domingo, 30 de setembro de 2012

Já não percebo nada

Então o crescimento não estava já ali, ao virar da esquina? Não bastava a firme enunciação da vontade? De baixar uns cêntimos em cada litro de gasolina? De agravar os impostos sobre os ricos e sobre as empresas? De possibilitar a reforma aos 61 anos? De anunciar a contratação de 60 mil novos professores? De combater o desemprego agravando os custos com os despedimentos? De que se queixarão, afinal?

Foto AP, via Telegraph
Dei uma olhadela pelos jornais online portugueses. A ideia com que se fica é que esta manifestação, ao contrário das de ontem em Lisboa e Madrid, nunca aconteceu.

Austeridade e dissociação cognitiva

Um excerto da crónica de hoje de Alberto Gonçalves:
"Ao que tudo indica, o povo em protesto não quer aumentos de impostos e, em simultâneo, não quer a redução na despesa que compensaria a manutenção dos impostos tal como estão ou estavam. O povo pretende a expulsão da troika e não se encontra minimamente preparado para a penúria que a partida da troika implicaria. O povo rejeita a austeridade sem perceber que a alternativa é uma austeridade maior e menos meiga. O povo está contra o Estado e vive apavorado com a ideia de que o Estado recue nas suas vidas. O povo insulta o Governo que desastradamente tenta corrigir as contas públicas embora não deseje que as corrija com acerto, nem dedique grandes insultos aos governos que deliberadamente transformaram as contas públicas na ruína actual. O povo, em suma, é realista à maneira do Maio de 68: pedindo o impossível. Impossível no sentido de que não tem pés nem cabeça."
Acresce, como bem observa o cronista logo a seguir ao trecho transcrito, que o problema cognitivo não se circunscreve ao povo (relembrando um memorável post de João Caetano Dias). De facto,  a bandeira desta doença profunda é hasteada pela quase totalidade dos media e das nossas elites.

A via do default, isto é, do incumprimento do serviço da dívida e mesmo do seu repúdio, é um caminho possível para a saída da terrível situação em que nos encontramos (decorrente do gigantesco processo de endividamento público para que os nossos governos nos arrastaram, pelo menos nos últimos 17 anos). Não me custa admitir até que essa seja uma saída moralmente defensável. É, porém, uma via de dor, instantânea, profunda e duradoura. Que ninguém tenha a menor dúvida disso.

Quanto vale um terrorista morto?

sábado, 29 de setembro de 2012

Da Primavera Árabe ao Inverno Ocidental

O Juíz Andrew Napolitano assina um artigo na Reason sob o título The Arab Spring Becomes a Western Winter (tradução minha):
Está o Médio Oriente árabe pronto para a democracia? Sabemos como os dois últimos presidentes americanos responderam a esta pergunta.

O objectivo declarado e revisto por trás das invasões do Afeganistão e do Iraque pelo presidente George W. Bush foi o da construção de uma nova ordem mundial, impondo a democracia a populações que lhe eram inteiramente estranhas. O propósito original anunciado para invadir o Afeganistão era destruir as pessoas que forneceram abrigo aos agressores do 11/9, e o propósito original anunciado para invadir o Iraque foi o de nos livrarmos de um governo que possuía e poderia usar armas de destruição maciça.

Mas quando soubemos que o apoio efectivo para os ataques do 11/9 veio de pessoas protegidas pelos nossos supostos amigos na Arábia Saudita, e quando soubemos que as únicas armas de destruição maciça na posse do Iraque eram as que os EUA venderam a Saddam Hussein, em meados dos anos 1980, que ele já não possuía, a administração Bush mudou a retórica, mas não a violência ou o seu custo.

Uma vez que o termo dessas guerras surgiu após a instalação de regimes fantoches em ambos os países, e atendendo a que esses regimes reivindicam agora legitimidade porque foram eleitos pelo povo que foi autorizado a votar, temo-nos recordado que a democracia é mais do que o resultado de uma maioria de votos. É o respeito pelo primado do direito e do reconhecimento dos direitos inalienáveis ​​do indivíduo. Não é a tortura, as execuções extra-judiciais, ou a violação sancionada pelo governo e a supressão legal de mulheres e meninas; não é o ódio e a perseguição racial, religiosa e étnica; e não é a lei da força das turbas nas ruas.

Quando o Egipto estava num turbilhão há um ano atrás, o presidente Obama empurrou Hosni Mubarak para fora da cadeira. Ele era a marionete americana de longa data e o homem-forte egípcio que se chamava a si mesmo de presidente, mas que nunca foi realmente eleito. A sua queda foi seguida por uma ditadura militar de curta duração, a que se seguiu a eleição popular de radicais islâmicos para o governo. Eles odeiam o Ocidente, os EUA e Israel.

O Boykinism, o novo Macarthismo

Andrew J. Bacevich é um antigo coronel do exército americano que, após abandonar a carreira das armas  viria a dedicar-se ao estudo das matérias relativas às relações internacionais e, em particular, da política externa norte-americana. No texto, longo, publicado na American Conservative, sob o título Boykin’s World ("O mundo de Boykin"), Bacevich introduz-nos ao "Boykinism" doutrina que lhe parece ser "um novo macarthismo, mas mais perigoso que o antigo". Do meu ponto de vista, um artigo bem importante para a compreensão dos contornos da Guerra Global contra o Terrorismo por parte dos EUA. A tradução, algo livre, é minha.
Primeiro veio o alarido sobre a "mesquita no Ground Zero". Depois, foi o pastor Terry Jones, de Gainesville, Flórida, que conseguiu manchetes enquanto promovia o "Dia Internacional da Queima do Corão". Mais recentemente, tivemos um americano que publicou um insultuoso vídeo anti-muçulmano na internet com toda a agitação que se lhe seguiu.

Durante tudo isto, a posição oficial dos EUA manteve-se fixa: o governo dos Estados Unidos condena a islamofobia. Os americanos respeitam o Islão como uma religião de paz. Os incidentes sugerindo o contrário são o trabalho de uma pequena minoria de loucos, promotores de ódio e que apenas procuram publicidade. Entre os muçulmanos de Benghazi a Islamabad, este argumento tem provado ser difícil de vender.

E não sem razão: embora possa ser reconfortante tomar os surtos anti-islâmicos nos EUA como o trabalho de um grupo de fanáticos, o quadro é na realidade muito mais complicado. Essas complicações, por sua vez, ajudam a explicar por que a religião, outrora considerada um activo da política externa, se tornou, nos últimos anos, num passivo líquido.

Comecemos com uma breve lição de história. Do final dos anos 40 aos finais dos anos 80, quando o comunismo fornecia a abrangente fundamentação ideológica ao globalismo americano, a religião figurou, com proeminência, como tema da política externa dos EUA. A antipatia comunista em relação à religião ajudou a investir na Guerra Fria uma política externa consensual de uma notável durabilidade. O facto de que os comunistas serem ateus bastou para os colocar numa posição para além do admissível. Para muitos americanos, a Guerra Fria derivou a sua clareza moral da convicção de que se estava numa competição que colocava os tementes a Deus contra os que O negavam. Como estávamos do lado de Deus, parecia evidente que Deus deveria retribuir o cumprimento.

De tempos a tempos, durante as décadas em que o anticomunismo forneceu muito do espírito animador da política dos EUA, os estrategistas judaico-cristãos de Washington (não necessariamente, eles próprios, crentes), partindo da proposição teologicamente correcta de que os cristãos, judeus e muçulmanos adoram todos o mesmo Deus, procuraram recrutar muçulmanos, por vezes de convicções fundamentalistas, para a causa da oposição aos ímpios. Um exemplo especialmente notável foi a guerra soviético-afegã de 1979-1989. Para infligir dor nos ocupantes soviéticos, os Estados Unidos lançaram todo o seu peso por trás da resistência afegã, denominada em Washington de "combatentes da liberdade", e canalizaram ajuda (via sauditas e paquistaneses) aos religiosos mais extremistas de entre eles. Quando esse esforço resultou numa pesada derrota soviética, os Estados Unidos celebraram o seu apoio aos Mujahideen afegãos como prova do génio estratégico. Foi quase como se Deus tivesse anunciado um seu veredicto.

