sexta-feira, 7 de junho de 2013

Substância e retórica

Estou como o André Azevedo Alves: isto não é mais que a demonstração, por parte da actual coligação, da total incapacidade e/ou vontade de diminuir, de facto e estruturalmente, o peso do Estado na economia portuguesa. Aqui ao lado, Juan Ramón Rallo escolheu a ilustração, que a seguir se apresenta, para ilustrar a capa do seu novo livro - Crónicas de La Grand Recesión II:


Como Rallo explica, descontada a inflamação da retórica, no plano substantivo praticamente nada mudou de Zapatero para Rajoy. Mutatis mutandis, o mesmo de pode dizer deste lado da fronteira, mesmo quando a retórica já raia a alucinação.

A desnudação do império e do seu imperador

Discurso de Obama aos novos diplomados da Universidade Estatal do Ohio, no Ohio Stadium, em 5 de Maio de 2013, em Columbus, Ohio. Desse discurso, destaca-se o seguinte trecho (tradução minha):
PRESIDENTE OBAMA: «Infelizmente, vocês cresceram ouvindo vozes que, incessantemente, alertam que o governo nada mais é do que uma espécie de entidade sinistra e separada que está na raiz de todos os nossos problemas. Algumas destas mesmas vozes também fazer o seu melhor para tudo estragar. Eles advertem que a tirania está sempre à espreita ao virar da esquina. Vocês devem rejeitar essas vozes. Porque o que elas sugerem é que a nossa experiência única, corajosa e criativa, de autogoverno de alguma forma não passa de um logro em que não se pode confiar.

Nós nunca fomos um povo que colocasse toda a nossa confiança no governo para resolver os nossos problemas. Nem deveríamos desejar tal coisa. Mas também não achamos que o governo seja a fonte de todos os nossos problemas. Porque entendemos que esta democracia é nossa. E, como cidadãos, entendemos que não se trata de saber o que poderá a América fazer por nós, mas sim o que pode ser feito por nós, em conjunto, através do trabalho duro e frustrante, mas absolutamente necessário do autogoverno. E, classe de 2013, vocês têm que estar envolvidos nesse processo.»
Apenas uns dias depois, iniciou-se uma torrente de escândalos que ontem culminaram (?) com a divulgação de uma monstruosa e inominável operação de espionagem à escala das dezenas de milhões de... cidadãos americanos que, como apropriadamente aqui se escreve, fariam Richard Nixon corar de vergonha de tal modo que mesmo o obamaniaco New York Times, em editorial, assinale: "Mr. Obama is proving the truism that the executive branch will use any power it is given and very likely abuse it". Pois é. Mesmo um Prémio Nobel (da Paz, calcule-se). Mesmo um ex-professor de direito constitucional. Nada mudou depois de Bush. Ou por outra: afinal, no domínio da liberdade, tudo piorou com Obama.

Por um qualquer alinhamento astral ditado pelos deuses, tudo isto se acontece quando se iniciou esta semana o julgamento (?) do whistleblower e, esse sim verdadeiro herói, Bradley Manning, acusado de traição por ter ajudado (!) o inimigo (através do The Guardian, do New York Times, do El Pais, do le Monde e da Der Spiegel, via Wikileaks) divulgando factos inconvenientes para as administrações americanas. Vergonha!

Phil Collins - In The Air Tonight

E depois de um silêncio mais prolongado, um cheirinho a "Oceano Pacífico". Uma boa noite!

