quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Socialismo e fascismo: no plano económico, mais semelhanças que diferenças

"A filosofia do socialismo - na sua essência, a alegação pura e simples de que uns devem ficar com o que outros produziram - é tão antiga como a humanidade. A implantação nas sociedades desta filosofia, sob a forma da propriedade e controlo totais por parte do estado dos principais meios de produção e do planeamento central na alocação dos recursos e das produções, todavia, preencheu apenas um breve período histórico. Devido à sua incapacidade intrínseca para resolver problemas envolvendo o cálculo económico, o conhecimento e a motivação, o socialismo na prática [o "socialismo real"] consumiu capital previamente acumulado e empobreceu milhares de milhões de pessoas encurraladas na experiência, matando centenas de milhões no decorrer do processo, foi entretanto abandonado praticamente em toda a parte onde foi tentado. A filosofia subjacente, porém, não se enfraqueceu um pouco que fosse. Agora, em praticamente todos os países com alguma relevância, um sistema de fascismo económico - um sistema com direitos de propriedade privada severamente condicionados, mas com alguma margem de manobra empresarial - serve como um mais viável substituto à medida que o contexto em que o velho pecado da inveja impulsiona a acção político-económica de uma forma tão acentuada quanto a que sempre sucedeu na URSS e na China maoísta."
Robert Higgs (minha tradução)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Qual destes não é como os outros?



O ouro é energia económica condensada
Michael Maloney

Apresentou-se no primeiro artigo desta série um conjunto de dados relativos às variações do preço do ouro. Evidenciou-se a volatilidade do preço, em papel-moeda, do ouro.
A partir do episódio da série que recomendámos podemos inferir uma das mais importantes razões para esta volatilidade. O dinheiro (verdadeiro, sólido) mede a expansão do papel-moeda que os governos proporcionam. Assim, quando se procede à criação de mais papel-moeda procede-se, simultaneamente, à dissolução do valor unitário de cada um desses papéis. O que provocará o efeito correspondente no aumento da quantidade de papel-moeda que cada um de nós tem de trocar para adquirir os bens de que necessita, assim como o ouro. Note-se que não é o valor intrínseco dos bens que aumenta, é o valor de cada uma das unidades de papel-moeda que diminui.
Consideremos noutra perspectiva a relação entre moeda e dinheiro. Alguns dirão que é esta a perspectiva que melhor expressa o mal que subjaz ao modo de organização política e económica das sociedades actuais.
As democracias manifestam uma tensão constitutiva que põe em causa a sua viabilidade como forma de governo. A democracia existirá enquanto os eleitores não compreendam que podem atribuir-se, pelo voto e acção de maiorias, benefícios de natureza monetária a partir do erário público. No momento em que o compreendam é fácil concluir o que acontece: a maioria vai eleger aqueles que garantam a atribuição de uma fatia maior desses benefícios. Colocando em contexto este raciocínio, o resultado desta estratégia resultará num desequilíbrio importante. E a questão que emerge é então: onde ir buscar moeda para satisfazer estas necessidades? As as soluções são conhecidas de todos – aumento de impostos ou... impressão de papel-moeda. Concentremo-nos na segunda, pois é ela que mais tem contribuído para aprofundar os problemas económicos e sociais das sociedades actuais. Importa compreender que a impressão de papel-moeda e criação de dívida são uma e a mesma coisa. E moeda não é dinheiro.
Compreenderão, então, os leitores onde estamos?
Tendo presente a questão que dá título a este desafio, considere-se uma pilha de notas do jogo “Monopólio”, uma pilha de notas de euro e uma moeda de ouro (1oz de ouro puro). Qual destes não pode ser impresso arbitrariamente? Qual deles não representa um crédito sobre outrem? Qual deles pode impedir a erosão da Liberdade que representa uma dívida galopante? 
Crianças de onze anos saberiam a resposta. E nós?


 
(imagem retirada daqui)

Da "espiral recessiva" ao "milagre económico" no espaço de um ano

Ou a miséria dos economistas do mainstream:
"Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego." - Cavaco Silva, mensagem de Ano Novo de 2013.

"Portugal, não Espanha, é o verdadeiro milagre económico na Península Ibérica." - análise do Commerzbank conhecida hoje.

sábado, 11 de janeiro de 2014

E o ouro?