E todavia, sem que tenham passados assim tantos anos sobre a retirada soviética sob derrota, os combatentes da liberdade transformaram-se em Talibans ferozmente anti-ocidentais, proporcionando um santuário para a Al-Qaeda enquanto esta conspirava para atacar os Estados Unidos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A gargalhada que dei já não ma podem tirar!

Hoje mesmo tinha lido mais um belo texto de Gary North - o homem dá a ideia de escrever incessantemente, mesmo quando está a dormir (se é que dorme) - inserido na anunciada conspiração "austríaca" (outra peça aqui) com o propósito de levar Paul Krugman a aceitar um debate com Robert P. Murphy. Nele, a certa altura, escreve: "Keynesianism is incoherent in its original form, as proven by John Maynard Keynes in his classic book, which is totally unreadable, The General Theory of Employment, Interest, and Money (1936). To this original incoherence has been added 70 years of arcane formulas, which only economists even pretend to understand, and not more than about 30% of them really do understand."

Imagem retirada daqui

Ligação à "Europa" também é serviço público?


Parece concretizar-se assim, cerca de um ano depois, uma das medidas (constantes do PET - Plano Estratégico de Transportes) que o ministério de Álvaro Santos Pereira tinha anunciado para contrair os custos da transportadora ferroviária (pág. 48 do PET). Estão em causa eliminar cerca de 7 milhões de euros de défice de exploração (7,3 milhões em 2011 segundo o artigo assinado pelo jornalista Carlos Cipriano). Pelo meio, entretanto, houve que "resolver" o caso do Ramal de Cáceres após o que o comboio que liga Lisboa a Madrid - o Lusitânia - passou a cruzar a fronteira em Vilar-Formoso.

Entretanto, fui ver quanto custa actualmente uma viagem de ida e volta de Lisboa a Madrid (comecei aqui mas a compra de bilhetes pela internet é assegurado no site da Renfe, a "CP" espanhola). Escolhi, para uma hipotética saída de Lisboa no sábado e regresso na 2ª feira seguinte, a tarifa mais barata (o que significaria adoptar o banco de viagem para tentar dormir qualquer coisa durante as cerca de 10 horas que dura a viagem): 93,60 euros, taxas incluídas. Depois, fui investigar quanto me poderia custar uma viagem de avião para as mesmas datas e na única tentativa que fiz, cheguei, aqui, a 115,84 euros para uma viagem de duração de 1h e 15 minutos (admitamos mais, vá lá, mais uma hora e meia para o check-in). Será preciso dizer algo mais?

Citação do dia (78)

"It is easy to be conspicuously 'compassionate' if others are being forced to pay the cost."
Murray N. Rothbard

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

What America has become

Por Michael Ramirez

Querem ajudar? Estejam quietos!

A Comissão Europeia apresentou hoje uma estratégia para explorar o potencial do armazenamento 'online' de ficheiros e 'software'.

Esta frase encerra em si mesma a negação das intenções propaladas. Entre outros motivos, por este e por este. "Estratégias" e "Agendas" de governos e burocratas? É fugir, é fugir!

Aliás, se há sector que demonstra à evidência a inutilidade das acções "reguladoras" é o das tecnologias de informação. Que outro sector de actividade tem, ao longo dos últimos 25 anos, vindo a oferecer cada vez mais e melhores produtos e, simultaneamente, a preços cada vez mais baratos (quando não, e crescentemente, de borla) sem qualquer necessidade de intervenção estatal para "estimular" ou "defender" a concorrência?1

A ortodoxia dominante, através de quilómetros lineares de literatura económica "activista", justifica a suposta necessidade de intervenção do estado nos diferentes sectores da actividade económica para promover a aproximação ao suposto paradigma ideal da "concorrência perfeita" (uma abstracção desprovida de qualquer utilidade pois ignora o carácter essencialmente dinâmico da interacção humana e, portanto, do fenómeno económico).

Porém, o que vimos assistindo à escala mundial no sector das tecnologias de informação, é exactamente o contrário do que aquela teoria prescreve: apesar do número total de competidores ter diminuído de forma drástica, a concorrência não cessa de aumentar! Não há melhor maneira de assegurar a concorrência, em  todo e qualquer mercado, que não seja a não criação de barreiras legais à entrada de novos competidores.
______________________
1 E não, não vale a pena ir buscar os tristes casos "antitrust" contra a Microsoft.

200 milhões a mais

Guilherme Costa diz que RTP custará menos de 200 milhões.

Privatizar, privatizar, sim... mas não chega

ACTUALIZAÇÃO: Evidentemente.

O autor do blogue, quer no plano filosófico quer num sentido estritamente económico, será sempre defensor de qualquer medida que contribua para a diminuição da opressiva presença do estado na vida de cada um de nós e estimule o crescimento económico. Sou, pois, como já aliás tive oportunidade de o referir aqui, inteiramente favorável à privatização integral da Caixa Geral de Depósitos (CGD), matéria que voltou a emergir no debate público pela situação de emergência financeira em que se encontra o país. Explico-me.

Como não vivemos, pelo menos formalmente, numa sociedade socialista/comunista, a existência da propriedade privada não é um favor que o Estado outorga aos cidadãos de um território, ela não é apenas tolerada (embora com frequência o pareça). Ela é, antes, um seu direito, esse sim inalienável por natural. Ora, não há razão alguma para supor, para além do mero wishful thinking, que um banco de propriedade pública tome decisões melhores que um banco privado. Pois o que são, neste domínio, decisões "melhores"? São aquelas que, por um lado preservam o dinheiro dos depositantes e remuneram a poupança que estes constituíram, e persigam, sempre, regras prudenciais na concessão de crédito (não emprestar dinheiro a quem não ofereça garantias suficientes de que o irá pagar).

Ora, estamos todos fartíssimos de saber que o banco público (à semelhança, por exemplo, da RTP) tem sido permanentemente utilizado como instrumento de gestão política pelos governos de ocasião. Foi assim, e só para referir casos recentes, que ao escândalo inicial do banco BPN (um caso de polícia que nunca mais se resolve sem que se perceba por quê) se somou o escândalo adicional (e bem maior) da sua nacionalização e respectivos efeitos (que estamos muito de longe de saber em quanto realmente importaram) em que a CGD foi o braço activo mais visível. Quanto à alegação que a prudência gestionária operada num banco público seria melhor assegurada (porque perseguiria o altruísta "interesse público" ao contrário dos egoístas interesses privados), todos os dias assistimos à sua negação. Isto sem falar das fortíssimas suspeitas que sobre a CGD impendem relativamente ao papel instrumental que terá assumido no assalto ao poder no BCP.

E por favor, não me venham falar da necessidade de defender e preservar os "centros de decisão" nacionais. Como os brasileiros dizem, isso é mera "conversa p'ra boi dormir". Aqui está um exemplo bem eloquente.

Mas não chega privatizar. É igualmente necessário que ao controlo efectivo, antes assegurado directamente pela propriedade, não se suceda o controlo subterrâneo através da regulação, da troca de favores, dos negócios público-privados, etc. Reconheça-se que não é propriamente o que tem sucedido na generalidade dos casos, nomeadamente quando o Estado não desmantela as barreiras à entrada que impedem, ou em muito dificultam, o aparecimento de novos concorrentes nos sectores alvo de privatização.

Estranha austeridade, esta (2)

Governo espanhol subirá impostos e gastará mais no Orçamento de 2013.

Um título auto-explicativo. Para o Estado espanhol, "austeridade" apenas significa mais impostos. A despesa, essa, não é possível conter (muito menos diminuir) por razões de "sensibilidade social" (e porque os juros da dívida pública acumulada serão já superiores aos salários dos funcionários do sector público). É assim que, mimetizando o que aqui  ontem abordava, a proposta de orçamento de estado para 2013 de Rajoy prevê o acréscimo da despesa pública de 9,2% (nove vírgula dois por cento)!

