sexta-feira, 29 de março de 2013

Não acreditar em nada até que seja oficialmente desmentido (2)

Neste caso em particular, em papel timbrado de uma venerável instituição membro do Eurogrupo - o banco central de Chipre, em ofício datado de 11 de Fevereiro último. Consigo até imaginar a qualidade superior do papel utilizado. Pro memoria.

O acordo do Chipre e o desemaranhar do sistema bancário de reservas fraccionárias

Praticamente todos os analistas concordam que, após o ocorrido em Chipre, "nada será como dantes". O abalo telúrico que percorreu a zona euro tornou evidente, para um significativo número de pessoas, que, afinal, os bancos não eram - não são - um oásis de segurança para os valores lá "depositados" (as aspas são propositadas). Joseph Salerno, um especialista em questões monetárias da Escola Austríaca, dá-nos a sua perspectiva, num texto publicado em 27-03-2012, de quais poderão ser esses efeitos no seu texto The Cyprus Deal and the Unraveling of Fractional-Reserve Banking (abaixo traduzido por mim1), assinalando um facto que qualifica de "feliz", assim acompanhando a análise de Detlev Schlichter de que aqui fiz eco.

O tema do sistema bancário de reservas fraccionárias tem sido visto em Portugal como um tema desinteressante, do domínio do esotérico, de que só alguns excêntricos falam e escrevem (e só em ambientes "controlados"). Um caso notável na blogosfera, pela persistência denodada e praticamente solitária, tem sido Carlos Novais o qual, desde que ingressou no "quadro" dos bloggers do Portugal Contemporâneo, vem amplificando o seu significado (e respectivas consequências). Também ele viu uma oportunidade "feliz" para agora animar agora uma recolha de assinaturas para uma petição tendo em vista definir legalmente que os depósitos à ordem sejam cobertos a 100% por reservas - e, portanto, não tenham risco associado - e não, como hoje acontece, constituam na realidade empréstimos aos bancos e, consequentemente, estejam sujeitos aos riscos correspondentes. Eu já a assinei e convido todos os leitores a fazê-lo também.
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1 - Dei entretanto conta da existência de uma outra tradução no Mises Brasil.
O "acordo do Chipre", como tem sido amplamente designado nos meios de comunicação social, poderá assinalar algo próximo do último acto do lento colapso do sistema bancário de reservas fraccionárias o qual começou com a implosão da indústria das sociedades de poupança e empréstimos [S&L] nos EUA nos finais dos anos 80. Essa tendência continuou com as crises cambiais na Rússia, no México, na Ásia Oriental e na Argentina nos anos 90 onde o sistema de reservas fraccionárias desempenhou um papel decisivo. O desmoronamento do sistema de reservas fraccionárias tornou-se visível, até mesmo para o depositante comum, durante a crise financeira de 2008 que desencadeou corridas a bancos em algumas das maiores e mais veneráveis instituições financeiras do mundo. O colapso final só foi evitado pelo resgate, no montante de milhões de milhões de dólares, dos bancos americanos e estrangeiros levado a cabo pela Reserva Federal.

Mais do que a crise financeira sem precedentes de 2008, no entanto, os recentes acontecimentos no Chipre podem ter desferido o golpe mortal no sistema bancário de reservas fraccionárias. Isto porque o sistema bancário de reservas fraccionárias apenas pode existir enquanto os depositantes tiverem uma total confiança de que, independentemente das dificuldades financeiras que vierem a suceder ao banco a que confiaram os seus "depósitos", serão sempre capazes de os levantar em dinheiro, à sua ordem, a qualquer momento e integralmente. Desde a II Guerra Mundial que o seguro governamental de depósitos bancários, assegurado pelo poder emissor do banco central, foi tido como a garantia inabalável que justificava essa confiança. Com efeito, o sistema bancário de reservas fraccionárias foi percebido como sendo um sistema de reservas a 100 por cento pelos depositantes, que agiam como se o seu dinheiro estivesse sempre "no banco", graças à capacidade dos bancos centrais de fabricar dinheiro a partir do nada (ou no ciberespaço). Perversamente, as diversas crises envolvendo o sistema bancário de reservas fraccionárias, que emergiram uma e outra vez desde os finais dos anos 80, apenas reforçaram essa crença entre os depositantes, porque os bancos problemáticos e as instituições de poupança sempre foram resgatados entre grande animação, especialmente os maiores e os menos estáveis.