O verdadeiro propósito do ouro é ser dinheiro – Gold´s real purpose is money
                                                                                        Antal Fekete

Após um ano muito complexo no mercado dos metais preciosos, damos início, aqui no Espectador Interessado, a um espaço de partilha, comentário e análise de informação acerca desse mercado e do papel destes recursos na vida dos indivíduos, das empresas e das nações.
Este espaço não é dinamizado por especialistas, nem se destina a especialistas. Constitui-se como um espaço de divulgação e aprendizagem acerca do que discutem e concluem alguns especialistas e investidores internacionais face ao desenvolvimento do mercado dos metais preciosos.
A nossa atenção vai centrar-se no ouro (Au) e na prata (Ag), já que a platina (Pt) e paládio (Pd) possuem uma dimensão de procura e aplicação industrial que determina – quase na totalidade – a dinâmica do seu valor. Assim, percorreremos referências histórias que mostram o importante papel do ouro e da prata como reserva de valor e dinheiro sólido, explorando conjecturas acerca da relação destes metais com as exigências económicas e financeiras passadas, presentes e futuras.
Comecemos por apresentar alguns dados históricos relativamente ao ouro para estabelecer o fundo interpretativo dos acontecimentos acerca da saúde das economias por esse mundo fora. Não tenhamos dúvidas, as consequências destes acontecimentos implicam as economias a uma escala global e, por conseguinte, as vidas dos indivíduos. Aconteceu no passado, acontece no presente e acontecerá no futuro.
Importa dedicar uma palavra quanto aos dados que a seguir que se apresentam. Estes dados correspondem à consulta de inúmeras fontes e pede-se ao leitor que os considere, especialmente na vertente quantitativa, com “um grão de sal”, não só porque há muita divergência nos processos de cálculo e contabilidade (economistas e contabilistas perceberão ainda melhor este facto), mas também porque este mercado – o do ouro como dinheiro sólido, no qual participam fortemente os bancos centrais (CB´s) e grandes investidores – não é um exemplo de clareza e objectividade. Se reconhecermos a importância do ouro como reserva de valor para o indivíduo, face ao que se passa nas vertentes económica e financeira mundialmente, torna-se evidente o propósito desta coluna.
Considerem-se então os seguintes dados*:
- Março de 1933 – a administração americana de Roosevelt nacionaliza o ouro na posse de particulares (especialmente em forma de moedas; os cidadãos americanos só são autorizados a possuir ouro novamente a partir de 1974) e o Tesouro deixa de cunhar moeda em ouro como estipulado na constituição;
- 30 de Janeiro de 1934 – o congresso americano aprova o “Gold Reserve Act” e o preço da onça de ouro é administrativamente valorizado de $25 para $35;
- 14 de Agosto de 1971 – $35 (o presidente americano Richard Nixon fecha a “janela de ouro”, ou seja, fecha a possibilidade de conversão de dólares em ouro que advinha do estatuto central de moeda de reserva mundial acordado em Bretton Woods);
- 18 de Janeiro de 1980 – $835;
(neste intervalo – 1971/1980 o preço 1oz. de ouro valorizou 2200%)
- 12 de Julho de 1999 – $256;
(no intervalo – 1980/1999 - o preço 1oz. de ouro corrigiu/desvalorizou 70%)
- 1 de Janeiro de 2001 – $274;
- 1 de Outrubro de 2012 – $1787;
(neste intervalo – 2001/2012 o preço 1oz. de ouro valorizou 550%)
- 30 de Dezembro de 2013 – $1204;
(no intervalo – 2012/2013 - o preço 1oz. de ouro corrigiu/desvalorizou 35%)
- produção anual de ouro mundial estimada para 2013 – 2800 toneladas;
- aquisição de ouro por parte da China (só 2013, números não consolidados) – 2180 toneladas;
- produção de ouro chinesa (para 2013, números não consolidados) – 430 toneladas;
- neste momento a China é, simultaneamente, o maior produtor e importador mundial de ouro (nota: acumula, actualmente, o primeiro lugar na importação de petróleo).

*(preços/spot diários aproximados em dólares para 1 onça troy (oz.); fontes World Gold Council e Bullion Management Group)

Tendo estes dados presentes, convidamos os nossos leitores a assistirem a uma pequena, mas muito instrutiva, série acerca da história do dinheiro e da finança (o primeiro episódio está disponível Aqui e será fácil seguir para os seguintes, no total de cinco episódios até à data).
Que comece a viagem que gostaríamos que fosse um desafio para pensar e aprender.
Boa viagem,
LV

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Citação do dia (152)

"O mais premente não é que o Estado ensine, mas que deixe ensinar. Todos os monopólios são detestáveis​​, mas o pior de todos é o monopólio da educação."