Andy Williams - Moon River

In memoriam.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estranha austeridade, esta

Segundo o El Pais, a execução orçamental do estado espanhol apresentava já um défice de cerca de 50 mil milhões de euros no final de Agosto, o equivalente a 4,7% do PIB, quando o orçamento para a totalidade do ano apontava para um défice da ordem dos 4,5% do PIB. Este é o resultado do efeito conjunto de um recuo de 1,7% das receita e de um aumento de 8.5% na despesa(!).

Entretanto, nas autonomias, a amplitude do despilfarro acumulado vai, pouco a pouco, emergindo. Agora é a vez da Andaluzia, a quarta autonomia a solicitar ajuda ao governo central, repetindo o exemplo da Catalunha (que ameaça com a secessão), pretender ajuda financeira mas "sem condições": Andalucía también rechaza ajustes extra a cambio del rescate.

Quanto ao resgate bancário, tanto quanto se percebe, é um problema que Rajoy vem tentando que lho resolvam (através do BCE) sem que com isso se obrigue perante os parceiros a reformar o que quer que seja. Estes últimos, os do costume (Alemanha, Holanda e Finlândia), parecem não estar pelos ajustes.

Não admira assim que, deste cocktail explosivo, tenha resultado uma nova abanadela nos mercados.

Indignações, paradoxos e despudor



Entretanto, hoje pela manhã, a indignação de Vítor Ramalho, presidente do INATEL, era bem patente, na "caixa" de topo do i de hoje:


Pensando nos mais novos (e nos mais esquecidos), André Azevedo Alves, faz notar o que parece ser uma nostalgia dos tempos da FNAT - Fundação Nacional para Alegria no Trabalho (o antecedente do INATEL), uma organização directamente moldada do corporativismo fascista de Mussolini.

Carta de um empresário americano aos seus trabalhadores

Progressivamente, o facebook vem ganhando terreno no hiperespaço cibernético. Foi por lá que encontrei uma carta dirigida por um empresário aos seus trabalhadores que creio ser útil divulgar num espaço mais "ordenado" como pretende ser este blogue. Apesar do seu contexto ser nitidamente norte-americano, muito do conteúdo é, a meu ver, totalmente aplicável à realidade portuguesa. Para quem já leu "Atlas Shrugged" ("A revolta de Atlas"), nela encontrará similitudes com a personagem John Galt. A tradução é de minha responsabilidade.
A todos os meus valiosos colaboradores:

Tem havido alguns rumores por todo o escritório quanto ao futuro da empresa e, mais especificamente, quanto aos vossos empregos. Como sabem, a economia mudou para pior e apresenta muitos desafios. Porém, a boa notícia é esta: a economia não constitui uma ameaça para o vosso emprego.

O que ameaça o vosso emprego, no entanto, é a mudança do panorama político neste país. Claro que, como vosso empregador, estou proibido de vos dizer em quem devem votar - é contra a lei discriminar com base na filiação política, raça, credo, religião, etc.

Por favor votem em quem acharem que melhor servirá os vossos interesses. No entanto, deixem-me dizer-vos alguns pequenos pormenores que de facto podem ajudar-vos a decidir o que é do vosso interesse. Primeiro, embora seja fácil vociferar retórica que lança empregadores contra empregados, têm que entender que por cada empresário, há uma história por trás.

Essa história é frequentemente negligenciada e ofuscada pelo que vêem e ouvem. É evidente que me vêem estacionar lá fora o meu Mercedes. Viram a minha mansão no ano passado, pela festa de Natal. Tenho a certeza de que todos esses ícones vistosos de luxo vos evocam algumas considerações idealizadas sobre a minha vida. Porém, o que não vêem é a história por trás.

Eu comecei esta empresa há 12 anos. Naquela época, morava num apartamento, tipo estúdio, de 30 metros quadrados, e lá continuei durante 3 anos. Todo aquele espaço foi transformado num escritório para que eu pudesse levar por adiante, com uma dedicação a 100%, a construção de uma empresa que, por sinal, acabaria por vos empregar.

A minha dieta consistia em massas de macarrão ["Ramen Pride"] porque cada dólar que gastava ia para esta empresa. Eu conduzia um Toyota Corolla enferrujado e com uma transmissão defeituosa. Não tinha tempo para namorar. Com frequência, ficava em casa nos fins-de-semana enquanto os meus amigos saíam para beber um copo ou para ir a uma festa. Na verdade, eu tinha casado com a minha empresa - trabalho árduo, disciplina e sacrifício.

Enquanto isso, os meus amigos arranjavam emprego. Eles trabalhavam 40 horas por semana e ganhavam uns modestos 50.000 dólares por ano e gastavam cada cêntimo ganho. Eles conduziam carros vistosos e viviam em casas caras e usavam roupas de marcas de luxo. Em vez de ir comprar roupa da última moda, a mim bastava-me adquirir peças de vestuário que não parecessem dos anos 70.

Os meus amigos refinanciaram as suas hipotecas e viveram uma vida de luxo. Eu, no entanto, não o fiz. Eu despendi o meu tempo, o meu dinheiro e a minha vida num negócio - com a visão que, eventualmente, um dia, também eu iria poder ter recursos para poder usufruir desses luxos o que, supostamente, sucederia então aos meus amigos.

Assim, quando vocês chegam fisicamente ao escritório às 9 horas da manhã, dão mentalmente conta da passagem do meio-dia e depois saem às 5 da tarde, eu não. Para mim, não há nenhum botão de "desligar". Quando vocês saem do escritório, fizeram o que tinham a fazer e têm um fim-de-semana só para vós. Eu, infelizmente, não tenho essa liberdade. Eu como, **** e respiro esta empresa a cada minuto do dia. Não há descanso. Não há fim-de-semana. Não há happy hourEsta empresa está ligada a mim, todos os dias,  como se fosse um bebé com um dia de idade.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

França: continua o combate pelo desemprego

Há uma dúzia de anos atrás, por terras gaulesas, o governo socialista da altura (de Lionel Jospin) defendia que a redução do horário semanal de trabalho para as 35 horas seria uma excelente medida legislativa para  combater os altos níveis de desemprego que então persistiam (e que ainda hoje permanecem). A "lógica" do raciocínio parecia irrefutável: baixando-se o horário semanal de trabalho, mais trabalhadores seriam necessários contratar para que a mesma "produção" pudesse ocorrer!

Este tipo de raciocínio(?), muito comum entre os partidos socialistas latinos, volta agora a presidir à mais recente iniciativa do extraordinário François Hollande em mais um exercício de tapar o sol com uma peneira: França vai encarecer despedimentos para combater o desemprego de 10%.

Ora vejamos: como será possível acreditar que acções que de imediato aumentam o custo do factor trabalho, podem vir a ajudar a combater o desemprego? Eis algo que, humildemente confesso, vai para além da minha, admito que limitada, capacidade racional.

Não! Como devia ser evidente para qualquer pessoa que não se recuse a pensar, se o preço de um bem sobe (no caso, o do factor trabalho) o resultado, inevitável em 99.99% dos casos, será que a procura desse bem diminua (ou seja, as empresas estarão interessadas em ter menos trabalhadores do que sucedia quando o custo do trabalho era menor). Prosseguir nesta insanidade é contribuir para o crescente declínio relativo da França, nomeadamente face à Alemanha.

Mas, não. Hollande, ao mesmo tempo que enche a boca de discursos inflamados em prol do "crescimento" e do "emprego", não cessa de prosseguir exactamente o contrário do que afirma transformando-se, isso, sim, num acérrimo defensor do combate pelo desemprego. E vai ser bem sucedido. Que diabo! Não conviria que as acções fossem congruentes com os fins pretendidos?

Aleluia!

Novas centrais fotovoltaicas sem tarifas bonificadas. Não será o caso das duas hoje "inauguradas", em Ferreira do Alentejo e em Alvalade, por Artur Trindade, secretário de estado da Energia, mas sim para as próximas centrais desta tecnologia que venham a ser construídas segundo o governante. Quer-me parecer que, durante uns anos, vamos descansar neste domínio.

