terça-feira, 12 de novembro de 2013

A deflação é uma ameaça? Não será antes uma oportunidade?

A esta hora, é este o título de "caixa" do Público: Ameaça de deflação volta a ganhar força em Portugal. Tudo isto porque o índice de preços ao consumidor referente a Outubro, face ao mesmo mês do ano transacto (mês "homólogo"), teve uma variação de -0.2%. Para alguns - quase todos os banqueiros centrais e os media do mainstream -, isto constitui uma "ameaça" porque, supostamente, "a baixa de preços faz com que as famílias adiem os seus consumos e as empresas recuem nos investimentos, tornando a saída da recessão ainda mais difícil".

Assim se contribui para instalar um ambiente propício a uma ainda maior intervenção "planificada". A mensagem é: "há que agir, de preferência imediatamente"; ou, a posteriori, "confirmar" a sabedoria das decisões "surpresa" do salvador-mor em exercício - o BCE e o seu sempre extraordinário e clarividente líder.

Mas o leitor acha mal que os preços baixem? Sente-se prejudicado com isso? É daqueles que está à espera há para aí uns vinte anos, aguardando pelo fim das sucessivas descidas de preços dos computadores? Aguarda há 8 anos para mudar de televisor porque o LCD, o "plasma" e agora os LED ultrafinos continuam a baixar de preço? Está há 3 anos à espera do "preço justo" para comprar um smartphone? Estará afinal a indústria da electrónica a desaparecer sem que nos tenhamos dado conta?

Toda a conversa da "ameaça" da deflação se baseia numa incorrecta leitura histórico-económica dos acontecimentos da Grande Depressão, o que é um óptimo pretexto para ler o recente livro de David Stockman e, assim, obter uma narrativa radicalmente diferente do que então se passou (recensão recente aqui). A ortodoxia dominante quer vender-nos a ideia que uma descida sustentada de preços é inimiga do crescimento económico. Nada mais falso.

E, por último, alguém entende qual a razão por que a subida do preços é, pelo contrário, "boa" para os consumidores? Especialmente para aqueles que vivem dos seus salários e das suas pensões de reforma? Bullshit.

Ciência, matemática e previsões

Tal como em Economia, na variante herdeira da corrente dita "neo-clássica" que há muito é largamente maioritária na disciplina, também na climatologia se faz recurso a "modelos" matemáticos, cuja complexidade tem vindo a crescer com a cada vez maior capacidade computacional, que procuram representar, ainda que de forma simplificada, a realidade. Em qualquer dos casos, o fim último pretendido com a utilização de "modelos" é a capacidade de obter projecções, i.e., fazer previsões sobre o futuro (uma tarefa bem arriscada, como sabemos...). E se bem que haja quem dispute que a disciplina da Economia seja de facto um domínio científico (matéria que abordarei em posts subsequentes), nomeadamente pela incapacidade reconhecida em "acertar" nas suas previsões e/ou em produzir previsões/estudos para todos os gostos, confesso não conhecer - o que será ignorância minha - nenhuma objecção à qualificação científica da Climatologia (ou, de igual modo, da Biologia Evolutiva...).

O "boneco" abaixo, retirado daqui, contrasta a realidade com as previsões de 138 (cento e trinta e oito!) modelos matemáticos "computarizados", autênticas "caixas pretas", relativos à previsão da evolução da temperatura à superfície terrestre, matéria do domínio da Física. O resultado da comparação é, no mínimo, tristemente desfavorável para os ditos "modelos" já que a realidade teima em comportar-se de modo diferente do "previsto". Será que, afinal, também é disputável classificar a Climatologia de ciência? Ou será que a tentativa de modelar sistemas não-lineares, caóticos, é, essa sim, uma impossibilidade? E é com "isto" que nos vêm espoliando os bolsos para prevenir o horror de um Armagedeão Climático?

Para aqueles que vêm registando com atenção a evolução da sua factura de electricidade e não se esquecem de que, em paralelo, o défice tarifário não tem parado de subir, esta não é (ou não de via ser) uma questão lateral. 

Citação do dia (145)

Axiomático.
"No matter how much the government controls the economic system, any problem will be blamed on whatever small zone of freedom that remains."

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Do exercício, em economia, da profecia estatística

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Manuela Ferreira Leite: "O Orçamento do Estado para 2014 tem um ponto gritante – não toma em consideração o crescimento" (...) Era essencial que se apostasse totalmente nas exportações e no investimento privado.