Frédéric Bastiat (in "Maudit Argent!", 1849)

Não é o capitalismo, é a cupidez

Na esteira do último post, um excerto, em minha tradução, do final do artigo ontem publicado de Juan Rámon Rallo (conviria lê-lo todo) a propósito da ladainha do "capitalismo selvagem" que segundo alguns (muitos) andaria por aí, nomeadamente na boca do Sr. Martin Schultz o qual, como sabemos, há muito manobra, de resto às escâncaras, com o fito na cadeira de Durão Barroso:
Infelizmente, o que é realmente "selvagem" no Ocidente não é o capitalismo, mas a cupidez e a sede de poder dos nossos políticos e dos grupos de pressão que aqueles servem. Longe de recuperar os saudáveis princípios liberais ​​em que floresceu e prosperou a Europa - a descentralização institucional, o comércio livre, o dinheiro honesto baseado no ouro, a baixa tributação, a livre concorrência dos mercados e, acima de tudo, a preocupação em colocar limites ao poder político - a casta política eurocrática está a impor aqueles antivalores que já levaram, em repetidas ocasiões, a que a Europa sucumbisse - a centralização imperial, o mercantilismo, o monopólio monetário de carácter inflacionário, a tributação confiscatória, o colete de forças intervencionista e corruptor dos mercados e, acima de tudo, a demolição da maioria dos contrapesos institucionais que contribuíram para restringir a expansão do poder político.

A liberdade e o bem-estar dos europeus passa necessariamente por reduzir e limitar fortemente os seus mastodônticos Estados, começando com o desmantelamento desse nocivo megaEstado da UE enxameado de políticos que, como Schulz, apenas sabem atribuir o fracasso do estatismo desbocado  de que padecemos a um inexistente capitalismo selvagem, com o propósito de continuar a parasitar a riqueza gerada pelas famílias e empresas europeias.

O nosso modelo deveria ser a pacífica, descentralizada e próspera Suíça, não o dos militaristas, centralistas e estatistas dos impérios napoleónico e bismarckiano. Liberdade de circulação para as pessoas, mercadorias e capitais, sim; burocracia estatal bruxelense, não.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lema da urgência despesista: Primeiro, gasta-se; depois, logo se vê

Imagem daqui
Nancy Pelosi, anterior Speaker da Câmara dos Representantes nas vésperas da aprovação do Patient Protection e Affordable Care Act (já conhecida por "Obamacare") e em plena e acesa controvérsia, nomeadamente de que não tinha havido tempo para os Representantes lerem todo o projecto de lei (de mais de 2000 páginas de extensão!) produziu esta afirmação espantosa, perante as câmaras de televisão (9 de Março de 2010):
"We have to pass the bill so that you can find out what is in it away from the fog of the controversy." (Tradução: Precisamos aprovar o projecto de lei para que se possa descobrir o que ela contém, longe da névoa da controvérsia.)
Algo de parecido ao método de avaliação de um melão - temos que o abrir e de o comer até ao fim para avaliar da sua real qualidade! Este e outros episódios semelhantes levaram a que o senador Rand Paul a viesse a apresentar uma resolução segundo a qual, por cada 20 páginas de um projecto de lei, seria obrigatório conceder pelo menos um dia aos membros do Senado para que a pudessem ler antes de ser iniciar o seu debate e eventual votação.

Imagem retirada daqui
Lembrei-me de tudo isto ao ler esta notícia - La CE tacha de "realmente insatisfactorio" el número de pasajeros de algunos AVE (A Comunidade Europeia classifica de "realmente insatisfatórios" os números de passageiros de alguns AVE (nome por que são conhecidos os comboios de Alta Velocidade em Espanha)).

Segundo a notícia, um deputado espanhol catalão da CiU, Ramon Tremosa,  intervindo  no plenário do parlamento europeu na presença do comissário europeu dos Transportes, Siim Kallas, afirmou que "um em cada quatro dos trajectos do AVE só transporta um passageiro por dia" (!) e que estações servidas pelo AVE como Tardienta, Huesca, Calatayud, Antequera, Puertollano, Cuenca, Utiel-Requena o Puente Genil não recebem mais do que um ou dois passageiro por dia (!).