Se, ao invés, eu estiver enganado e realmente surgirem novos projectos sem recurso a preços mínimos garantidos, há uma pergunta para responder: porque carga de água vamos, todos, subsidiar as duas centrais hoje inauguradas?

História moderna do Médio Oriente em 10 minutos

Via LRC, um excelente vídeo que ajuda a perceber o conflito israelo-árabe, remontando até ao célebre Acordo de Sykes-Picot, celebrado entre o Reino Unido e a França (com o assentimento da Rússia czarista), em Maio de 1916, no preenchimento do "vazio" subsequente à expulsão do império otomano da região que hoje conhecemos como Médio-Oriente.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Os portugueses têm medo de mudar

Camilo Lourenço (quase) acerta no alvo, em "Estamos presos ao passado". O extracto final:
A divisão no Conselho de Estado [na passada 6ª feira] é o espelho da sociedade portuguesa: o país não quer mudar. Porque a mudança implica dor (recessão, desemprego) e porque a mudança implica o fim de privilégios e influência de grupos e personalidades de peso na sociedade portuguesa. Tanto à Esquerda como à Direita. É isto que está a bloquear a modernização de Portugal: o medo da mudança. E é isso que nos está a empobrecer, afastando-nos do centro da Europa. Estamos a chegar àquele ponto em que a única esperança de mudança se transferiu de quem tem a obrigação de mudar o país (nós) para… a Troika. Pior atestado de incompetência não poderia haver.

As folgas de António José Seguro

António José Seguro, a 8 de Novembro de 2011, em entrevista à TVI, afirmava que o OE 2012 estava almofadado com uma "folga" de 900 milhões de euros pelo que seria possível, em 2012, "devolver" um dos subsídios aos funcionários públicos evitando assim esse desnecessário sacrifício (não era o próprio governo, afinal, que queria ir além da troika?). Esta teoria da "folga" tinha aliás sido, uns dias antes, divulgada por um grupo de trabalho do PS que apontava mesmo para um valor seguramente superior a mil milhões de euros e acusava ainda o governo de proceder a "um empolamento nas projecções para a queda das receitas fiscais"!

Com as sucessivas divulgações das sínteses da execução orçamental (hoje saiu a referente ao período de Janeiro a Agosto), esta "teoria da folga" foi compreensível e rapidamente engavetada (mas não morta). Adoptando o conhecido provérbio "enquanto o pau vai e vem, [o PS] folga as costas", Seguro reciclou-a numa outra variante: a da "teoria da folga externa". Nesta, será agora o recurso à generosidade  do BCE e às prestimosas "políticas de crescimento e emprego"(?!) de Bruxelas que nos evitarão "desnecessários" sacrifícios.

Pobre país!

Um enorme incentivo ao contrabando

é o que representará isto: Maço de tabaco deve passar a custar mais de 5 euros. Quanto à receita fiscal adicional, veremos. Mas acho que o mais provável é o surgimento de uma manifestação exuberante do efeito de Laffer.

sábado, 22 de setembro de 2012

Entretanto, aqui ao lado

há quem caracterize a entidade Espanha como um conjunto de "dezassete metástases", resultante de "uma partidocracia voraz que se "enroscou" no corpo da nação". Não creio que a metáfora seja excessiva, antes o resultado, potencialmente explosivo, de perseguir uma falácia redistributiva alimentando uma gigantesca tragédia dos comuns. Não admira pois o recrudescimento das vozes secessionistas.

Rumo à morte lenta no pântano

é como bem poderia ser classificado o conteúdo do comunicado do Conselho de Estado de ontem, claramente inspirado, quiçá mesmo esquissado, sob o alto e directo patrocínio do presidente da República.

Já não havendo dinheiro (ou disponibilidade dos credores) para "implementar" os planos que a Constituição da República prescreve e que eram supostos traçar a "científica" rota em direcção à Felicidade-na-Terra-entre-os-Homens-e-as-Mulheres-de-Boa-Vontade


não admira que no comunicado se apele à prodigalidade solidária do Banco Central Europeu (fabricando notas para financiar monetizar o serviço da nossa dívida pública) e à diluição das responsabilidades pelos efeitos da nossa secular indisciplina orçamental numa União Bancária Europeia. O nosso fascínio pelos Planos - instrumentos estalinistas e nacional-socialistas (nazis) por excelência - continua também patente no apelo à concretização dumas tais  "políticas europeias para o crescimento e o emprego" (que, de resto, tão bem têm dado conta de si...).

A falácia da redistribuição

Por Thomas Sowell. Alguns excertos de The Fallacy of Redistribution (minha tradução)
(...) A história do século XX está cheia de exemplos de países que se propuseram redistribuir a riqueza e que acabaram redistribuindo a pobreza. As nações comunistas foram um exemplo clássico, mas de modo algum o único exemplo.

Em teoria, confiscar a riqueza das pessoas mais bem-sucedidas deveria tornar o resto da sociedade mais próspera. Mas quando a União Soviética confiscou a riqueza dos agricultores abastados, os alimentos tornaram-se escassos. Morreram tantas pessoas de fome sob Stalin na década de 1930 como no Holocausto de Hitler nos anos 40.

Como é isto possível? Não é complicado. Só é possível confiscar a riqueza que existe num dado momento do tempo. Não é possível confiscar a riqueza futura - e a riqueza futura é menos provável de ser criada quando as pessoas vêem que irá ser confiscada. Os agricultores da União Soviética reduziram o tempo e o esforço investidos no crescimento das suas searas, quando perceberam que o governo iria ficar com uma grande parte da colheita. Eles mataram e comeram os animais jovens que, normalmente, tenderiam a manter e a alimentar até à idade adulta(...)

Todos nós já ouvimos o velho provérbio segundo o qual "se deres um peixe a um homem, estás a alimentá-lo por um dia; se o ensinares a pescar, estás a alimentá-lo por toda a vida". Os redistributivistas dão-lhe um peixe e deixam-no dependente do Estado para mais peixes no futuro.

Se os redistributivistas fossem sérios, o que eles quereriam distribuir seria a capacidade de pescar, ou a ser-se produtivo de outras quaisquer maneiras. O conhecimento é uma das poucas coisas que podem ser distribuídas às pessoas sem reduzir o montante detido por outros.

Tal serviria melhor os interesses dos pobres, mas não serviria os interesses dos políticos que querem exercer o poder e obter os votos das pessoas que deles dependam (...)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A influência dos raios troika

A partir da informação disponibilizada aquando da divulgação do boletim estatístico ontem divulgado pelo Banco de Portugal, construí o gráfico e a tabela abaixo (valores em milhões de euros). Tavares Moreira, aqui, classifica de histórica a evolução das contas externas dos últimos 15 meses. Não vejo como não concordar com o adjectivo.




Síndrome de Estocolmo à portuguesa

José Sócrates votado como melhor líder do PS

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Alerta! Potencial horror!

Via WUWT, fiquei a saber da divulgação de um novo estudo pertencente à classe dos "poderá acontecer que, se...". Intitula-se Warming ocean could start big shift of Antarctic ice.

À semelhança das tentativas de quantificação dos efeitos líquidos da TSU sobre o emprego em Portugal, parece que o alerta vindo da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, também resultou de uns "modelos" que por lá desenvolveram.

A realidade quanto à evolução da área de gelo da Antárctida, entretanto, é a da figura (retirada daqui). Como não tenho nenhum "modelo" disponível à mão, ao socorrer-me do olho nu, parece-me realmente detectar uma "anomalia" significativa em 2012 embora num sentido politicamente incorrecto.

Só não sabemos quando

Acho que rui a. tem, aqui, a resposta à oportunidade única que identificou. Diria que o fim está traçado, apenas restando saber quando irá ele ocorrer.

Propagação da verdade

São cada vez mais raros os minutos que dedico a ver televisão e, em particular, aos serviços de notícias. Todavia, alertado por este post de Tiago Loureiro, e mesmo não esquecendo actuações de duvidosa ética já praticadas pelo jornalista Mário Crespo no passado, a verdade não deixa de ser verdade mesmo que não gostemos do mensageiro que a veicula. E ela tanto mais socialmente relevante quanto obsceno é o dinheiro que o contribuinte é obrigado a despejar no desperdício que é a RTP.