Entretanto...
Exportações voltaram a disparar em Setembro

Moody's melhora perspe[c]tiva sobre Portugal

Diz que o Governo é neoliberal

Por Alberto Gonçalves:
Comércio injusto

O "guião" para a reforma do Estado é o produto típico de quem nunca sonhou reformar coisa nenhuma. Veja-se a RTP, cujo destino anunciado era a privatização e cujo destino verdadeiro será qualquer "solução" excepto a privatização. Pior: com ou sem "guião", o Governo não só não sabe o que quer para a televisão pública como não sabe o que esta televisão pública é. Em resposta a críticas das estações privadas, uma nota do gabinete do ministro Poiares Maduro "rejeita qualquer ideia de que pretende tornar a RTP num canal com vocação comercial".

Contemplo a programação dos canais da casa, na essência igual à de há dez ou vinte anos: cantorias "pimba"; concursos "pimba"; conversas "pimba"; noticiários "pimba"; ficção "pimba", debates "pimba"; etc. A vocação comercial da RTP já é imensa. O negócio é que anda fraco e, à semelhança de quase tudo neste país, carece de apoios. É aí que entra o contribuinte, que no fundo paga o bilhete de um filme ou de uma peça dos quais não quer ser, e não é, espectador. Nem sequer se trata de uma analogia: acontece com a RTP aquilo que por exemplo acontece na "cultura". E continuará a acontecer. Diz que o Governo é neoliberal.

sábado, 9 de novembro de 2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A "novidade" das coisas velhas

Tenho dedicado vários posts à reforma no sector da saúde que constituiu a maior bandeira eleitoral de Obama - o "Affordable Care Act" ou, no seu petit nom, "Obamacare". A mastodôntica extensa regulamentação associada e os efeitos que está já a provocar fazem do Obamacare um verdadeiro case study, de que temos tido o "privilégio" de testemunhar a secular lógica estatista e os padrões da  sua metastização.

Foi com esse propósito que procurei traduzir o recente artigo de Thomas Sowell - "An Old 'New' Program".
Thomas Sowell
Como tantas coisas que parecem novas, o ObamaCare [1] é, sob múltiplas formas, vinho velho em garrafas novas.

Por exemplo, quando confrontado com o facto de, em consequência do ObamaCare, milhões de americanos poderem perder o seu actual seguro de saúde, os seus defensores dizem que isso só é verdade quando aquelas pessoas estão "sub-seguradas" [com menores coberturas que o "padrão" mínimo que a nova legislação tornou obrigatório para as apólices de seguros de saúde].

Quem decide o que é um "sub-padrão"? Haverá algo mais velho do que a ideia que uma elite exaltada sabe o que é bom para nós, melhor do que nós próprios? Obama usa a retórica do "para a frente", mas ele está de facto a andar para trás, recuando a uma época em que déspotas diziam a todos o que era e o que não era melhor para eles.

O ObamaCare é igualmente velho de uma outra forma. Um dos motivos fundamentais que explica por que os seguros médicos privados se tornaram tão caros é que os políticos, estado após estado, têm vindo a impor quais as coberturas que estes seguros devem abranger, independentemente do que as pessoas pretendam.

Um seguro de cobertura total, que abranja desde tratamentos para a calvície até operações para mudança de sexo, é muito mais caro do que um seguro que apenas cubra as doenças graves que podem absorver as poupanças de uma vida. Agora [com o ObamaCare] essas obrigatoriedades passaram do plano dos estados para o plano federal.

O seguro é um contrato para lidar com riscos É uma forma cara e contraproducente para pagar coisas que não são riscos - como os checkups anuais, que se sabe antecipadamente que irão ocorrer em cada ano.

O seu checkup anual não custa menos pelo facto de ser coberto pelo seguro. Na verdade, até custa mais, porque a pessoa segurada tem que pagar prémios que abranjam não apenas o custo do próprio checkup, como também os custos administrativos da empresa seguradora.

Se o seguro automóvel cobrisse o custo de pagamento das mudanças de óleo, isso tornaria as mudanças de óleo mais baratas ou mais caras? Obviamente mais caras, uma vez que mais pessoas teriam que ser pagas para se envolverem na transacção, em vez de, simplesmente, se pagar directamente do bolso de cada um [proprietário de uma viatura] às pessoas que lhe mudaram o óleo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Que não se fechem os olhos nem se tapem os ouvidos

Plano B, por Carlos Novais.

