sábado, 19 de maio de 2012

A hora da verdade ou o prolongamento da agonia

Michael Rizzo, editor do blogue The Unbroken Window, tem um post muito interessante (e didáctico) acerca das escolhas de actuação dos gregos perante a hecatombe das suas finanças públicas.

Rizzo começa por fazer notar que as despesas públicas, num qualquer Estado e numa dada unidade de tempo (tipicamente o ano), estão restritas a três origens de financiamento: a dos impostos; a proveniente do acréscimo na dívida pública (impostos de amanhã) e, finalmente, num país com banco central emissor, as "receitas" provenientes da impressão de moeda1. Em linguagem simbólica, teríamos a seguinte identidade:

G (despesa pública [do governo]) = T (Impostos [taxes]) + Δ Dívida + Impressão de moeda

Ora, como a Grécia está na Eurozona, o último termo da identidade não está sob o seu controlo (Rizzo, com graça, diz que essa actividade foi alvo de outsourcing no BCE) pelo que o governo grego está antes perante uma versão comprimida daquela:

G = T + Δ Dívida

Sucede que, para que o governo possa recorrer à emissão de dívida, tem que encontrar quem esteja disposto a comprar títulos da sua dívida pública. E há, compreensivelmente, uma grande relutância, interna e externa, em emprestar dinheiro ao Estado grego. Mesmo os que ainda estão dispostos a fazê-lo exigem taxas de juro que bordejam os 30%(!) a 10 anos (61% a 5 anos, indizível a 2 anos) o que torna impossível, na prática, o recurso a  esse mecanismo. Tudo fica assim reduzido à expressão mais simples:

G (despesa pública) = T (Impostos)

E eis que, com toda a crueza, só há duas alternativas: ou se sobem os impostos, o que já se viu não produzir efeito tanto mais que o país atravessa uma profunda e prolongada recessão, ou se reduz a despesa pública. Rizzo avança ainda com uma hipótese suplementar, muito popular na América do Sul: expropriar os "ricos" o que o Sr. Tsipras, estou convencido, aplaudiria. Mas seria sempre sol de pouca dura.

Creio que fica assim meridianamente claro que só há duas possibilidades para os gregos: ou o BCE imprime dinheiro, a uma velocidade ainda maior do que já vem fazendo..., para "emprestar" a Atenas (indirectamente redistribuindo riqueza à custa dos países mais prósperos, como Philipp Bagus de forma insistente vem explicando) ou a Grécia terá de sair do euro.

Não me parece crível que haja a coragem necessária para levar a cabo a única alternativa racional: reduzir radicalmente a dimensão do Estado grego na economia ou seja, as despesas públicas, em ordem a permitir um crescimento económico saudável e duradouro porque assente na iniciativa privada. Pelo meio, é certo, a dor será gigantesca mas creio-a inevitável qualquer que seja o caminho. Os gregos encontram-se perante uma situação em tudo idêntica à de um toxicodependente em estado quase desesperado. Alimentar-lhe o terrível vício não me parece ser uma opção aconselhável.
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1Em rigor, no que os economistas designam por variação na base monetária. Poder-se-ia considerar ainda uma outra fonte de financiamento: as dádivas.

Hollande e a defesa de uma paridade muito especial

Não dei grande importância ao folclore associado à divulgação da composição do novo executivo francês até porque o seu elenco certamente se alterará após serem conhecidos os resultados das eleições legislativas cujas duas voltas ocorrerão a 10 e 17 de Junho.

A par de uma imperfeita  "paridade de género" (não respeita com o rigor que se esperaria a proporcionalidade estatística entre os sexos que ocorre no Hexágono) e de um (vasto) conjunto de "frescuras" traduzidas, por exemplo, num ministro (ainda que júnior) para o Sucesso Educativo; na emergência  - finalmente! - de um ministério (sénior) dos Direitos das Mulheres (assim enterrando o passo intermédio que foi o ministério da Igualdade) e de mais um vasto conjunto de "delícias" entre as quais uma tal de "Recuperação Produtiva" (?) e uma mui guterrista "paixão" pela Educação" (pasta elevada à 3ª posição protocolar no executivo), dou mais importância a outro tipo de sinais. Como o se segue, descrito por Alain Dumait (tradução minha):
Que François Hollande não tenha acompanhado o seu antecessor até ao carro [na saída de Sarkozy do Eliseu] antes da sua tomada de posse na terça-feira, 15 de Maio, releva de mera grosseria.

Que não tenha encontrado uma única palavra positiva para evocar o período e o balanço do mandato [do seu antecessor], mostra o seu sectarismo.

Mas ter-se sentido obrigado a convidar para o seu primeiro almoço no Eliseu todos os ex-primeiros-ministros socialistas, com as respectivas esposas ou companheiras, é muito mais simbólico da linha adoptada pelo novo governo: o retorno a um Estado 100% PS.

Ler o resto do artigo (em francês)
Parafraseando Luís XIV, L'État sont eux.

Santana - The Game Of Love

Um bom fim-de-semana!

A ser verdade (act.)

o que aqui se escreve, não consigo perceber de que está à espera Passos Coelho. Ou será que continuam estes tempos?