Um duche (frio) de bom senso

Pedro Schwartz, um mui distinto economista e cientista social de nacionalidade espanhola, ganhou recentemente uma enorme visibilidade mundial com a desassombrada interpelação que dirigiu a Paul Krugman, durante um evento em Madrid, em 3 de Julho passado, a propósito do lançamento do mais recente livro deste último. As "ondas de choque", chegaram longe, como se pode ver e ouvir aqui.

No vídeo seguinte, Pedro Schwartz, actualmente presidente do Conselho Económico e Social de Madrid, entrevistado por James Turk, um frontal opositor das doutrinas keynesianas, que se classifica a si próprio um defensor da teoria económica no sentido clássico (pré-keynesiano, "para-austríaco" senão mesmo "escolástico"), discute as grandes questões que impedem uma retoma, não-artificial, das economias dos países ocidentais (e do Japão). A sua conclusão aponta para a necessidade de "que ocorra uma mudança na mentalidade social - para que as pessoas compreendam que nada é grátis e que o Estado tem que encolher."

Clarificações burocráticas

Do comunicado do Conselho de Ministros de hoje, transcrevo o ponto 5 (itálico meu): 
O Conselho de Ministros aprovou um diploma que procede à clarificação da dependência hierárquica, que tem natureza civil, da Autoridade Marítima Nacional (AMN) e à consequente adequação da legislação relativa à Polícia Marítima, bem como do Estatuto do Pessoal da Polícia Marítima.

A AMN, que compreende diversos órgãos e serviços, entre os quais a Polícia Marítima, é a entidade responsável pela coordenação das atividades, de âmbito nacional, a executar pela Armada, pela Direção-Geral da Autoridade Marítima e pelo Comando-Geral da Polícia Marítima, nos espaços de jurisdição e no quadro de atribuições definidas no Sistema de Autoridade Marítima, com observância das orientações definidas pelo Ministro da Defesa Nacional.

Citação do dia (76)

"With the exception only of the period of the gold standard, practically all governments of history have used their exclusive power to issue money to defraud and plunder the people."
Friedrich A. von Hayek

Querida y cara electricidad

Antón Uriarte explica como, de Zapatero a Rajoy, no domínio da produção de energia eléctrica, pouco ou nada mudou. Lá como cá, de Sócrates a Passos Coelho:
Los parques eólicos erigidos durante la era de las burbujas en los campos de España se vieron acompañados de la construcción de centrales de gas de ciclo combinado ... (que se encienden rápidamente cuando no hay viento y nos evitan tener que soplar, como en el chiste).

Esta estrategia duplicó las inversiones y provocó un exceso de oferta eléctrica, lo que acabó resultando en que la potencia instalada en España sea hoy muy superior a la necesaria. El gran impulso a las energías renovables, sin embargo, se basó en una presunta escasez y en presentar a las tradicionales —los combustibles fósiles— como energías agotables. Las inversiones fueron enormes (...)

Los combustibles fósiles, sin embargo, no se agotaron y sus precios no subieron demasiado. Esto llevó al gobierno, basándose en las directrices de Bruselas, a seguir una política económica de apoyo a las renovables frente a las demás, presentándolas como el mejor freno al supuestamente sucio y nocivo dióxido de carbono.

La política de Zapatero se prolonga hoy con Rajoy, que hace lo posible para que no se desplome el tinglado montado de ecología y de prebendas de unos y otros. El resultado es una electricidad cara y que va a más. No sólo para los hogares, también para las industrias. La electricidad industrial en España es la séptima más cara de Europa. A este paso alcanzaremos el de las que lo tienen más alto, el de las islas de Chipre y Malta.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

James Delingpole na corrida ao parlamento britânico

Eis o seu manifesto, num inglês que não me atrevo a trucidar:
“I believe that wind farms are a cancer: one of the worst crimes ever perpetrated against the country by Westminster. I want to raise public awareness of just how disastrous these bat-chomping, bird-slicing eco crucifixes are in every single respect. And I want to urge the people of Corby and East Northants not to vote for any of the three parties that support these monstrosities. That means don’t, whatever you do, vote LibLabCon [Liberais, Trabalhistas ou Conservadores]”
Leia, mas leia mesmo mesmo o resto do artigo. Aqui (via LRC)

Do ruído sobre a TSU e afins mais uma sugestão

Vai por aí um ruído muito pouco esclarecedor acerca do efeito líquido, isto é, da soma dos efeitos "positivos" e "negativos" das alterações anunciadas relativamente à redistribuição da carga contributiva para o sistema de segurança social entre empregadores e empregados.

O governo assevera que o efeito será positivo no seu cômputo geral, uma vez que contribuirá para criar emprego. Outros, pelo contrário, calcularam-no como negativo, exactamente pela razão inversa. Uns e outros recorreram a "modelos" para justificar a "bondade" ou a "maldade" da anunciada medida.

Ora, a meu ver, não é preciso deter nenhum Phd para afirmar, a priori, acompanhando  Paulo Azevedo, que é impossível antecipar ("medir") qual vai ser o efeito real à escala da economia portuguesa. Os "modelos" usados nas simulações limitam-se a produzir resultados que são função dos pressupostos usados na sua construção, pelo que a sua utilidade é diminuta senão mesmo inútil.

Uma única coisa me parece certa: as empresas exportadoras, ao ganharem mais graus de liberdade (menor carga fiscal), retirarão daí uma maior competitividade na sua actuação nos mercados externos (diminuição dos custos unitários do trabalho - CUT). Já quanto às empresas que dependem hoje estritamente do mercado interno, parece-me muito mais difícil antecipar qual será o efeito líquido no emprego perante mais uma violente contracção da procura. Será ao nível de cada empresa que a decisão de agir se produzirá.

Reforçar a liquidez para fazer face às pressões existentes sobre a tesouraria? Baixar os preços para tentar contrariar a menor procura? Despedir (mais) pessoal porque as margens já hoje estão esmagadas? Aproveitar para compensar/aumentar os ordenados aos colaboradores mais valiosos? Tirar partido de um novo salário mínimo mais baixo e, assim, empregar mais pessoas? Reorientar a empresa, ainda que parcialmente, para o mercado externo? Estas são algumas das inúmeras respostas possíveis. É um mero acto de fé dizer que o emprego irá subir no sector não-transaccionável ou, pelo menos, que a sua queda será estancada.  Concordo, com Vítor Bento, quando este  afirma que "[e]stamos condenados a reduzir a despesa interna". A questão está em identificar sobre que parcelas da despesa deverá incidir a redução e, aí, sublinhe-se que o governo, para além dos corte nos salários e pensões, tem feito muitíssimo pouco nesta matéria.

O que o governo irá promover com o actual "desenho" da medida da TSU é o favorecimento, em termos relativos, do sector exportador que, por sinal, e sem medidas desta natureza (que procuram simular os efeitos de uma desvalorização cambial), tem vindo a mostrar, mais do que uma resiliência notável, uma capacidade de crescimento que muitos não acreditariam possível sem "estímulos" governamentais e/ou cambiais (apelos para o abandono do euro e o regresso ao escudo).

Escrevi, por várias vezes, em várias caixas de comentários, que o Ministério da Economia devia ser extinto. Com isto queria significar que mais do que fazer, do que "estimular"/"orientar", onde o governo poderia realmente ajudar seria a desfazer e a "desincentivar". Desfazer o edifício burocrático-regulatório que cerceia a actividade económica, que a dificulta de todas as formas para além do limite do imaginável e, assim, impede o seu desenvolvimento ao mesmo tempo a que apela (?) ao empreendedorismo e à assunção de riscos! Desincentivar, no sentido de retirar subsídios, monetários e em espécie, que distorcem a economia pela destruição do mecanismo dos preços de mercado privilegiando uns à custa de todos.