Eis a razão pela qual, segundo Krugman, os EUA não correm o risco de ser a Grécia

tal como no Reino Unido ou no Japão, lê-se aqui. O que têm estes países em comum? Uma tecnologia de que podem fazer uso à discrição sem ter que dar cavaco a ninguém. Ei-la:

Imagem retirada daqui

E andava o pobre Fausto às voltas com a alquimia... quando a "riqueza" está aí à disposição de todos. Acabem com a austeridade JÁ, caramba! De que estão à espera para nos enriquecer a todos?

O que não se disse acerca do Iraque (e assim continua a suceder)

Pelo menos os mais antigos frequentadores do blogue terão presente o contador macabro inscrito na coluna da direita sob a epígrafe "As acções têm consequências". É raro o dia que não dou conta de por lá haver "actividade" apesar de os jornais já praticamente terem deixado de se preocupar com as notícias da trágica sucessão de mortos e feridos que não mostra sinais de abrandar (bem pelo contrário, apesar de as próprias Nações Unidas terem retirado do seu website um "contador oficial" que mantinham desde 2003). Estranhamente (<sarcasmo/>) também não dou conta que os media se interroguem quanto à súbita "calmaria" no morticínio sírio (apesar disto) logo que, numa curva inesperada e in extremis, se regressou ao lá de cá da "linha vermelha". Mas nem por isso deixa de haver quem pretenda prosseguir na tresloucada doutrina intervencionista persistindo em alcançar o "Grande Prémio": a guerra contra o Irão.

É este o tema do artigo de Ron Paul que me propus traduzir, a propósito da visita que Nuri al-Maliki, primeiro-ministro do Iraque, fez a Obama na semana passada em Washington.
Por Ron Paul
3 de Novembro de 2013

Outubro foi o mês mais mortífero no Iraque desde Abril de 2008. Nesses cinco anos e meio, não só não houve qualquer melhoria nas condições de segurança no Iraque como, pelo contrário, elas se tornaram muito piores. Mais de 1000 pessoas foram mortas no Iraque no mês passado, na sua grande maioria civis. Outras 1600 ficaram feridas, com os carros-bomba e os tiroteios a continuar a mutilar e a assassinar.

Enquanto o Iraque pós-"libertação" mergulha na espiral descendente, o primeiro-ministro Nuri al-Maliki esteve em Washington na semana passada a suplicar por mais ajuda dos Estados Unidos para ajudar a restaurar a ordem numa sociedade destruída pela invasão dos EUA em 2003. A Al-Qaeda conseguiu avanços recentes significativos e o Iraque necessita de mais ajuda militar dos EUA para combater a sua influência crescente, disse Maliki ao presidente Obama na reunião que tiveram na sexta-feira passada.

Obama prometeu trabalhar em conjunto com o Iraque para enfrentar a crescente presença da Al-Qaeda, mas o que não foi dito foi que antes do ataque dos EUA não havia Al-Qaeda no Iraque. O aparecimento da Al-Qaeda no Iraque coincidiu com a ataque dos EUA. Alegaram que tínhamos que combater o terror no Iraque, mas a invasão dos EUA resultou na criação de redes terroristas onde antes não havia nenhuma. Que desastre.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Prossegue, impetuosa, a reforma do estado em versão über-liberal

Artur Trindade: "Nós temos um debate cacofónico em relação ao custo dos combustíveis".

Vai daí, para acabar com a cacafonia (o que quererá o homem dizer com isto?), lá nos saiu na rifa mais uma "entidade" reguladora fiscalizadora - Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis -, algo que tanta falta nos fazia, à semelhança dos utilíssimos painéis sobre os preços dos combustíveis que alguém obrigou a "plantar" ao longo das auto-estradas. O mesmo governante, que há dias nos tinha deixado com esta muito reveladora pérola, ainda acrescentou: "o que é importante é que os consumidores participem no debate técnico que está na origem do preço"! (realce meu).

terça-feira, 5 de novembro de 2013

5 de Novembro - o dia da Conspiração da Pólvora

Tradução do artigo de hoje de Simon Black - «"I" for Inevitable» - tendo presente o aforismo, que também creio verdadeiro, que "quem não conhece a história está condenado a repeti-la".
5 de Novembro de 2013 [republicação do artigo divulgado há exactamente um ano atrás]
Bangkok, Thailand

Há pouco mais de 400 anos atrás, no dia de hoje, um grupo de 13 conspiradores foi preso quanto tentava assassinar o rei Jaime I da Inglaterra e fazer explodir a Câmara dos Lordes, naquilo que ficou conhecido como a Conspiração da Pólvora.

Se o leitor já viu o filme "V de Vingança" [link], conhece a história. Guy Fawkes foi encontrado sob a Câmara dos Lordes com três dezenas de barris de pólvora... e até hoje a sua efígie continua a ser queimada anualmente em comemoração do sucedido.

