolhido - o da outorga de um monopólio por força legal. Dirão uns que este modelo maximizou (pudera!) a receita de capital obtida pelo estado. Mas os níveis de bem-estar dos portugueses irão ser menores do que poderiam e deveriam ser, a prazo, se se tivesse adoptado por uma solução que, no mínimo, envolvesse a autonomização do aeroporto Sá Carneiro.

Será curioso assinalar como não ouvimos sequer um pio da Autoridade da Concorrência neste dossier. Talvez por andarem muito atarefados com um suposto "cartel no sector dos impressos e formulários comerciais" (!) ou quiçá por há muito terem entrevisto as oportunidades de expansão dos seus próprios tentáculos "regulatórios".

Que não haja confusões: a privatização de um monopólio público é algo de positivo. Mas a suposta minimização do problema (por quase todos reconhecido) que assim persiste por meios legais através da regulação é uma fraude intelectual (como sumariamente aqui mantenho). Subscrevo na íntegra a posição de Dominick T. Armentano no breve mas substantivo "Antitrust: the case for repeal" (PDF):
«All of the antitrust laws and all of the enforcement agency authority should be summarily repealed. The antitrust apparatus cannot be reformed; it must be abolished.»

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Escrito na pedra

Avelino de Jesus em "Que fazer com a Caixa?" (realces meus):
O recente e expressivo aumento das exportações não ocorreu devido às decisões ou estratégias públicas nem a estímulos ou incentivos. Não ocorreu em resultado de políticas públicas, mas apesar delas. A verdade é que o sector privado tem reagido com resultados notáveis em contraste com a resistência do sector público.

No caso dos investimentos privados algo semelhante poderá ocorrer sem necessidade de estímulos, incentivos ou de "orientações estratégicas" dos poderes públicos. Basta que estes simplesmente não atrapalhem.

Colocar a Caixa ao serviço da economia nacional significa tirar-lhe a canga pública e lançá-la no mercado a concorrer em igualdade com os restantes bancos.

Se não for esta a via estaremos daqui a 10 anos a fazer a história dos maus investimentos que muitos querem agora pôr a CGD a sustentar.

Queremos repetir os mesmo erros?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Privatizar, privatizar, sim... mas não chega

ACTUALIZAÇÃO: Evidentemente.

O autor do blogue, quer no plano filosófico quer num sentido estritamente económico, será sempre defensor de qualquer medida que contribua para a diminuição da opressiva presença do estado na vida de cada um de nós e estimule o crescimento económico. Sou, pois, como já aliás tive oportunidade de o referir aqui, inteiramente favorável à privatização integral da Caixa Geral de Depósitos (CGD), matéria que voltou a emergir no debate público pela situação de emergência financeira em que se encontra o país. Explico-me.

Como não vivemos, pelo menos formalmente, numa sociedade socialista/comunista, a existência da propriedade privada não é um favor que o Estado outorga aos cidadãos de um território, ela não é apenas tolerada (embora com frequência o pareça). Ela é, antes, um seu direito, esse sim inalienável por natural. Ora, não há razão alguma para supor, para além do mero wishful thinking, que um banco de propriedade pública tome decisões melhores que um banco privado. Pois o que são, neste domínio, decisões "melhores"? São aquelas que, por um lado preservam o dinheiro dos depositantes e remuneram a poupança que estes constituíram, e persigam, sempre, regras prudenciais na concessão de crédito (não emprestar dinheiro a quem não ofereça garantias suficientes de que o irá pagar).

Ora, estamos todos fartíssimos de saber que o banco público (à semelhança, por exemplo, da RTP) tem sido permanentemente utilizado como instrumento de gestão política pelos governos de ocasião. Foi assim, e só para referir casos recentes, que ao escândalo inicial do banco BPN (um caso de polícia que nunca mais se resolve sem que se perceba por quê) se somou o escândalo adicional (e bem maior) da sua nacionalização e respectivos efeitos (que estamos muito de longe de saber em quanto realmente importaram) em que a CGD foi o braço activo mais visível. Quanto à alegação que a prudência gestionária operada num banco público seria melhor assegurada (porque perseguiria o altruísta "interesse público" ao contrário dos egoístas interesses privados), todos os dias assistimos à sua negação. Isto sem falar das fortíssimas suspeitas que sobre a CGD impendem relativamente ao papel instrumental que terá assumido no assalto ao poder no BCP.

E por favor, não me venham falar da necessidade de defender e preservar os "centros de decisão" nacionais. Como os brasileiros dizem, isso é mera "conversa p'ra boi dormir". Aqui está um exemplo bem eloquente.