Enquanto o governo e as agências "independentes" centrarem as suas grandes preocupações, cedendo à endémica e generalizada cegueira anti-capitalista dos media e dos fazedores de opinião encartados (os tudólogos/"talking heads"), nas promoções do Pingo Doce, na suposta necessidade de "equilíbrar" contratos livremente rubricados entre as partes ou na sobreposição da importância da sinalética sobre a existência das próprias empresas e dos empregos que elas proporcionam, não iremos longe. Começar por desfazer a ASAE seria um bom começo.

Citação do dia (75)

"If the government is covering up knowledge of aliens, they are doing a better job of it than they do at anything else."
Stephen Hawking

Blowback e o império benevolente

O vídeo abaixo, de Agosto de 2011, é mais uma prova da presciência de Ron Paul. É útil recordá-lo após o recente e trágico assassinato do embaixador americano na Líbia.


A sua premonição, ou melhor, o apelo que faz ao senso comum deveria servir de encorajamento a seguir as suas palavras, na declaração que fez divulgar ontem, dia 17 de Setembro, que procurei traduzir ainda que de forma algo apressada:
O ataque ao consulado dos EUA na Líbia e o assassinato do embaixador americano e de vários dos seus assistentes é um outro trágico exemplo de como a nossa política externa intervencionista enfraquece a nossa segurança nacional. Quanto mais os EUA tentam controlar o resto do mundo, seja pela promoção da democracia, seja ajudando governos estrangeiros ou através de bombas, mais acontecimentos ficam fora de controle e resultam no caos, em consequências não-intencionais e em mais tiros pela culatra [blowback].

Infelizmente, o que vimos na Líbia na semana passada, não é nada de novo.

Na década de 1980, no Afeganistão, os EUA apoiaram os radicais islâmicos nos seus esforços para expulsar os invasores militares soviéticos. Estes radicais tornaram-se no que é conhecido como sendo a Al-Qaeda, e os nossos aliados de uma circunstância viraram-se contra nós de forma espectacular em 11 de Setembro de 2001.

O Iraque não tinha uma significativa presença Al-Qaeda antes da invasão dos EUA em 2003, mas a nossa ocupação desse país e a tentativa de o refazer à nossa imagem provocou uma reacção em massa que abriu a porta à Al-Qaeda, causou a morte de milhares de soldados norte-americanos, um país destruído e uma instabilidade que não mostra sinais de diminuir.

Na Líbia, trabalhámos com, entre outros, os rebeldes do Grupo de Combate da Líbia (LIFG), que incluia elementos estrangeiros da Al-Qaeda. Tem sido apontado que os radicais afiliados da Al-Qaeda que combatemos no Iraque foram alguns dos mesmos grupos com quem trabalhámos para derrubar Khadafi na Líbia. No ano passado, numa entrevista à televisão, previ que o resultado do bombardeamento da NATO na Líbia seria provavelmente um aumento da presença da Al-Qaeda no país. Disse, na altura, que poderíamos estar a entregar à Al-Qaeda um outro prémio.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Portugal e a Zona Euro: permanecer ou abandonar? (2)

(Continuação daqui)

Como sempre acontece, o sector privado da economia rapidamente se ajusta. Se não há crédito disponível, os agentes privados não têm como escapar: já não podem despender mais do que o seu rendimento. Inclusivamente, com as famílias, verifica-se um fenómeno aparentemente paradoxal: embora, no agregado, o rendimento disponível diminua, a poupança aumenta!

Já com o Estado, o ajustamento às novas condições de forte restrição de crédito é muito lento e talvez mesmo virtualmente impossível sem default: Por um lado, porque é "impensável", por politicamente muito perigoso, pôr em causa as "conquistas civilizacionais" do Estado social (até que...); por outro, porque a gigantesca burocracia estatal (a oficial e a "paralela") é de uma tenacidade a toda a prova quando se trata de se auto-proteger (sabe muito bem que a melhor forma do fazer é, até, de clamar pelo seu contínuo crescimento).

Chegados aqui, surge a pergunta em título. Devemos nós abandonar a Zona Euro, desvalorizar e, em consequência, automaticamente empobrecer face ao exterior para, de seguida, imprimir dinheiro freneticamente ao ritmo das reivindicações de reposição do poder de compra pelos sindicatos (em regra, sem sucesso) e assim criar um novo ciclo inflacionista dos preços? Ora nós já vimos este filme por duas vezes num passado não longínquo. Alguém acredita que, deixados a nós próprios, iríamos conseguir adoptar uma política orçamental responsável sem recurso sistemático ao imposto da inflação?

É esta, no essencial, a razão pela qual creio ser desejável que permaneçamos na Zona Euro. Ainda que de uma forma imperfeita, essa condição obriga o Estado português a observar regras mínimas de "austeridade", ou seja, que não gaste sistematicamente mais do que recebe via impostos (e sem sofrer as consequências de os aumentar). Se o não fizermos também no futuro, o crédito voltará a secar. É esta a disciplina que o euro nos impõe. E se é certo que o BCE tem vindo a acelerar, por diversas formas, a monetização das dívidas soberanas (criando moeda para o efeito), há razões fortes para pensar que a sua dimensão, pelo menos enquanto a Alemanha permanecer na Zona, nunca será tão acentuada como a que sucederia sob um regime de moedas nacionais (nacionalismo monetário).

Creio, assim, que Jesús Huerta de Soto tem toda a razão (do ponto de vista dos países fiscalmente irresponsáveis como é o nosso) quando tem a ousadia intelectual de propor uma defesa do euro enquanto substituto, ainda que imperfeito, para a disciplina orçamental que um regresso a um padrão-ouro exigiria. (Inclusivamente na sugestão que faz a Philipp Bagus, seu antigo discípulo e autor da Tragédia do Euro de proceder a uma alteração no título desta última obra para "A Tragédia do Banco Central Europeu (e não do euro)").

Nota: em sentido contrário ao que aqui defendo, ver a coluna de hoje de Camilo Lourenço.

Portugal e a Zona Euro: permanecer ou abandonar? (1)

A azul os países actualmente membros da Zona Euro
 (imagem retirada daqui)
Quando falamos no euro estamos a falar de duas coisas diferentes ainda que interligadas: de um projecto instrumental para a concretização do fim último perseguido pelos seus promotores - a criação dos Estados Unidos da Europa (EUE) -, mas também, numa acepção estritamente monetária e económica, da criação de um regime de "câmbios fixos" entre os países pertencentes à zona onde o euro é a moeda adoptada.

Não faço parte daqueles que anseiam pelo aparecimento dos EUE obtidos através da persistente acção de um planeamento central burocrático e agressivamente metastático, também conhecido pelo "método comunitário". Nada de bom advirá daqui senão a continuação do declínio económico relativo da "Europa" e não será a propaganda das "Estratégias" e das "Agendas" que o poderá evitar, muito menos por uma qualquer espécie de "Grande Salto em Frente". Só há um "método" seguro, win-win, no relacionamento entre as nações: o que resulta do comércio livre que garante, sempre, o benefício mútuo dos que nele participam.

Mas o que me interessa agora abordar, ainda que brevemente, são os méritos e eventuais deméritos (económicos) da adesão (e permanência) a uma zona monetária única como é a do euro.

Miguel Beleza, antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva, em recente entrevista ao i, confessava que o argumento a que o então primeiro-ministro foi "particularmente sensível" para concordar com à adesão de Portugal à "União Monetária Europeia", antecâmara ao euro, foi o de, por essa via, "ficarmos com taxas [de juro] iguais às da Holanda – a dívida portuguesa com as taxas holandesas". Eis, sem grandes enfeites ou rodeios, a  grande vantagem do euro segundo o ponto de vista dos políticos: poder passar a financiar a dívida pública a baixas taxas de juro, o que viria a significar a capacidade de aumentar em muito o endividamento sem que os juros a suportar se tornassem um obstáculo. Uma espécie de um novo "ouro do Brasil", porventura o derradeiro. E foi assim que o Estado inchou até ter (quase, por enquanto) rebentado.