Foi assim que surgiu a doutrina do "grande demais para falir" [too big to fail]. Sob esta doutrina, os depositantes e obrigacionistas não segurados foram geralmente resgatados por inteiro sempre que um grande banco faliu, porque era amplamente entendido que a confiança em todo o sistema bancário era algo frágil e evanescente que se poderia quebrar e dissipar por completo em resultado da falência de uma única grande instituição.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Dívida pública e a crueza da aritmética

O gráfico abaixo (construído a partir dos dados disponibilizados aqui) pretende  evidenciar, mais do que a atribuição de quotas-partes de responsabilidade pelo explodir da dívida pública, duas ideias simples: 1) Todos os governos deste período (Guterres II, Durão Barroso/Santana Lopes e Sócrates I e II) contribuíram negativamente para a sua evolução (ainda que em graus diferentes); 2) Que, a não acontecerem excedentes orçamentais significativos num futuro muito próximo e durante muitos anos, o necessário "ajustamento", quando chegar, será brutal. Infelizmente, tendo presente o quadro cultural estatista em que vivemos, tanto na oposição como no governo, como no Tribunal Constitucional e também na Presidência da República, não consigo descortinar qualquer outra saída. A aritmética pode ser de uma crueza atroz e este é certamente um desses casos. Vem aí o "Grande Incumprimento" anunciado por Gary North e a razão é esta: "Politicians cannot bring themselves to stop spending money the governments do not have".


Próximo?

Seguindo a máxima de "não acreditar em nada até que seja oficialmente desmentido", dir-se-ia que se consolidam as probabilidades de mais um candidato a ainda mais um pedido de resgate: Primeira-ministra da Eslovénia exclui pedido de ajuda internacional.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A insanidade da política energética europeia: está a chegar a conta

Christopher Booker tem sido uma presença regular neste blogue praticamente desde o seu início. Jornalista da velha escola tem dedicado a sua vida ao fact-checking, coisa que em Portugal duvido que alguma vez tenha existido e que, pelo menos pelo mundo ocidental, está em vias de extinção nos MSM (Mainstream media). Sozinho, ou em parelha com Richard North, dedicou todo o seu esforço ao exame minucioso dos sucessivos pânicos (amplificados pelos media e assim compelindo os políticos a "fazer alguma coisa") de que o "aquecimento global" constitui, certamente, o zénite da irracionalidade ruinosa. Muita atenção dedicou também à génese da União Europeia e ao modo como ela se desenvolveu, estudando aturadamente o seu "método" e, desse modo, antevendo sem dificuldade o evoluir do monstro globalista de Bruxelas.

A crónica que se segue, publicada no sábado passado na coluna que mantém no Telegraph, é de um brilhantismo difícil de igualar, constituindo prova adicional que os governantes britânicos, Labour ou Tory, ainda que vocalmente em fricção com os "colleagues" da "Europa", se têm limitado a isso mesmo: a uma modulação mais ou menos estridente no tempo para ocupar as manchetes. Entretanto, o declínio ocidental, e em particular o europeu, prossegue, aparentemente irreversível. (A tradução do texto é minha, bem como os realces introduzidos.)
Imagem retirada daqui
Enquanto a neve do mais frio mês de Março desde 1963 continua a cair, ficámos a saber que temos armazenado gás para nos manter aquecidos apenas para 48 horas, e que o primeiro responsável pela nossa segunda maior companhia de electricidade, a SSE, alertou para o facto de que a nossa capacidade geradora [de produção fiável de electricidade] ter caído para níveis tão baixos que podemos esperar, a qualquer momento, cortes no fornecimento de energia eléctrica ["apagões"]. A tempestade perfeita parece pairar sobre nós.

A grotesca gestão da política energética da Grã-Bretanha pelos políticos de todos os partidos, de perseguir as suas quimeras infantis do CO2 induzido pelo aquecimento global e das ventoinhas eólicas, tem vindo a constituir, provavelmente, o maior acto de irresponsabilidade política da nossa história.