Mas não chega privatizar. É igualmente necessário que ao controlo efectivo, antes assegurado directamente pela propriedade, não se suceda o controlo subterrâneo através da regulação, da troca de favores, dos negócios público-privados, etc. Reconheça-se que não é propriamente o que tem sucedido na generalidade dos casos, nomeadamente quando o Estado não desmantela as barreiras à entrada que impedem, ou em muito dificultam, o aparecimento de novos concorrentes nos sectores alvo de privatização.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Não sei se repararam

que o ministro das Finanças, ao mesmo tempo que "anunciava a intenção" de alargar o universo de empresas estatais a privatizar não teve uma única palavra relativamente à RTP (seja relativamente à sua "privatização" seja à modalidade de "concessão").

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Privatizações e concorrência (ou falta dela)


Relativamente à ANA, já sabemos que o Governo optou por um modelo que garantirá que o actual monopólio estatal será substituído por um monopólio privado. Admito que tal opção seja a que possibilite maximizar o encaixe financeiro resultante da alienação, mas não tenho dúvida dos efeitos muito perniciosos que a manutenção da ausência de concorrência necessariamente acarreterá para o país.

Não há muito tempo, a ortodoxia clamava pela suposta necessidade de os monopólios (ditos) "naturais" (água, electricidade, telefones, correio, etc., as chamadas utilities) serem alvo de particular regulação estatal pelo que daí à sua nacionalização foi um passo por que os políticos rapidamente enveredaram. Depois, sem grandes explicações, a ortodoxia pôs na gaveta esse capítulo do manual. Mas não dei conta que nenhuma família de pensamento económico (nem sequer os da família keynesiana) tenha passado a  defender a existência de alguma superioridade económica de uma situação de monopólio...

Quanto à TAP, como ainda não sabemos qual será o caderno de encargos, ainda é cedo para me pronunciar.

Permanecem assim válidas as observações que alinhavei em "Concorrência, interesse geral e mitologia".

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Crédito, banca pública e privada

Classificado como projecto PIN ("Potencial Interesse Nacional") ao tempo de Sócrates, o projecto turístico para o Alqueva, promovido por José Roquette, passou a PIEN ("Projecto de Interesse Estratégico Nacional") com Passos Coelho.

Parece agora ter por destino a falência porque, segundo o seu promotor, José Roquette, a Caixa Geral de Depósitos, alegadamente, "não respeitou compromissos inicialmente assumidos que permitiriam ao promotor concluir o projecto" ao contrário do outro banco financiador (o BPI) que terá dado assentido ao modelo de financiamento.

Julgo que foi Manuela Ferreira Leite a autora da frase, em meados de 2009, que "não vai haver dinheiro para nada", quando já era evidente, para os que tinham a obrigação de saber, do que iria em breve suceder - a crise da dívida soberana e o correspondente fecho do financiamento.

Curioso, de qualquer forma, que seja a CGD, um banco público, a afastar-se de um PIN/PIEN (uma coisa certamente séria) o que provavelmente terá algo a ver com os abundantes "esqueletos" existentes no balanço da CGD. Não seria melhor nacionalizá-la privatizá-la?

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Resumo e corolário

Se é inegável, como ontem afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que
"[t]odos os Governos utilizam a CGD como correia de transmissão e, nos casos de participações que não têm nada que ver com a actividade bancária, como barriga de aluguer"
e que, no caso concreto da OPA da Camargo Corrêa sobre a Cimpor, foi Vítor Gaspar, ministro das Finanças, quem deu ordem à CGD para aceitar vender as acções que detém sobre a Cimpor ao preço agora oferecido pelos proponentes, não ficará definitivamente evidente a higiene moral que resultaria da privatização  integral da Caixa Geral de Depósitos?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Não ao monopólio da ANA (2)

Leio, no DE, que a Privatização da ANA avança no primeiro semestre. Nada contra esta intenção, muito pelo contrário. Contudo, como já antes por aqui anotei, será um erro clamoroso privatizar a empresa em bloco, apenas pensando na maximização da receita a obter, substituindo um monopólio público por outro privado. Reitero que, pelo menos relativamente ao aeroporto de Sá Carneiro (e talvez também ao de Faro), deveria existir uma operação autónoma de privatização. Deste modo seria possível introduzir concorrência efectiva relativamente ao aeroporto da Portela. O estado a que o país chegou derivou, em muito, do resultado nefasto de anteriores transformações de posições monopolistas públicas noutras tantas privadas. Seria melhor atender a este tipo de questões quando se anuncia uma nova Lei da Concorrência para criar uma "economia mais aberta ao mundo".  Que não se cometa novamente o mesmo erro.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Associações de ideias