Intenções não são resultados

Não é por se decretar a felicidade na Terra que ela se realiza. Ou se promove o crescimento económico. Ou se contribui para a erradicação da pobreza. Frequentemente, pelo contrário, a lei das consequências inesperadas produz resultados inversos dos perseguidos. No vídeo que se segue, Don Boudreaux exemplifica com o caso da proclamada "salvação" das espécies ameaçadas.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Uma nota só

Ainda não escrevi nada sobre isto. Não que me tenha esquecido mas por não me querer precipitar no meu juízo. Até à data, apenas dou por conhecidas as portarias 139/2012 e 140/2012 e mesmo a primeira apenas remete para regulamentação posterior. Certo que há notícias de uns "cortes", daqui a 2020, de 1,8 mil milhões de euros, mas os detalhes - e o diabo está quase sempre nos detalhes - não se conhecem(*).

Não escondo porém que a minha inquietação vem num crescendo. Temo que tudo venha a ficar mais ou menos na mesma para o que, necessariamente, algo teria de "mudar" para não se perder a face (e responder à troika). Não estou sozinho neste cepticismo. O que vai acontecer ao défice tarifário? Quanto, apesar destes "cortes", vai subir a factura da electricidade daqui até 2020? E nas tarifas feed-in não haverá nada a fazer?
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 (*) - O mesmo se passa, salvo minha desatenção, com o tal SIR ("Sistema de Indústria Responsável").

O estouro aproxima-se, inexorável (9)

A fotografia de hoje do top ten  da bancarrota (imagem abaixo) não anda longe do horror tanto mais que, há dez dias atrás, a situação já não era famosa e se agravou acentuadamente em três dos PIIGS. É verdade que a nossa probabilidade de incumprimento, de 64,24%, já foi pior. Porém, nessa altura, o nó grego (e o espanhol) não estava tão apertado como agora.


Conhecer o senhor Alexis Tsipras, pelo próprio

Este vídeo da CNN merece ser visto mesmo até ao fim pelas ideias que pode proporcionar à ministra Cristas na sua luta titânica contra os empresários predadores da grande distribuição.

Frase do dia (42)

«Public policies are determined and laws are made by small minorities playing upon the fears and imbecilities of the mob – sometimes minorities of intelligent and honest men, but usually minorities of rogues.»

Da relação com a verdade

Por duas vezes, a primeira delas aqui, fiz eco da polémica sobre a nacionalidade de Barack Obama. Da segunda vez, há pouco mais de um ano atrás, deixava a pergunta Por que foi necessário esperar três anos? para que fosse produzida uma prova documental que, em definitivo, matasse a questão. Recorde-se que foi do lado democrata, concretamente da candidatura adversária pela nomeação pelo partido democrata à corrida presidencial, a de Hilary Clinton, que foi lançada a dúvida inicial e que outros democratas (até jornalistas) se esforçaram por a manter acesa.

Leio agora, via Obamatório, que a dúvida persiste e, aparentemente, com fundadas razões. Veja-se o que o Breitbart foi descobrir numa pequena brochura promocional de 1991: uma súmula biográfica de Obama onde o actual presidente dos EUA é dado como tendo nascido no... Quénia o que, a ser verdade, significaria que a sua eleição teria sido nula.

Da ignomínia da discriminação pelo género (2)

Não sou negro mas, se o fosse, ficaria indignado com os resultados de mais uma gritante e crescente disparidade de resultados de género: a relativa à desmesurada vantagem que as mulheres negras têm sobre os homens negros (praticamente 2:1) quanto à obtenção de graus académicos nos EUA (via Carpe Diem):


Alguém que inste o candidato Obama a rapidamente elaborar sobre  um qualquer tipo de affirmative action para que, finalmente, esta enormidade comece a ser corrigida. E, já agora, que também pense sobre esta outra, relativa a toda a população universitária americana que obteve um grau académico de há 30 anos a esta parte.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

E limpar o rabinho a meninos, não?

Um excerto da proposta, em discussão pública, da nova Lei para o cinema e audiovisual (itálicos meus):
Artigo 3º - Princípios e Objectivos

1. O Estado apoia a criação, a produção, a distribuição, a exibição, a difusão e a promoção de obras cinematográficas e audiovisuais…
2. O Estado protege e promove a arte cinematográfica…
3. O Estado adopta medidas e programas de apoio…
4. O Estado promove a interacção…
5. O Estado promove e zela pela conservação a longo prazo…
6. No âmbito das matérias reguladas pela presente lei, o Estado prossegue os seguintes objectivos:
a. Incentivar a criação, a produção, a distribuição, a exibição, a difusão e a edição de obras cinematográficas e audiovisuais nacionais…
b. Incentivar a qualidade, a diversidade cultural, a singularidade artística e a viabilidade económica …
c. Promover a defesa dos direitos dos autores e dos produtores…
d. Contribuir para a promoção da língua e da cultura portuguesas;
e. Promover a interacção do sector da produção independente com os sectores da exibição…
f. Incentivar a co-produção internacional…
g. Aprofundar a cooperação com os países de língua oficial portuguesa;
h. Contribuir…
i. Incentivar…
j. Contribuir…
l. Contribuir…
m. Promover…
n. Promover…
o. Contribuir…
Tentando resumir: o Estado "apoia", "protege", "adopta", "promove" (por 7 vezes), "incentiva" (3), "contribui" (5) e, um pouco estranhamente, "aprofunda" uma única vez. Abençoado sejais!