sábado, 1 de junho de 2013

Silêncios

Foi um grande prazer ter ido ouvir anteontem o Jorge Colaço, meu amigo de longa data, na primeira das suas anunciadas chalras públicas, às quintas-feiras, no centro histórico de Oeiras. Na ocasião, pretextada segundo se lia no convite, pela recente publicação no Brasil (Editora Kelps) do seu livro de poesia Crateras e cristais, o Jorge também leu alguns dos seus poemas. Não me reconhecendo competência para me pronunciar sobre a sua poesia (já houve quem o tivesse feito), devo todavia dizer que o poema Silêncios me tocou fundo. Partilho-o agora.
SILÊNCIOS
Há silêncios recolhidos, densos. Há silêncios
doridos, vivos de mágoa. Há silêncios de
espanto. Há silêncios duros, tensos. Há silêncios
constrangidos. Há silêncios desajeitados. Tolos.
Há silêncios de recusa. Ou de pudor. Há silêncios
ansiosos. Há o silêncio da espera. O silêncio
da premeditação. E o da raiva. Há o silêncio da
ignomínia e da humilhação. Do esquecimento. Do
desprezo. Há silêncios palpitantes. Há mil palavras
em certos silêncios. Há o silêncio da prece. E há o
silêncio do vazio. Há silêncios impossíveis. E há o
silêncio procurado. O voto do silêncio. A humildade
do silêncio. Há segredos nos silêncios. Há silêncios
apavorados e também os há pavorosos. Mas há
silêncios deslumbrados, intensos. Há o silêncio do
silêncio, de onde a música brota. Há ainda o silêncio
de quando a voz não cabe nas palavras. E há o
silêncio que fica quando ficamos sós: humidade que
se adentra e nos devora em silêncio.
Jorge Colaço, Crateras e cristais

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Citação do dia (117)

"The mainstream of the economics profession has long suffered from physics envy and has sought to model the unmodelable - human action - to make their “science” appear to be physics-like and scientific."

Thomas DiLorenzo

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Clarificando a taxa justa de imposto sobre as empresas (em particular, das mais bem sucedidas)


Por Robert Ariail

Citação do dia (116)

"Because we are self-controlling beings, we are also responsible for our actions. This is not a moral or ethical proposition, but simply a causal one: I am responsible for what I do because I am the one who controls my actions. By the same token, to the degree we seek to control the lives and property of others, we help to foster, in their minds, the illusions that they are not responsible for what they do."

Butley Schaffer, in Why Are We Afraid To Be Free?

Mitos persistentes: a "Idade das trevas"

Já antes assinalei o agrado que tenho pela lema da Prager University: "Undoing the damage of the University... five minutes at a time". Eis um outro exemplo desse esforço.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Desfazendo as lavagens ao cérebro aos universitários

Para conseguir anular o ideário politicamente correcto veiculado na generalidade das universidades, a proposta de Thomas Sowell, em Undoing the Brainwashin, é "simples": levando-os a leituras selectivas e decisivas. Não podendo falar por experiências de vida que não a minha, não escondo o meu cepticismo quanto à possibilidade de a "receita" fornecida poder chegar ao grosso da população universitária (e com certeza que o mesmo se passará com Sowell). A única batalha que poderá fazer a diferença centra-se na intelectualidade e essa "avança" (ou recua) de uma forma, a meu ver muito semelhante, à que Thomas Kuhn descreve em A Estrutura das Revoluções Científicas - por "paradigmas". De qualquer modo, pelo menos para a pequena comunidade que frequenta estas paragens, parecem-me úteis as referências de Thomas Sowell que já incluí (quase todas) no meu pipeline de leituras futuras. A tradução é minha.
Nesta altura do ano, com o regresso a casa dos estudantes universitários para as férias de Verão, muitos pais poderão aperceber-se de quantas ideias politicamente correctas os seus filhos adquiriram no campus. Alguns desses pais poderão perguntar-se sobre como anular algumas das lavagens ao cérebro que se tornaram tão comuns no que são supostas ser instituições de ensino superior.

A estratégia utilizada pelo general Douglas MacArthur, que tanto êxito obteve no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, pode ser útil neste bem diferente tipo de batalha. O General MacArthur conquistou as suas vitórias, minimizando as vítimas - algo que também é desejável nos confrontos de ideias no seio da família.

