sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Nada de novo sob o sol (de Inverno)

O Coyote relembra uma passagem de Frédéric Bastiat (do seu célebre ensaio "O que se vê e o que não se vê" (PDF, em português do Brasil, de 1948) que bem justifica o título que roubei ao seu post, pela actualidade que mantém como Luís Rocha ontem bem chamava a atenção:
Mas, por uma dedução tão falsa quanto injusta, está-se acusando os economistas de, ao rejeitarem a subvenção, rejeitarem o próprio objeto da subvenção, e de serem os inimigos de todas as espécies de atividade, já que nós queremos que essas atividades sejam livres por um lado e, por outro, busquem nelas mesmas a sua própria recompensa.

Ora, se pedíssemos ao estado para não intervir, através do imposto, em assuntos de religião, seríamos por causa disso ateus? E se pedíssemos para não intervir, através do imposto, na educação, estaríamos adiando o saber? E se disséssemos que o estado não deve arbitrar um valor para o solo ou para uma indústria determinada, através do imposto, estaríamos sendo inimigos da propriedade e do trabalho? Se pensássemos que o estado não deve subvencionar os artistas, seríamos considerados uns bárbaros, que acham as artes inúteis?
Nota: uma pequena observação para o rigoroso cumprimento do acordo ortográfico por parte do tradutor, brasileiro, Ronaldo da Silva Legey...

O embuste da dívida

Com a dívida pública dos EUA já a ultrapassar os 100% do PIB e esse facto suscitar uma preocupação crescente na opinião pública (fundamentalmente, via Ron Paul), é muito útil ao presidente em exercício que um nobelizado economista, dotado de um poderoso altifalante no New York Times, produza escritos como o "Nobody Understands Debt" para "explicar" que a dívida pública seria essencialmente diferente da dívida privada, pois na primeira, observado um pequeno detalhe(*), tratar-se-ia apenas de "dívida que devemos a nós próprios" («we owe it to ourselves»)! Já aqui tinha aludido aos fretes que uma determinada (e numerosa) escola de economistas pressurosamente apresenta para justificar políticas advogadas por políticos (Krugman amparando Obama como o "grande" Keynes justificou ex-post as políticas de Franklin Delano Roosevelt hoje). Robert Murphy, no programa do juíz Andrew Napolitano, desmonta a falácia de Krugman e sublinha a vitória do senso comum do cidadão leigo mas consciente perante as construções habilidosas de doutorados com paramentos mais ou menos vistosos.


(*)- Nas palavras de Krugman, "all they [the Governments] need to do is ensure that debt grows more slowly than their tax base". Não foi bem isso que sucedeu em Portugal. Por isso, Sócrates, depois de justificar o despilfarro despesista dos seus governos com o credo krugmanita, teve agora que ler - hélas! -, pela pena do próprio Krugman, a desautorização da política que seguiu. Daí o nítido incómodo de um certo jovem deputado, ao que dizem muito promissor.

Esquerda e direita

Portugal no seu melhor, por José Pacheco Pereira. Um trecho:
«A nossa esquerda mobiliza-se para defender o “serviço público” da RTP e é indiferente à sorte dos Estaleiros de Viana do Castelo.

A nossa direita mobiliza-se para manter uma “informação pública” na RTP, Lusa, rádios, etc. e acha bem que, em nome da “democratização da economia”, os Estaleiros de Viana do Castelo fechem.

A nossa esquerda arrepela-se perante a hipótese de se privatizar um canal da RTP, ficando o resto por privatizar, e quer lá saber da privatização dos Estaleiros, mesmo que isso salve a empresa e parte dos empregos.

A nossa direita jura todos os dias que o “serviço público” justifica a presença do estado na RTP, mas não mostra qualquer zelo em privatizar os Estaleiros, nem lhe passa pela cabeça que possa haver razões “públicas” para os manter.»

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Government Motors - a mesma história de sempre (2)

Finalmente, segundo reporta a AP, a General Motors resolveu aconselhar todos os proprietários do Volt a levarem as suas viaturas aos stands onde as adquiriram para proceder a reparações, grátis, que "farão diminuir o risco de incêndio nas suas baterias". A "gratuitidade" anunciada desta operação só pode ser tida por humor verde negro quando se recorda que se calcula que cada Volt tenha custado ao contribuinte cerca de 250 mil dólares, tornando-o o caro mais subsidiado de sempre talvez apenas a par do... Trabant! Como referia há uns dias, ele há de facto semelhanças só na aparência improváveis...

Até tu, Brutus?

Krugman: Crise em Portugal começou antes da crise

Leitura recomendada: essa estava boa!, por Ricardo Arroja

Aleluia

Governo suspende atribuição de licenças para novos parques eólicos

Obrigatório ler

este post de Helena Matos ainda a propósito do "escândalo" provocado pelo facto de haver empresas que procuram, por meios exclusivamente legais, pagar um menor nível de impostos. Sublinho o seguinte excerto:
«Tanto em 1974 como em 2012 entende-se que as empresas não são dos empresários mas sim recursos estatais. Uma espécie de saco azul ao dispor dos governos. Em 1974 acreditava-se que confiscando as empresas, o Estado ficava rico. Em 2012, o socialismo tornou-se mais hábil: tolera os privados porque sabe que sem eles não há dinheiro. E por isso perante a suspeita de que os privados tentam pagar menos impostos reage com fúria e indignação. De 1974 a 2012 mudaram os meios mas o fim é o mesmo: as empresas devem servir o Estado.