Uma bela teoria

é o título do post de rui a. onde zurze - merecidamente, de resto - na exótica tese da esquerda: "os empregos, tal como os dinossauros pré-históricos, terão desaparecido, quase até à extinção, por factores politicamente exógenos, isto é, pelos quais ninguém é responsável na política nacional". Nada a opor a esta leitura, à excepção do escopo da crítica.

A meu ver o post falha metade do alvo ao fustigar em exclusivo a esquerda quando a direita em Portugal só em grau difere daquela no domínio económico. No essencial, todos querem mais despesa pública (é só pensar no TGV de Barroso e Sócrates). Hoje, a esquerda prefere que ela aumente já e em grande volume para “promover” o "crescimento" (na realidade, mais défice, mais dívida e um maior ritmo na criação de moeda  -“liquidez” - que inevitavelmente desembocarão amanhã num ainda maior descalabro económico e pior desemprego); já a direita, a título da manutenção de um "estado social" compassivo e “mais justo”, apenas pretende tornar os níveis de despesa pública "sustentáveis", para isso contando com a continuação de uma pressão fiscal asfixiante (e só aí reside a austeridade, reservada ao sector privado) e uma eventual retoma económica no futuro que permita, sem recorrer a novos agravamentos das taxas de imposto, que a receita fiscal aumente sem dor imediata assim possibilitando novos aumentos da despesa pública.

As metas que o actual governo estabelece não passam por uma aposta estratégica na redução nominal da despesa pública, mas apenas por um objectivo de redução do peso relativo da despesa pública no PIB sem qualquer intenção de discutir sequer as funções do Estado. Se dúvidas houvesse, bastaria o triste mas definitivo episódio do Pingo Doce no 1º de Maio para evidenciar que, também à direita, subsiste o horror (o à esquerda o ódio) à liberdade de actuação dos agentes económicos. Se bem que, pelo menos por ora e à excepção da banca, esteja arredada a "solução" do recurso às nacionalizações (reservada hoje para os regimes cleptocratas, teocratas e populistas), a verdade é que os empresários são apenas tolerados excepto quando se conformam aos interesses do Estado, nessa altura adquirindo o estatuto de bem-vindos, estatuto que manterão enquanto se mantiver essa conformidade, se necessário for, à custa da extracção das tais "rendas excessivas", claro.

Bife com batatas fritas ou óleo de fígado de bacalhau?

Um excerto de "O crescimento não se decreta", por Patrick Simon (minha tradução):
Durante a campanha eleitoral presidencial instalou-se um debate que persiste: austeridade ou crescimento?

É um pouco como perguntar a uma criança: bife com batatas fritas ou óleo de fígado de bacalhau, esparguete com molho de tomate ou xarope de rícino? Ou como se a cada um de nós nos propusessem: prefere ganhar mais dinheiro produzindo mais ou prefere reduzir as suas despesas produzindo menos? A resposta parece óbvia, a menos que se seja um adepto do bicho-papão.

Como é possível fazer perguntas tão estúpidas? E todavia foi exactamente o que o novo presidente, François Hollande, fez quando disse que não aceitaria o tratado europeu - que foi concluído sustentado nos esforços da estabilidade financeira e da redução da despesa pública -, se não forem introduzidas disposições sobre o crescimento. É o pensamento mágico: basta articular uma palavra para que, por uma espécie de truque de prestidigitação, o coelho saia da cartola e o crescimento seja retomado.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Pico quantos?

De acordo com os dados da Energy Information Association (EIA), foi a seguinte a evolução da produção de petróleo de 1973 aos dias de hoje. Em Janeiro último, foi mesmo batido o recorde de produção mensal correspondente a 75,580 milhões de barris por dia (via Carpe Diem):

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Julian Simon continua assim a ganhar apostas, mesmo que postumamente. Apesar da violenta barragem alarmista por parte dos profissionais do anúncio do desastre iminente do esgotamento dos recursos naturais, os combustíveis fósseis, muito em particular, teimam em não se esgotar.

É verdade que há políticos como Obama mas também,  entre outros, David Cameron e Julia Gillard, que teimam em tudo fazer para evitar que, nas áreas sob sua jurisdição directa, novas prospecções sejam levadas a cabo. Chega-se ao ponto de proibir, por exemplo, a prospecção de gás e petróleo no offshore, em toda a costa leste e oeste dos EUA, como aqui se documenta (apesar de Obama oferecer a Dilma Roussef os seus préstimos para o desenvolvimento da actividade ao largo da costa do Brasil...). Mas, pelo menos por enquanto, nem todas as terras são propriedade de estados governados por tolos. E é fácil ver o que acontece quando ao mercado não é retirada a oportunidade de funcionar.