Em vez de combater os japoneses em cada uma das ilhas-fortaleza à medida que os norte-americanos avançavam em direcção ao Japão, MacArthur enviou as suas tropas em batalha apenas para aquelas ilhas que eram estrategicamente cruciais. Com o mesmo espírito, os pais que pretendam conseguir devolver os seus endoutrinados filhos à realidade não necessitam de tentar combater cada uma das ideias loucas que lhes foram transmitidas pelos seus professores politicamente correctos. Bastará demolir algumas crenças cruciais, expondo o seu absurdo, para que possam desferir um golpe na credibilidade geral dos professorais flautistas [alusão à personagem dos irmãos Grimm].

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Citação do dia (115)

"There is no better means to disclose the absurdity of a mode of reasoning than to let it pursue its full course to the end."
Carl Menger

De sofá e pipocas

Krugman Accused of ‘Uncivil Behavior’, no Wall Street Journal. Para pormenores, na perspectiva de Reinhart e Rogoff, ver aqui. Quanto à de Krugman, basta seguir o seu blogue.

Pelas razões que na altura apontei, não tenho muito a acrescentar quanto à "substância" da polémica daqueles autores com Krugman. De qualquer modo, como Robert Murphy ilustra no seu artigo Heads Krugman Wins, Tails ‘Austerity’ Loses diria que, em definitivo, a ausência de civilidade intelectual de Krugman é de facto notavelmente perturbadora.

Uma pergunta que poucos fazem

Por Grant Williams (via Zero Hedge): "Se a economia global está a estagnar, a Europa está em recessão, a China está a abrandar e é aparentemente impossível gerar crescimento, por que estão os mercados accionistas a observar máximos de sempre?"

Houve um tempo em que as bolsas forneciam sinais com significado real aos agentes económicos quanto às expectativas futuras da evolução das economias. Então, as taxas de juro tinham um significado real: elas eram, em cada momento, o resultado do encontro da procura e oferta de fundos (poupança) seja nos mercados accionistas como nos obrigacionistas. Agora, porém, e num movimento crescentemente coordenado à escala mundial, os bancos centrais destruíram o seu significado manipulando-as a tal ponto que chegaram a perto de zero (!) e aí permanecem há anos (política monetária conhecida por ZIRP), ao mesmo tempo que, directa ou indirectamente, monetizam a dívida pública (isto é, "imprimem" dinheiro em quantidades colossais). Uma das consequências directas desta política insane - estabelecida em faustosos salões por burocratas que não respondem a ninguém senão a si mesmos - é a destruição da poupança privada, especialmente a das famílias e dos pensionistas, que obtêm ridículos retornos das suas aplicações financeiras tradicionais. Esta é uma consequência intencional. O que os bancos centrais têm visado - e conseguido - é fazer deslocar as aplicações financeiras para produtos de cada vez maior risco (em busca de melhores retornos). É por isto que as bolsas sobem. As bolhas nos mercados accionistas estão a ser fabricadas. Conscientemente. Hoje como ontem.

Por memória, aqui ficam as evoluções dos últimos 5 anos dos índices S&P (Nova Iorque), DAX (alemão), FTSE (londrino), NIKKEI (Tóquio), obtidas cerca das 13 horas de hoje (cortesia da Bloomberg):

S&P:

DAX:
FTSE:
NIKKEI:

domingo, 26 de maio de 2013

Não se preocupem porque desta vez vai ser diferente

Esta estória continuou na semana que passou. A festa em Wall Street, orquestrada por Bernanke, prossegue ao ritmo que o gráfico denota. Aguarda-se, a todo o momento, que algum alto responsável (?) venha desmentir, categoricamente, as interpretações daqueles que antevêem o rebentar de uma nova bolha para um momento não muito distante.


Ah, já me esquecia: como é evidente, comentários desta natureza são próprios de bota-abaixistas que não merecem o mínimo de crédito.

sexta-feira, 24 de maio de 2013