Três novos eventos da semana passada trouxeram-nos de novo a bolha louca do faz-de-conta em que estas pessoas vivem. Sob a Directiva da União Europeia das Grandes Instalações de Combustão [link], perdemos mais duas grandes centrais electroprodutoras alimentadas a carvão, a Didcot A e a Cockenzie, capazes de contribuir com nada menos que um décimo das nossas necessidades médias de energia eléctrica. Vimos atribuída a uma empresa estatal francesa, a EDF, autorização para despender uma verba planeada de 14 mil milhões de libras na construção de dois novos reactores nucleares em Somerset, mas em que a empresa diz que a sua conclusão só ocorrerá num horizonte temporal de 10 anos, se lhe for garantido um subsídio que irá duplicar o preço de sua electricidade. Em seguida, escondidos em letras pequenas no Orçamento, surgiram novos números para o imposto em rápida escalada que o Governo irá apresentar na próxima semana que recairá sobre cada tonelada de CO2 emitido pelas centrais alimentadas a combustíveis fósseis, que em breve acrescentarão milhares de milhões de libras às nossas contas de energia eléctrica todos os anos.

À atenção daqueles que acham que a solução passa, necessariamente, pela saída do euro: o exemplar caso do Reino Unido

Godfrey Bloom explica, recorrendo a umas "pinceladas" a partir do "cadeirão":

Próximo!

Ok, o "Armagedeão" terá sido, por agora, adiado evitado. De um modo algo surpreendente (?), devo dizer, através de um arranjo moralmente mais defensável do que o inicialmente previsto (as perdas dos depositantes e accionistas - a componente "bail-in" do pacote de resgate - circunscrever-se-ão aos dois bancos falidos em maiores dificuldades e não a todos os depositantes de todos os bancos, o que indiciava uma punição colectiva de ressonância calvinista).

Há quem tenha ficado entusiasmado com o feito. Afinal de contas, com o S&P nos píncaros, as coisas só podem estar, agora, muito bem encaminhadas. Próximo!!

Imagem retirada daqui

Por que é a crise do Chipre de 2003 pior que a da Argentina em 2001 e do Kreditanstalt (1931)

Martin Sibileau, em Why Cyprus 2013 is worse than the KreditAnstalt (1931) and Argentina 2001 crises, publicado em 24-03-2013, oferece-nos uma leitura histórica comparada entre o "evento" Chipre 2013 e dois outros clássicos homólogos - o da Argentina em 2001 e um outro, mais recuado no tempo - a bancarrota do banco austríaco Kreditanstalt -, que muitos historiadores identificam como extremamente relevante para a hecatombe que se abateria sobre o mundo poucos anos depois. Como pertenço ao grupo daqueles que subscreve, em termos vigorosos, estas asserções de Maria do Carmo Tavares - particularmente, a necessidade de o economista saber História (para que possa ligar os acontecimentos) -, achei interessante partilhar mais um texto não ortodoxo sobre o "evento" Chipre 2013.  A tradução, rápida, é da minha responsabilidade.
O Chipre de 2013, como qualquer outro acontecimento, pode ser analisado em termos políticos e económicos.

Análise política: duas dimensões

Politicamente, consigo distinguir duas dimensões. A primeira dimensão pertence à história geopolítica da região, a que se juntaram as recém-descobertas reservas de gás natural. A relevância histórica vem desde 1853, o ano em que se iniciou a Guerra da Crimeia. A Guerra da Crimeia ocorreu no adjacente mar Negro, mas o propósito político era o mesmo: evitar a expansão da Rússia para o Mediterrâneo. A relevância desse episódio residiu no rompimento do equilíbrio de poder estabelecido após as Guerras Napoleónicas, fixado no Congresso de Viena, em 1815. A partir daí, toda uma nova série de acontecimentos inesperados levaria a uma França mais fraca, a uma Prússia mais forte, a novas alianças e a uma solução final 60 anos depois: a I Guerra Mundial. É neste mesmo quadro que eu vejo o Chipre de 2013 como um acontecimento político muito relevante: caso a Rússia, eventualmente, proporcione um resgate a Chipre (à hora que escrevo, tal não parece provável) contra o penhor das reservas de gás natural ou de uma base naval, um novo equilíbrio de poder terá sido alcançado na região, em que Israel será o maior perdedor.

A segunda dimensão política refere-se a um observação que fiz, há exactamente um ano atrás, precisamente inspirada no evento Kreditanstalt [link] de 1931. Num artigo intitulado: "Acerca do ouro, de acções, da repressão financeira e do Kreditanstalt de 1931", escrevi:
"(O evento Kreditanstalt) foi accionado porque a França, uma credora do sector público, introduziu uma condição política à Áustria, em troca de um resgate ao Kreditanstalt. Hoje, como em 1931, na zona euro, o sector público é, cada vez mais, o credor do sector público. Em 1931, a Inglaterra e a França eram credoras da Áustria e exigiram condições que nenhum investidor privado teria exigido.