Do lado da economia privada, famílias e empresas, ao passarem a aceder a condições de crédito com que "nem no  tempo da outra senhora" sonhavam, aplaudiram a decisão. Era, afinal, ou parecia ser, um grande e continuado "almoço grátis".

Até ao dia em que o crédito secou, por receio dos credores de que o país não fosse capaz de pagar o que pediu emprestado.

(Continua)

Questões que se repetem, ilusões que nunca acabam

Uma velha história, por João César das Neves.

domingo, 16 de setembro de 2012

Pequenos episódios de um jornalismo de causas

O título do Público a que ontem fiz aqui referência, é: "Centenas de milhares na rua contra a troika e o Governo num dos maiores protestos de sempre". Nada de novo, dirão. Mas reparem no URL (no "endereço") correspondente:

http://www.publico.pt/Política/que-se-lixe-a-troika-os-protestos-sairam-a-rua-1563204

"Que se lixe a troika - Os protestos saíram à rua" era, como se compreende, o título inicial proposto pel@ jornalista, subsequentemente alterado por quem estava encarregue da edição. Nada de novo, também aqui, mas sempre lamentável pela falta de profissionalismo revelada.

sábado, 15 de setembro de 2012

Quantitative easing (3) explicado a crianças de 12 anos

Na sequência de Quantitative easing (2) explicado a crianças de 12 anos (que recomendo revisitar):

Lamento

mas nada dou para este tipo de peditórios. O serviço público que acho útil não passa por aí. Aliás, não liguei, sequer, a televisão. Por mim, modestamente, limito-me a "alimentar" este blogue.

Marc Faber: a política da Fed destruirá o mundo

Em entrevista à Bloomberg, após o anúncio do QE, índice 3:

"É difícil dizer o que acontecerá. Acredito que, eventualmente, teremos uma crise sistémica e tudo colapsará. Mas a questão é o que se passará daqui até lá. Será que o colapso acontecerá com o Dow Jones nos 20.000 ou 50.000 ou nos 10 milhões de pontos? O Sr. Bernanke é um money printer e, acredite-me, se o Sr. Romney ganhar as eleições, o novo presidente da Fed será também um money printer. E portanto tudo continuará na mesma. Os europeus imprimirão moeda. Os chineses imprimirão moeda. Toda a gente imprimirá dinheiro e poder de compra do papel-moeda [moeda fiduciária] virá por aí abaixo. E eu não gosto de títulos de dívida [obrigações]. Não gosto particularmente de acções, mas penso que deter acções é hoje uma melhor escolha do que ter obrigações [Faber, mais à frente na entrevista, confidencia até que, pela primeira vez na sua vida, comprou acções em países 'exóticos', como Portugal, Espanha, Itália ou França devido aos muito baixos preços a que as acções das empresas desses países chegaram] ...

The monetary policies of the US will destroy the world."


Leitura complementar: também por Marc Faber, If I Were Bernanke, I Would Resign

Citação do dia (74)

"The first panacea for a mismanaged nation is inflation of the currency; the second is war. Both bring a temporary prosperity; both bring a permanent ruin. But both are the refuge of political and economic opportunists."
Ernest Hemingway

A Primavera Árabe complica-se para os EUA

Pat Buchanan, na sequência do cerco às embaixadas americanas e do assassínio do embaixador americano na Líbia, pergunta: Time To Come Home? A tradução é de minha responsabilidade.
Não terá passado já suficientemente tempo para fazer uma análise custo-benefício do nosso envolvimento no Médio e Próximo Oriente?

Contando apenas este breve século, foi lá que travámos as duas mais longas guerras de nossa história, que colocámos a nossa autoridade moral por trás de uma "Primavera Árabe"que derrubou aliados na Tunísia, no Egipto e no Iémen, e que fornecemos o poder aéreo que salvou Benghazi e derrubou Muammar Khadafi.

Contudo, esta semana, as embaixadas dos EUA estiveram sob cerco na Tunísia, no Egipto e no Iémen, e diplomatas norte-americanos foram massacrados em Benghazi.

O custo das nossas duas guerras é de 6.500 mortos, 40.000 feridos e 2.000 milhões de dólares que foram empilhados sobre uma dívida nacional que é de 16 milhões de milhões de dólares, maior do que toda a economia dos EUA. E o que é que, em nome de Deus, temos nós para mostrar em troca?

Enfrentamos o ódio pandémico sobre o nosso país de Marrocos ao Paquistão. A visão de bandeiras americanas a serem rasgadas em pedaços e queimadas por turbas tornou-se tão comum por lá que quase parece que nos acostumámos a ela.

Quais são as raízes deste ódio árabe e islâmico?

Osama bin Laden, na sua declaração de guerra contra nós, deu três razões para o seu casus belli.

2020, uma antevisão

Via facebook.


A Egan Jones volta a baixar o rating dos EUA

A Egan Jones anunciou há pouco a decisão de baixar a notação dos EUA na sequência do anúncio por Ben Bernanke do lançamento de mais uma ronda de quantitative easing (QE3). Pela terceira vez desde Julho de 2011, altura em que se antecipou ao anúncio no mesmo sentido da S&P em duas semanas, quando foi retirado triplo AAA, a notação agora atribuída aos EUA é de AA- (era AA). A agência explica assim a racionalidade do seu julgamento:
The FED's QE3 will stoke the stock market and commodity prices, but in our opinion will hurt the US economy and, by extension, credit quality. Issuing additional currency and depressing interest rates via the purchasing of MBS does little to raise the real GDP of the US, but does reduce the value of the dollar (because of the increase in money supply), and in turn increase the cost of commodities (see the recent rise in the prices of energy, gold, and other commodities). The increased cost of commodities will pressure profitability of businesses, and increase the costs of consumers thereby reducing consumer purchasing power. Hence, in our opinion QE3 will be detrimental to credit quality for the US.

Some market observers [Alan Greenspan, por exemplo] contend that a country issuing debt in its own currency can never default since it can simply print additional currency. However, per Reinhart & Rogoff's " This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly " , p.111, 70 out of 320 defaults since 1800 have been on domestic (i.e., local currency) public debt. Note, US funding costs are likely to slowly rise as the global economy recovers or the FED scales back its Treas. purchases (75% recently).

From 2006 to present, the US's debt to GDP rose from 66% to 104% and will probably rise to 110% a year from today under current circumstances; the annual budget deficit is 8%. In comparison, Spain has a debt to GDP of 68.5% and an annual budget deficit of 8.5%. We are therefore downgrading the US country rating from "AA" to "AA-".

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Também não será o "alívio quantitativo" que irá salvar o Estado social

(Sequência de "A austeridade é a perestroika do estado social")

Qual hidra de inúmeras cabeças, a receita keynesiana ortodoxa, que consiste em "estímular" a "procura agregada" através da despesa pública (mesmo que desbragada), falhou estrondosamente como tentativa de obviar ao Apocalipse que, assim nos era asseverado, recairia sobre nós sob a forma de recessão e desemprego, não tivesse o Estado agido1 ("[s]e não tomássemos estas medidas, a recessão seria muito maior", dizia Sócrates). Sabemos no que deu, no Japão, na Europa ou nos EUA. Sabemos no que deu, em Portugal.

Instalado um consenso, ainda que circunscrito no tempo (a memória é curta...), de que a receita keynesiana ortodoxa não funcionou, o passo seguinte costuma ser o de deslocar a atenção para o banco central, os "estímulos monetários". Não temos visto e ouvido de outra coisa nestes últimos meses. Trata-se de, através da criação de moeda e da manipulação das taxas de juro, na tentativa de promover o crédito (outra forma de criar moeda) criar prosperidade. Nisto reside, no essencial, a doutrina monetarista. Assim formulada, ela não é muito diferente da keynesiana no sentido em que continua a ser uma outra modalidade de planeamento central.