Fundamentalmente, a Conspiração da Pólvora [link] teve a ver com a liberdade. A monarquia inglesa, à época, controlava praticamente todos os aspectos da economia e da vida dos seus súbditos - do que podiam vestir ao modo como podiam venerar.

As "leis sumptuárias", que regulavam o comportamento privado, eram comuns. Isabel I, por exemplo, re-introduziu um imposto da barba [criado por Henrique VIII] que era devido a todos aqueles que deixassem crescer o cabelo facial para além das duas semanas.

Ela fez também publicar longas listas, categorizadas por classe social, que ditavam exactamente qual a cor e tipo de vestuário que os seus súbditos eram obrigados a usar.

Acontece que essas leis sumptuárias foram apenas uma forma primitiva de bem-estar corporatista patrocinado pelo estado; a indústria têxtil inglesa tinha pago a Isabel I enormes somas de dinheiro em troca de decretos reais que regulavam os gorros de malha e as meias de lã.

Em consequência, boa parte da mão-de-obra inglesa e do rendimento disponível foi incorrectamente afectada à produção de vestes tolas em vez de o ser a utilizações mais produtivas... e o país estava num estado de quase permanente estagnação.

Salário mínimo, disparate máximo

A mais recente investida governamental (ou, talvez melhor, da componente que provém do auto-denominado "partido dos contribuintes") no sentido de decretar incentivar o aumento dos salários e, em particular, ainda que enviesadamente, do salário mínimo (que segundo o socialista centrista Mota Soares só não aumentará porque a troika não deixa mas também não diminui porque, aí, é o governo que se recusa a aceitar a sugestão da troika), leva-me a revisitar o tema do salário mínimo. Para o efeito, e porque é particularmente importante nesta questão o apelo à didáctica, socorri-me de um artigo recentemente publicado no Washington Times, da autoria do Prof. Dominick T. Armentano, cuja tradução, de minha responsabilidade, abaixo reproduzo e de onde roubei o título deste post.

É espantoso que sobre um assunto que há muito está esclarecido continue a persistir na opinião pública, com a ajuda inestimável de um punhado de activistas políticos economistas (?), a ideia de que é possível iludir reescrever a lei da procura. Mas este é também o tempo em que, mesmo ao arrepio da lógica mais elementar, os mitos se acumulam e se reforçam (mesmo que muito antigos). Por algum motivo se explica o generalizado desprezo por Aristóteles.

Curioso, por fim, que após 9 (nove) meses consecutivos de quedas na taxa de desemprego (que está agora - dados de Setembro do corrente - aos níveis de Agosto de 2012), o governo tenha achado oportuno vir falar no assunto nos termos em que o fez, quando não lhe cabe a si nenhum mérito no sucedido.
Dominick T. Armentano
No seu discurso do estado da União de 2013, o presidente Obama sugeriu ao Congresso que aumentasse o salário mínimo federal do actual valor de 7,25 dólares por hora para, pelo menos, 9 dólares. Vários estados estão também debatendo um aumento; com efeito, a Assembleia Legislativa da Califórnia aprovou recentemente, e o governador Jerry Brown acaba de assinar, uma lei que elevará o salário horário mínimo no estado de 8 para 10 dólares no espaço de três anos. Na Flórida, onde resido, o mínimo legal (com algumas excepções importantes) é de 7,79 dólares e é reajustado anualmente pela inflação.

Será que o actual alvoroço nacional para "fazer alguma coisa" quanto aos salários mínimos constitui mais um erro governamental [federal e estatal]? Sim, absolutamente. As leis do salário mínimo fazem diminuir as oportunidades de emprego para os trabalhadores (em particular os adolescentes e os trabalhadores não qualificados) e prejudicam alguns dos próprios indivíduos que, conceptualmente, era suposto ajudar - os trabalhadores pobres. Aumentar o salário mínimo substancialmente, a nível estadual ou federal, seria um erro de política pública.

Para se ver por que assim é, coloquemos a nós próprios a seguinte pergunta: o que é provável que aconteça quando aumentamos o preço da cerveja, das casas de férias, dos livros, dos jornais ou de quase tudo, mantendo as outras variáveis constantes? Resposta: menos unidades de cerveja, de férias, de livros ou de jornais são vendidos no mercado. Na teoria económica, a  isto se denomina  como a "lei da procura" a funcionar; a preços mais elevados, menos unidades de um dado bem ou serviço serão comprados.