Os investidores privados vivem e morrem pelos lucros e prejuízos que obtiverem. Os políticos vivem e morrem pelos votos que consigam alcançar. Os investidores privados preocupam-se com a sustentabilidade e estrutura de capital daquele que pede emprestado, com a exigência de garantias e com o perfil de financiamento dos seus créditos. Os políticos preocupam-se com a sustentabilidade do seu poder. É um facto e temos de aprender a viver com ele.

Em 2012, a Grécia e cada vez mais outros países periféricos da União Europeia são devedores de outros estados, do FMI e do Banco Central Europeu. Os investidores privados foram devastados e não regressarão tão cedo. Tememos que, tal como em 1931, quando o próximo resgate ocorrer, quer novamente à Grécia quer a Portugal ou a Espanha, serão exigidas condições políticas que um investidor privado, no seu pleno juízo, jamais teria exigido.

Pense-se nisto ... Que diabo tinha a união aduaneira entre a Áustria e a Alemanha, em 1931, a ver com o rácio de capitalização do Kreditanstalt??? Nada! E no entanto, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro foram condenadas à miséria em apenas uma questão de dias enquanto as suas poupanças se evaporavam! Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das moedas fiat [fiduciárias]! Você foi avisado! Se o leitor, uns meses a partir de agora, ler nos jornais que Conselho da União Europeia irresponsavelmente vier a exigir  coisas estranhas a um país periférico necessitado de um resgate, lembre-se do Kreditanstalt. Lembre-se de 1931 ...

Por favor, compreenda que este não é um risco extremo [tail risk]. O risco extremo é precisamente o oposto [ou seja, é muito significativo]. O real risco extremo aqui [ou seja, o altamente improvável] é que, quando o próximo resgate ocorrer, os políticos pensem como investidores privados pensariam e dêem prioridade à economia e não a considerações políticas. Esse é o risco extremo! Se uma tal crise vier a ocorrer, os media irão falar de correlações crescentes e dir-lhe-ão que tudo está realmente bem neste lado do Atlântico. Mas se nos ler a nós, irá saber que tudo o que levou a tal situação era perfeitamente previsível e nada está realmente bem, também deste lado do Atlântico. Ter-se-á lembrado de 1931..."

Chegado aqui, eu acho que tudo está dito e não tenho mais nada a acrescentar. As minhas preocupações de há um ano estão-se mostrando demasiado correctas.

domingo, 24 de março de 2013

Citação do dia (107)

Da natureza do regime democrático. Nada de novo mas a ter sempre presente.
Os investidores privados vivem e morrem pelos lucros e prejuízos que obtiverem. Os políticos vivem e morrem pelos votos que consigam alcançar. Os investidores privados preocupam-se com a sustentabilidade e estrutura de capital daquele que pede emprestado, com a exigência de garantias e com o perfil de financiamento dos seus créditos. Os políticos preocupam-se com a sustentabilidade do seu poder. É um facto e temos de aprender a viver com ele.

A queda do IV Reich ou do Império da dívida

Similitudes históricas inquietantes.


Via TBP

sábado, 23 de março de 2013

No 10º aniversário da invasão do Iraque

E, como seria de esperar, a descoberta de mais uma "Arma de Destruição Maciça" deu-se em pleno (sub)solo americano.


Por Michael Ramirez.

Curiosidade irrelevante

O nome do actual governador do banco central do Chipre que, imagino, esteja em regime de laboração contínua há já uns dias largos, é, muito apropriadamente, Panicos Demetriades (Wikipédia).

Evocação politicamente incorrecta na "Hora do Planeta"

Recordando todos aqueles que, não apenas entre as 20:30 e as 21:30 de hoje, mas também durante as restantes horas do dia, como de resto aconteceu ao longo de todas as suas vidas, continuam sem poder beneficiar do acesso à electricidade. Calcula-se que sejam mais de 1,3 mil milhões. Um bom motivo para promover uma reflexão, certamente mais proveitosa (e menos hipócrita) que participar em patetices como esta. "Let's keep the lights on!"

Plano inclinado

Já não deve demorar muito: Cyprus Officially Passes Capital Controls Into Law

Retirado daqui