Por isso Alexandre Soares dos Santos teria levado a sua vida com muito sossego e apreço da Pátria se tivesse sido funcionário público toda a vida. Ou melhor ainda se tivesse passado de carga de nomeação para cargo de nomeação. Agora certamente que peroria contra o espírito de ganância do dono da cadeia Pingo Doce.»

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Procurar ver no meio da poeira

Como tentei explicar aqui, um país pequeno e relativamente pobre como Portugal adentro da União Europeia, deve opor-se terminantemente a qualquer espécie de harmonização fiscal que, não por acaso, é defendida por Merkel e Sarkozy. Recorde-se, a propósito, a insistência com que tentaram que a Irlanda aumentasse o seu IRC aquando da negociação do resgate financeiro. A competição pelo investimento estrangeiro é feroz e nós precisamos dele como de pão para a boca e a atractividade e estabilidade fiscais são importantíssimos factores na sua captação.

Mas a julgar por múltiplos posts, de que este (para que Miguel Noronha chama a atenção) será exemplar, há quem não pense assim e chegue mesmo a apodar de "liberais de pacote" os que se limitam a evidenciar a racionalidade desta decisão da Jerónimo Martins (ou desta outra da Sonae). Há quem ache tal comportamento imoral? Pois deixem-me dizer-vos que imoral é a brutal carga fiscal sob que vivemos e nos está a sufocar a todos. Das 20 empresas do PSI20, 19 já têm a sua sede fora de Portugal, 17 das quais na Holanda! Se há algo de útil a retirar de toda a poeira libertada quanto a este assunto, concentremo-nos em perguntar por que razão tal sucederá e o que devemos fazer para a contrariar.

Uma conveniente dificuldade técnica?

Ron Paul tem recebido donativos de mais militares que a totalidades dos seus adversários em conjunto. Enquanto pôde, o militar do vídeo explicava o porquê desse comportamento.


Nota também interessante para o quadro de resultados que aparece em rodapé que nem nada tem a ver com o resultado final nem, sequer, com os resultados preliminares e intercalares que foram ocorrendo até ao final das primeiras três /quatro horas de contagem que acompanhei no New York Times e no Washington Post.

Romney ganha no Iowa

Mitt Romney - 24.6%
Rick Santorum - 24.5%
Ron Paul - 21.4%

Na intervenção televisiva já após o conhecimento dos resultados finais, Paul disse: "Nixon said 'We're all Keynesians now. I want to be able to say, 'We're all Austrians now."

Paul não ganhou no Iowa apesar de, até muito recentemente, tal pareceu possível ir acontecer. Em 2008, no mesmo estado, tinha ficado em 5º lugar. Mas o que Paul já conseguiu é muito mais que assegurar um mero lugar no pódio. Em muitas áreas, foi ele a marcar a agenda: a crítica cerrada ao Fed, à gigantesca dívida, à política externa do império. Seguir-se-á agora o New Hampshire que, muito provavelmente, será ganho, folgadamente, também por Romney. Paul tem surgido nas sondagens em 2º lugar, o bastante para manter o seu momentum: "We're all Austrians now".

Bruxelas a nu

 (PDF)
Depois de ter lido "The Great Deception: Can the European Union Survive?", livro a que já me referi aqui, aqui e aqui, fiquei com uma apetência especial por melhor tentar conhecer a história da União Europeia e, em particular, do euro1. Mão amiga, entretanto, fez-me chegar às mãos um pequeno livro da autoria de Marta Andreasen - "Brussels Laid Bare" -, onde ela relata a sua experiência - que só se pode caracterizar de kafkiana - como Chief Accountant na União Europeia, cargo que exerceu, após um processo de recrutamento que durou cerca de seis meses, entre o dia 3 de Janeiro de 2002 e finais de Maio... do mesmo ano! À data em que publicou o livro, Julho de 2009, o Tribunal de Contas Europeu (European Court of Auditors) tinha recusado, pelo 14ª ano consecutivo, o seu "visto" nas contas da União Europeia! Sabia disto, o leitor? Eu não.

Conta Andreasen que se deparou com uma situação em que nem sequer recebeu do seu antecessor as contas do ano transacto (2001) devidamente assinadas mas que, não obstante, se viu pressionada pelo seu chefe directo para que ela própria as assinasse assim se responsabilizando por algo que não conhecia nem podia conhecer; que os saldos finais de um ano não eram iguais aos saldos iniciais do ano seguinte; que não existia sistema informático único nem interesse pela sua introdução, apesar de já ter sido anteriormente comprado; que lhe pediam para dar autorização à efectivação de pagamentos sem que lhe fossem presentes os documentos que os justificassem, etc, etc. Depois de um relato impressionante que revela o total desprezo dos burocratas de Bruxelas pelo dinheiro dos contribuintes, vem a via sacra do processo disciplinar e da sua tramitação, prova duríssima a que foi sujeita. Talvez por isso Marta Andreasen, hoje membro do parlamento europeu eleita nas listas do UKIP, depois de Bernard Connolly, autor de "The Rotten Heart of Europe" (a quem José Manuel Fernandes aqui recentemente aludiu) e Paul van Buitenen, que viria a desencadear o escândalo que daria origem ao despedimento da Comissão Santer, tenha sido a última dos whistleblowers vinda do interior da impenetrável burocracia da União Europeia, responsável perante ninguém.

1Já em Setembro de 1957 Monnet sintetizava assim o significado de uma união monetária: "Via money, Europe could become political in five years".