Em resposta, Siim Kallas terá reconhecido que a exploração de alguns troços é "realmente insatisfatória" ainda que a sua análise se deva fazer ao longo de um horizonte de longo prazo: "Nas análises custo-benefício do comboio de alta velocidade em Espanha têm-se em conta pelo menos vinte a vinte e cinco anos de actividade." Por outro lado, afirmou ainda, "as análises de custo-benefício devem considerar não apenas a rentabilidade financeira, como também a rentabilidade económica no conjunto do país e da União Europeia". Acresce que, segundo o comissário, "na avaliação da rede espanhola de alta velocidade, se deve considerar o valor acrescentado europeu resultante de la integração da Península Ibérica na rede RTE-T através de linhas interoperáveis aptas para o tráfico misto [passageiros e mercadorias]". (Itálicos meus.)

E eis assim novamente, com ligeiras cambiantes, o pleno funcionamento do método de "avaliação do melão". No caso, para tentar confundir o pagode nada como invocar o argumento "definitivo" da suposta supremacia do "económico" sobre o "financeiro" o que, no contexto da despesa pública, apenas significa que são irrelevantes as contas de exploração de um qualquer empreendimento público que pode assim juntar-se a todos os outros investimentos (?) que mais não são que gigantescos empreendimentos de destruição (consumo) de capital por mera decisão de um qualquer político que quer deixar "obra". E dívida, claro.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Iraque e Irão: aprender com os erros ou voltar a repeti-los?

Minha tradução do texto de Ron Paul, Iraq: The "Liberation" Neocons Would Rather Forget (Iraque: a "libertação" que os neocons prefeririam esquecer). Por cá, a par do cada vez mais "progressista" Público, também há quem sustente, aparentemente em quadrantes diversos, que se devia ter insistido ainda um "pouco" mais, à semelhança do que se perspectiva para o Afeganistão. Nada aprenderam. Também aqui, segundo eles, e à semelhança do dogma keynesiano, o problema não está - nunca está - na medicina, antes na dose prescrita.
5 de Janeiro de 2014

Recordam-se de Falluja? Pouco depois da invasão do Iraque, em 2003, os militares dos EUA dispararam sobre manifestantes desarmados, tendo matado pelo menos 20 pessoas e ferido dezenas de outras. Em retaliação, os iraquianos locais atacaram uma coluna de "contratados" [neste contexto, figuras entre civis e mercenários pertencentes a empresas privadas(?)] pelos militares dos EUA, matando quatro deles. Os EUA, de seguida, lançaram um ataque em força sobre Falluja para retomar o controlo, o que provocou a morte a, talvez, 700 iraquianos e praticamente à destruição da cidade.

Ron Paul
De acordo com às notícias da imprensa do passado fim-de-semana, Falluja está agora sob o controlo de grupos afiliados da Al-Qaeda. A província de Anbar, onde se localiza Falluja, está sitiada pela Al-Qaeda. Durante a "surge" ["onda"] de 2007, mais de mil militares americanos foram mortos na "pacificação" da província de Anbar. Apesar de Al-Qaeda não estar presente no Iraque antes da invasão dos EUA, ela está agora a efectuar a sua própria surge em Anbar.

Para o Iraque, a "libertação" dos EUA está a revelar-se muito pior que o autoritarismo de Saddam Hussein, e continua a piorar. O ano que passou foi o mais letal no Iraque nos últimos cinco anos. Em 2013, os combates e as explosões de bombas custaram a vida a 7.818 civis e a 1.050 membros das forças de segurança. Só em Dezembro, perto de mil pessoas foram mortas.

Lembro-me de estar presente em muitas audições no Comité de Relações Internacionais da Câmara [dos Representantes] onde se elogiava a "surge", a qual, diziam-nos, assegurou aos EUA uma vitória no Iraque. Eles também elogiaram o chamado "despertar", que foi realmente um acordo firmado com insurgentes [sunitas] para pararem de lutar em troca de dólares. Eu sempre me perguntei o que sucederia quando os dólares deixassem de surgir.

