Recuso-me - recusar-me-ei sempre - a catalogar uma classe profissional no seu todo, especialmente se muito numerosa, como se de uma amálgama se tratasse. Como em todas as profissões, há uns bons (uns deles muito bons), há os maus profissionais (alguns mesmo demasiado e irremediavelmente péssimos) e há, depois, a grande massa dos "medianos" cujos comportamentos e atitudes dependem em muito da liderança (ou falta dela) de que forem alvo. Parafraseando
Alberto Gonçalves, fabricar uma imagem idílica de uma dada actividade profissional é equivaler as fraudes aos profissionais sérios - e caluniar estes. "
Pior: nivelar os professores por cima é uma burla idêntica à padronização por baixo que há décadas se aplica aos alunos e que, de resto, torna anacrónica a conversa acerca das virtudes e defeitos do ensino". Não é preciso acrescentar mais nada.
Coisa diferente é apreciar as organizações que reclamam para si a legitimidade de representar uma dada classe
na sua totalidade (ou mesmo de parte dela). Como terei sido dos poucos
bloggers que ainda não abordou o tema da greve dos professores às avaliações, agora ao que parece
suspensa, chegou a altura de escrever algo sobre o tema.
Já fui, numa encarnação recuada, professor do ensino básico e secundário ("provisório", segundo a nomenclatura da altura) e conheci muitos bons professores ou que o foram tendo entretanto deixado a profissão. Como aluno, tive muitos professores ao longo do percurso escolar, mas não consigo lembrar-me de cinco professores de excepção. Em contrapartida, lembro-me perfeitamente de um numeroso grupo de professores que não hesitaria em classificar de maus, particularmente na Universidade (e não me licenciei eu em Sociologia, como sucedeu a Alberto Gonçalves...). Mas a minha "amostra" não é representativa pelo que não pretendo sugerir qualquer tipo de extrapolação.
Ao longo do ano lectivo que agora termina, acasos da vida conduziram-me a uma reaproximação do ensino, em particular, do ensino da Matemática. Através do contacto directo com um pequeno grupo de alunos de diferentes escolas da proximidade, e de vários graus de ensino (9º, 10º e 12º), fiquei estarrecido com a iliteracia demonstrada. Desde logo, com o domínio muito incipiente da língua materna que em muito dificultava, quando não
impossibilitava, a compreensão de um enunciado. "Isto é para fazer o quê?", "Estou baralhado" ou o mais sincero "Não percebo" foram expressões frequentes. À pergunta relativa a uma qualquer definição lá vinha a inevitável resposta (???) "É quando...". Depois, a dependência da máquina de calcular que constatei foi algo de absolutamente doentio
e criminoso particularmente no ensino básico. A
promoção da sua utilização apenas serve para tentar protelar a emergência da verdade: a ausência de competências de cálculo mental, incapacidade de aferir um resultado, desconhecimento das operações numéricas e algébricas elementares e por aí fora. Uma galeria de horrores que por várias vezes me fez lembrar a "crónica" de Olavo de Carvalho justamente intitulada
A Imbecilização Desde a Infância.
O exame, qualquer exame, é um momento definidor do sucesso/insucesso, do "passei"/"chumbei", do "consegui" do "não consegui" (namorado/namorada, homem/mulher, emprego/desemprego, etc.). Perturbar terceiros num momento desta natureza ainda por cima invocando que a greve também era por eles ("em defesa do ensino"), por motivos afinal puramente corporativistas, é inqualificável.
Quando à substância - para que serve um sistema de ensino -, isto basta:
A Associação de Professores de Matemática chumba exame do 12.º ano. "Um aluno médio terá certamente muitas dificuldades na resolução desta prova".
Matemáticos [da Sociedade Portuguesa de Matemática] aplaudem prova A (do 12º Ano). "Verifica-se que a distribuição do nível de dificuldade das várias questões permite a distinção dos bons alunos, possibilitando também que o aluno médio, que se tenha preparado devidamente, obtenha uma classificação que reflicta adequadamente o seu nível de conhecimentos".
Está na altura de fechar a meditação. Boa noite.