Ao ler que na CP: maquinistas mantêm greve dia 1 de Janeiro, ocorreu-me de imediato uma frase de um antigo chefe da casa civil de Obama, Rahm Emanuel: "You never want a serious crisis to go to waste".

domingo, 6 de novembro de 2011

Escrutínio e bastidores

José Pacheco Pereira pergunta (bem): e o escrutínio sobre as privatizações?
«O modelo escolhido para as privatizações é completamente discricionário. Não implica concursos, consultas abertas ao mercado, nada que possa ser escrutinado pelos concorrentes e pelos portugueses. O governo vai decidir por si, por razões que só ele define e avalia, e não tem contas a prestar a ninguém. Considerações como os “interesses estratégicos” são outra maneira de acentuar a discricionariedade com grandes palavras, cuja vacuidade pode servir para tudo. Isto é um absurdo, está diante dos nossos olhos, e passa incólume pela indiferença geral. Pior ainda, o primeiro-ministro revela preferências em público, no caso da EDP, pelos brasileiros, ainda nem sequer está definida uma qualquer short list de concorrentes às privatizações. Acresce que a privatização da EDP parece ser uma das mais apetecíveis e que mais concorrência suscita entre grandes grupos estrangeiros.

sábado, 5 de novembro de 2011

Revisitando as forças de bloqueio (2)

Ribeiro e Castro quer travar privatização da RTP.

20 anos depois, o CDS substitui-se ao PS nas "dúvidas" e nos "receios" da liberalização televisiva. Para  Ribeiro e Castro, "é desconhecida a seriedade e a consistência dos interessados" à privatização de um dos canais da RTP, assinalando de resto que "as vozes" do mercado "[e]stão todas contra. Será que estão todas erradas?"

Estou cansado de muita coisa, em particular dos "conservadores" com assumido desvelo pelas "preocupações sociais" e pela "regulação" da concorrência "excessiva".

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Acho muito mal

Rui Rio já não fala de privatização do aeroporto Sá Carneiro

E acho mal ainda que seja "sulista, elitista [admito que alguns assim me apodem] e liberal". A decisão de transformar um monopólio público num monopólio privado por via legislativa é uma muito má decisão mesmo que "justificada" com a maximização (pudera!) das receitas da privatização da ANA. A prazo, a ausência de concorrência entre uma infra-estrutura que tem capacidade de crescer e que a geografia bafejou (proximidade da Galiza), com outras localizações - Lisboa e Faro -, traduzir-se-á num pior serviço a preços mais caros do que viria a acontecer caso se estabelecesse essa concorrência.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Lucidez

Privatizar, por Rui a., um (lúcido) excerto:
No caso de Portugal, imaginar que as finanças públicas do país conseguirão, a curto ou a médio prazo, alavancar financeiramente a recuperação das empresas do estado é wishful thinking delirante. Se elas permanecerem sob gestão pública continuarão a ter prejuízos acumulados e cada vez maiores, e a prestar-se a destinos pouco empresariais, como albergar clientelas partidárias ou servir de veículos de propaganda governamental.

Por isso, seja para que o estado (os contribuintes) não tenham que continuar a suportar o agravamento desses prejuízos, seja para permitir que algumas dessas empresas se possam ainda salvar e manter o emprego a quem lá trabalha (não é certo que todas o consigam), seja ainda para que o estado possa receber alguma coisa por elas (quanto mais tempo passar, menos receberá), é vendê-las o quanto antes. Qualquer discurso sentimental que apele à preservação destas empresas no sector público, ou é apenas isso e só isso mesmo – emotividade sem racionalidade – ou esconde segundas e nefastas intenções.

sábado, 27 de agosto de 2011

A questão que importa

Ainda que seja uma pessoa distraída, mas uma vez que continuo, ainda que estranhamente, reconheço, a ler o Público, não pude deixar de ler a notícia a que Helena Matos se refere e a sorrir, aziago, com o título "Inatel pagou 5000 euros por entrevista a Vítor Ramalho".

Tal como, por exemplo, a RTP, a questão não está tanto em avaliar se custa muito ou muitíssimo manter uma dada entidade pública ou se o grau de desperdício na sua gestão corrente é gigantesco ou apenas imenso. A questão, a única que verdadeiramente importa, é: por que carga de água mantêm os contribuintes a herança salazarista a que modernamente (desde 2008 sob a forma de fundação...) se dá o nome de Inatel e que já se chamou FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho)?

Privatize-se, porra!