Os horrores do capitalismo: lendas e narrativas II

Ao terminar este post, após ter publicado uma série de gráficos auto-explicativos, tinha deixado uma pergunta um tanto provocatória ao Papa Francisco: que mistério teria sucedido na China dos finais da década de 1970 em diante? Agora, via Carpe Diem, o excelente blog do Prof. Mark Perry, surgiu a oportunidade para fazer um zoom sobre o período de 1970 a 2006, relativamente à evolução da taxa mundial de pobreza na sua mais dura expressão (pobreza "extrema"): e "proporcionar" uma explicação:


Um decréscimo de 80% em menos de 40 anos! À custa de quê? Da globalização, isto é, do extraordinário acréscimo do comércio internacional e da libertação (pelo menos em parte) do potencial da iniciativa privada em praticamente todo o Extremo Oriente, com a China à cabeça, para além da mais ocidental Índia (neste caso, com muito menos entusiasmo e de forma intermitente).

Contraste-se agora este EXTRAORDINÁRIO facto com as seguintes afirmações do Papa Francisco e de Barack Obama:

Excerto da Evangelii Gaudium, publicada em 24-11-2013, segundo versões presentes no site do Vaticano. O papa usa a pejorativa expressão "trickle-down" (meu realce), na versão inglesa:
EN - (...) [S]ome people continue to defend trickle-down theories which assume that economic growth, encouraged by a free market, will inevitably succeed in bringing about greater justice and inclusiveness in the world. This opinion, which has never been confirmed by the facts, expresses a crude and naïve trust in the goodness of those wielding economic power and in the sacralized workings of the prevailing economic system.»

PT - (..) [A]lguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» [?] que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante.
Excerto do discurso proferido por Barack Obama, em 6-12-2013, em Kansas, onde a mesma expressão "trickle down" (agora sem hífen) surge por três vezes, cuja doutrina tinha sido "pré-anunciada" dois dias antes (minha tradução):
EN - (...) [T]here is a certain crowd in Washington who, for the last few decades, have said, let’s respond to this economic challenge with the same old tune. “The market will take care of everything,” they tell us. If we just cut more regulations and cut more taxes -- especially for the wealthy -- our economy will grow stronger. Sure, they say, there will be winners and losers. But if the winners do really well, then jobs and prosperity will eventually trickle down to everybody else. And, they argue, even if prosperity doesn’t trickle down, well, that’s the price of liberty.
PT - Há uma certa multidão em Washington que, nas últimas décadas, tem afirmado: respondamos a este desafio económico com a mesma velha música. "O mercado irá cuidar de tudo", dizem-nos. Se nos limitarmos a aumentar a desregulamentação e a baixar mais impostos - especialmente para os ricos - a nossa economia tornar-se-á mais forte. Claro que, dizem eles, haverá vencedores e perdedores. Mas se os vencedores prosperarem, os empregos e a prosperidade acabarão de seguida por chegar a todos os outros. E, argumentam, mesmo que a prosperidade não se propague, bem, esse é o preço da liberdade.
Convido o leitor a retirar as suas próprias ilações, nomeadamente a assinalável coincidência.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A bem sucedida estratégia do desemprego elevado

Já por várias vezes (entre outras, aqui e aqui) ensaiei explicar as razões pelas quais o contribuinte, presente ou futuro, se deverá alarmar sempre que se anuncia, por parte do governo de turno (ou de uma qualquer burocracia globalista), de uma nova (?) "estratégia" ao serviço de um novo (?) "desígnio", que passe por aumentar o intervencionismo estatal e a distorção do funcionamento dos mercados. O resultado, infalivelmente, conduz-nos a continuarmos neste caminho (o que criaturas como esta, ou esta, continuarão sendo incapazes de perceber). Os exemplos são infindáveis mas, nos dias que correm, será apropriado voltar a sublinhar o brutal e auto-infligido, esse sim, em-po-bre-ci-men-to totalmente artificial, que os governos do Ocidente alegremente promoveram e continuam a impor às populações e às empresas para nos "salvar" de um supostamente catastrófico "aquecimento global" antropogénico que, teimosamente, continua sem se manifestar. "Resolver" problemas depois de os inventar é, não tenhamos dúvidas, o mote dos afincados intervencionistas.