Conforme tinha referido no post que refiro acima, volto a socorrer-me de outra passagem do mesmo texto de Jacques Raiman para sustentar por que razão o QE da Fed ou o OMT do BCE não irão funcionar e que também não será por aqui que os nossos problemas se resolverão (minha tradução):
"Os bancos centrais são confrontados com uma tarefa impossível: eles são supostos deter o conhecimento que permitiria definir e executar uma política monetária adequada (taxas de juros, massa monetária). Mas por que razão o planeamento central, que é incapaz de determinar os preços dos outros bens e das quantidades produzidas, seria capaz de o fazer  com a moeda? Esta é uma façanha impossível, apesar de todos os talentos reconhecidos aos especialistas. Por exemplo, sob aplausos praticamente unânimes, os bancos centrais declararam que conseguiram proporcionar um longo período de "Grande Moderação". Este último, aferido pelo índice de preços ao consumidor, cegou os meios de comunicação, os economistas de todos os quadrantes políticos, e até mesmo os bancos centrais. Eles foram incapazes de medir ou levar em conta o crescimento espectacular tanto do valor dos activos quanto dos preços das matérias-primas, dos imóveis e dos produtos alimentares. Este crescimento foi a consequência do excesso de moeda emitida pelos bancos centrais que alimentou a explosão do crédito financiado pelos bancos e pelos sistemas de crédito paralelo.

O financiamento do boom foi apresentado pelos bancos centrais como resultado do excesso de poupança de que não foram responsáveis, não da explosão do crédito. No entanto, a análise de Jacques Rueff, no seu livro "O pecado monetário do Ocidente" há muito que demonstrou que o fim do padrão-ouro, e a sua substituição por um sistema em que utiliza a dívida americana como moeda de reserva, engendram inevitavelmente um mecanismo de duplicação do dinheiro criado pelos bancos centrais, acompanhado de uma expansão ilimitada do volumes de crédito produzidos nos Estados Unidos e nos países superavitários, como acontece com a China de hoje. Esta avalanche de crédito, por exemplo em Espanha, financiou o boom imobiliário, e também o do sector público. Foi desta forma que a Espanha conta hoje com mais quilómetros de linhas de comboio de alta velocidade que a França e bem mais aeroportos que a Alemanha (incluindo um aeroporto novinho em folha livre de qualquer tráfego aéreo). Na maioria dos casos, estes sobreinvestimento foram financiados pelo endividamento que o Estado já não pode honrar por falta de receitas suficientes."
__________________________________
1Este é um tipo de afirmação que é insusceptível de ser verificada ou falsificada. Porém, há vários exemplos históricos bem conhecidos, como a forte recessão de 1920-1921 nos EUA, de que muito poucos ouviram falar talvez porque o governo de então entendeu nada fazer. A recuperação da economia foi notável logo no ano seguinte.

Um outro exemplo embaraçante para os intervencionistas keynesianos, pode formular-se por uma pergunta: por que razão, logo a seguir à II Grande Guerra, com a desmobilização em massa dos exércitos e o fortíssimo decréscimo na despesa pública, a economia americana não só não entrou em recessão como, pelo contrário, revelou um fulgor extraordinário?

Falando claro

Não sou nem nunca fui apoiante do actual governo. Não obstante, é verdade que votei nas eleições de Junho de 2011, pelas razões que na altura confessei, no partido que o lidera. As expectativas que tinha, porém, não eram muitas e rapidamente diminuíram para desaparecerem de todo logo no final de Agosto.

Não me interessa abordar se Passos Coelho prometeu o que não podia e disse que não ia fazer o que fez ou que acabou por fazer o que não tinha prometido ou perorar sobre o permanente desastre comunicacional a que preside. O que me interessa assinalar, quando me parece estarmos à beira de uma implosão social e política, é que, quinze meses volvidos, se confirmou o que antevia quando li o primeiro DOE: o Governo, ao não querer reformar verdadeiramente o Estado, não ia ser capaz de curar a sua elefantíase que assim me parecia que iria prosseguir, no essencial, incólume.

Para quem estivesse interessado em falar verdade, à míngua de um celestial milagre, os cortes nos salários das funcionários das administrações públicas, dos organismos que compõem o "Estado paralelo" e das empresas públicas eram não só inexoráveis como teriam que ser profundos. Tal como inevitável seria o corte nominal nas pensões dos reformados (grupo cuja situação se vê particularmente agravada pela inexorável emergência da gigantesca fraude em que assenta um dos pilares do estado-previdência).

O Governo, claro, nunca o disse. Antes optou, exactamente como com Sócrates e antes com Ferreira Leite, por pôr em prática um continuum de medidas de "austeridade" (como não colocar aspas quando a despesa pública não cessa de aumentar?), tanto quanto possível em doses "homeopáticas", esperando por um milagre de uma "retoma" que subitamente surgisse do nada e que, assim, permitisse manter por mais algum tempo o que ainda restava. Puro engano.

Não havendo o vislumbre de um pensamento sobre qual deve ser o perímetro de actuação estatal (imperativamente muito mais reduzido face àquele hoje existente) por exemplo, quanto à possibilidade de uma parte substancial dos estabelecimentos escolares, em particular os técnico-profissionais, poderem sair da órbita da administração pública; continuando a arrastar-se, penosamente, um programa de privatizações onde permanecem de fora vacas sagradas como a RTP (não, não é engano), a CGD e demais empresas sob o seu controle, a Parpública e respectiva carteira de participações onde se inclui um autódromo, as Administrações Portuárias, as diferentes unidades da CP etc.; continuando mínimo o esforço de desmantelamento do estado paralelo onde pululam "Autoridades" regulatórias que bem podiam ser fundidas depois de extintas as desnecessárias (todas?); circunscrevendo, na prática, a matéria do "corte" das "rendas excessivas" às PPP rodoviárias (matéria importante, sem dúvida, mas onde apenas se tenta evitar que o acréscimo na despesa não seja tão gravoso quanto o que já estava contratado) e não tocando, em substância, nas referentes à energia (especialmente à eólica), estas sim muitíssimo relevantes para a competitividade das nossas empresas e para as parcas finanças das famílias, pouco mais resta ao Governo que o discurso do combate das "adiposidades" (de que as fundações são "o" exemplo), as mais das vezes veiculando um populismo reprovável mais próprio da retórica esquerdóide do tipo "os ricos que paguem a crise".

É de facto muito pouco o que o Governo tem para mostrar para além dos cortes dos salários e das pensões. Não admira pois, ao mesmo tempo que dizima a classe média e parece tudo fazer para desincentivar o aforro e afastar o capital, que esteja cada vez mais isolado, mesmo nos partidos que o suportam.

Não digo que seja fácil num país secularmente anti-liberal, sob o entorno jurídico-institucional em que vivemos, pontificado por uma Constituição verborreica, socialista e caduca, um PS exangue, e um cavaquismo que pretende continuar a ser o guardião do templo do Estado social e que, para evitar que ele desabe durante o seu consulado, vem apelando ao recurso às impressoras do BCE ao mesmo tempo que clama e reclama pela "equidade" (com o significado de pretender tratar igual aquilo que o não é).

Não será fácil mas é indispensável. E quanto mais tempo levarmos a perceber que assim é, mais se alongará o poço por onde estamos caindo. Adiar, nada resolve e tudo agrava.

Ron Paul: a voz da sanidade

Ron Paul, em entrevista à Bloomberg, explica por que motivo a decisão de injectar ainda maiores quantidades de dinheiro na economia americana, por um período virtualmente ilimitado, conjugada com a manutenção da política de taxas de juro de 0%, não só não ajudará em nada à recuperação económica como, pelo contrário, limitar-se-á a aproximar a "Grande Implosão".

Chegou o QE3 e Wall Street rejubila

Fed prolonga juros em mínimo histórico até 2015 e imprime dinheiro em quantidades ilimitadas estende estímulos à economia (e uma mãozinha à reeleição de Obama) à razão de 40 mil milhões de dólares por mês até que o "estímulo" resulte.

A bolsa americana, evidentemente, agradece: Bernanke leva Wall Street para máximos de 2007. E há uns iliteratos que, tomando a nuvem por Juno, acham que isso é sinal da retoma da confiança e do dealbar da prosperidade.

Entretanto, as cotações do ouro e da generalidade dos metais preciosos dispararam. Por que será, por que será?