Quando todo o mundo, governo incluído (apesar da troika), vocifera contra (ou se limita a negar prosseguir) uma "estratégia de baixos salários", com isso pretendendo abrir caminho para aumentar o salário mínimo legal, o que realmente estão a prosseguir - e com uma eficácia tremenda! - é uma estratégia de desemprego elevado que atinge exactamente quem se anunciava querer proteger: particularmente aqueles que dificilmente poderão aspirar, com realismo, a um primeiro emprego que não consista em trabalho indiferenciado ou semi-indiferenciado. Como em outras longitudes, a supostamente "geração mais qualificada de sempre" tem aqui muito que "agradecer" ao monólito que é o sistema educativo estatal. Por outro lado, e apesar da reiterada profissão de fé na promoção do "empreendedorismo", os governantes tudo fazem para impedir estratégias empresariais de preços baixos como, por exemplo, através do disparo que induziram na factura energética e da miríade de impostos, taxas, sobretaxas e adicionais. A tudo isto acresce a incessante introdução de regulamentações asfixiantes cujo custo de conformidade é especialmente punitivo para os pequenos negócios - aqueles que tanto se professa defender enquanto se beneficia, de facto, as empresas de maior dimensão.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Walter Williams: em defesa da liberdade, o recurso à secessão

O conflito entre os defensores da liberdade e aqueles que a ela se opõem quando insistem em submeter pela força os que a prezam, é, hoje, na análise de Walter E. Williams, insolúvel na América que conhecemos. Em sua opinião, o caminho possível, e desejável, é o da secessão pacífica por via da separação em estados onde nuns se viessem a acolher os defensores do controlo e administração das vidas privadas enquanto noutros se agrupassem os que se opõem veementemente ao actual (e crescente) intervencionismo estatal sufocante dos espíritos livres.

A tradução do artigo, intitulado Parting Company, é da minha  autoria com excepção do trecho transcrito de O Federalista, que segue a tradução de Viriato Soromenho-Marques e João C. S. Duarte (2ª Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2011).
Eis uma questão que já formulei no passado e que necessita ser revisitada. A menos que se pretenda confundir e não esclarecer, ela tem por resposta um simples sim ou não. Se um grupo de pessoas prefere um forte controlo e administração governamentais das vidas das pessoas, enquanto outro grupo prefere a liberdade e pretende ser deixado em paz, deverão ser obrigados a entrar em conflito entre si correndo o risco de derramamento de sangue e perda de vidas de modo a impor as suas preferências ao outro grupo? Sim ou não. A minha resposta é não; eles devem ser capazes de se separar pacificamente e cada um deles seguir o seu caminho.

Walter E. Williams
O problema que a nossa nação enfrenta é muito parecido ao de um casamento em que um dos parceiros, de forma reiterada, ignora e quebra os votos matrimoniais. Além do mais, o parceiro transgressor não tem qualquer intenção de emendar o seu comportamento. É certo que o casamento pode permanecer intacto, enquanto uma parte tenta impor a sua vontade sobre a outra e se envolve na desonestidade sem escrúpulos e na retaliação. Ao invés da dominação ou da submissão por uma das partes, ou da violência doméstica, uma alternativa mais pacífica reside na separação.

Creio que a nossa nação chegou a um ponto em que existem demasiadas diferenças irreconciliáveis entre aqueles americanos que querem controlar outros americanos e aqueles americanos que querem ser deixados em paz que a separação é a única alternativa pacífica. Tal como num casamento onde os votos se quebraram, os nossos direitos garantidos pela Constituição dos EUA têm sido grosseiramente violados por um governo instituído para os proteger. Estas violações constitucionais têm aumentado independentemente de o controlo de Washington ter estado nas mãos dos Democratas ou nas dos Republicanos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Bons auspícios para os anti-deflacionistas de serviço


Ora cá está uma série de "medidas" que deverá contribuir para deter uma perigosíssima espiral deflacionista e, quiçá, servir de "estímulo" à economia. Se o leitor pensa que estou a brincar, talvez seja melhor que pense outra vez pois, de outro modo, e apesar de tantas "medidas" que foram tomadas, como entender que o défice tarifário (do sistema eléctrico nacional) vá atingir em 2014 pelo menos 4,4 mil milhões de euros (mais 772 milhões que em 2013). Que dizer de um sistema cujo custo real de funcionamento é tanto maior quanto maior for a produção de energia eólica? Que dizer de um governo que continua a subsidiar de forma obscena novas instalações de produção eléctrica de origem solar?

A propósito: terá o leitor já reparado no exemplo perfeito de oxímoro traduzido na expressão "mercado regulado"?